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O Tratado de
Não Agressão e a vitória sobre o nazismo
Os 21 meses
adicionais de preparação da defesa do país que a União Soviética conseguiu após
firmar o pacto de não-agressão com a Alemanha, em 1939, permitiram à Humanidade
derrotar a barbárie nazista
CARLOS LOPES
O mais absurdo -
isto é, mentiroso - na difamação promovida sobre o pacto de não-agressão de 1939
entre a URSS e a Alemanha é, como vimos em nossas duas últimas edições na “Nota
sobre os falsificadores da história”, emitida pela diplomacia soviética em 1948,
a tentativa de atribuir o papel de estimuladores de Hitler ao país que resistiu
ao nazismo e, no fundamental, o derrotou.
Bastante
interessante é que Churchill - cabecilha assumido das campanhas anti-soviéticas
desde a Revolução Russa e, sobretudo, depois da II Guerra - não tinha dúvidas
que esse papel coube aos governos inglês e francês. Aliás, é uma questão de
justiça reconhecer que Churchill expôs claramente esse papel, tanto antes quanto
depois da guerra. Note-se que não se trata apenas – o que já seria muito – do
primeiro-ministro da Inglaterra durante o conflito. Churchill era membro do
Parlamento inglês desde o longínquo ano de 1900, integrante do Gabinete várias
vezes desde 1908, e, além disso, um tetraneto do Duque de Marlborough, talvez a
mais importante personalidade política inglesa dos fins do século XVII e inícios
do século XVIII. Em suma, Churchill era um perfeito membro do establishment
britânico.
No primeiro volume
de suas memórias da II Guerra Mundial, publicado pela primeira vez em 1948,
Churchill transcreve a parte mais importante do discurso pronunciado pelo
Comissário do Povo da URSS para as Relações Exteriores, Maxim Litvinov, na Liga
das Nações, a 21 de setembro de 1938, uma semana antes que a Inglaterra e
a França, em Munique, entregassem a Tchecoslováquia à sanha de Hitler. Dizia o
ministro soviético:
“Quando, dias
antes de embarcar para Genebra [sede da Liga das Nações],
o governo francês indagou pela primeira vez qual seria a nossa atitude na
eventualidade de um ataque à Tchecoslováquia, dei, em nome de meu governo, a
seguinte resposta, perfeitamente clara e sem ambiguidade:
‘Pretendemos
cumprir nossas obrigações nos termos do Tratado
[de Assistência Mútua entre a França, a
Tchecoslováquia e a URSS] e, juntamente com a França, oferecer ajuda à
Tchecoslováquia pelos meios que estiverem à nossa disposição. Nosso Ministério
da Guerra está pronto a participar, imediatamente, de uma conferência com
representantes dos Ministérios da Guerra francês e tchecoslovaco, para discutir
as medidas adequadas ao momento’.
“Há apenas dois
dias, o governo tchecoslovaco dirigiu ao meu governo uma indagação formal, para
saber se a União Soviética está disposta, de acordo com o Tratado
Soviético-Tcheco, a fornecer ajuda imediata e efetiva à Tchecoslováquia, caso a
França, fiel aos seus deveres, preste uma ajuda semelhante, indagação a qual o
meu governo deu uma clara resposta afirmativa”.
Winston Churchill
faz o seguinte comentário ao discurso de Litvinov:
“Essa declaração
pública e irrestrita, por parte de uma das maiores nações interessadas, não teve
nenhuma influência nas negociações de Chamberlain [com Hitler, em Munique]
ou na condução francesa da crise. A oferta soviética foi ignorada. Não
foi posta na balança contra Hitler e foi tratada com uma indiferença - para não
dizer desdém - que deixou marcas na mente de Stalin. Os acontecimentos seguiram
o seu curso como se a Rússia Soviética não existisse. Mais tarde, pagaríamos
caro por isso” (Churchill, “The Gathering Storm”, Bantam Books, NY, 17ª
imp., setembro/1961, págs. 272/273, grifos nossos).
O que Churchill
chama de “marcas na mente de Stalin” é a crescente e muito justa - porque
correspondia à realidade - convicção soviética de que a política anglo-francesa
consistia em atirar a Alemanha contra a URSS. Com efeito, depois que a
Inglaterra e a França entregaram aos nazistas a região tcheca dos Sudetos, essa
conclusão era inevitável para todos – e não somente para Stalin.
