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Ruy Bottesi: ‘Telefónica não investe em tecnologia e cobra o máximo’
“Como toda
a malha pronta, é só colocar uns equipamentos baratos na ponta, de qualidade
duvidosa, e vai tirando dinheiro”, diz o presidente da Associação dos
Engenheiros de Telecomunicações
O presidente da Associação dos Engenheiros de
Telecomunicações (AET), Ruy Bottesi, afirmou que as concessionárias de
telecomunicações se beneficiaram com a alienação de um patrimônio que já estava
instalado na época das privatizações, mas não fizeram os investimentos
necessários para atender à demanda crescente pelos serviços que se comprometeram
a prestar aos usuários nos contratos de concessão.
“É o que vem acontecendo, ou seja, é uma política de não oferecer o melhor para
o cliente, mas cobrar sempre pelo máximo. Isso é patente. Todos que pagam para
obter esse serviço têm prejuízos”, ressaltou.
Para o presidente da AET, os problemas
apresentados no funcionamento da banda larga são emblemáticos do descaso das
empresas com os investimentos para acompanhar o aumento da demanda. Ele explicou
que, com a implantação do ADSL (via par de fios telefônicos), a oferta do
serviço “ficou extremamente rentável para as operadoras, mas os investimentos
não aconteceram na velocidade que o brasileiro gostaria”.
“No início do ADSL, como havia limitação de você
passar uma banda larga em cima de um par de fios, eles (Anatel) até permitiram
um limite mínimo de 10% de velocidade para o usuário final. Agora, se
investissem em tecnologia, esses 10% poderiam saltar gradualmente para 20%, 30%,
40%, ou seja, chegar até próximo de uns 80% na banda. Isso não aconteceu,
começaram a oferecer só o necessário para garantir boa rentabilidade. Então você
nota uma política de não investir em tecnologia, mas extrair o máximo de
receita. É o que vem acontecendo até hoje”, denunciou Ruy Bottesi.
No caso específico de São Paulo, o engenheiro
avaliou que a Telefónica “investiu pouco, ou investiu muito pouco”. “O tráfego
de dados está crescendo muito, a venda de computadores está subindo, só que ela
não acompanhou isso”, disse. Atualmente, por exemplo, a empresa garante apenas
10% da velocidade do serviço prestado através de tecnologia ADLS.
“A Telefónica parou no tempo”, acrescentou,
lembrando que a empresa recebeu uma rede física estabelecida pela Telesp
(estatal que operava o sistema), que era uma das mais eficientes do País.
“Então, como já tem uma rede estabilizada, toda a malha está pronta, aí é só
colocar uns equipamentos baratos na ponta – de qualidade duvidosa – e vai
tocando, tirando dinheiro”, observou.
Ruy Bottesi avaliou que no Estado de São Paulo,
para acompanhar o crescimento da demanda e garantir uma rede atualizada, em
condições de prestar um bom serviço, seria necessário uma média de investimentos
da ordem de R$ 500 milhões por ano.
Ele também questionou a veracidade das declarações do presidente da companhia,
Antonio Carlos Valente, na Câmara dos Deputados, em Brasília, sobre o
compromisso da empresa em realizar investimentos de R$ 750 milhões ainda este
ano para aprimorar o fornecimento do serviço Speedy. “A Telefónica diz que
investiu R$ 500 milhões em banda larga no ano passado, mas onde investiu? Eles
não atenderam a população, a gente não consegue ver”, disse.
LUCRO
O engenheiro lembrou que, com o lucro extraído
pela empresa – só com os 2,6 milhões de assinantes do Speedy, ela pode obter um
faturamento de mais de R$ 200 milhões por mês, o que alcançaria um montante em
torno de R$ 2,4 bilhões ao ano – os problemas que vêm ocorrendo poderiam ter
sido evitados. “Quanto poderia ser tirado disso para aplicar no aprimoramento da
rede. Se investisse 10% disso todo ano, a lucratividade ainda seria enorme”,
assinalou.
“Um país, se quiser ser soberano, tem de ter
tecnologia. Se quer soberania, se quer ser uma nação, tem que ser uma nação com
tecnologia”, enfatizou Ruy Bottesi, afirmando que, além de trazer grandes
prejuízos aos usuários, a privatização também significou um entrave para o
desenvolvimento da tecnologia nacional de telecomunicações.
WALTER FÉLIX
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