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Concentração do BNDES em grandes empresas vai a 77% e agrava a crise
Os R$ 4
bilhões liberados a mais no 1º semestre deste ano ficaram com o bloco dos
monopólios internos e externos. Para as médias, pequenas e micro empresas os
desembolsos do banco público foram reduzidos de 19% para 17%
O presidente do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, convocou uma
entrevista coletiva no último dia 9 de julho - uma data algo esquisita para um
banco fundado pelo líder da Revolução de 30, Getúlio Vargas - para apresentar os
resultados semestrais do BNDES.
Até agora, a partir das operações do BNDES com
empresas, registradas na seção “BNDES Transparente” do site do banco, vínhamos
criticando a excessiva concentração de seus financiamentos nos monopólios
privados estrangeiros (isto é, nas multinacionais) e nos monopólios internos -
ou candidatos a tal.
No entanto, até a entrevista do sr. Coutinho,
não nos havia ocorrido ainda que, em um período marcado por uma crise que
eclodiu nos EUA e demais países centrais no último quadrimestre do ano passado,
o BNDES, em vez de aumentar seus financiamentos ao conjunto das empresas
nacionais, tivesse aumentado a deletéria - e extremamente perigosa, num momento
de crise - concentração de recursos para os monopólios. Porém, os dados
apresentados por Coutinho, e o Boletim de Desempenho emitido pelo banco, que
acreditamos verdadeiros - apesar de serem discrepantes, como veremos, em relação
aos registros de operações com empresas fornecidos pelo próprio BNDES – não
deixam dúvidas quanto a isso.
Segundo Coutinho (cf. slide 9 da sua
apresentação e a primeira tabela da página 2 do Boletim de Desempenho do BNDES,
ambos disponíveis no site do banco), a soma do que foi liberado para “grandes
empresas”, “médias, pequenas e micro empresas” e “pessoas físicas” no
primeiro semestre do ano passado totalizou R$ 37 bilhões e 880 milhões.
Nesse período, as “grandes empresas” ficaram com
75,04% (R$ 28 bilhões e 427 milhões), as “médias, pequenas e micro empresas” com
19,19% (R$ 7 bilhões e 267 milhões) e as “pessoas físicas” com 5,77% (R$ 2
bilhões e 186 milhões).
No primeiro semestre deste ano, ainda
segundo Coutinho, o total desembolsado pelo BNDES nestes financiamentos saltou
para R$ 41 bilhões e 956 milhões. Um aumento de R$ 4.076.000.000 (4 bilhões e 76
milhões), aparentemente positivo, numa conjuntura de crise.
Porém, neste primeiro semestre as “grandes
empresas” aumentaram sua fatia para 77,27% (R$ 32 bilhões e 418 milhões),
as médias, pequenas e micro empresas diminuíram seu percentual para
17,18% (R$ 7 bilhões e 208 milhões) e as “pessoas físicas” permaneceram
praticamente na mesma (5,55% ou R$ 2 bilhões e 330 milhões)
Repisando os dados: no primeiro semestre deste
ano, comparado com o mesmo período do ano passado, as “grandes empresas”, bloco
nucleado pelos monopólios externos e internos, aumentaram seu percentual
nos recursos liberados pelos BNDES de 75,04% para 77,27%. Esse aumento se deu às
custas das “médias, pequenas e micro empresas”, bloco que reúne a maioria
esmagadora das empresas nacionais, que reduziu seu percentual de 19,19%
para 17,18%. O aumento de cerca de dois pontos percentuais (2 pp) na fatia das
grandes empresas corresponde quase exatamente ao decréscimo de também cerca de
dois pontos percentuais na fatia das médias, pequenas e micro empresas. Além
disso, as “grandes empresas” avançaram também um pouco (0,22 pp) na fatia antes
liberada para pessoas físicas.
MAIORIA
Foi bastante interessante como Coutinho tentou
eludir este penoso resultado, o que mostra que ele sabe perfeitamente que as
consequências de sua política à frente do BNDES são muito difíceis de sustentar
em público.
O BNDES sempre considerou - como se pode ver nos
relatórios do banco sobre suas operações - as médias, pequenas e micro empresas
num único bloco. Independente de divergências sobre critérios para classificar
empresas e da consciência que porventura exista sobre essa divisão em “grandes
empresas” e MPME (“médias, pequenas e micro empresas”, na sigla usada pelo
BNDES), ela tem alguma lógica: as últimas constituem a maioria das empresas
nacionais, ao contrário das primeiras, que reúnem as empresas estrangeiras com
algumas empresas brasileiras de maior porte – constituindo, portanto, a minoria
das empresas que existem no país.
