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A reunião (do
Copom) terá que ser televisionada
É preciso um
novo jornalismo capaz de revelar que forças são estas que estão sabotando os que
trabalham, sabotando o pequeno empresário, sabotando o agricultor familiar,
sabotando a aplicação criativa e produtiva de recursos empoçados, estagnados e
esterilizados em títulos da dívida pública
BETO ALMEIDA*
“...a dor da
gente não sai no jornal”
(Luiz Reis e Haroldo Barbosa)
Apesar do presidente Lula pregar a redução dos juros
praticamente todos os dias, apesar do vice-presidente José Alencar reclamar
diuturnamente que “o nosso discurso de campanha de 2002 ainda não chegou ao
poder”, forças aparentemente misteriosas e supostamente sobrenaturais fazem com
que o Brasil ainda tenha a mais elevada taxa de juros do mundo. O que acontece
de fato? Inspirado no título do excelente documentário “A revolução não será
televisionada”, reivindicamos aqui que o palco onde estão sendo tomadas
todas as decisões para manter os juros nas alturas - a Reunião do Comitê de
Política Monetária - precisa ser iluminado, precisa ser escancarado à opinião
pública, precisa ser didaticamente televisionado.
É passada a hora de
revelar com clareza e sem subterfúgios de um economês propositalmente
indecifrável quais são estas forças que estão sabotando o presidente e o
vice-presidente. É preciso um novo jornalismo capaz de revelar que forças são
estas que estão sabotando os que trabalham, sabotando o pequeno empresário,
sabotando o agricultor familiar, sabotando a aplicação criativa e produtiva de
recursos empoçados, estagnados e esterilizados em títulos da dívida pública. É
preciso que a televisão cumpra o seu papel social de esclarecer o papel
anti-social e anti-nacional dos que sabotam e impedem a aplicação deste crédito
empoçado na geração de empregos, seja construindo casas, estradas, hospitais,
ferrovias, ou fabricando roupas, sapatos, móveis e utensílios domésticos que as
enxurradas levam a cada nova chuvarada. Enfim, quando será que esta maravilhosa
tecnologia que é a televisão terá o uso didático e educativo para -
televisionando a Reunião do Copom - revelar quais são os que defendem os juros
altos, com o seu linguajar enrolado, sua insensibilidade de grande organizador
das derrotas do mundo do trabalho, levando a pequena produção à falência, as
cooperativas à paralisia, os assentamentos da reforma agrária ao desesperante
beco sem saída e toda uma geração sem rumo para o crime? Quem é o maior
criminoso? Uma juventude proibida de trabalhar e tangida para a prisão ou os que
produzem as políticas que levam toda uma geração para o crime e a prisão?
Que estupendo efeito político teria sobre a
sociedade brasileira a simples colocação na tela, e com explicações didáticas e
compreensíveis sobre economia, de todos os que impedem que este país saia da
crise pela via da produção de bens do consumo necessário, ao invés de
criminosamente fazer rodar apenas a especulação estéril que tão somente cria uma
república dos rentistas - a dos que enriquecem sem trabalhar - e a outra, a dos
que trabalham e produzem escravizados pelos rentistas, ou gostariam de trabalhar
e de produzir, se esta oportunidade não estivesse sendo criminosamente sabotada
na cara de todos nós! Afinal, para que serve tanta televisão?? Afinal, para que
serve uma tv pública?
TÉCNICO E
POLÍTICO
Observa-se toda uma
tentativa dos meios de comunicação capturados pela tirania vídeo-financeira
privada de desmoralizar algumas das tímidas mas acertadas medidas de Lula para
facilitar o acesso ao crédito, para baixar os juros, para estimular a produção.
Durante seis anos de governo, apesar da chiadeira diuturna e militante do
vice-presidente José Alencar denunciando os juros altos como sabotagem à
produção e à geração de emprego, apenas muito suavemente se observa uma redução
parcial nos juros. Mas, as resistências são gigantescas. Os comentaristas da
tirania vídeo-financeira - os mesmos que recomendaram as políticas neoliberais
de estado mínimo e desregulamentação que levaram à crise do capitalismo atual -
agora tentam esconder sua responsabilidade incontornável pela crise fugindo para
a frente. Um verdadeiro tom de campanha é o que vemos no tratamento nada
jornalístico sobre a recente demissão do presidente do Banco do Brasil,
apresentada como se fosse uma temerária intervenção política de Lula numa
instituição financeira que “está dando certo”. Ora, dando certo para quem se o
banco público, desafiando Lula e José Alencar, chegou a praticar os mais
elevados juros do mercado? Dando certo para quem, cara pálida? Tenta-se passar a
idéia de que baixar juros é voluntarismo político, ao mesmo tempo indicam que
juros altos é responsabilidade técnica. Seria esta a única alternativa que não
merece qualquer crítica. Ora, por que elevar os juros às alturas não é também
uma clara opção política pela especulação, pelo rentismo que enriquece ricos,
uma clara escolha contra os que querem créditos para a produção??? Isto é opção
política sim, e opção preferencial pelos ricos!!!
