Ao 13 de Maio: a poesia satírica de Luiz Gama demole o racismo 

Algo estranho – ou nem tanto – acontece hoje com os textos, inclusive a poesia, de Luiz Gama. Ao mesmo tempo em que sua figura histórica é crescentemente considerada em toda a sua grandeza, talvez como o maior dos abolicionistas e um pioneiro da revolução republicana, é difícil encontrar o que ele próprio escreveu. Isto, apesar de um crítico da importância de Sílvio Romero, em sua “História da Literatura Brasileira” (1888), haver escrito: “Eu disse uma vez que a escravidão nacional não havia produzido um Terêncio, um Epítecto, um Spártaco. Há, agora, uma exceção a fazer: a escravidão entre nós produziu Luiz Gama, que teve muito de Terêncio, de Epítecto, de Spártaco”.

Como exemplo da dificuldade a que nos referimos: tudo o que sabemos sobre a infância e juventude de Luiz Gama tem como fonte uma carta que enviou a um amigo, Lúcio de Mendonça – hoje mais conhecido como fundador da Academia Brasileira de Letras, para a qual propôs Machado de Assis como presidente, do que por suas obras literárias, que não foram poucas nem destituídas de valor. Mendonça, que era branco, foi um destacado abolicionista e republicano – e o primeiro Procurador Geral da República do nosso país. Na carta que lhe enviou Luiz Gama está a única menção à sua mãe, Luiza Mahin. O conteúdo dessa carta foi divulgado ainda em vida de Luiz Gama, em 1880, num famoso artigo de Mendonça, intitulado, naturalmente, “Luiz Gama”. No entanto, após a descoberta do original da carta, nos arquivos pessoais deixados por Lúcio de Mendonça, alguns estudiosos levantaram trechos que não foram citados pelo destinatário em seu artigo de 1880, em especial um, em que Luiz Gama declara: “Meu pai, não ouso afirmar que fosse branco...”, uma declaração que contraria a idéia geral sobre o pai do abolicionista.

Apesar da importância desse documento, ele é hoje conhecido por citações – e praticamente desconhecido em sua íntegra.

Da mesma forma, a poesia de Luiz Gama. Em 1859, ele publicou uma coletânea de versos satíricos, as “Primeiras Trovas Burlescas de Getulino”. O livro fez sucesso – e seguiu-se uma segunda edição em 1861. Foi esse livro que fez Sílvio Romero compará-lo ao satírico romano Terêncio, também um ex-escravo.

O poema que publicamos hoje é um dos mais famosos das “Primeiras Trovas Burlescas”. Em especial, foi analisado por Romero como uma espécie de profissão de fé na miscigenação. No entanto, antes disso, é característico da forma com que Luiz Gama enfrentava as humilhações que um negro sofria numa sociedade escravagista – portanto, essencialmente racista. Este aspecto é tão marcante que o poema é mais conhecido como “Bodarrada” ou “A Bodarrada”.

Em resumo, um dos preconceitos racistas mais difundidos dizia (e diz) respeito ao suposto odor que proviria dos negros. Por isso, no Brasil do século XIX, uma das gracinhas mais comuns era chamá-los de “bodes”.

Ao invés de tremer de rancor e babar de raiva, sinais histéricos de impotência, Luiz Gama preferiu colocar no ridículo essa “súcia”. Sinteticamente, como disse ele em outra oportunidade, “todo mundo tem a mesma catinga”. Ou, como no poema, “Bodes há de toda a casta,/ Pois que a espécie é muito vasta.../ Há cinzentos, há rajados,/ Baios, pampas e malhados,/ Bodes negros, bodes brancos,/ E, sejamos todos francos,/ Uns plebeus, e outros nobres,/ Bodes ricos, bodes pobres,/ Bodes sábios, importantes,/ E também alguns tratantes...”.