No entanto, em sua entrevista coletiva, Coutinho
recorreu a uma prestidigitação: separou as pequenas e micro empresas das médias
empresas, enfatizando que o BNDES aumentou seus desembolsos para as pequenas e
micro empresas em 22%, enquanto os desembolsos para as grandes empresas
aumentaram (“apenas”, supõe-se) 14%.
O motivo desse procedimento é que, se
consideradas as médias empresas junto com as pequenas e micro empresas, como
sempre foi a praxe, estaria evidenciado que, apesar da necessidade imposta pela
crise, os desembolsos para esse conjunto diminuíram tanto percentualmente
quanto em termos absolutos no primeiro semestre deste ano, comparado com
igual período do ano passado, enquanto as “grandes empresas” tiveram R$ 4
bilhões a mais, além de, como já vimos, terem aumentado sua fatia percentual
de 75,04% para 77,27%.
Por consequência, o aumento de R$ 4 bilhões nos
desembolsos do BNDES no primeiro semestre deste ano foram um aumento de R$ 4
bilhões nos desembolsos para os monopólios e algumas outras empresas de maior
porte, enquanto o bloco ao qual pertence a maioria das empresas nacionais - a
maioria esmagadora delas - teve redução no acesso aos recursos do banco.
MONOPÓLIOS
Concretamente, segundo os dados apresentados
pelo próprio Coutinho: os desembolsos do BNDES para as médias, pequenas e micro
empresas somaram, no primeiro semestre de 2009, R$ 7.208.000.000 (7 bilhões e
208 milhões de reais). No primeiro semestre de 2008, esses recursos foram R$
7.267.000.000 (7 bilhões e 267 milhões de reais), ou seja, R$ 59 milhões a mais
do que um ano depois. Isso, apesar da inflação, que não foi nula, e, sobretudo,
apesar de que, para evitar a importação da crise, era necessário - e ainda é -
um aumento poderoso nos investimentos das empresas nacionais, o que somente é
factível se elas tiverem acesso aos recursos do BNDES.
Ao separar as médias empresas das pequenas e
micro empresas, Coutinho tentava expurgar um dado algo deprimente: os
desembolsos do BNDES para as médias empresas, isto é, para o contingente
principal das empresas nacionais não-monopolistas, diminuíram 23% no
primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado.
Bem entendido, não estamos dizendo que Coutinho
não se referiu a essa redução dos desembolsos para as médias empresas. Estamos
apenas observando que ele mais do que minimizou o problema, chamando a atenção
para o menos importante (e em letras garrafais, como se pode ver nos slides de
sua apresentação), para esconder o resultado da política de prioridade para os
monopólios externos e internos que tem implementado no BNDES. Pode ser que não
tenha sido algo inteiramente consciente, mas isso não tem a mínima importância:
Simonsen, quando ministro, ao tentar expurgar o preço do chuchu do índice da
inflação, quando o preço desse aguado vegetal elevou-se demasiadamente, também
não estava, como no seu caso era a regra, inteiramente consciente.
Tanto é verdade essa tentativa de ocultamento
que o texto do BNDES sobre a entrevista coletiva de Coutinho começa com uma
frase rigorosamente falsa: “O desempenho do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) no primeiro semestre do ano foi positivo em todos os
indicadores”, etc.). Será a redução de 23% nos desembolsos para as médias
empresas, num banco público cuja finalidade é financiar os investimentos das
empresas nacionais, e em meio a uma crise internacional, um “indicador
positivo”?
Coutinho sabe que não é. Por isso, após
enfatizar que os desembolsos para as pequenas e micro empresas cresceram 22%,
enquanto os desembolsos para as grandes empresas cresceram 14%, passou
rapidamente pela redução de 23% nos desembolsos para as médias empresas, com a
esperançosa declaração de que esta é “uma queda que a gente espera reverter nos
próximos meses”. Façamos votos de que sua esperança se converta em realidade...
O que, aliás, depende inteiramente dele mesmo - pois os médios empresários do
país não estão rejeitando dinheiro do BNDES, nem fazendo outras coisas
insensatas. Apenas, não estão com acesso aos financiamentos do banco.
Em qualquer situação econômica, uma redução no
financiamento ao conjunto das empresas nacionais (pois é disto que se trata)
seria uma anomalia. Num período de crise externa é quase uma aberração. Nada
revela melhor qual a essência da política atual imprimida ao BNDES, em completo
desacordo com as diretrizes anunciadas pelo presidente Lula, do que essa
redução, mais precisamente, esse aumento da concentração dos recursos nos
monopólios.
ARTIFÍCIO
Sobre a ênfase do sr. Coutinho no aumento dos
desembolsos às pequenas e micro empresas, notemos apenas que um aumento de 22%
nesses desembolsos (na verdade, 21,6%) significa um acréscimo de menos de 800
milhões (mais exatamente, R$ 777.000.000 - de R$ 3.596.000.000 no primeiro
semestre do ano passado para R$ 4.373.000.000 no primeiro semestre deste ano).
