|
“Estratégia” para
dividir a Bolívia
A Promotoria boliviana anunciou, na terça-feira, dia 5, que citará, entre
outros, o governador da província de Santa Cruz, Rubén Costas; o
ex-presidente do Comitê Cívico, Branco Marinkovic; Guido Nayar, pecuarista
da mesma região e ex-ministro de Governo do ditador Hugo Bánzer,
separatistas denunciados por testemunha, como parte dos contatos e
financiadores da célula terrorista que tentou assassinar o presidente Evo
Morales e declarar a separação de Santa Cruz do país.
O promotor Marcelo Soza disse que sua acusação tem sólido apoio em
declarações de Ignacio Villa - testemunha que denunciou que os mercenários
abatidos e os outros detidos foram contatados por ele mesmo, na Europa -
além de provas documentais, de que essas pessoas davam apoio material e
logístico ao grupo que foi desmantelado pela polícia no dia 16 de abril.
Encabeçava a gang o boliviano-húngaro-croata, Eduardo Rózsa, morto em
enfrentamentos com as forças públicas junto com mais dois terroristas.
Toda essa trama é descrita pelo secretário-geral do Partido Comunista
Boliviano, Marcos Domich, no texto que segue:
MARCOS DOMICH*
Descoberta e desbaratada a conexão ústacha (fascismo croata), a investigação
da procuradoria vai encontrando as outras conexões políticas e financeiras,
tanto internas como externas. Está claro que o grupo que comandava Eduardo
Rózsa era apenas uma célula operativa. Mas, por muito autônoma que fosse,
não podia viver sem receber meios e cobertura. Por conseguinte, agora falta
encontrar os “tios”, ou seja aqueles que segundo Rózsa, iam garantir as
operações. É notável o apego de Rózsa à terminologia balcânica. “Chico” é
tio, em linguagem coloquial, em algumas regiões da antiga Iugoslávia e Chico
era o nome que Rózsa tinha escrito em seu capacete de guerra; como Chico é o
título de seu filme autobiográfico. Finalizando com a conexão ústacha há
dois detalhes interessantes: Rózsa e Philip Goldberg [embaixador do governo
de George W. Bush expulso da Bolívia por Evo Morales em 2008] “coincidiram”
no tempo de seus serviços à causa separatista da Croácia primeiro e da
província sérvia de Kosovo, depois. Falamos sobretudo do primeiro lustro dos
anos noventa. Por último, Rózsa morre sem deixar de ter contato com a
organização de extrema direita “Ante Gotovina”, chamada assim em homenagem a
um general croata capturado nas Ilhas Canárias em 2005, para ser julgado em
Haia por crimes de guerra. O diabo os cria e o fascismo os junta.
CONSPIRAÇÃO
Nas investigações em curso, um papel importante é desenvolvido por “garganta
profunda” (só Ignacio Villa?). Fez suas primeiras declarações e o Promotor
Soza estourou a bolha conspirativa. Os “tios” não são muitos mas todos
possuem poder econômico e político. Vão desde um general retirado, Lucio
Añez, até um gladiador da Human Rights Foundation por conta da CIA: Hugo
Achá. A lista inclui obviamente latifundiários, produtores de gado,
industriais, banqueiros e dirigentes “cívicos” como Branco Marinkovic, Nayar,
Roca, Yovhío, Melgar, Farah, Costas e outros. Alguns já deram no pé, como
Achá, refugiado nos EUA, e Melgar, no Uruguai. Os “tios” e os garotos
operadores constituíram um “conselho supremo de defesa”, organismo que Rózsa
anunciava ao jornalista András Kepes já em Budapeste. É quando Chico
explicitava: “proteger a província e a cidade frente ao exército e à milícia
camponesa...(e) se não podemos viver juntos com autonomia, buscamos a
independência, conformamos um novo país”.
ATENTADOS
Frente às esmagadoras provas das conexões, o financiamento, a preparação e a
colocação em marcha das ações, com o atentado contra o Cardeal, estamos
frente à prática do mais clássico método de conspiração fascista: a
ESTRATÊGIA DA TENSÃO. Eva Golinger [advogada venezuelana-estadunidense,
autora do livro Código Chávez que desmascara o envolvimento do governo Bush
no golpe fracassado contra Hugo Chávez em 2002] o chama de “golpe suave ou
de pavio lento”. É igual, a questão não está no nome, mas na estrutura do
método e nos objetivos. Estes têm uma matriz exterior de propriedade da CIA.
A Agência ajudou à organização de “UnoAmérica” dirigida por Jorge Mones
Ruiz, contra-revolucionário venezuelano com quem Rózsa se conectou em Santa
Cruz. Sem dúvida se trata, pois, de uma operação com fortes vínculos
internacionais. Há uma internacional da escuridão que não cederá em seu
propósito de liquidar o presidente, a democracia; paralisar o processo de
mudanças e até esquartejar a Bolívia. Como o fizeram com a Iugoslávia e
depois com a Sérvia.
*Escritor, professor
da Universidade de La Paz e secretário-geral do
Partido Comunista da Bolívia |