Os Sudetos são uma
cadeia de montanhas. Como observou William Shirer, não apenas essa cadeia é a
defesa natural da Tchecoslováquia contra uma invasão alemã, mas, em 1938, todas
as instalações militares tchecas que poderiam se opor à agressão estavam nessas
montanhas. Assim, os governos inglês e francês entregaram a Hitler as próprias
defesas da Tchecoslováquia - defesas que, como relata Shirer, os generais
alemães, posteriormente, comprovaram que não tinham, naquele momento, como
quebrá-las ou passar por elas. E, além disso:
“Olhando
retrospectivamente, e com o conhecimento que possuímos dos documentos secretos
alemães e do testemunho de após guerra dos próprios alemães, o seguinte resumo
(....) pode ser feito: A Alemanha não estava em condições de ir à guerra a 1º
de outubro de 1938 contra a Tchecoslováquia, a França e a Inglaterra, para não
mencionar a Rússia. Se fosse, teria sido rápida e facilmente derrotada, o
que significaria o fim de Hitler e do Terceiro Reich. Se uma guerra europeia
tivesse sido declarada, no último momento, pela intercessão do Exército Alemão,
Hitler podia ter sido derrubado (....) pela execução do plano de prendê-lo logo
que tivesse dado a ordem final para o ataque à Tchecoslováquia” (William L.
Shirer, “Ascensão e Queda do III Reich”, Volume 2, Civilização Brasileira, 3ª
ed., 1963, trad. de Pedro Pomar, págs. 206 a 210, grifos nossos).
Realmente, o comando
do Exército alemão considerava, nessa época, que uma guerra europeia, para a
Alemanha, seria uma loucura - e chegou a fazer planos de prender Hitler, se a
guerra fosse deflagrada. Porém, a capitulação inglesa e francesa em Munique fez
com que Hitler adquirisse uma súbita popularidade (e uma fama de genialidade...)
no Exército. Em suma, os governos da Inglaterra e da França haviam aberto a
porteira para a II Guerra Mundial.
DEBATE
O primeiro-ministro
inglês, Chamberlain, entrou no Parlamento, a 3 de outubro de 1938, bajulado como
“o salvador da paz”. A traição de Munique seria aprovada, dois dias depois, por
369 a 150 votos.
Porém, no dia 3, o
primeiro orador, um colega de partido e ministro de Chamberlain, o conservador
Duff Cooper, Primeiro Lord do Almirantado (ministro da Marinha), renunciou ao
Gabinete em protesto contra Munique, encerrando sua intervenção com as seguintes
palavras:
“O
primeiro-ministro deve estar certo. Eu posso assegurar, sr. presidente, com a
mais profunda sinceridade, que espero e rezo para que ele esteja certo, mas eu
não posso acreditar que ele acredite nisso. Lembro que quando nós estávamos
discutindo o ultimatum de Godesberg [de Hitler ao governo tcheco] eu
disse que, se tomasse parte em persuadir, ou mesmo sugerir, que o governo
tchecoslovaco deveria aceitar esse ultimatum, eu nunca seria capaz de novamente
levantar a minha cabeça... Eu arruinei, talvez, a minha carreira política. Mas
isso tem pouca importância; eu retive algo que é para mim de grande valor - eu
posso ainda andar pelo mundo com minha cabeça ereta” (cf. a ata da sessão em
“Parliamentary Debates”, 5th series, vol.339 (1938), transcrito in “Munich:
Blunder, Plot, or Tragic Necessity?”, ed. Dwight E. Lee, D.C. Heath and
Company, 1970).
Antes da votação
final, a 5 de outubro de 1938, Churchill subiu à tribuna. Citaremos extensamente
o seu pronunciamento pelo que ele revela do papel dos governos inglês e francês
no estímulo a Hitler:
“...Começarei por
dizer o que todo mundo gostaria de ignorar ou esquecer, mas que deve,
entretanto, ser dito, a saber - sofremos uma derrota total e consumada, e a
França sofreu uma derrota ainda maior do que nós”.
