Robert McNamara: “Meu Deus! A matança no Vietnã foi fantástica”

Foi a escalada da guerra do Vietnã, que planejou e comandou, que tornou Robert McNamara, então chefe do Pentágono, um dos mais sórdidos personagens da história. Apesar de todas as encenações que fez, através de um livro e um documentário, para ocultar sua face de genocida por trás de filosofices acerca dos “valores”, “inquietações” e “névoas” da guerra, assim que abria a boca era o carniceiro que se mostrava. “Veja, nós despejamos três a quatro vezes naquela pequena área a tonelagem de bombas despejada pelos Aliados em todos os teatros da II Guerra Mundial ao longo de um período de cinco anos. Foi inacreditável. Nós matamos 3.200.000 vietnamitas, excluindo os militares sul-vietnamitas. Meu Deus! A matança, a tonelagem [de bombas] foi fantástica”, afirmou McNamara ao jornalista Robert Scheer, do “Los Angeles Times”, em entrevista em 1995 sobre seu livro abordando a Guerra do Vietnã – ou, como ele gostava de se gabar, décadas antes, “a Guerra de McNamara”. Em 1964, ao saber que um senador democrata assim classificara a guerra, ele havia retrucado estar “muito satisfeito em ser identificado com ela” e que faria “tudo o que pudesse para vencer”. No relato a Scheer, McNamara ignorou os 1,5 milhão de laosianos e cambojanos também assassinados.

CONFISSÃO

É uma confissão de um genocídio, premeditado e detalhado sob o garoto prodígio da estatística McNamara. Ele acreditava, então, que havia um número restrito de “vietcongs” e que se a matança tivesse a intensidade e amplitude necessárias, a vitória viria. Para isso, bombas, napalm, Agente Laranja, mi lais e operação Fênix. Mais tarde, ele se perguntaria como “os melhores e mais brilhantes” – como ele, um poço de vaidade, se auto-intitulava e aos genocidas associados -, seriam derrotados por um mar de camponeses guerrilheiros e soldados comandados por Ho Chi Minh. O epitáfio do jornal inglês “Daily Telegraph” relata que no mundo inteiro os estudantes o viam como um “tecnocrata insensível, que manuseava contagem de cadáveres e de toneladas de bombas como se fossem meros números num balancete da IBM”. Na volta de sua primeira viagem a Saigon, em 1962, ele diria que “cada medida quantitativa que dispomos mostra que estamos vencendo esta guerra”.

Em outro episódio, no documentário “Sob a Névoa da Guerra”, McNamara tergiversa sobre sua responsabilidade no uso de 14 milhões de litros do desfolhante “Agente Laranja”, que é teratológico e até hoje causa deformações em bebês vietnamitas. “O que é moralmente apropriado em um ambiente de guerra?”, ele indagou no documentário. “Será que aqueles que aprovaram o uso do Agente Laranja são criminosos? Estavam eles cometendo um crime contra a humanidade? Que espécie de lei nós temos que diz que esses produtos químicos são ou não aceitáveis para uso na guerra? Nós não temos definições claras dessa espécie”, continuou. Para concluir dizendo “não estar seguro” de que autorizou o Agente Laranja. “Eu não me lembro”, mas – acrescenta – “isso certamente aconteceu no período em que eu era Secretário [do Pentágono]”. No mesmo documentário, McNamara indaga: “Quanto mal devemos fazer a fim de fazer o bem?”

OFENSIVA DO TET

Sob McNamara, o orçamento do Pentágono foi catapultado de US$ 48,4 bilhões em 1962, para US$ 74,9 bilhões em 1968 – número que é igual a US$ 457 bilhões em dólares de hoje. Foi ele também que desempenhou o papel principal para obter do Congresso dos EUA em 1964 a autorização para guerra, após o Pentágono fabricar o “incidente do Golfo de Tonkin” - um ataque inexistente a um navio dos EUA, nas costas do Norte. Os norte-americanos fizeram disparos contra “sombras [das ondas] no radar” e isso serviu de pretexto para a escalada definitiva da agressão ao Vietnã. “O público estava a favor, a imprensa estava a favor”, comentou ele décadas depois sobre a provocação; o complexo industrial-militar, nem se fala. Só em 1965, foram 55 mil vôos de bombardeio ao Vietnã do Norte, e 148 mil vôos no ano seguinte. No auge, o número de soldados ianques invasores ultrapassou os 500 mil, e as baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos chegou a 100 mil. Mas o mais brutal estava voltado contra o Sul, como descreveu o lingüista Noam Chomsky. Bombardeio indiscriminado, a uma taxa três vezes maior. “B-52 bombardeando o Delta do Mekong, uma das áreas mais densamente povoadas do mundo, destruindo hospitais e represas”. Em 1968, a Ofensiva do Tet, no Ano Novo Lunar vietnamita, encurralou os invasores e os colaboracionistas no Sul inteiro, e começou a queda de McNamara.

DERROTA

Nos últimos anos, McNamara tentou se apresentar como um personagem que deixou o comando do Pentágono por supostamente se opor à continuação da guerra. Mas seu silêncio dourado por mais quase três décadas torna tal revisão da história sem sentido, em que pese uma ou outra gravação pinçada aqui e ali e até mesmo os “Papéis do Pentágono” (anos depois, ele se negou a testemunhar a favor de Daniel Ellsberg, que trouxe a público os documentos que comprovavam que a guerra estava perdida). Depois da Ofensiva do Tet, alguma cabeça teria que rolar para justificar a continuação do mesmo curso no Vietnã, e a que mais havia se exposto era a de McNamara. (Também Rumsfeld caiou, após a ofensiva da Resistência em 2004 no Iraque). Aliás, McNamara, segundo seu próprio relato, tinha dúvida se “fora demitido” ou “havia pedido demissão”. “Você foi demitido”, lhe esclareceu anos depois sua amiga, a proprietária do jornal “Washington Post”, Katherine Graham.                 A.P.
 


Primeira Página

 

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