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A ação das multinacionais no
Brasil: saque e pilhagem
ALTAMIRO BORGES*
Em tom triunfalista, a revista
IstoÉ Dinheiro desta semana publicou reportagem que atesta que o Brasil se
tornou um apetitoso atrativo para o capital estrangeiro. “As maiores
multinacionais do mundo vêem no Brasil a oportunidade de driblar a crise e obter
aqui lucros que não conseguem lá fora”, relatam os jornalistas Amauri Segalla e
Hugo Cilo. As razões deste aparente “sucesso” são contraditórias. Por um lado,
indicam que o país está crescendo, com “advento de uma nova massa de
consumidores – que subiu de patamar graças ao aumento médio da renda da nação”.
O Brasil estaria hoje em melhores condições para enfrentar a grave crise
mundial, acelerada a partir de setembro do ano passado, que está afundando as
principais economias capitalistas.
Por outro lado, as multinacionais se aproveitam da ausência de regras para
explorar as riquezas nacionais e remeter os lucros às suas matrizes. Elas não
têm qualquer compromisso com a nação e o povo brasileiro. O que elas desejam,
como aponta acriticamente o artigo, é “ganhar uma boa soma de dinheiro por
aqui... As maiores empresas do mundo descobriram no Brasil um jeito de driblar a
crise e retirar da operação brasileira os lucros que não conseguem em nenhum
outro lugar”. Na lógica da divisão internacional do trabalho, os conglomerados
dos países imperialistas aproveitam as facilidades existentes para saquear o
país e explorar sua força de trabalho barata.
“O fenômeno da nova classe C”
Como prova de que o Brasil se tornou um paraíso das multinacionais, a reportagem
apresenta os balanços do primeiro trimestre de várias empresas estrangeiras. Um
dos casos registrados é o da Nívea, uma das maiores fabricantes mundiais de
cosméticos e produtos de beleza. As vendas da multinacional alemã no país
cresceram 17,4% nos primeiros meses deste ano, o melhor resultado entre os 150
países em que atua. Mundialmente, o faturamento do grupo caiu 0,5%. Na Europa,
seu desempenho foi ainda pior – queda de 7,2%. “O Brasil é uma surpresa para o
mundo”, festeja Nicolas Fischer, comandante das operações da subsidiária
brasileira. A multinacional adotou, inclusive, novas estratégias de venda, como
o lançamento de produtos para a chamada Classe C.
“O fenômeno da nova Classe C – uma legião de 20 milhões de potenciais
consumidores surgidos nos últimos cinco anos – turbinou os resultados de
inúmeras multinacionais que atuam no Brasil. A dinamarquesa Lego, uma das
maiores e mais tradicionais fabricantes de brinquedos do mundo, diminuiu o preço
de seus artigos justamente para chegar a esse público. A decisão revelou-se
acertada. No Brasil, as vendas da companhia crescem a uma taxa média de 15% ao
ano, o dobro da média mundial... Algo parecido se deu com a Mapfre, uma das
maiores seguradoras do mundo. A partir de setembro, quando a crise explodiu, a
empresa lançou uma linha de produtos populares, por acreditar que esses
consumidores seriam menos atingidos. O resultado veio rápido. ‘Nosso faturamento
cresceu 22% nos primeiros quatro meses do ano’, diz o presidente Antonio Cássio
dos Santos. Isso, vale lembrar, em tempos de crise”, registra a eufórica
matéria.
Total liberdade de ação
Além do balanço contábil das multinacionais, a reportagem também destaca vários
indicadores do crescimento do país. Segundo os últimos dados do IBGE, as
empresas voltaram a contratar. A indústria paulista, a mais forte do país,
aumentou a produção nos últimos meses. “Se no exterior as grandes economias
projetam quedas brutais no PIB, o governo estima uma alta de pelo menos 1% na
riqueza nacional em 2009”, aposta suas fichas a “revista de negócios do Brasil”.
Ela cita ainda um relatório recente da Agência das Nações Unidas para o Comércio
e Desenvolvimento (Unctad). Ele mostra que, de 2007 a 2008, a entrada de
investimentos estrangeiros diretos no país cresceu 30%. No mesmo período, a
movimentação de recursos externos caiu 15% no mundo.
Segundo a IstoÉ Dinheiro, “a percepção de que o país vem consolidando posição de
destaque no tabuleiro dos investimentos está próxima do consenso”. Ela lembra
que nos anos 80, metade das 500 maiores multinacionais do planeta operava no
país. Atualmente, 430 destas 500 possuem um tentáculo brasileiro. “O Brasil se
tornou um dos poucos lugares do mundo onde as empresas, independentemente de seu
segmento, podem definir o tamanho que desejam ter e quanto pretendem crescer”,
explica Ivan Zurita, presidente da subsidiária brasileira da suíça Nestlé. Em
síntese, “o Brasil virou mesmo o paraíso das multinacionais”, comemora a
revista.
* É jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate
Sindical e autor dos livros “Venezuela: originalidade e ousadia” e
“Sindicalismo, Resistência e Alternativas”. |