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Como McNamara perdeu a
Segunda Guerra Mundial
GREG PALAST*
Está sendo uma boa
semana. Robert McNamara está morto e meu livro, Armed Madhouse (Hospício
Armado), foi traduzido para o Vietnã.
Eu não culpo McNamara
por perder a Guerra do Vietnã. Afinal, as pessoas boas venceram. Eu o culpo,
no entanto, por perder a Segunda Guerra Mundial.
Em 1995, em Chicago,
veteranos do Silver Post Nº 282 celebraram o 50º aniversário de sua vitória
sobre o Japão, marchando em torno do bufê usando suas antigas boinas de
serviço, broches, faixas e medalhas. Meu pai se sentou em sua mesa,
silencioso. Ele não colocou suas medalhas.
Ele as deu para mim
trinta anos atrás. Eu lembro disso exatamente: 8 de março de 1965. Esse dia,
como outro qualquer, nós andamos até uma banca perto de uma loja de artigos
baratos para comprar o LA Times. Ele era um homem Times. Nunca leu o
Examiner.
Ele olhou para a
manchete: Mariners Norte-Americanos desembarcaram na praia de Danang,
Vietnã.
Barcos de Guerra
vietnamitas tinham atacado navios de Guerra americanos no Golfo de Tonkin.
Disse o Times. Disse o presidente Johnson também. Disse seu secretário de
Defesa, Robert McNamara.
Mas nas fitas do Salão
Oval, Johnson disse, “Diabos, aqueles malditos marinheiros estúpidos (dos
EUA) estavam apenas atirando em peixes voadores”. McNamara o corrigiu mais
tarde. Eles estavam atirando na sua própria “sombra de sonar”. Mas isso, é
claro, não seria mencionado no Times.
Meu pai não precisou da
fita de LBJ para saber: eles mentiram.
Como criança, eu era
fascinado pelas medalhas do meu pai. Uma, gravada com uma águia e soldados
embaixo de uma palmeira, dizia “Asiatic Pacific Campaing” (Campanha do
Pacífico da Ásia). Ela tinha três estrelas de bronze e a ponta de uma
flecha.
Meu pai sempre
considerou os ostentadores de bandeira meio suspeitos. Mas ele era patriota,
nutrindo este profundo e inteligente patriotismo. Para ele, a América lutou
por Franklin D. Roosevelt e as Quatro Liberdades.
O exército do meu pai
libertou os campos de concentração de Hitler e depois protegeu as marchas de
Martin Luther King na estrada para Birmingham. A América dele pôs seu braço
forte sobre os ombros do mundo como um protetor. No verso da medalha se lia
“Freedom from Want and Fear” (libertado da miséria e do medo).
A vitória dele contra o
Japão foi uma vitória de princípios sobre o poder imperial, da liberdade
sobre a tirania, do direito sobre a crueldade do poderio militar do Japão.
Uma música que ele me ensinou sobre os primeiros dias da guerra, quando o
Japão tinha as armas e nós apenas nossos ideais, era assim: Nós não temos
bombardeiros com que atacar... Mas águias, águias americanas, lutem pelos
direitos que veneramos!
“É isso”, ele disse naquele dia, em 1965, e dobrou o seu jornal.
Os políticos haviam
ordenado que seu exército, com suas ferozes máquinas de matar em série do
pós-guerra, se lançasse sobre os pobres da Ásia. Demasiado conhecedor de
história e demasiado experimentado em batalha, ele sabia o que estava vindo.
Ele podia ver exatamente ali o que levaria dez anos daquela guerra no Vietnã
para outros americanos verem: bombardeiros americanos jogando napalm em
cabanas de palha, queimando as mesmas aldeias que os invasores de Hirohito
haviam queimado vinte anos antes.
Johnson e McNamara
levaram embora a vitória dele sobre o Japão.
Eles roubaram sua vitória sobre a tirania. Quando voltamos para casa, ele
deixou cair suas medalhas nas minhas mãos de doze anos de idade para que
brincasse com elas e as perdesse em meio ao meus brinquedos.
Faz poucos anos, minha
esposa Linda e eu fomos ao Vietnã ajudar a que associações rurais de crédito
emprestassem uns poucos dólares a camponeses para que pudessem comprar
porcos e galinhas.
No dia 8 de março de
1995, quando estava em Danang, eu subi uma longa escadaria de pedra da praia
até um santuário onde os vietnamitas veneram seus pais e ancestrais.
No meio do caminho, um
homem da minha idade tinha parado para descansar, exausto da sua difícil e
quente subida em uma perna e muletas. Eu me sentei perto dele, mas eles
virou sua cabeça, envergonhado de suas roupas esfarrapadas, partes de um
uniforme velho e sujo.
Nós dois ficamos
observando pescadores na sua faina nos barcos abaixo. Eu pus uma das
medalhas do meu pai perto dele. Eu não sei o que ele pensou que eu estava
fazendo. Eu mesmo não sei.
Em 45, no encouraçado
Missouri, Douglas MacArthur aceitou a rendição do Japão imperial. Eu nunca
pensei muito sobre o general MacArthur, mas ele disse algo que mexeu comigo.
“É para nós, tanto os vencedores quanto os vencidos, nos erguermos até
aquela dignidade maior a qual somente beneficia os sagrados propósitos que
nós estamos prestes a servir”.
*Greg Palast é jornalista e autor dos livros “A Melhor Democracia que o
Dinheiro Pode Comprar” e “Hospício Armado”.
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