|
A Conferência
Nacional de Comunicação e o fortalecimento das mídias públicas
A Confecom
carrega consigo, principalmente, um caráter estratégico, pois nela estarão em
jogo os interesses do povo brasileiro, sua necessidade de construir um sistema
de comunicação nacional, sustentáculo da soberania do país frente às investidas
externas e capaz de dotar os brasileiros de uma informação veraz, humanizadora e
civilizatória. Metas que o mercado cartelizado revelou-se incapaz de promover
BETO ALMEIDA*
Há uma linha de
sintonia e coerência na convocação da Confecom feita pelo presidente Lula com as
lutas históricas dos trabalhadores, dos sindicatos, dos movimentos sociais, do
PT e da esquerda, e do movimento de democratização da comunicação. Lula dá
continuidade a toda sua trajetória de luta em que foi alvo preferencial da
oligarquia da mídia e desdobra, em ações concretas, o que ficou estabelecido no
Seminário Nacional de Comunicação e Cultura do PT, realizado em meio à Campanha
de 2002, quando o documento aprovado “A imaginação a serviço do Brasil”
definiu claramente o fortalecimento da comunicação pública como linha de
trabalho para o governo que viria ser eleito naquele mesmo ano.
Neste documento já estavam presentes as
linhas de atuação na comunicação que hoje sustentam a convocação, pelo
Presidente, da primeira conferência da área de comunicação que se
realiza na história do Brasil. Aquele documento também definia a constituição de
uma TV Pública baseada na união, centralização, qualificação e expansão dos
instrumentos comunicativos que o estado brasileiro já possuía, tais como a
Radiobrás, a TVE do Rio, a Rádio Nacional, a Rádio Mec, o canal NBR, a Agência
Brasil. Hoje, todos estes instrumentos estão unificados na EBC – Empresa Brasil
de Comunicação, cumprindo o programa de campanha Lula-Presidente de 2002.
Certamente, a expectativa dos movimentos que
formam a luta pela democratização da comunicação era muito mais ampla,
desproporcional à sua escassa capacidade de mobilização social hoje pela agenda
da democracia na comunicação. Porém, mesmo um governo de composição como o do
presidente Lula, sem maioria parlamentar, com uma base de apoio heterogênea, e
sem ter nos partidos de esquerda e nos sindicatos um sólido apoio político que
fizesse com que a questão da comunicação se tornasse prioridade em sua agenda
nacional, avança com passos mais lentos do que o esperado, mas avança. E coloca
a comunicação na agenda do Estado e da sociedade...
E talvez seja aí um ponto importante para
definir política, programa e tática a serem aplicadas na Confecom de tal modo
que ela resulte, senão numa ampla revolução comunicacional - improvável, já que
os setores hegemônicos desta sociedade capitalista não foram plenamente
desalojados de suas posições de poder - mas que seja concretamente um espaço
onde os movimentos organizados da sociedade, em aliança com o governo Lula,
conquistem o fortalecimento das políticas públicas de comunicação, a
consolidação das estruturas de comunicação do campo público e estatal, a
qualificação e democratização dos conteúdos veiculados, o apoio para uma
informação conteúdo cultural que reverta o esmagamento informativo-cultural
brasileiro a que o país está submetido. Porém, é exatamente nas avaliações sobre
uma política clara de alianças entre os setores sociais organizados e o governo
Lula representado na Confecom, estimulando a mais ampla participação popular,
onde estarão concentradas as maiores possibilidades de avanço, ou, caso esta
aliança política não ocorra, as principais limitações capazes de explicar
eventuais frustrações.
Trata-se, a Confecom, de uma oportunidade
histórica que representa por si só que o governo Lula retira o tema da penumbra
- tema considerado tabu e de discussão restrita aos oligarcas e aos oligopólios
da mídia - lançando-o ao debate aberto da sociedade. Só isto já tem importância
política histórica. Basta analisar a importância de outras conferências
nacionais temáticas como as de Saúde, a de Saúde Mental, a de Segurança
Alimentar, que serviram de estruturação de políticas públicas que hoje reduzem
significativamente os graus de barbárie a que a sociedade brasileira ainda está
submetida tragicamente. Seria ainda mais terrível socialmente sem estas
políticas públicas como a Lei Antimanicomial, o SUS, as políticas de combate a
fome, o programa de aquisição de alimentos etc., tudo isto nascido das
conferências nacionais.
