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A
situação da propriedade familiar e a produção agrícola para biocombustíveis
Lançado no
último dia 29, “O Brasil dos Agrocombustíveis”, quarto relatório do Centro de
Monitoramento de Agrocombustíveis, revela que a maior parte do biodiesel
fabricado no país tem como matéria-prima a soja, produzida pelo “agronegócio”
com crescente participação de multinacionais, apesar dos esforços, especialmente
do presidente Lula, de tornar a produção de biocombustíveis um fator de
desenvolvimento da agricultura familiar
Em nossa edição anterior, publicamos alguns trechos
da coletânea “A Agroenergia é Nossa!”, em que os autores analisam, em conexão
com a produção de insumos para biocombustíveis, a situação da agricultura
familiar, a expansão do monopólio externo e da monocultura provocada pelo
chamado “agronegócio” no campo brasileiro – e propõem um modelo para o setor.
Os programas para
produção de biocombustíveis – a base da agroenergia – foram lançados pelo
presidente Lula com especial ênfase na agricultura familiar. No Brasil, segundo
o IBGE, existem quatro milhões de propriedades familiares. Os autores de “A
Agroenergia é Nossa” argumentam que metade deles poderia participar a curto
prazo dos dois programas (Programa Nacional do Biodiesel e Programa Nacional do
Álcool), se não fossem os entraves atuais. Por exemplo, “no Programa Nacional do
Biodiesel existe uma descabida exigência de capital mínimo de 500 mil reais para
que o produtor possa participar do referido programa. A mesma exclusão aos
pequenos produtores está presente no Programa Nacional do Álcool, dada a
exigência, indefensável, de um capital mínimo de 1 milhão de reais para a
participação no programa estatal”.
Confirmando os
problemas apontados, o Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis (CMA),
pertencente à organização Repórter Brasil, divulgou no último dia 29 o seu
quarto relatório, “O Brasil dos Agrocombustíveis - impactos das lavouras sobre
terra, meio e sociedade”. Independente de algumas avaliações e hipóteses que
merecem atenção, mas não consideramos como definitivas (nem os autores do
relatório), o texto é um levantamento rico de dados sobre a situação da
agricultura brasileira, centrado nas culturas de soja e mamona (a íntegra pode
ser lida em www.reporter brasil.org.br/documentos/o_brasil_dos_agrocombustiveis_v4.pdf).
Nota o relatório
que, segundo o Governo Federal, no Programa Nacional do Biodiesel, que existe há
cinco anos, há no momento apenas 28 mil propriedades familiares (0,7% das
propriedades familiares do país) – e a meta de inclusão para este ano é atingir
80 mil (2%). A meta inicial do programa era atingir 200 mil propriedades
familiares em quatro anos.
A consequência é
que, segundo dados de fevereiro deste ano da Agência Nacional do Petróleo,
73,68% do biodiesel fabricado no Brasil tem como matéria-prima o óleo de soja;
19,25% tem como matéria-prima a gordura bovina; 4,96%, o óleo de algodão; e
todas as demais fontes (mamona, pinhão manso, girassol, amendoim, gergelim e
outras), que são as cultivadas pela agricultura familiar, constituem apenas
2,11% da matéria-prima para o biodiesel.
Em suma, a
matéria-prima para o biodiesel – e nem falamos aqui do etanol – está sendo
produzido esmagadoramente em regime de monocultura pelo “agronegócio”, com
destaque crescente para as empresas estrangeiras.
Evidentemente, isso
não é o melhor para o país. Como ressaltam os autores de “A Agroenergia é
Nossa”, “os modelos produtivos alicerçados no agronegócio com suas monoculturas
extensivas totalmente mecanizadas e utilizando toneladas de venenos e
fertilizantes sintéticos (derivados do petróleo, diga-se de passagem), só
conseguem produzir oleaginosas com baixo teor de óleo (caso típico da cultura da
soja que só produz 18% de óleo) ocupando fatalmente o espaço necessário à
produção de comida e com custos cada vez mais altos. Além disso, concentram
renda, terra e poder em poucas mãos, criando ilhas de prosperidade em oceanos de
miséria. E, por derradeiro, produzem energia que só é limpa do cano de descarga
para fora (porque emitem menor quantidade de gases de efeito estufa), sendo suja
em todo o seu processo de produção. Estes modelos não resolvem os dilemas e as
contradições que se apresentam na produção do agrocombustível, antes os
aprofundam”.
A mesma coisa notam
os autores do relatório “O Brasil dos Agrocombustíveis”, sobre os “malefícios
causados pelo modelo de produção de soja no país, baseado na grande propriedade,
no monocultivo, no intenso uso de agrotóxicos, na concentração de renda e no
pouco valor dado ao trabalho” (pág. 14).
