Centenário do poeta Patativa do Assaré é celebrado no Senado 

CARLOS LOPES 

Patativa do Assaré, que no último dia 5 de março faria 100 anos, era capaz de fazer versos em português verdadeiramente clássico. Era capaz de compor sonetos quase camonianos, como “O Peixe” (Tendo por berço o lago cristalino,/ Folga o peixe, a nadar todo inocente,/ Medo ou receio do porvir não sente,/ Pois vive incauto do fatal destino.// Se na ponta de um fio longo e fino/ A isca avista, ferra-a insconsciente,/ Ficando o pobre peixe de repente,/ Preso ao anzol do pescador ladino.// O camponês, também, do nosso Estado,/ Ante a campanha eleitoral, coitado!/ Daquele peixe tem a mesma sorte.// Antes do pleito, festa, riso e gosto,/ Depois do pleito, imposto e mais imposto./ Pobre matuto do sertão do Norte!).

E era capaz, sobretudo, de trabalhar seus versos em linguagem coloquial do sertão do Ceará, onde nasceu, viveu e morreu aos 93 anos bem vividos, como um mandacaru que seca nem desgraça alguma jamais abate.

No entanto, aquele homem passara apenas alguns meses na escola primária, desde cedo trabalhando na roça, órfão de pai aos nove anos.

O que não impediu o poeta de “Cante lá, que eu canto cá” de ser um dos maiores em seu ofício na história de nosso país. Ao reler esse poema, um diálogo com um poeta da cidade, que reproduzimos nesta página, lembro de como conheci Patativa – uma história ilustrativa de como podemos, às vezes, vivendo em um mesmo país, ser ignorantes quanto aos outros homens que fazem a terra, isto é, o povo.

Em 1981, vindo de Recife, cheguei a Fortaleza, onde residiria durante nove anos. Um de meus maiores amigos e companheiros, José Carlos Matos, na época presidente da Confederação Nacional de Teatro Amador (CONFENATA), pediu-me para discutir um projeto. Naquela época, Zeca, falecido tragicamente um ano depois num estúpido desastre aéreo, já havia realizado a notável encenação de “Fala, Favela”, do excelente poeta cearense Adriano Espinola, que o consagrou como diretor.

Naquele dia, entre uma cerveja e outra, Zeca perguntou se eu conhecia Patativa.

“Quem?”

O Patativa do Assaré”

Confessei a minha profunda ignorância. E ele me disse que a letra de “A Triste Partida”, famosa na interpretação de Luiz Gonzaga, era de um poeta cearense chamado Patativa do Assaré. Até então, eu jurava que o autor dessa obra incrivelmente bela era Humberto Teixeira...

Zeca era um entusiasmado por Patativa do Assaré. Organizou recitais – que eram mais shows do que recitais, graças a Deus – com o poeta, apresentava-o ao público, poema por poema, sem necessidade de script prévio, pois tinha na memória a obra de Patativa, até mesmo conhecia a ordem cronológica em que os poemas haviam aparecido.

E foi assim que conheci Patativa. Espantou-me como um homem simples, de voz comum, conseguia tal expressividade ao recitar seus poemas. Era algo fenomenal, e, naturalmente, é impossível transmitir a experiência de vê-lo e, sobretudo, ouvi-lo.

Porém, não é verdade que os poemas de Patativa sejam meramente orais. A leitura dos seus versos também mostra um grande poeta. Além disso, poemas como “Flores Murchas” (Ah! se esta vida nunca mais passasse!/ Só vejo rosas, sem um só espinho;/ Que bela aurora surge em nosso ninho!/ Que lindo sonho no meu peito nasce!) não são principalmente poemas “orais”.

A bem dizer, as relações entre poesia oral e poesia escrita recusam qualquer camisa de força classificatória: a “Ilíada” e a “Odisseia” nasceram como poemas orais, feitos para serem recitados ou cantados – e ninguém contestará que são também os poemas fundadores da literatura escrita. Da mesma forma, qualquer poema escrito, mesmo que jamais seja recitado, tem – sempre – uma certa “dicção”, um certo tom oral, que o digam Castro Alves, Garcia Lorca e João Cabral de Melo Neto. Quando não há essa (ou, melhor, alguma) “dicção”, não é um poema.

Já nos alongamos muito mais do que pretendíamos. Resta dizer que o poeta era um camponês, que se orgulhava disso, que o Nordeste e o Ceará eram a sua terra, e que seu país era o Brasil – e tudo isso está em sua poesia. 

