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ÁLVARO VIEIRA PINTO
“Sem ideologia
do desenvolvimento não há desenvolvimento nacional”
Há alguns meses, tentando rastrear as origens do
conceito de “nacional-desenvolvimentismo” (não propriamente o seu conteúdo, mas
quando ele se condensou sob esta forma, isto é, sob este nome), o ISEB –
Instituto Superior de Estudos Brasileiros – apareceu como a mais forte
referência. Realmente, se o termo não surgiu (é provável que tenha surgido) das
discussões e ensinamentos do ISEB, instituição do Ministério da Educação
inaugurada em 1955 e fechada pela ditadura em 1964, foi ali que, sem dúvida, se
consolidou e recebeu a forma final.
Foi no correr dessa
pesquisa que nosso grande amigo Werner Rempel, vereador e ex-vice-prefeito de
Santa Maria, RS, apareceu-nos com os dois colossais volumes de “Consciência e
Realidade Nacional”, do filósofo Álvaro Vieira Pinto, publicados pelo ISEB em
1960. Nessa época, o Conselho Curador do ISEB era constituído por Tancredo
Neves, pelo brigadeiro Dario Cavalcanti de Azambuja, pelo médico Eurico Costa
Carvalho, professor da Faculdade Nacional de Medicina, pelo empresário Guilherme
da Silveira Filho, dono da fábrica Bangu, pelo físico José Leite Lopes, pelo
futuro primeiro-ministro Hermes Lima e pelo diretor do instituto, filósofo e
deputado federal Roland Corbisier.
Há alguns dias, por
correio, recebemos novo presente – e nova revelação – por parte de Werner. Lá de
sua cidade, enviou-nos ele os dois volumes de “O Conceito de Tecnologia”,
publicado em 2005 pela Editora Contraponto e reimpresso em 2008. Infelizmente,
Álvaro Vieira Pinto, falecido em 1987, não viu a publicação desta outra sua
grande obra – talvez aquela em que ele foi mais à frente, de forma mais clara e
profunda, na síntese de uma filosofia nacionalista.
Mas, voltemos à
primeira obra.
“Consciência e
Realidade Nacional” é um estudo de mil páginas (1.078, para ser exato), em que
Álvaro Vieira Pinto aborda as relações entre a ideologia e o desenvolvimento em
um país dependente. De certa forma, é um desdobramento - é verdade que um
desdobramento gigantesco - de sua aula inaugural no curso de filosofia do ISEB,
em 14 de maio de 1956, onde ele estabelece: “sem ideologia do
desenvolvimento não há desenvolvimento nacional”.
No livro de 1960, o
filósofo estuda duas formas gerais de consciência: a “consciência ingênua”,
aquela que concebe a realidade sem perceber que ela própria é condicionada por
essa realidade; e a “consciência crítica”, que concebe a realidade pela crítica
do próprio condicionamento imposto por essa realidade.
Na sua formulação:
“Para a mentalidade ingênua a nação é coisa que ‘já
existe’ e precisamente existe enquanto coisa. Está feita, sua realidade é
completa, ainda que admitindo-se que sofra modificações ao longo da história.
(...) Ora, o que a consciência crítica desvendará é justamente o oposto: é a
minha atividade que torna possível a existência da nação. A nação não existe
como fato, mas como projeto. Não é o que no presente a comunidade é, mas o que
pretende ser, entendendo-se a palavra ‘pretende’ em sentido literal, como ‘pre-tender’,
tender antecipado para um estado real. (…) A comunidade constitui a nação ao
pretender ser, porque é assim que a constitui no projeto de onde deriva a
atividade criadora, o trabalho. A nação resulta, pois, de um projeto da
comunidade, posto em execução sob a forma de trabalho”.
Esta citação de
“Consciência e Realidade Nacional” foi escolhida, com extrema felicidade, pelos
editores como epígrafe de “O Conceito de Tecnologia”. Realmente, não
poderia haver epígrafe mais essencial.