O ECONOMÊS
INDECIFRÁVEL
Se a televisão
simplesmente colocasse este tema em debate - hoje há nas telas apenas a defesa
da tese subliminar de que juros altos é prova de responsabilidade técnica e que
juros baixos é populismo e intervencionismo político - já seria uma enorme
contribuição para elevar a compreensão na sociedade brasileira sobre quem são os
que querem produzir e quais os que querem manter o dinheiro empoçado,
esterilizado e rodando apenas a especulação financeira para enriquecer os já
ricos. Por exemplo, se a tv cumprisse sua função pública definida na
Constituição e veiculasse todas as opiniões em torno da decisão
governamental de reduzir o superávit primário, sobretudo aquelas que estão
vedadas atualmente nas telinhas, como o argumento de que com uma maior aplicação
de recursos na produção, em obras públicas, deverá trazer efeitos concretos e
benéficos seja lá nos grotões mais isolados da sociedade brasileira e até ao
mais simples pipoqueiro ou vendedor de bandeirolas nos estádios de futebol, já
seria uma relevante contribuição prática para a democracia da informação.
Superemos as discussões conceituais intermináveis, pratiquemos democracia
informativa. Este argumento hoje não é veiculado, não circula, é sonegado pela
tv privada.
Também é preciso
divulgar que a redução do superávit primário permitirá, por exemplo, aumentar em
15 bilhões o volume de investimentos da Petrobrás no Pré-Sal, na construção de
novas refinarias. Debatamos: que efeitos isto trará na indústria naval, no
fortalecimento do poder aquisitivo dos trabalhadores, nos índices de emprego
formal, na arrecadação da previdência, no comércio de bens da indústria leve?
Esta é a missão pública da televisão. Antes desta decisão - sim, de verdade uma
decisão política de Lula - estes recursos ficavam esterilizados no superávit
primário. Entrevistado pela TV Globo sobre o tema, um “especialista”, destes
sempre convidados para defender redundantemente a mesma tese, definiu
candidamente porque a redução do superávit primário não era medida recomendável:
“isso pode gerar intranquilidade nos credores externos”. Quais credores
externos ficariam intranquilos? Os que estão indo à bancarrota nos EUA? Os que
estão pregando novo calote no sistema financeiro internacional através da
impressão (não emissão) de mais dólar furado, moeda sem lastro, papel pintado,
mas com capacidade de comprar uma riqueza real, não fictícia, como a Vale do Rio
Doce ou ações da Petrobrás????
É de se lamentar que
não tenhamos uma televisão com a decisão suficiente para fazer cumprir o direito
dos brasileiros à informação plural, diversificada, com caráter educativo como
estabelece a Constituição. Ontem mesmo, reconstruída a bancada das Meninas do
Jô, uma delas chegou a sentenciar “Este país acabou!!!”. Não se ouviu uma
crítica sequer ao epicentro da crise que está no coração do capitalismo, os EUA,
país que estes “comentaristas” têm como modelo. Aliás, ouvimos ontem na CBN uma
pérola analítica sobre a redução do superávit primário no Brasil: aqui esta
medida é temerária, dizem eles, porque aqui se dá calote (mas o Brasil não pagou
a dívida com o FMI?), mas nos EUA é diferente porque, segundo os dois
comentaristas, “lá trata-se de um endividamento sério e responsável”. Será que
não viram o presidente chinês advertindo os EUA para que honrem sua monumental
dívida financeira com a China? Endividamento sério e responsável com a
impressão de papel moeda sem lastro que a economia mundial tem que aceitar? Por
que o Brasil não poderia emitir moeda a partir de riqueza real, o petróleo
pré-sal, o urânio, a maior jazida conhecida de nióbio do mundo???? Aí seria
populismo, intervencionismo político na economia?!!! Nunca estes outros ângulos
ganham espaço para a discussão democrática na televisão capturada pela ditadura
do mercado, que impõe o seu “dirigismo editorial de pensamento único”.