Foi interrompido
pela Viscondessa de Astor, que gritou “non sense!”. Mas Churchill prosseguiu:
“O máximo que o meu
muito honorável amigo primeiro-ministro conseguiu, com respeito à
Tchecoslováquia e às pretensões do ditador alemão...”
“Foi a paz! Foi a
paz!”, gritaram, em coro, parlamentares do seu próprio partido.
O orador retomou a
palavra:
“O máximo que ele
foi capaz de conseguir para a Tchecoslováquia, e os assuntos que estavam em
disputa, foi que o ditador alemão, ao invés de trinchar ele mesmo a sua comida
na mesa do banquete, ficasse satisfeito por ter-lhe sido servida, prato por
prato, pelo primeiro-ministro.
“Chego ao ponto
da salvação da paz. (....) não compreendo claramente porque podia haver tanto
perigo de que a Inglaterra e a França viessem a se envolver numa guerra com a
Alemanha se ambas estavam prontas para sacrificar a Tchecoslováquia. (....) Não
se pode prever a possibilidade de uma luta quando um dos lados está determinado
a ceder em tudo.
“Quando essa
decisão foi tomada (….) estava já estabelecido em princípio que não seria
promovida a defesa da Tchecoslováquia em caso de guerra.
“… a manutenção
da paz depende de colocar obstáculos ao agressor (....). A França e a Grã
Bretanha juntas, especialmente se tivessem mantido próximo contato com a
Rússia, o que certamente não foi feito, teriam sido capazes, quando tinham o
prestígio, de influenciar muitos dos pequenos Estados da Europa, e acredito que
poderiam ter determinado a atitude da Polônia.
“Tudo está
acabado. Silenciosa, enlutada, abandonada, despedaçada, a Tchecoslováquia
desaparece nas trevas... Ninguém tem o direito de dizer que o plebiscito
[nas áreas sob ocupação nazista] é um veredicto de
auto-determinação. É uma fraude e uma farsa invocar este nome.
“[A Tchecoslováquia]
não está apenas politicamente mutilada, mas, também, econômica e
financeiramente em completa confusão. (....) As indústrias estão sendo
esquartejadas e o movimento da população, de um lado para outro, é o que há de
mais cruel. Os mineiros sudetos, todos tchecos, e cujas famílias viviam nessa
área há séculos, devem agora mudar-se para outra área, onde raras minas foram
deixadas para os que nelas trabalham. O que ocorreu, nesse particular, é por si
só uma tragédia. Há de existir sempre, no coração da Inglaterra, um
arrependimento e um profundo sentimento de desolação, diante do infortúnio que
caiu sobre a República da Tchecoslováquia. Mas o seu sacrifício, é preciso
que saibamos, não terminou ainda. A qualquer momento, deve iniciar-se uma nova
etapa do programa. A qualquer momento, a uma ordem de Hitler ou de Goebbels,
pode recomeçar a campanha de calúnias e mentiras. A qualquer momento um
incidente pode ser provocado, como pretexto para a conquista total. Agora, que a
linha fortificada foi abandonada, o que poderá conter a vontade do conquistador?
(….) o Estado tchecoslovaco não poderá se manter como Estado independente.
(....) a Tchecoslováquia será, então, absorvida pelo regime nazista,
deixando-se, possivelmente, empolgar pelo desespero e pelo desejo de vingança.
(....) Isso representa a mais grave consequência de tudo quanto fizemos e
deixamos de fazer nos últimos cinco anos. Tais são os assuntos que vim expor
neste momento e que assinalam a conduta imprevidente pela qual a Inglaterra e
a França terão que pagar.
“Quando penso nas
caras esperanças de paz duradoura que ainda existiam na Europa no início de
1933, quando Herr Hitler obteve a primeira investidura no poder, e em todas as
oportunidades de barrar o crescente poder nazista então fácil de esmagar, quando
penso nas imensas possibilidades e nos recursos que foram desperdiçados ou
negligenciados, não posso acreditar que exista caso paralelo em toda a
história dos povos. Tanto quanto toca a este país, a responsabilidade deve ser
lançada sobre aqueles que tinham então o controle indisputável dos nossos
negócios políticos. Esses homens de Estado nunca impediram a Alemanha de se
rearmar (....). Querelaram com a Itália, sem no entanto salvar a
Abissínia [invadida por Mussolini]. Exploraram e desacreditaram a
vasta instituição da Liga das Nações e se esqueceram, negligentemente, de fazer
alianças e combinações que poderiam ter corrigido os erros anteriores.
