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30º Aniversário Sandinista
e a proposta de San José (2)
FIDEL CASTRO
Desta vez, ao se comemorar o 30 Aniversário da vitória
Sandinista a 19 de Julho de 1979, Daniel explicou tudo com impressionante
clareza, como o fez com todos os temas ao longo do seu discurso, o qual foi
escutado por centenas de milhares de pessoas e transmitido pela rádio e a
televisão. Utilizo suas palavras textuais: “Os ianques o nomearam como mediador.
Sentimos uma profunda simpatia pelo povo da Costa Rica, mas eu não posso
esquecer que naqueles anos difíceis o presidente da Costa Rica convocou os
presidentes centro-americanos e não nos convidou…”
“Porém os outros presidentes centro-americanos foram mais
sensatos e lhe disseram: Cá não pode haver plano de paz se a Nicarágua não
estiver presente. Pela verdade histórica, o presidente que teve o valor de
quebrar o isolamento que tinham imposto os ianques na América Central - onde
tinham proibido aos presidentes conversarem com o presidente da Nicarágua e
queriam uma solução militar, queriam através da guerra dar cabo da Nicarágua, da
sua revolução -, quem deu esse passo valoroso foi o presidente da Guatemala,
Vinício Cerezo. Essa é a verdadeira história.”
Logo a seguir acrescentou: “Os ianques correram à procura
do presidente Oscar Arias, porque eles já o conhecem!, para procurar como ganhar
tempo, de forma que o golpistas comecem a fazer demandas que são inaceitáveis.
Desde quando um golpista vai negociar com a pessoa à qual está arrebatando seus
direitos constitucionais? Esses direitos não podem ser negociados, simplesmente
é preciso restituir o presidente Manuel Zelaya, da mesma maneira como o disseram
os acordos da ALBA, do Grupo de Rio, do SICA, da OEA e das Nações Unidas.
“Nos nossos países queremos soluções pacíficas. A batalha
que está levando a cabo o povo de Honduras neste momento é uma batalha pacífica,
para evitar mais dor da que já foi produzida em Honduras”, concluiu textualmente
Daniel.
Em virtude da guerra suja ordenada por Reagan e que em parte - ele me disse -
foi financiada com drogas enviadas para os Estados Unidos, perderam a vida mais
de 60 mil pessoas e sofreram mutilações outras 5.800.
A guerra suja de Reagan ocasionou a destruição e o
abandono de 300 escolas e 25 centros de saúde; foram assassinados 150
professores. O custo ascendeu a dezenas de milhares de milhões de dólares. A
Nicarágua contava apenas com 3,5 milhões de habitantes, deixou de receber o
combustível que a URSS lhe enviava e a economia se tornou insustentável.
Convocou as eleições e inclusive as adiantou, e respeitou o que foi decidido
pelo povo, que tinha perdido toda a esperança de preservar as conquistas da
Revolução. Quase 17 anos depois, os Sandinistas voltaram vitoriosos ao governo;
há apenas dois dias comemoravam o 30 aniversário da primeira vitória.
No sábado 18 de Julho o Prêmio Nobel propôs os conhecidos
7 pontos da iniciativa pessoal de paz que restava autoridade às decisões da ONU
e da OEA, e equivaliam a uma ata de rendição de Manuel Zelaya, que lhe restavam
simpatia e debilitariam o apoio popular. O Presidente Constitucional enviou o
que qualificou de ultimato aos golpistas, que seus representantes deviam
apresentar, anunciando ao mesmo tempo seu retorno a Honduras no domingo 19 de
Julho por qualquer departamento desse país.
Em horas do meio-dia desse domingo, celebrou-se em
Manágua o gigantesco ato sandinista com históricas denúncias à política dos
Estados Unidos. Eram verdades que não podiam deixar de ser transcendentes.
A pior coisa é que os Estados Unidos estavam encontrando
resistência do governo golpista a sua manobra edulcorante. Estaria por
determinar o momento em que o Departamento de Estado envia por sua vez uma forte
mensagem a Micheletti, e se os chefes militares foram advertidos das posições do
governo dos Estados Unidos.
O real é que para aquele que acompanhasse de perto os
acontecimentos, Micheletti estava insubordinado contra a paz na segunda-feira.
Seu representante em San José, Carlos López Contreras, tinha declarado que a
proposta de Arias não podia ser discutida, visto que o primeiro ponto, quer
dizer, o restabelecimento de Zelaya, não era negociável. O governo civil
golpista tinha tomado a sério o seu papel e não percebia nem sequer de que
Zelaya, privado de toda autoridade, não constituía risco algum para a oligarquia
e politicamente sofreria um duro golpe se aceitasse a proposta do presidente da
Costa Rica.
No próprio domingo 19, quando Arias pede outras 72 horas
para explicar a sua posição, a Sra. Clinton fala telefonicamente com Micheletti
e mantém o que o porta-voz Philip Crowley qualifica de uma “chamada dura”. Algum
dia conhecer-se-á o que lhe disse, mas bastaria ver a face de Micheletti quando
falou numa reunião do seu governo, na segunda-feira 20 de Julho: realmente
parecia uma criança de creche repreendida pela assistente. Através da Telesur
pude ver as imagens e os discursos da reunião. Outras imagens transmitidas foram
as dos representantes da OEA a pronunciarem seus discursos no seio dessa
instituição, comprometendo-se a esperar a última palavra do Nobel da Paz na
quarta-feira. Sabiam ou não o que a Clinton tinha dito a Micheletti? Talvez sim,
ou talvez não. Talvez alguns, mesmo que nem todos, o conhecessem. Homens,
instituições e conceitos se tornaram em instrumentos da alta e arrogante
política de Washington. Nunca um discurso no seio da OEA brilhou com tanta
dignidade como as breves, mas valorosas e brilhantes palavras de Roy Chaderton,
embaixador da Venezuela, nessa reunião.
Amanhã aparecerá a pétrea imagem de Oscar Arias
explicando que tem elaborado esta ou aquela proposta de solução para evitar a
violência. Penso que até o próprio Arias caiu na grande armadilha montada pelo
Departamento de Estado. Veremos o que faz amanhã.
Porém, o povo de Honduras é quem dirá a última palavra.
Representantes das organizações sociais e das novas forças não são instrumentos
de ninguém dentro ou fora do país, conhecem as necessidades e sofrimentos do
povo; as suas consciências e o seu valor se multiplicaram; muitos cidadãos que
eram indolentes se somaram; os próprios afiliados honestos dos partidos
tradicionais que acreditam na liberdade, na justiça e na dignidade humana
julgarão os líderes a partir da posição que adotaram neste minuto histórico.
Não se conhece ainda qual seria a atitude dos militares
perante os ultimatos ianques, e que mensagens recebem os oficiais; só há um
ponto de referência patriótica e honorável: a lealdade ao povo, que tem
suportado com heroísmo as bombas lacrimogêneas, os golpes e os disparos.
Sem que ninguém possa assegurar qual será o último
capricho do império, se a partir das últimas decisões adotadas Zelaya regressará
legal ou ilegalmente, sem dúvida os hondurenhos farão um grande recebimento a
ele porque será uma medida da vitória que já têm atingido com as suas lutas.
Ninguém duvide que só o povo hondurenho será capaz de construir sua própria
história!
Fidel Castro Ruz
21 de Julho de 2009
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