Enquanto na Globo se
recompõe a bancada das Meninas do Jô, permitindo prever o que vem por aí - uma
espécie de reedição da campanha do mensalão que tentou em vão impedir a
reeleição de Lula - a TV Brasil, no mesmo horário, parecia estar em outro país,
estava exibindo o Sem Censura reprisado, com uma dupla caipira e um apresentador
do Fantástico falando de suas viagens pelo mundo. Convenhamos, é um desperdício
de oportunidades. Por que não realizar com a frequência gritantemente necessária
mesas de debate ao vivo, com a participação do público, convidando todas as
vozes normalmente proscritas nas emissoras da tirania vídeo-financeira??? Quem
proíbe? Quem não se anima? Os mesmo que sabotam o discurso de Lula e de José
Alencar a pregar no deserto, por mais de 6 anos, a queda dos
juros???
A FUNÇÃO DA
TV E DOS BANCOS PÚBLICOS
É hora de audácia. A
mesma audácia presente na determinação do presidente Lula em retirar o Banco do
Brasil do esquema de sabotagem aos que querem produzir e trabalhar, mudando seu
presidente e sua orientação, deveria estar presente também na TV Brasil, que
pode muito bem inaugurar um novo jornalismo. Um jornalismo que faça o
contraponto democrático a este que predomina nas emissoras prisioneiras da
tirania vídeo-financeira, repetindo no plano comunicacional a mesma concepção
que rege a fraude monetária especulativa que levou o mundo à crise econômica
atual. Moeda sem lastro, moeda falsa, moeda fictícia, acompanhada de informação
que não revela o potencial do mundo do trabalho, do mundo da produção e constrói
uma realidade falsa, normalizando a especulação, na qual qualquer outra visão
que proponha uma revolução produtiva é liminarmente excluída de divulgação, é
sonegada, e, sem direito de defesa, taxada de intervencionismo político no mundo
financeiro, de populismo. A partir daí, resta apenas a sacrossanta opção,
igualmente política, de que responsabilidade fiscal e financeira só e somente só
é possível com os juros altos. Paralela à fraude monetária, ocorre uma fraude
midiática. Elas se realimentam.
Que tal colocarmos
tudo isto em debate, afinal já estamos há 45 anos do golpe militar de 1964? Que
tal revelarmos as forças nada sobrenaturais ou misteriosas que na Reunião do
Copom, protegidas pelo linguajar economês impenetrável, continuam a defender,
apesar do colapso do capitalismo, os indecentes privilégios dos banqueiros que
recusam a aplicação dos recursos na produção e geração de emprego e renda? Que
tal inaugurarmos o debate sobre a função dos bancos públicos que poderiam seguir
de fato a orientação do presidente da república e do seu incansável
vice-presidente e terem, finalmente, audácia de colocar em prática o discurso da
campanha de 2002? Que tal ampliarmos mais ainda o debate sobre o papel da
televisão, sobretudo sobre a obrigação das emissoras de cumprirem a função
pública inscrita na Constituição? Por que a reunião do Copom não pode ser
televisionada se ali são tomadas decisões que levam milhões e milhões de
pequenos empresários, pequenos agricultores à falência e à ruína e se ali são
inviabilizados, com uma simples canetada baseada em pesquisas encomendadas pelos
próprios bancos (Pesquisa Focus) inúmeros projetos de emancipação nacional? Não
será um direito constitucional do povo brasileiro saber de cor e salteado quem
são os que sabotam a desesperante e inadiável necessidade de reduzir os juros?
Não será uma obrigação da tv pública mostrar, revelar, explicar o que acontece
nestas reuniões onde se decide ou a tragédia dos que são impedidos de produzir
ou a cadeia da indecente felicidade dos que enriquecem sem trabalhar e produzir?
Se televisionam um
sujeito animalizado surrando um outro até sangrar, se há canais televisionando
leilões de gado, tapetes ou jóias, ou oferecendo o sexo-mercadoria, se são
televisionados os mais indigentes diálogos de grupos de descerebrados a debater
a edificante questão do sexo anal por satélite nos Big-Brother, se somos
obrigados a ver mais de mil horas de tv estimulando o consumo de cerveja quando
se deveria educar no amor aos livros, no amor às bibliotecas, ou educar para a
solidariedade por meio da difusão de informações sobre nossa trágica liderança
mundial em hanseníase, a pergunta é clara e direta: por que a reunião do Copom
não pode ser televisionada?
* É jornalista e
presidente da TV Comunitária de Brasília |