Não escapa nada a Luiz Gama na sociedade daquela época. E, se lícito, for, nem alguns aspectos da sociedade atual. Por exemplo: “Não tolero o magistrado,/ Que do brio descuidado,/ Vende a lei, trai a justiça,/ – Faz a todos injustiça –/ Com rigor deprime o pobre/ Presta abrigo ao rico, ao nobre,/ E só acha horrendo crime/ No mendigo, que deprime”.

O poema é escrito no português brasileiro da época de Gama. Alguns leitores se surpreenderão ao saber que “pepineira” é o que chamamos hoje de “mamata”. Que  “plectro” quer dizer inspiração poética; que “birbante” é o mesmo que “velhaco”; que “lapuz” é, simplesmente, “mau caráter”; e que “veador” é um serviçal palaciano. Quanto à “arte do Vieira”, talvez alguns não saibam que o padre Antônio Vieira escreveu um livro intitulado “A Arte de Furtar”. Mas tais dificuldades enriquecem a leitura. Nada que um bom dicionário não possa remediar.

Esta é a nossa homenagem ao 13 de Maio.

CARLOS LOPES

 

Quem Sou Eu?

Luiz Gama

Quem sou eu? que importa quem?

Sou um trovador proscrito,

Que trago na fronte escrita

Esta palavra – “Ninguém!” –

Augusto Emílio Zaluar – “Dores e Flores”

 

Amo o pobre, deixo o rico,

Vivo como o Tico-tico;

Não me envolvo em torvelinho,

Vivo só no meu cantinho:

Da grandeza sempre longe

Como vive o pobre monge.

Tenho mui poucos amigos,

Porém bons, que são antigos,

Fujo sempre à hipocrisia,

À sandice, à fidalguia;

Das manadas de Barões?

Anjo Bento, antes trovões.

Faço versos, não sou vate,

Digo muito disparate,

Mas só rendo obediência

À virtude, à inteligência:

Eis aqui o Getulino

Que no plectro anda mofino.

Sei que é louco e que é pateta

Quem se mete a ser poeta;

Que no século das luzes,

Os birbantes mais lapuzes,

Compram negros e comendas,

Têm brasões, não – das Calendas,

E, com tretas e com furtos

Vão subindo a passos curtos;

Fazem grossa pepineira,

Só pela arte do Vieira,

E com jeito e proteções,

Galgam altas posições!

Mas eu sempre vigiando

Nessa súcia vou malhando

De tratante, bem ou mal,

Com semblante festival.

Dou de rijo no pedante

De pílulas fabricante,

Que blasona arte divina,

Com sulfatos de quinina,

Trabuzanas, xaropadas,

E mil outras patacoadas,

Que, sem pingo de rubor,

Diz a todos, que é DOUTOR!

Não tolero o magistrado,

Que do brio descuidado,

Vende a lei, trai a justiça,

– Faz a todos injustiça –

Com rigor deprime o pobre

Presta abrigo ao rico, ao nobre,

E só acha horrendo crime

No mendigo, que deprime.

– Neste dou com dupla força.

Té que a manha perca ou torça.

Fujo às léguas do lojista,

Do beato e do sacrista –

Crocodilos disfarçados,

Que se fazem muito honrados

Mas que, tendo ocasião,

São mais feros que o Leão.

Fujo ao cego lisonjeiro,

Que, qual ramo de salgueiro,

Maleável, sem firmeza,

Vive à lei da natureza;

Que, conforme sopra o vento,

Dá mil voltas num momento.

O que sou, e como penso,

Aqui vai com todo o senso,

Posto que já veja irados

Muitos lorpas enfunados,

Vomitando maldições,

Contra as minhas reflexões.

Eu bem sei que sou qual Grilo,

De maçante e mau estilo;

E que os homens poderosos

Desta arenga receosos

Hão de chamar-me tarelo,

Bode, negro, Mongibelo;

Porém eu que não me abalo,

Vou tangendo o meu badalo

Com repique impertinente,

Pondo a trote muita gente.

Se negro sou, ou sou bode

Pouco importa. O que isto pode?

Bodes há de toda a casta,

Pois que a espécie é muito vasta...

