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Eleições no Líbano:
compra de votos e ingerência dos EUA
Nas recentes eleições parlamentares no Líbano a coligação 14 de março,
liderada pelo filho do ex-ministro Rafik Hariri, Saad Hariri, que teve apoio
dos EUA, da França e outros países da Europa, além da Arábia Saudita, obteve
71 cadeiras contra 58 obtidas pela coligação 8 de março, liderada pelos
partidos Hezbollah, Frente Patriótica Livre e AMAL.
Ao contrário do que buscou informar a mídia predominante nos EUA e sua
seguidora no Brasil, a vitória dos respaldados pelo governo dos EUA não
significa que a maioria dos eleitores libaneses os apoiou. A coligação que
incluía o Hezbollah teve mais de 100 mil votos sobre os obtidos por seus
oponentes.
A maioria parlamentar com minoria de votos foi possível por conta da
pré-definição do número de cadeiras de acordo com composição religiosa nas
28 circunscrições do país, como esclarece Marie Nassif-Debs, relações
internacionais do Partido Comunista Libanês.no artigo “As eleições
legislativas libanesas”.
Esta divisão tem por base o censo demográ-fico de 1989 já superado. Por
este, xiitas, com 873 mil eleitores registrados, assim como sunitas, com 842
mil eleitores, puderam eleger 27 deputados cada grupo. Já os cristãos
maronitas, com 697 mil eleitores, levaram ao parlamento 34 deputados.
Essas e outras distorções permitiram aos pró-ocidentais manter uma maioria
apesar do desgaste que a paralisia de suas forças demonstrou durante o
ataque de Israel, enquanto o Hezbollah, o AMAL e a Frente Patriótica tiveram
comportamento heróico e expulsaram os invasores, impondo-lhes dezenas de
baixas.
As eleições deste 9 de junho ocorreram após um dos períodos mais tensos já
vividos pelo país, que teve início com o assassinato do primeiro-ministro
Rafik Hariri, em fevereiro de 2005, em atentado a bomba que destruiu seu
carro; seguido pela invasão por parte de Israel em julho de 2006 e, já em
2008, a ocupação de Beirute pelos militantes do Hezbollah que impediu a
instalação no país de um tribunal imposto pelos EUA para culpabilizar a
Síria, romper os laços fraternos entre os dois países, e deixar o Líbano à
mercê de Israel.
A frente patriótica que se apresentou nestas eleições com a integração do
ex-general cristão maronita, Michel Aoun, foi forjada nesta jornada de
mobilizações populares e resistência.
Cresceu quando a Síria, desmontou as forjarias envolvendo os sírios no
atentado a Hariri, que contavam com apoio de potências estrangeiras:
inclusive a testemunha principal dos acusadores era um sírio que assumiu, na
TV, haver traído o país por dinheiro.
DECLARAÇÃO PROFÉTICA
Na época, o presidente sírio, Bashar Al Assad, destacou que os interessados
em matar Hariri e botar a culpa na Síria eram norte-americanos (então sob
comando de Bush) e israelenses.
Declaração profética, pois apenas alguns meses depois dos sírios se
retirarem, a pedido do governo do Líbano, Israel, crendo que este seria
presa fácil, bombardeou todo o território do país. Não contavam com heróica
resistência comandada pelo Hezbollah.
Fracassada a aventura da invasão, a submissão do Líbano foi tentada por meio
de um tribunal “internacional” em Beirute, com consentimento do governo
local, com “juízes” impostos pelos EUA com diretivas claras de inculpar a
Síria. Novo fracasso: uma gigantesca mobilização paralisou o país, até a
suspensão do tribunal e a recomposição do governo libanês como um governo de
união nacional e a condução do dirigente do exército libanês, general Michel
Sleiman, à presidência do país.
O exército libanês foi montado com apoio do da Síria e com Sleiman no
governo as relações com a Síria voltaram a se normalizar e tiveram melhora
constante. Outra exigência de Washington e Tel Aviv – o desarmamento do
Hezbollah – também deu chabu. Exemplo disso são as declarações do líder
druzo, Walid Jumblatt, cujo partido obteve 8 cadeiras na coligação apoiada
pelos EUA, de que “a Resistência deve poder manter suas armas até que esta,
num futuro passe a integrar o conjunto do exército libanês”. Jumblatt, que
em outros momentos já integrou o pólo patriótico, passou a considerar uma
maior aproximação com a Síria. Assim, essa maioria obtida pela coalizão 14
de Março, é instável. Se Jumblatt muda de lado, a coligação patriótica
passaria a contar com 65 votos contra 63 e a poder fazer o governo, como
informa Esam Al-Amin, em matéria divulgada no site da Frente Patriótica
Livre de Michel Aoun.
O próprio Aoun esteve perto de obter um número de cadeiras que já poderia
ter resultado na correlação favorável à 8 de Março. Foi preciso a ingerência
do vice-presidente dos EUA, Joe Biden, em um comício em Beirute, para deter
esse deslocamento. Ele ameaçou cortar ajuda de US$ 1 bilhão: “avaliaremos a
dimensão de nossos programas de assistência com base na composição do novo
governo e nas políticas que advogar”. Chantagem repetida pelo ex-embaixador
Jeffrey Feltman: “Acho que os libaneses são suficientemente inteligentes
para compreender que isso[resultados eleitorais adversos aos EUA] afetará as
relações, e não acreditarão quando o Hizbollah fala o contrário”.
A coalizão 8 de Março também comprou votos. Como a lei libanesa só permite
que os cidadãos com residência no exterior votem se estiverem no país no dia
da votação, o candidato milionário Saad Hariri, com dinheiro próprio e
saudita, pagou a passagem de 120 mil libaneses residentes no exterior.
Avalia-se que 75% destes votos foram para sua coligação.
Para finalizar, o Hezbollah, ao contrário do que se disse por aqui, mostrou
força total ao obter vitórias avassaladoras nas 11 circunscrições onde
lançou candidatos. Abriu mão de lançar em outras localidades para favorecer
seus aliados nos demais partidos.
NATHANIEL BRAIA
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