Em uma obra
posterior, “Ciência e Existência”, de 1979, Álvaro Vieira Pinto dirá: “Para o
país que precisa libertar-se política, econômica e culturalmente das peias do
atraso e servidão, a apropriação da ciência , a possibilidade de fazê-la não
apenas por si mas para si, é condição vital para a superação da etapa da cultura
reflexa, vegetativa, emprestada, imitativa, e a entrada em nova fase histórica
que se caracterizará exatamente pela capacidade, adquirida pelo homem, de tirar
de si as ideias de que necessita para compreender a si próprio tal como é e para
explorar o mundo que lhe pertence, em benefício fundamentalmente de si mesmo”.
Nessa obra, ele
também formularia: “a criação de uma sociedade justa e humana é o objetivo
imediato, final, incondicionado, para o qual o pesquisador tem de contribuir com
seu trabalho de estudo e descoberta”.
Álvaro Vieira Pinto
era, profissionalmente, médico, professor e pesquisador na Faculdade Nacional de
Medicina. No entanto, estudou física e matemática na antiga Universidade do
Distrito Federal, cujo reitor, Alceu Amoroso Lima, nomeou-o professor de lógica
matemática – a primeira cadeira do país nessa disciplina. Logo, estava
lecionando a mesma matéria na Faculdade Nacional de Filosofia, e, em 1945,
tornou-se titular de História da Filosofia.
Em 1955, quando o
ISEB é fundado, Roland Corbisier convida Álvaro Vieira Pinto para chefiar o
departamento de filosofia do instituto.
Quando, em dezembro
de 1958, Hélio Jaguaribe forçou uma cisão pela direita no ISEB – sua proposta,
já naquela época, era que o “nacionalismo da atualidade” incluísse a
privatização de setores estratégicos, como a petroquímica - Álvaro Vieira Pinto
não teve dúvida sobre de que lado ficar.
Como lembra Caio
Navarro de Toledo, em seu último e mais profícuo período, o ISEB “esteve sob
a direção política e intelectual do filósofo Álvaro Vieira Pinto (….) e do
historiador Nelson Werneck Sodré”. O mesmo autor observa que “em
contraposição aos cientistas sociais da USP – avessos e contrários ao
engajamento político –, os isebianos sintonizavam-se com a dinâmica das lutas
sociais e políticas presentes na sociedade brasileira dos anos 1950 e 1960”,
uma avaliação que Paula Beiguelman, advinda da USP, mas completamente oposta ao
espírito dominante nesta universidade, confirmaria plenamente, até por ser
exceção.
Certamente, esse
compromisso do ISEB com a nação e o povo brasileiros fizeram com que, após 64,
ele se tornasse um dos principais alvos da perseguição reacionária e
entreguista. Além do fechamento e de um estúpido inquérito - o “IPM do ISEB”, a
que seus integrantes foram arrastados - a sede do instituto “foi objeto da
sanha golpista. Nos dias seguintes à ‘revolução’ vitoriosa, a biblioteca, os
arquivos e os móveis da sede do Instituto foram destruídos. (….) através do ato
de vandalismo, a inteligência era repudiada e o pensamento crítico passaria a
ser reprimido no país por mais de 20 longos anos” (Caio Navarro de Toledo,
“50 anos de fundação do Iseb”, Jornal da Unicamp, 8 a 14/08/2005).
Álvaro Vieira Pinto,
cassado pelo primeiro dos atos institucionais, trilhou o caminho do exílio.
Porém, em dezembro de 1968, voltou ao Brasil. Dias depois, outro ato
institucional fecharia a vida pública por alguns anos. O filósofo se sustentaria
com traduções, feitas sob pseudônimo. Publicou, depois, alguns trabalhos
importantes. Porém, “O Conceito de Tecnologia” teria que aguardar mais de 30
anos para ser publicado.
Esta é uma pequena
coletânea do pensamento de Álvaro Vieira Pinto. Não ficaremos por aqui, o leitor
pode ter certeza. Outras virão. Dedicamos esta a Werner Rempel – sem o seu
esforço e dedicação, Werner, seria impossível, a nós, contribuir para a
recuperação da obra e da memória de Álvaro Vieira Pinto.