“Estamos diante
de um desastre de grande magnitude, desastre em que a Inglaterra e a França são
atingidas em cheio. (....) O exército alemão, atualmente, é mais numeroso que o
da França e, segundo creio, mais preparado. No próximo ano, tornar-se-á ainda
maior, em número, e mais capaz, em técnica. (....) a Alemanha nazista poderá
escolher livremente qual o caminho que lhe interessa seguir, em qual direção
quer fazer marchar as suas tropas. Se o ditador nazista olhar para o nosso lado,
a Inglaterra e a França muito terão a deplorar a perda desse fino exército da
antiga Boêmia [Tchecoslováquia], que, segundo as estimativas da última
semana, exigiria pelo menos trinta divisões alemãs para o total aniquilamento”
(“Parliamentary Debates”, ibidem, cotejado com a versão revisada pelo orador -
Churchill, “Sangue, Suor e Lágrimas”, vol. I, Ed. Opera Mundi, 1973, trad. R.
Magalhães Junior, págs. 117-129, grifos nossos).
MOSCOU
Chamberlain falou em
seguida. Sua resposta foi uma acusação - proferida em débil tom, e de forma
enviesada - de que seu oponente queria a guerra. A rigor, o primeiro-ministro
transferia a responsabilidade de Hitler para Churchill.
Cinco meses depois
desse debate, os nazistas, desprezando as garantias dadas à Tchecoslováquia pela
Inglaterra e França, ocuparam o que restara do país, entrando em Praga a 15 de
abril de 1939. Nem Londres nem Paris fizeram absolutamente nada para honrar a
palavra dada ao governo tcheco.
No dia seguinte, a
União Soviética propôs à França e à Inglaterra uma aliança militar contra a
Alemanha. Em suas memórias, Churchill comenta:
“...não há
dúvida, mesmo em retrospectiva, que a Grã-Bretanha e a França deviam ter aceito
a oferta russa (....). Mas o sr. Chamberlain e o Ministério das Relações
Exteriores ficaram perplexos (....). A aliança entre a Grã-Bretanha, a França e
a Rússia teria causado uma profunda comoção no coração da Alemanha em 1939, e
ninguém pode provar que, ainda nessa época, a guerra não pudesse ter sido
evitada” (Churchill, “The Gathering Storm”, ed. cit., pág. 324).
Somente três meses
depois, a 25 de julho de 1939, com a opinião popular na Inglaterra e na França
revoltada com a ocupação da Tchecoslováquia, os governos desses países aceitaram
as conversações com a URSS. Nessa altura, os alemães já haviam transferido a
maior parte das suas tropas para a fronteira polonesa, onde pretendiam realizar
- e, com efeito, realizaram - o próximo ataque.
No dia seguinte, 26
de Julho de 1939, o governo alemão propôs à URSS um acordo de não-agressão. Mas
o governo soviético, esperando as negociações com a Inglaterra e a França, não
respondeu aos alemães. Estes insistiram nas semanas seguintes, sempre com a
mesma reação soviética. Os alemães ofereciam à URSS a renúncia de suas
pretensões sobre a Lituânia, Letônia e Estônia e a retirada das tropas que
haviam ocupado a cidade lituana de Memel, considerada por eles como parte da
Prússia Oriental. Os soviéticos, mais uma vez, não responderam - e ofereceram
ajuda militar à Polônia em caso de agressão, que foi recusada pela ditadura
feudal polonesa, na decisão mais desastrosa da história do país.
Enquanto isso, as
delegações inglesa e francesa que iriam negociar com a URSS levavam 18 dias para
chegar a Moscou... E quando chegaram, a 12 de agosto, apenas 20 dias antes da
agressão nazista à Polônia, declararam que não tinham recebido poderes dos seus
governos para negociar uma aliança militar ou de qualquer outra natureza com a
URSS. Os chefes das delegações inglesa, almirante Drax, e francesa, general
Doumenc, disseram ao chefe da delegação soviética, marechal Voroshilov,
Comissário do Povo para a Defesa, que suas instruções eram as de examinar “uma
hipótese”.