Comparemos: mesmo os outros governos
populares da América Latina, alguns mais à esquerda, que também estão adotando
medidas de fortalecimento e expansão dos instrumentos públicos e estatais de
comunicação não tinham chegado ao ponto de fazer uma convocação democrática da
sociedade para o debate da comunicação e este aspecto deve ser valorizado porque
é indicador das possibilidades de uma política e uma tática dos movimentos
sociais com o setor público para avançar em medidas concretas de democratização
da comunicação. Vale alertar que sem esta aliança, os movimentos sociais terão
escassa possibilidade de verem algumas de suas propostas alcançadas. Primeiro
porque não dispõem de força social organizada, tão é assim que a Fenaj acaba de
sofrer retumbante derrota com decisão oligárquica do Supremo ao terminar com a
obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, sem
qualquer chance de sensibilizar a sociedade para uma reversão a curto prazo
desta medida desreguladora.
PROJETOS EM
JOGO
Na Confecom, dois projetos de comunicação, na
verdade projetos políticos, estarão frontalmente em jogo: de um lado a ideia de
desregulamentar o setor da comunicação, auspiciada pelos oligopólios midiáticos
internacionais porque querem, a partir da convergência tecnológica
telecomunicação-radiodifusão, impor maiores níveis de desnacionalização na área
informativo-cultural. Querem assim dar continuidade e aprofundar a linha de
ocupação do audiovisual brasileiro expressa, por exemplo, na Lei do Cabo, que
resultou no predomínio avassalador dos canais estrangeiros, basicamente
norte-americanos, com enorme prejuízo para produção audiovisual nacional e a
formação da necessária noção de nacionalidade e soberania do povo brasileiro.
De outro lado, a reação soberana que vários
governos vêm implementando na América Latina, a partir da criação de emissoras
de tv e rádio públicas e estatais, a partir também de jornais estatais - como o
jornal Cambio, na Bolívia, e o jornal Correo do Orenoco, na
Venezuela - que fazem a disputa com o jornalismo da desintegração
promovido pelos veículos ligados à sinistra SIP (Sociedade Interamericana de
Imprensa), historicamente vinculada às criminosas ações da CIA contra os povos
latino-americanos. Entre estes exemplos positivos estão a Telesur (que
agora tem oferecido exemplar cobertura de jornalismo anti-hegemônico no golpe
militar de Honduras), o Canal Encuentro, da Argentina, em sinal aberto e
disputando frontalmente com a programação de baixaria dos canais privados, a
partir da exibição de programas humanísticos, de um jornalismo cidadão que
questiona a programação consumista e degradante da tv-comércio. Também podemos
citar as boas experiências da Venezuela, que vai alterando sua legislação de
comunicação, estimulando a recuperação da produção audiovisual nacional em
detrimento da invasão dos lixos de Miami, e que também já debate maneiras de
considerar o espaço radio-elétrico como propriedade do povo venezuelano, o que
significa que mesmo os empresários privados devem pagar pelo seu uso. Além
disso, o governo bolivariano está considerando a possibilidade de instalar
um sistema público para o controle dos anúncios privados, já que por
meio da veiculação destes, verdadeiras fortunas são acumuladas sem que os
verdadeiros donos do espaço radio-elétrico, o povo da Venezuela, seja
beneficiado pelo transporte destes sinais sem qualquer tipo de cobrança que
resulte em benefício da Nação venezuelana. Todas estas são experiências de
controle público que não dispensam o fortalecimento do protagonismo do estado,
ao contrário, estão diretamente ligadas a este novo protagonismo.
Aqui na Confecom as propostas para o
fortalecimento das políticas públicas sofrerão enorme combate da grande mídia
comercial subordinada ao poder dos anunciantes que, em sua maioria, os mais
poderosos, são as transnacionais ou poder econômico-financeiro a elas submetido.
Os oligopólios transnacionais querem, por exemplo, avançar na demolição de todo
e qualquer instrumento legislativo que proteja o mercado brasileiro de
comunicação das suas investidas expansionistas e colonizadoras, uma operação
para ampliar o controle do fluxo mundial da informação e da comunicação, com a
finalidade de impor os valores que mais importam para o imperialismo, suas
operações de guerra, a criminosa ação de sua indústria bélica, das
transnacionais farmacêuticas ou do veneno (é o Brasil o maior consumidor de
agrotóxico no mundo), suas linhas ideológicas de desestabilização de todo e
qualquer governo que pretenda nacionalizar seus recursos, como ocorre com a
Venezuela, Bolívia, Equador, alvos de terrorismo midiático internacional. E o
Brasil, com tantas riquezas a preservar, a nacionalizar em favor do progresso do
povo brasileiro, como o petróleo do pré-sal, por exemplo, é sempre um alvo
prioritário para o imperialismo, suas agências midiáticas expansionistas e de
projetos sustentados por agências e fundações vinculadas aos objetivos
estratégicos do aparato de estado imperial norte-americano, sempre buscando
criar áreas de influência e dependência político-financeira nos segmentos
universitários, intelectuais, que repercutam os interesses da política externa
dos EUA, radicalmente contrária a uma linha de nacionalização da comunicação e
ao fortalecimento das emissoras estatais e públicas. Por isso a SIP critica Lula
por ter criado a TV Brasil e também por ter convocado a Confecom, já que vê
nestas medidas o prejuízo para seus sinistros planos dirigidos a ampliar a
vulnerabilidade ideológica do Brasil, para o quê precisa de desregulamentação
generalizada e estado raquítico, sem instrumentos próprios de comunicação.