CARLOS LOPES
“O
filósofo do país periférico, existencialmente, não está em face do Nada, mas do
Tudo que há por fazer diante do mundo que é seu”
ÁLVARO VIEIRA
PINTO
“O papel dos
filósofos pertencentes ao meio subdesenvolvido na compreensão de seu mundo, das
razões de tal estado e na proposta de rumos e ações políticas e culturais
transformadoras da realidade ambiente é decisivo. Para isso, porém, faz-se
mister, antes de tudo, compreenderem o que significa ser filósofo no país pobre
e dependente. A primeira exigência consiste em admitir que não pode significar a
mesma coisa ser filósofo no país desenvolvido, dominador e autônomo e no que
ainda vegeta no subdesenvolvimento, na ignorância do saber letrado e na carência
de soberania e capacidade de definição e direção de seu processo de existência
enquanto ser histórico particular. No mundo subdesenvolvido e na maior extensão
analfabeto, o filósofo, para pensar autenticamente a realidade, precisa ser
analfabeto. Não que, evidentemente, ignore a habilidade de ler e escrever – mas,
sabemos bem não ser exclusivamente esta falta que constitui o analfabetismo -, e
sim porque coloca em primeiro lugar, na tentativa de conceber e interpretar o
mundo, as condições reais dele, entre as quais se inclui a de ser um mundo de
analfabetos. Considerará a acumulação da cultura estranha e as diversas
cogitações, passadas e presentes, conhecidas pelo estudo dos livros, uma fonte
subsidiária, embora indispensável, para a formação da consciência de si. Mas
terá de aprender muito mais com o que vê do que com o que lê. A consciência
filosófica só será legítima se explicar o estado do seu meio, não por um reflexo
passivo exterior, mesmo verídico, mas pela apreensão da essência do ser social
do qual o pensador é parte. O filósofo tem de identificar-se com as massas
analfabetas, constituir a figura aparentemente paradoxal do analfabeto
alfabetizado, para alcançar as bases nas quais fundar seu pensamento com máximas
possibilidades de legitimidade. Tal como têm sido redigidos até hoje os poucos,
confusos e irrelevantes ensaios designados no país atrasado pelo nome de
“filosofia”, são uma modalidade de alienação cultural em forma praticamente
pura. O filósofo, não tendo nada de próprio a pensar, satisfaz-se em respirar os
zéfiros divinos provenientes das regiões ocidentais cultas, ricas, pensantes por
direito natural. Algumas consequências bizarras, e até cômicas, derivam desta
situação. No país subdesenvolvido, o filósofo, como só registra o que foi
pensado e dito nos centros metropolitanos, pode ser chamado de tabelião de
ideias. A cultura, em conjunto, constitui o cartório dos conhecimentos alheios.
Obrigado a colecionar e registrar os produtos do pensamento de origem externa, o
filósofo na verdade nunca chega a ser escritor; não passa de escrevente.
Realmente, não escreve, porque não consegue ter nada de original para deixar
escrito. Apenas lavra uma escritura do que os outros, os sábios estrangeiros,
declaram perante ele. No país subdesenvolvido é impossível o surgimento de
verdadeiros livros de filosofia. A verdade não consiste na descoberta de algum
novo aspecto de ser, mas na fidedignidade das cópias e traslados dos documentos
recebidos. A cultura é o conjunto dos registros dos bens intelectuais fielmente
reproduzidos, fabricados por pensadores de fora e apenas adquiridos por nativos
com especial inclinação e suficiente tempo vago para se dedicarem a este gênero
de dissipação espiritual. Não é preciso acrescentar que fazem dessa prerrogativa
um valioso título de destaque social. A alienação torna-se o melhor sinal da
capacidade intelectual. Brilha com mais nitidez esse papel egrégio se o
estudioso não se limitar à exclusiva atividade manducadora, mas se revelar um
legítimo expoente do meio desprovido de autoconsciência, engendrando livros,
artigos de toda espécie de publicações destinadas a difundir o pensamento dos
outros, o que é feito com grande satisfação pelos ressoadores indígenas, pois
com esses documentos fica comprovado em registro com fé pública seu convívio com
a ciência, as letras e as artes”.