Inácio Arruda destaca universalidade da obra 

O centenário do poeta Patativa do Assaré foi lembrado em sessão especial no Senado, na quarta-feira. O senador Inácio Arruda (PCdoB-CE)) foi o autor do requerimento que propôs a homenagem. Durante a sessão foi lançado o livro “Patativa do Assaré - Poeta universal”, organizado pelo senador, e que reúne textos de Assis Ângelo, Cândido B. C. Neto, Gilmar de Carvalho, Joan Edesson, Oswald Barroso, Plácido Cidade Nuvens, Rosemberg Cariry e Tadeu Feitosa.

“Esta sessão solene é o reconhecimento da beleza, da arte, da sabedoria e universalidade da obra do poeta Patativa do Assaré. Há pessoas que mesmo sem terem sido favorecidas no berço, ao nascer, acabam realizando grandes obras e tornando-se dignas de grande admiração, mesmo sem terem passado pelas melhores escolas, mesmo sem terem os caminhos facilitados pela posição social ou econômica. Uma dessas pessoas foi o nosso saudoso e querido Patativa do Assaré”, disse Inácio Arruda.

Para a senadora Fátima Cleide (PT-RO), o poeta “foi sensível aos problemas do povo e, por isso, sua poesia não podia deixar de ter um sentido político. Como agricultor, ele conhecia na pele as vicissitudes da natureza, vivia o medo da seca e da fome que lhe segue. Ele conhecia, também, as injustiças da desigualdade e cantava os anseios e esperanças do povo em uma vida mais igualitária”.

Presente à sessão, junto com diversas autoridades e personalidades cearenses, o filho de Patativa, Geraldo Gonçalves de Castro, afirmou: “Essa homenagem é uma honra para a nossa família e para todo o povo cearense. Dá até a impressão de que Patativa não morreu. Ele apenas mudou-se, mas continua vivo no coração de cada um”.

O cantor e compositor Raimundo Fagner encerrou a sessão cantando “Festa da natureza” e “Vaca Estrela e Boi Fubá” da tribuna do Plenário.

Encerrando a homenagem, foi exibido o documentário “Patativa do Assaré - Ave Poesia”, do cineasta Rosemberg Cariry, e apresentação de artistas ligados à Casa do Cantador. 

Eu quero 

Quero um chefe brasileiro

Fiel, firme e justiceiro

Capaz de nos proteger

Que do campo até à rua

O povo todo possua

O direito de viver

 

Quero paz e liberdade

Sossego e fraternidade

Na nossa pátria natal

Desde a cidade ao deserto

Quero o operário liberto

Da exploração patronal

 

Quero ver do Sul ao Norte

O nosso caboclo forte

Trocar a casa de palha

Por confortável guarida

Quero a terra dividida

Para quem nela trabalha

 

Eu quero o agregado isento

Do terrível sofrimento

Do maldito cativeiro

Quero ver o meu país

Rico, ditoso e feliz

Livre do jugo estrangeiro

 

A bem do nosso progresso

Quero o apoio do Congresso

Sobre uma reforma agrária

Que venha por sua vez

Libertar o camponês

Da situação precária

 

Finalmente, meus senhores,

Quero ouvir entre os primores

Debaixo do céu de anil

As mais sonoras notas

Dos cantos dos patriotas

Cantando a paz do Brasil

 

Cante lá, que eu canto cá

Poeta, cantô de rua,

Que na cidade nasceu,

Cante a cidade que é sua,

Que eu canto o sertão que é meu.

 

Se aí você teve estudo,

Aqui, Deus me ensinou tudo,

Sem de livro precisá

Por favô, não mêxa aqui,

Que eu também não mexo aí,

Cante lá, que eu canto cá.

 

Você teve inducação,

Aprendeu munta ciença,

Mas das coisa do sertão

Não tem boa esperiença.

Nunca fez uma paioça,

Nunca trabaiou na roça,

Não pode conhecê bem,

Pois nesta penosa vida,

Só quem provou da comida

Sabe o gosto que ela tem.

 

Pra gente cantá o sertão,

Precisa nele morá,

Tê armoço de fejão

E a janta de mucunzá,

Vivê pobre, sem dinhêro,

Socado dentro do mato,

De apragata currelepe,

Pisando inriba do estrepe,

Brocando a unha-de-gato.