E, acrescentemos: esse aumento de 22% nos desembolsos para essas empresas
significou que seu percentual sobre o total aumentou menos do que um ponto
percentual (de 9,5% para 10,42%).
Enquanto isso, um aumento de 14% nos desembolsos
para as grandes empresas significou 4 bilhões a mais para elas (R$
3.991.000.000 - de R$ 28.427.000.000 para R$ 32.418.000.000) e que sua
participação no total avançou de75,04% para 77,27% - um aumento de mais de 2
pontos percentuais numa fatia já imensa.
Outro ministro de um governo anterior, um pouco
chegado a uma gaiatice, disse que as estatísticas são mais versáteis do que a
espada de Napoleão - aquela com a qual poder-se-ia fazer tudo, menos sentar-se
em cima dela.
Porém, mesmo com essa versatilidade, não se pode
provar que uma redução de 23% nos desembolsos para as médias empresas foi um
dado positivo. Muito menos a consequente redução do montante (e do percentual)
para as médias, pequenas e micro empresas. O sr. Coutinho tem todo o direito,
por razões “técnicas”, “econométricas”, “conceituais” ou sejam quais forem, de
considerar as médias empresas separadamente das pequenas e micro empresas. Mas
não lhe assiste o direito de fazer isso como mero artifício para passar um
resultado negativo como se positivo fosse. Ou, para ser mais exato, com o
objetivo de disfarçar o aumento da concentração dos recursos do BNDES nos
monopólios externos e internos.
Aliás, os últimos sete dias foram opulentos em
notícias sobre o assunto, desde os R$ 7,2 bilhões do BNDES para um tiranossauro
da época do colonialismo, o monopólio franco-belga Suez, até o anúncio da
General Motors de que contará com recursos do banco em suas férteis atividades
no país, passando pelos R$ 1,4 bilhão para a portuguesa EDP e os R$ 1,5 bilhão
para a Gerdau.
PRIVILÉGIO
O que nos leva à seguinte questão: quais foram
as empresas contempladas pelo BNDES no primeiro semestre deste ano? Até agora
não foram publicadas as operações com empresas referentes aos meses de abril,
maio e junho. Temos apenas os dados gerais revelados por Coutinho e as operações
com empresas no período de abril de 2008 a março de 2009.
Porém, esses dados de operações do BNDES com
empresas não conferem com os dados divulgados pelo sr. Coutinho. Sucintamente,
são os seguintes:
De abril de 2008 a março de 2009, o BNDES
emprestou, somando operações diretas e indiretas:
a) R$ 15.257.727.391 (15 bilhões, 257 milhões,
727 mil e 391 reais) para empresas da área industrial;
b) R$ 21.264.994.181 (21 bilhões, 264 milhões,
994 mil e 181 reais) para empresas da área de infraestrutura;
c) R$ 11.663.885.148 (11 bilhões, 663 milhões,
885 mil e 148 reais) para empresas da área de insumos básicos;
d) US$ 1.869.760 (1 milhão, 869 milhões e 760
dólares);
e) R$ 5.343.405.103 (5 bilhões, 343 milhões, 405
mil e 103 reais) para a área de inclusão social.
Assim, por esses
dados de operações com empresas, o total liberado pelo BNDES entre abril de 2008
e março de 2009 teria sido de R$ 53.530.011.823 (53 bilhões, 530 milhões, 11 mil
e 823 reais), excluindo os US$ 1.869.760 (que seriam apenas R$ 3,7 milhões ao
câmbio atual) destinados ao comércio exterior.
Porém, nos números
apresentados por Coutinho, o total liberado entre junho de 2008 e junho de 2009
para “grandes empresas”, “médias, pequenas e micro empresas” e “pessoas físicas”
é de R$ 85.051.000.000 (85 bilhões e 51 milhões reais).
É pouco provável
que em apenas três meses (abril, maio e junho) o BNDES tenha liberado a
diferença entre essas duas cifras, R$ 31.520.988.177, mais de um terço do
montante de R$ 85.051.000.000. Por outro lado, alguns números das operações com
empresas nos parecem excessivamente baixos. E, por último, não achamos que
Coutinho haja proferido números irreais.
Portanto, o
mais provável é que o BNDES, em sua seção “BNDES transparente”, tenha sido muito
pouco transparente, não publicando a maioria das transações que efetuou. É
verdade que até essa amostragem serviu para mostrar o privilégio concedido aos
monopólios pela atual política do banco. Faltava apenas, se é que algo faltava
para arrematar a nossa abordagem, a confirmação pelo próprio presidente do
BNDES. Agora, já a temos.
CARLOS LOPES
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