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Venezuela no
Mercosul: integração para valer!
JOÃO FELÍCIO*
A Comissão de Relações
Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal realizará nesta quinta-feira
nova audiência pública para debater o protocolo de adesão da República
Bolivariana da Venezuela ao Mercosul.
Assinado em Caracas no dia 4
de julho de 2006, o protocolo já foi aprovado pelo Uruguai, Paraguai,
Argentina e pela própria Câmara Federal, mas enfrenta dura resistência dos
setores demos e tucanos incrustrados na Casa e visceralmente contrários à
integração latino-americana, que têm se utilizado dos mais obtusos
expedientes para inviabilizá-la.
Exemplo que beira o absurdo,
quando se debate a perspectiva de aprofundamento da democracia em nosso
Continente e um novo patamar de relações entre países e povos, é o convite
feito aos conhecidos golpistas Leopoldo López, ex-prefeito do Município de
Chacao entre 2000 e 2008, na região metropolitana de Caracas, e Gustavo
Tovar-Arroyo, auto-proclamado “membro ativo de direitos humanos e um dos
ideólogos do movimento estudantil venezuelano”, para participar de um painel
no Senado.
FICHA CORRIDA
A ficha corrida de Leopoldo
López fala por si: em 11 de abril de 2002, participou ativamente do golpe de
Estado contra o presidente Hugo Chávez e compareceu ao Palácio de Miraflores
para assinar o “decreto de posse” de Pedro Carmona - cujo “governo” durou
dois dias. Entre outros feitos, foi um dos elementos que patrocinou o cerco
à Embaixada de Cuba no país - que dava sustentação aos programas de saúde e
erradicação do analfabetismo -, cortando água e luz da representação
diplomática na capital venezuelana. Formado nos Estados Unidos, foi
consultor econômico de Planejamento da antiga PDVSA entre 1996 e 1999,
período em que a poderosa estatal de petróleo venezuelana foi dilapidada ao
limite, com comprovada malversação de recursos públicos. Foi professor do
Departamento de Economia da Universidade Católica Andrés Bello (UCAB), toca
dos Chicago Boys, neoliberais e privatistas dos governos Carlos Andrés Pérez
e Rafael Caldera. Atualmente se dedica à ala juvenil do Partido Primero
Justicia, agrupamento financiado pela Fundação Nacional para a Democracia
(NED), do Departamento de Estado americano. A NED foi criada em 1983,
durante o governo de Ronald Reagan, para trabalhar em conjunto com a CIA.
O outro expoente da direita,
também convidado pelo Senado, é Gustavo Arroyo, que se apresenta como
advogado e jornalista. Autor do livro “Estudiantes por la Libertad”,
publicado em 2007 pela editora do jornal El Nacional, diário
arquirreacionário e um dos bastiões da SIP (Sociedade Interamericana de
Imprensa), coordenadora de propaganda do imperialismo norte-americano,
igualmente financiada pela CIA.
Diante disso, de que
“movimento estudantil” estará falando? Obviamente não o que mantém relações
com a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas ou com a União Nacional
dos Estudantes (UNE), não os aguerridos jovens que lutam para construir uma
sociedade mais fraterna, que se somaram aos mutirões e fizeram da Venezuela
o segundo país livre do analfabetismo em nosso continente; não os que,
favorecidos pelas centenas de milhares de novas vagas no ensino superior,
apóiam as medidas em defesa do fortalecimento do ensino público, gratuito e
de qualidade, mas os endinheirados da classe AA+, que não disfarçam sua
aversão aos pobres e sua contrariedade diante dos inúmeros programas de
inclusão adotados pelo governo bolivariano.
Daí a razão de descrever Hugo
Chávez como um “tirano, militar golpista e assassino”, para quem defende uma
condenação internacional por crimes de lesa-humanidade, “conhecidos ou que
ainda não tenham sido revelados”.
Para não nos estendermos, vale
lembrar que, do ponto de vista de classe, a Venezuela é atualmente o país
onde os trabalhadores têm o maior salário mínimo do Continente, sendo - ao
lado do Equador - quem mais avançou no combate às terceirizações e
precarizações, garantindo direitos a quem antes vivia como numa terra sem
lei.
PARCERIA
Se do ponto de vista político,
a medida é claramente imprescindível, economicamente é mais do que
inadiável, como atesta o empresariado produtivo. Conforme dados divulgados
pelo informativo da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Venezuela (Camarabv),
no ano passado, as exportações brasileiras para o país vizinho superaram os
US$ 5,5 bilhões, enquanto as nossas importações foram de US$ 538,5 milhões,
fechando 2008 com saldo comercial 2,5 vezes superior ao obtido com os
Estados Unidos. Entre janeiro e maio de 2009, as vendas foram de US$ 1,4
bilhão e as compras de US$ 147,8 milhão. O saldo comercial do Brasil com a
Venezuela foi de US$ 1,26 bilhão, 13,5% do nosso saldo total.
De acordo com o Boletim de
Comércio Exterior da FUNCEX, divulgado em maio, enquanto o índice de demanda
externa efetiva caiu 26,8%, com os EUA, União Européia, Rússia e Coréia do
Sul registrando as maiores retrações - devido à crise internacional -,
apenas a Venezuela teve variação positiva: 9,5%.
Conforme avaliação da Camarabv,
“há diversos setores nos quais os dois países continuarão aumentando seu
intercâmbio, que tende a crescer com a entrada da Venezuela no Mercosul”.
A recusa dos representantes
parlamentares do sistema financeiro e das transnacionais em dar este passo
decisivo para a integração latino-americana é compreensível mas
injustificável, colocando a politicalha reacionária acima dos interesses
sócio-econômicos brasileiros. Afinal, terão seu espaço reduzido com o avanço
do papel dos Estados nacionais e dos instrumentos para o fortalecimento da
soberania e da consciência, que vem derrotando sua mídia e avançando sobre a
desinformação e a alienação.
Mais do que um desejo
histórico acalentado por gerações que deram suas vidas por este novo tempo,
libertando nações do jugo do colonialismo, e estreitando laços de amizade e
solidariedade, esta é uma necessidade que não podemos desperdiçar.
Que o desprendimento de José
Inácio de Abreu e Lima, general pernambucano que lutou ao lado de Simón
Bolívar na guerra de independência, nos impulsione e abra caminhos contra o
entulho e o atraso.
* Secretário de Relações
Internacionais da CUT |