|
Escândalos de prateleira
LUIS NASSIF (*)
Já escrevi algumas vezes sobre o modelo
político-midiático brasileiro. Esse episódio do Senado vem apenas comprovar.
Tem-se um escândalo de 14 anos. Nesse período
todo, o Senado foi coberto diariamente por jornalistas especializados dos
principais jornais. Segundo o Estadão de hoje, os atos secretos beneficiaram 37
senadores, entre os quais o Pedro Simon, Demóstenes Torres, além de Renan,
Sarney e companheiros, Delcídio e Augusto Botelho, do PT.
Esses episódios, além dos esquemas de
terceirizações da casa (a propósito, investiguem como são as terceirizações em
todos os grandes órgãos públicos federais e estaduais) são velhos conhecidos dos
jornalistas.
Mas ficam pendentes, não são usados enquanto não
têm utilidade. Quando interessa ao jogo político da mídia, vai-se na gôndola do
Supermercado de Escândalos e saca-se aquele que melhor se adequa ao momento.
Neste caso específico, o objetivo evidente não é o de moralizar a casa, caso
contrário não teriam deixado passar em branco 14 anos de irregularidades: é
desestabilizar politicamente o país.
Significa que Sarney deve ser poupado? Longe
disso. Mas ele foi atacado pela Polícia Federal ligada a José Serra na Operação
que flagrou os recursos de campanha de Roseana Sarney - porque interessava à
candidatura Serra. Depois, poupado do escândalo Cemar, porque na outra ponta os
beneficiários eram grandes fundos de investimento. Foi inicialmente poupado no
caso Gautama, porque naquele momento atirar nele não interessava a ninguém. Está
sendo atacado de todas as formas agora, inclusive pelo caso Gautama, porque
interessa à candidatura Serra.
Não interessa discutir mudanças radicais que
eliminem de vez essas aberrações e essa falta de controle.Esses escândalos
reiterados são a pulguinha no umbigo do fazendeiro (lembrando a história do
médico que formou o filho graças à pulguinha que atormentava o fazendeiro, seu
cliente e que, por isso mesmo, não poderia ser morta).
São características que fortalecem a mídia, que
lhes dá poder. Essas aberrações institucionais permitem ao editor escolher o
caso que quiser, escândalo grande, pequeno ou factóide, e dar-lhe o tratamento
que desejar. E, como disse o diretor de redação do Estadão, a edição é um dos
pressupostos da liberdade de imprensa.
Se submetida à mesma lente, por exemplo, não
escaparia a Assembleia Legislativa de São Paulo, a Câmara de Vereadores, os
serviços terceirizados. E, provavelmente, de nenhum outro estado. Mas são
escândalos potenciais, que ficam na gôndola aguardando o momento que mais
interessar ao jornal. Ou, como uma espada de Dâmocles sobre os governantes,
tornando-os mais permeáveis, por exemplo, à venda de publicações pagas com as
verbas da Educação - o novo grande veio descoberto pelos grandes grupos de
mídia.
Evidentemente não tem santo nessa história. Mas,
se tivesse que colocar alguma hierarquia, não incluiria os senadores no início
da fila.
(*) Extraído do
blog do jornalista
|