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Elenco do grupo
Forte Casa Teatro estréia a peça Arapucaia
A praça Dom Orione, no Bixiga,
será palco, no dia 10 de maio, às 12:00h, da estréia da peça Arapucaia,
concebida a partir da obra de Bertolt Brecht, Ascensão e Queda da Cidade de
Mahagonny.
A adaptação, montada pelos
integrantes do grupo Forte Casa Teatro, busca trazer para mais perto do
espectador brasileiro a peça e as idéias que o dramaturgo alemão expõe
através dela.
A apresentação - dirigida por
Magê Blanques, com elenco de dez integrantes, incluindo Rebeca Braia, Érika
Coracini e Wilson Mandri, e direção musical de Luciano Carvalho - se dá num
momento propício: ela foi escrita durante a chegada do furacão que provocou
a Grande Depressão - 1928 a 1929 - e está indo para a rua de São Paulo
quando novas turbulências, mais uma vez por estouro de gigantescas bolhas
nas bolsas estadunidenses, voltam a mergulhar a economia mundial numa crise
que questiona os próprios mecanismos a partir da qual essa economia
funciona.
A fábula sobre a cidade de
Arapucaia serve de pano de fundo para colocar diante do espectador a
discussão da arte e seus valores reais, no momento em que a sua
mercantilização atinge o paroxismo e a reduz a uma mercadoria acrítica que
busca garantir sua venda, apenas através do estímulo de sensações às
pessoas, as quais ela, paradoxalmente, anestesia.
As pessoas presentes na praça
são atraídas até a peça pela música, vestuário, cenário, ousadia gestual, e
ainda pelo uso de elementos do carnaval, a exemplo do estandarte colorido
com o nome da cidade. Cidade esta onde tudo será permitido na busca do
prazer. Tudo, menos a falta de dinheiro para pagar por ele. Da falta de
dinheiro nem mesmo o “herói”, que salva a cidade da crise – mergulhando-a
nela mais fundo ainda – é poupado.
Logo na abertura o espectador
é chamado a questionar a submissão ao dinheiro e até que ponto ele
transforma as suas vítimas em pessoas orientadas para a fuga - “quanta
riqueza, quanto prazer// é maravilhoso seus problemas esquecer” e logo a
seguir: “salve salve Arapucaia// salve a terra em que pagando tudo dá”,
cantam os atores.
As idéias do Teatro Dialético
estão presentes também no uso que se faz das máscaras, instrumento dramático
desenvolvido pela Commedia dell’Arte, objeto de pesquisa do Forte Casa
Teatro desde a sua fundação há cinco anos, que contribui para o efeito de
distanciamento, que, como aponta Brecht, se faz necessário ao aguçamento da
consciência crítica do espectador. As máscaras compõem, junto com o cômico,
a distorção da voz e o absurdo das situações, o Gestus dramático (conceito
usado por Brecht na orientação dos atores de suas peças) a serviço da
elucidação da realidade. Isso sem a perda do impacto da criação artística.
O espectador é colocado diante
de um impasse questionador logo na primeira cena, com a entrada dos
personagens Sem Eira, Nem Beira e Lucrécia. Daí em diante, com a solução ao
impasse dada pelos personagens, surge uma cidade nova em que, como observa o
próprio Brecht em seu texto “Notas sobre Mahagonny”, “assiste-se ao
nascimento de uma noção de valor cujo fundamento é a capacidade de
exploração comercial [do trabalho dos criadores]”.
O vício que a peça denuncia,
como Brecht afirma em sua crítica espantosamente atual, é “o fato das
engrenagens não pertencerem à comunidade [e, em nosso caso, com o predomínio
midiático estrangeiro e monopolista, nem mesmo ao país]; os meios de
produção não são ainda dos que produzem, de modo que o trabalho tem a
característica de uma verdadeira mercadoria, submetida às leis do mercado”.
NATHANIEL BRAIA |