“A participação dos
pequenos na cadeia de biodiesel da soja tem se limitado à venda de grãos às
usinas, que assim obtêm do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) o Selo
Combustível Social e as facilidades de financiamento e incentivos fiscais
decorrentes deles (pág. 15). Em vez de aumentar a autonomia das famílias que
estão na base da pirâmide rural, a expansão da soja tem, em diversos casos,
intensificado a pressão sobre pequenos produtores em áreas como o Baixo Araguaia
- conhecido como ‘Vale dos Esquecidos’, entre o Norte do Mato Grosso e o Sul do
Pará”.
Contra a política do
presidente Lula, e “a despeito da inauguração de três usinas de processamento da
Petrobras em Quixadá (CE), Candeias (BA) e Montes Claros (MG), a mamona (….)
praticamente não é utilizada para a produção de biodiesel” porque “em função da
valorização da oleaginosa no mercado ricinoquímico [indústria farmacêutica,
sobretudo], a mamona adquirida pelo setor do biodiesel é praticamente toda
revendida à indústria química, transformando as usinas [de biodiesel], em última
instância, em meros atravessadores” (pág. 41).
Por um lado, “entre
março de 2008 e março de 2009 foram construídas 14 usinas de biodiesel no
Brasil, aumentando para 65 o número total de unidades e ampliando a capacidade
nacional de produção do combustível em 23%, atingindo 4 bilhões de litros por
ano”. Por outro, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)
divulgados no mês passado, a área plantada da mamona [cultivada totalmente em
propriedades familiares] diminuiu 7,8% de 2008 para 2009. “Esta queda atinge
principalmente a Região Nordeste, maior produtora do país, que, dos 156 mil
hectares cultivados em 2008, plantou apenas 142 mil este ano” (pág. 41). O total
da área plantada este ano é de 150 mil hectares.
Essa queda aconteceu
apesar dos preços da mamona terem subido e da Petrobrás ter inaugurado as três
usinas já mencionadas, para refinar óleo de mamona. “Na avaliação do Ministério
do Desenvolvimento Agrário (MDA), um dos problemas envolvendo o cultivo da
oleaginosa foi a sucessiva quebra de acordos de usinas de biodiesel com os
produtores (atrasos nos pagamentos, abandono da produção, etc.), causando
desconfiança e rejeição em relação à cultura. (….) Em meados de 2008, a cultura
sofreu um revés quando a ANP considerou o óleo puro de mamona impróprio para a
produção de biodiesel em função de sua viscosidade. O governo, que havia elevado
a oleaginosa a símbolo do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB)
desde o seu lançamento, em 2004, reagiu, argumentando que a mistura do óleo de
mamona a outros óleos vegetais aumenta a qualidade do agrocombustível”, o que
foi reiterado pela Petrobrás Biocombustíveis.
Além disso, as
modificações no Selo Combustível Social, feitas pelo Ministério do
Desenvolvimento Agrário (MDA) este ano, privilegiaram as empresas em detrimento
da agricultura familiar. O Selo foi concebido como uma forma de estimular a
compra de produtos oriundos da agricultura familiar, beneficiando a empresa que
o obtém com redução das alíquotas do PIS/Pasep e Cofins (no caso da mamona, no
NE, redução a zero) e facilidades no financiamento por bancos públicos. No
entanto, a Instrução Normativa do MDA de 25 de fevereiro de 2009 modificou os
critérios para obtenção do Selo pelas empresas:
“Uma primeira
mudança se refere ao percentual de aquisição [de matéria-prima pelas empresas de
biodiesel] de produtos da agricultura familiar no Nordeste, que, de 50%, passa a
ser de 30%. (….) Mais significativa, porém, é a modificação que permite às
empresas incluir nestes percentuais de ‘gastos com a agricultura familiar’ não
apenas a aquisição de matéria-prima, mas os recursos destinados a outros
serviços previstos pelo Selo Combustível Social. Sementes e adubos “doados” aos
agricultores, correção de solo, hora máquina e/ou combustível, além de salário,
diárias, deslocamento, alimentação, material didático e hospedagem dos técnicos
que prestam assistência aos produtores (agora obrigatória) entram no cálculo”.
Antes, esses gastos
eram considerados “contrapartida” das empresas. Agora, como as empresas podem
deduzi-los, elas precisam comprar menos dos agricultores. Em suma, incluem esses
gastos na cota, como se fossem aquisições de produtos.
C.L. |