 

Você é muito ditoso,

Sabe lê, sabe escrevê,

Pois vá cantando o seu gozo,

Que eu canto meu padecê.

Inquanto a felicidade

Você canta na cidade,

Cá no sertão eu infrento

A fome, a dô e a misera.

Pra sê poeta divera,

Precisa tê sofrimento.

 

Sua rima, inda que seja

Bordada de prata e de ôro,

Para a gente sertaneja

É perdido este tesôro.

Com o seu verso bem feito,

Não canta o sertão dereito,

Porque você não conhece

Nossa vida aperreada.

E a dô só é bem cantada,

Cantada por quem padece.

 

Só canta o sertão dereito,

Com tudo quanto ele tem,

Quem sempre correu estreito,

Sem proteção de ninguém,

Coberto de precisão

Suportando a privação

Com paciença de Jó,

Puxando o cabo da inxada,

Na quebrada e na chapada,

Moiadinho de suó.

 

Amigo, não tenha quêxa,

Veja que eu tenho razão

Em lhe dizê que não mêxa

Nas coisa do meu sertão.

Pois, se não sabe o colega

De quá manêra se pega

Num ferro pra trabaiá,

Por favô, não mêxa aqui,

Que eu também não mêxo aí,

Cante lá que eu canto cá.

 

Repare que a minha vida

É deferente da sua.

A sua rima pulida

Nasceu no salão da rua.

Já eu sou bem deferente,

Meu verso é como a simente

Que nasce inriba do chão;

Não tenho estudo nem arte,

A minha rima faz parte

Das obra da criação.

 

Mas porém, eu não invejo

O grande tesôro seu,

Os livro do seu colejo,

Onde você aprendeu.

Pra gente aqui sê poeta

E fazê rima compreta,

Não precisa professô;

Basta vê no mês de maio,

Um poema em cada gaio

E um verso em cada fulô.

 

Seu verso é uma mistura,

É um tá sarapaté,

Que quem tem pôca leitura

Lê, mais não sabe o que é.

Tem tanta coisa incantada,

Tanta deusa, tanta fada,

Tanto mistéro e condão

E ôtros negoço impossive.

Eu canto as coisa visive

Do meu querido sertão.

 

Canto as fulô e os abróio

Com todas coisa daqui:

Pra toda parte que eu óio

Vejo um verso se bulí.

Se as vêz andando no vale

Atrás de curá meus male

Quero repará pra serra

Assim que eu óio pra cima,

Vejo um divule de rima

Caindo inriba da terra.

 

Mas tudo é rima rastêra

De fruita de jatobá,

De fôia de gamelêra

E fulô de trapiá,

De canto de passarinho

E da poêra do caminho,

Quando a ventania vem,

Pois você já tá ciente:

Nossa vida é deferente

E nosso verso também.

 

Repare que deferença

Iziste na vida nossa:

Inquanto eu tô na sentença,

Trabaiando em minha roça,

Você lá no seu descanso,

Fuma o seu cigarro mando,

Bem perfumado e sadio;

Já eu, aqui tive a sorte

De fumá cigarro forte

Feito de paia de mio.

 

Você, vaidoso e facêro,

Toda vez que qué fumá,

Tira do bôrso um isquêro

Do mais bonito metá.

Eu que não posso com isso,

Puxo por meu artifiço

Arranjado por aqui,

Feito de chifre de gado,

Cheio de argodão queimado,

Boa pedra e bom fuzí.

 

Sua vida é divirtida

E a minha é grande pená.

Só numa parte de vida

Nóis dois samo bem iguá:

É no dereito sagrado,

Por Jesus abençoado

Pra consolá nosso pranto,

Conheço e não me confundo

Da coisa mió do mundo

Nóis goza do mesmo tanto.

 

Eu não posso lhe invejá

Nem você invejá eu,

O que Deus lhe deu por lá,

Aqui Deus também me deu.

Pois minha boa muié,

Me estima com munta fé,

Me abraça, beja e qué bem

E ninguém pode negá

Que das coisa naturá

Tem ela o que a sua tem.

 

Aqui findo esta verdade

Toda cheia de razão:

Fique na sua cidade

Que eu fico no meu sertão.

Já lhe mostrei um ispeio,

Já lhe dei grande conseio

Que você deve tomá.

Por favô, não mexa aqui,

Que eu também não mêxo aí,

Cante lá que eu canto cá.


Primeira Página

 

Página 2

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Expediente

Página 3

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