Voroshilov,
naturalmente, sugeriu aos ingleses e franceses que pedissem, por telegrama, os
devidos poderes aos seus governos, o que foi aceito pelas delegações.
A URSS considerava,
há muito, que os alemães, cedo ou tarde, atacariam o país. Sem a Inglaterra e a
França, a questão era ganhar tempo que permitisse ao país estar melhor preparado
para a guerra. No mesmo dia em que as delegações inglesa e francesa declararam
que não tinham poderes para negociar um acordo, o governo soviético comunicou ao
governo alemão que aceitava empreender negociações com vistas a um pacto de
não-agressão - como vimos na edição passada, França e Inglaterra já tinham
assinado pactos de não-agressão com os alemães.
Os governos inglês e
francês só responderam aos telegramas de suas delegações três dias depois -
negando poderes a elas para firmar um acordo com a URSS. Os soviéticos ainda
fizeram uma última tentativa: Voroshilov declarou que o governo soviético
colocava à disposição de uma aliança com a Inglaterra e a França, 136 divisões,
uma artilharia pesada de 5.000 canhões, um contingente blindado de 9.000 tanques
e uma força aérea de 5.000 aviões. Não houve resposta da Inglaterra e da França.
Dez dias após a
chegada das delegações inglesa e francesa a Moscou, no dia 22 de Agosto de 1939,
as conversações se encerraram por falta de propostas da Inglaterra e da França.
Nesse mesmo dia, repentinamente, o governo francês concedeu poderes ao general
Doumenc para assinar um acordo com a URSS. Uma explicação para essa mudança foi
aventada por Mário Sousa, em seu artigo de 1999, “O tratado de não agressão
mútua entre a União Soviética e a Alemanha”:
“O
interesse repentino da França pelas negociações (e a proposta renovada pela
Alemanha de um tratado de não agressão…) terá talvez a sua origem no fato de que
nesta altura o exército imperial japonês invasor da Mongólia estava a ser
totalmente aniquilado pelos exércitos da União Soviética e da Mongólia.
Entretanto, no ato da entrega dos seus novos poderes ao marechal Voroshilov, o
general Doumenc foi obrigado a reconhecer que a delegação inglesa não tinha
obtido plenos poderes do seu governo e que a sua participação na aliança militar
não se iria verificar”.
Sem a Inglaterra,
com sua influência na Europa Central e seu poder naval, a aliança contra a
Alemanha era, evidentemente, impossível.
Depois da entrevista
de Voroshilov com o general Doumenc, o governo soviético comunicou à Alemanha
que resolvera assinar o pacto de não-agressão. Logo no dia seguinte, 23 de
agosto, Ribbentrop, o ministro das Relações Exteriores alemão, já estava em
Moscou para firmá-lo.
Uma vez mais, foi o
anti-comunista Churchill quem fez a melhor consideração sobre as mudanças
geo-políticas introduzidas pelo acordo da URSS com a Alemanha. Segundo ele,
essas mudanças eram “absolutamente necessárias para a
segurança da Rússia em relação à ameaça nazista”.
Além disso, nos 21
meses que o pacto permitiu adiar a agressão nazista, a URSS aumentou o ritmo de
sua indústria de defesa – que cresceu, nesse período, a uma taxa de 39% ao ano
(bem mais que o conjunto da economia, que cresceu a 13% a.a.), mostrando que
esse intermezzo foi muito bem aproveitado. Fábricas da Ucrânia, Bielo-Rússia e
Rússia ocidental foram transferidas para os Urais e outras localidades no
interior do país, constituindo a retaguarda industrial que permitiu a vitória
contra o nazismo. Por fim, o contingente do Exército Vermelho foi aumentado para
5 milhões de membros. No artigo que mencionamos acima, o autor chega a uma
conclusão que é inescapável: “O Tratado de Não Agressão foi a base que
possibilitou à União Soviética vencer a segunda guerra mundial, destruir a
Alemanha nazi e libertar o mundo da barbárie nazi” (Sousa, art. cit.).
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