PROPOSTAS
É preciso que a TV Brasil, as TVs
legislativas, educativas e universitárias sigam o exemplo das tvs comunitárias
do Rio e de Brasília que estão promovendo debates com diferentes segmentos
sociais, visando construir uma agenda programática a ser sustentada na Confecom.
Inclusive para defender que todas escapem do confinamento da lei do cabo e
tenham sinal aberto no sistema digital, ampliando a pluralidade e a
regionalização informativa nacional. Evidentemente, esta agenda não pode ser tão
ampla que nem mesmo um governo de composição heterogênea consiga sustentar, nem
pode estar mais além da precária capacidade de mobilização dos movimentos
sociais de democratização da comunicação. Mas pode ser uma agenda que contemple
a linha de fortalecimento, expansão, qualificação e consolidação dos
instrumentos de comunicação públicos e estatais e de recuperação dos espaços
públicos midiáticos em curso pela América Latina.
Exemplo disto é manter, consolidar e
democratizar a Voz do Brasil, programa de enorme audiência e com enorme
importância para uma massa de milhões de brasileiros que praticamente está
proibida da leitura de jornais, cujas tiragens são cronicamente raquíticas e
registram linha de queda, juntamente com a sua já precária credibilidade. A Voz
do Brasil deve incluir o direito de antena, regulamentando o acesso sistemático
dos diferentes segmentos organizados da sociedade em sua grade. Mas, a Voz do
Brasil está na linha de tiro. Os comerciantes da comunicação querem tomar o
espaço de 1 hora da Voz do Brasil para fazer mais consumismo, mais baixaria, mas
também para quebrar o simbolismo do único programa jornalístico de caráter
nacional que informa sobre todas as ações dos poderes públicos, quando os
veículos comerciais informam apenas aquilo que interessa a seus anunciantes, ou
estão apenas preocupados com o seu “vale-tudo” pela audiência. Para milhões de
brasileiros espalhados pelos grotões a Voz do Brasil é talvez a única
oportunidade de ter a presença em sua região dos poderes públicos, por meio da
informação. Que, obviamente, pode ser melhor qualificada, jornalisticamente
falando.
É preciso que a Confecom apresente medidas
que façam da TV Brasil uma tv de fato nacional, capaz de chegar a todo o
território nacional, disputando de fato audiência com a programação
embrutecedora das tvs de mercado e de consumismo. Mas para isto é preciso
investir em equipamentos mais modernos, melhorar seu sinal, melhorar e ampliar
sua programação nacional (uma emissora que sai do ar de madrugada não está
fazendo a disputa de audiência), e não deve conformar-se com “decreto” de não
fazer teledramaturgia, ou de não pretender dar cobertura ao futebol e às festas
populares, especialmente o Carnaval do Rio de Janeiro. É preciso ainda
reformular a linha editorial pois a cobertura de muitos fatos nacionais e
internacionais ainda está fortemente marcada por um jornalismo convencional.
Exemplo disso é que a linha da editoria internacional da TV Brasil revela
coincidências editoriais com o jornalismo de desintegração, em franca falta de
sintonia com a política externa do Brasil, que segue uma linha de integração, de
promoção de uma nova ordem internacional sem supremacia dos países mais
poderosos. Apesar das mudanças na política externa, apesar da simbologia do novo
expressa na convocação de uma Confecom, a TV Brasil segue difundindo uma linha
editorial predominantemente marcada pelas agências editorialmente dirigidas
pelos países centrais do capitalismo, quando é perfeitamente possível e urgente
fazer um jornalismo plural, que questione as hegemonias, que tenha novos olhares
sobre os problemas mais agudos da cena internacional.
As experiências positivas da criação do Blog
da Petrobrás e a da nova política de redistribuição democrática e nacional dos
anúncios oficiais, alcançando muitos outros municípios e veículos de
comunicação, indicam que algo mais audacioso também pode ser feito pela Empresa
Brasil de Comunicação, sobretudo em suas rádios. Não tem sentido as emissoras de
rádio da EBC não fazerem um jornalismo mais incisivo e agressivo como fazem as
rádios privadas, embora com o claro e exclusivo intuito de promover uma guerra
midiática contra o governo Lula, por vezes numa clara prática anti-jornalística.