(“O Conceito de
Tecnologia”, pág. 45)
“A consciência
humilde não é menos rica de conteúdo do que a presunçosa, que se julga mais
competente porque acredita ver mais longe. A identificação corrente de
consciência pobre com posição social humilde é totalmente errônea. O homem do
povo, especialmente o trabalhador manual, em virtude da sua posição, está
habilitado a ter uma percepção da realidade que não é menos valiosa, menos
expressiva, que a dos representantes das classes dominantes; é apenas outra. Não
é, portanto, pelo diâmetro do horizonte a que se estende que se deve avaliar o
grau de representatividade da consciência da realidade nacional. Parece-nos que
a definição desse grau terá de ser buscada na maneira como a consciência se
representa os fatores que a condicionam, na maior ou menor clareza com que
inclui na conceituação de um fato objetivo a percepção simultânea das condições
e influências que a determinam nesse ato a proceder como procede”.
(“Consciência e
Realidade Nacional”, pág. 24)
“O desenvolvimento
nacional não é do tipo vegetativo. O país não evolui como os organismos, que
retiram do meio alimentos que assimilam para crescer. A analogia do processo do
desenvolvimento nacional com o crescimento orgânico é limitada e aproximativa. O
crescimento orgânico produz-se segundo leis biológicas precisas para o tipo
vital em questão; seu curso está sujeito a estrito determinismo cronológico; se
condições adversas o perturbam, o resultado será finalmente o perecimento, sem
possibilidade de estagnação permanente ou atrofia indefinida. Já o país cresce
num ambiente sem homogeneidade histórica, onde há nações em graus diversos de
desenvolvimento, as mais fortes exercendo pressões e influências retardadoras
sobre as mais fracas, constituindo assim, um ‘meio’ onde a nação em
desenvolvimento deve lutar não contra o determinismo natural uniforme em relação
ao qual, como acontece com os seres vivos, está adaptada, mas contra atos
insidiosos de concorrência e espoliação estrangeira”.
(“Consciência e
Realidade Nacional”, pág. 29)
“...o processo do
desenvolvimento apresenta-se como resultado do esforço coletivo, cujo rendimento
em cada fase depende, em elevado grau, dos fatores ideológicos que o
impulsionam. Ora, podendo-se, na prática, tomar a estes como expressos pela
modalidade dominante de autoconsciência comunitária, vemos que, na verdade, o
processo do desenvolvimento nacional é função da consciência que a
nação tem de si mesma”.
(“Consciência e
Realidade Nacional”, pág. 30)
“Chegamos, assim, a
precisar um aspecto do conceito de ideologia implícito nas considerações
anteriores, mas que convém destacar: o caráter objetivante da ideologia. A
consciência se desenvolve ao real na forma de projeto de modificá-lo. Com
efeito, sem assumir feição ideológica e sem tornar clara sua intenção
objetivadora, a consciência é inoperante. A simples representação não contém
forças criadoras, porque se esgota na imagem mental, se encerra na
subjetividade, que, sendo privada, não provoca impulsos transformadores
coletivos. Para que isto aconteça, é preciso a intervenção de outra espécie de
fatores anímicos, os volitivos. É justamente quando a representação concreta do
dado real se associa ao ímpeto da vontade que propõe a transformação desse dado,
que se realiza na imaginação, graças à fusão do aspecto intelectual com o
volitivo, a visão do estado futuro, de um “a fazer”, cuja apreensão plenamente
consciente é o projeto, que se constituirá em núcleo da ideologia do
desenvolvimento”.
(“Consciência e
Realidade Nacional”, pág. 44)
“A análise da
estrutura epistemológica da ideologia do desenvolvimento leva-nos a descobrir
que a consciência da realidade nacional, que nela se desenha, não se identifica
com o ato apreensivo, a mera reprodução subjetiva, mas é, a um só tempo,
elaboração dessa representação e desejo de intervir ativamente no estado do real
percebido”.
(“Consciência e
Realidade Nacional”, pág. 45)
“O filósofo do país
periférico não goza da disponibilidade de interpretar o mundo segundo lhe
aprouver; nem tem sentido em relação a ele dizer-se que é sujeito à angústia de
uma liberdade que não sabe a que se aplicar. Não sofre a vertigem diante do
destino abscôndito, o sentimento de culpa da própria finitude, a náusea em face
do Nada, simplesmente porque para ele não há o Nada, há o Tudo.
Existencialmente, é um homem em face do Tudo. Do Tudo quanto está por fazer no
mundo que é o seu”.
(“Consciência e Realidade Nacional”, pág. 65) |