Exemplo notável desta falta de faro jornalístico das Rádios da EBC ocorreu
quando do encontro de Lula com Obama, quando a entrevista coletiva foi
transmitida ao vivo desde a Casa Branca por rádios privadas brasileiras, ao
tempo em que as emissoras da EBC continuavam tocando apenas música, sem
transmitir o encontro de inequívoco simbolismo estratégico. Como disputar a
audiência com as rádios privadas sem ter este faro jornalístico?
Também é fundamental que na agenda dos
movimentos sociais para a Confecom sejam apresentadas propostas para a
consolidação das tvs comunitárias e universitárias, para que suas programações
também sejam veiculadas em sinal aberto digital, escapando do confinamento atual
da lei do Cabo que é um verdadeiro apartheid audiovisual. Para
tanto, é importante que se criem mecanismos como um Fundo Público para a
Comunicação capaz de garantir a estas emissoras do campo público (incluindo as
educativas, comunitárias, universitárias) uma possibilidade real de
estruturação, com equipamentos mais modernos, melhoria de seus recursos humanos
e qualificação de sua programação, o que tem pleno respaldo no disposto na
Constituição Federal, assegurando uma comunicação plural, diversificada,
regionalizada, educativa e humanista.
Assim, a experiência da convocação da
Confecom pelo governo Lula é de fundamental importância para que a sociedade
possa amadurecer em sua leitura crítica da comunicação,
desenvolvendo sua capacidade de reivindicar e de participar na construção de
outros instrumentos públicos comunicativos, o que só poderá ter sucesso com o
fortalecimento do protagonismo do estado nesta área, tal como tem se dado em
outras áreas, como na indústria naval, para dar um exemplo. Como alerta, citemos
exemplo negativo do que significa a demolição do estado: a ocupação de 90 por
cento do mercado do cinema brasileiro por filmes norte-americanos, uma ocupação
que foi preparada claramente com a extinção da Embrafilme. Na época, com
a Embrafilme, o cinema brasileiro chegou a ter o controle de 40
por cento do mercado cinematográfico nacional. O mesmo estaria sendo planejado
pelos oligopólios midiáticos estrangeiros, visando demolir as poucas ferramentas
de proteção da comunicação nacional, como se evidencia no conteúdo do Projeto de
Lei número 29 que desnacionaliza radicalmente o setor.
Por isso mesmo, é fundamental incluir na
agenda da Confecom a imperiosa necessidade de recuperar o protagonismo de estado
na área das telecomunicações, reintroduzindo a Telebrás como alavanca
fundamental no processo da convergência tecnológica, caso contrário esta apenas
se dará ao sabor da capacidade dos gigantes conglomerados transnacionais de
ocupar, cartelizar e esmagar qualquer possibilidade de uma política pública, de
controle público e de um verdadeiro controle nacional para a era da comunicação
digital que se inaugura. Sem presença de instrumentos do estado, como a
Telebrás, a digitalização será sinônimo de desnacionalização e oligopolização,
soterrando todas as expectativas de democratização. Neste mesmo diapasão deve
ser considerada a importância do Brasil recuperar ou reconstruir uma empresa
estatal do porte do que foi a Embratel, hoje uma empresa nas mãos do capital
estrangeiro, permitindo que informações estratégicas do país encontrem-se sob
controle dos EUA e de suas políticas expansionistas. Será também o momento de se
medir os verdadeiros crimes de lesa-pátria cometidos durante a era da privataria
tucana.
Para fazer frente às investidas dos
oligopólios internacionais e para fazer avançar e expandir os instrumentos
públicos e estatais de comunicação e informação, é decisiva uma aliança dos
movimentos sociais com o governo Lula, aliança que, em alguns pontos, pode até
mesmo contar com segmentos do empresariado nacional da comunicação, amedrontados
com a devastadora expansão da ditadura midiática mundial de alguns poucos
conglomerados gigantes apoiados pelo imperialismo. Diante disto, a Confecom
carrega consigo, principalmente, um caráter estratégico, pois nela estarão em
jogo os interesses do povo brasileiro, sua necessidade de construir um sistema
de comunicação nacional, sustentáculo da soberania do país frente às investidas
externas e capaz de dotar os brasileiros de uma informação veraz, plural,
humanizadora e civilizatória. Metas que o mercado cartelizado revelou-se incapaz
de promover.
* Presidente da TV Comunitária de Brasília |