Há cinzentos, há rajados,

Baios, pampas e malhados,

Bodes negros, bodes brancos,

E, sejamos todos francos,

Uns plebeus, e outros nobres,

Bodes ricos, bodes pobres,

Bodes sábios, importantes,

E também alguns tratantes...

Aqui, nesta boa terra,

Marram todos, tudo berra;

Nobres Condes e Duquesas,

Ricas Damas e Marquesas

Deputados, senadores,

Gentis-homens, veadores;

Belas Damas emproadas,

De nobreza empantufadas;

Repimpados principotes,

Orgulhosos fidalgotes,

Frades, Bispos, Cardeais,

Fanfarrões imperiais,

Gentes pobres, nobres gentes

Em todos há meus parentes.

Entre a brava militança

Fulge e brilha alta bodança;

Guardas, Cabos, Furriéis,

Brigadeiros, Coronéis,

Destemidos Marechais,

Rutilantes Generais,

Capitães-de-mar-e-guerra,

– Tudo marra, tudo berra –

Na suprema eternidade,

Onde habita a Divindade,

Bodes há santificados,

Que por nós são adorados.

Entre o coro dos Anjinhos

Também há muitos bodinhos. –

O amante de Siringa

Tinha pêlo e má catinga;

O deus Mendes, pelas costas,

Na cabeça tinha pontas;

Jove quando foi menino,

Chupitou leite caprino;

E, segundo o antigo mito,

Também Fauno foi cabrito.

Nos domínios de Plutão,

Guarda um bode o Alcorão;

Nos lundus e nas modinhas

São cantadas as bodinhas:

Pois se todos têm rabicho,

Para que tanto capricho?

Haja paz, haja alegria,

Folgue e brinque a bodaria;

Cesse pois a matinada,

Porque tudo é bodarrada!


Primeira Página

 

Página 2

Para Aepet, “Petrobrás deve ser a única operadora do pré-sal”

Banco Central tem que olhar para a geração de emprego, afirma Dilma

Oposição promove boataria sobre alteração na poupança

Serra critica a demora do Copom para baixar taxa básica de juros

Delfim Netto: BC freou crescimento

Emprego na construção civil cresce em março

Gabrielli responde a “O Globo” sobre “manipulação” contábil

Indústria registra alta no faturamento e na produção

Ministros acertam últimos detalhes para a criação do Banco do Sul

Expediente

Página 3

Gilmar Mendes preconiza STF na contramão da população

Febraban financia juízes durante evento em resort 5 estrelas na Bahia

Presidente tucano diz que seminário eleitoral “não tem nada a ver” com a eleição de 2010

Presidente do PPL de São Paulo: Petrobrás no pré-sal inaugurará nova era para nosso povo

Jobim lança plano para demitir 1.200 na Infraero

Dos julgamentos sumários da mídia

Para procurador, denúncia não impede condenação de Dantas

Delúbio retira pedido para voltar ao PT em discurso no Diretório

Página 4

“Primeiro a gente cuida das pessoas, depois das pontes”

Lula prepara aliança entre PT e PMDB para 2010

Derrota da Alca é resultado de uma política externa altiva, diz presidente

Brasil e Coréia Popular podem fechar parceria para prospectar petróleo em águas profundas

Cartas

Página 5

Trabalhadores garantem que Volks pague R$ 60 milhões

Rodoviários do Rio de Janeiro paralisam contra os atrasos nos pagamentos de salários

Jagunços de Dantas ferem mais três pessoas em assentamento

TRW tenta pagar hora extra, mas é obrigada a readmitir 

Comissão especial vota Estatuto da Igualdade Racial no dia 13 de maio

Rede da Sabesp rompe e 75 mil ficam sem água

Página 6

Fed prevê que bancos americanos terão prejuízo de US$ 600 bilhões

Mais de meio milhão de trabalhadores foram demitidos em abril nos EUA

Estudantes afegãos fazem manifestação em repúdio a bombardeio de civis pelo invasor

Antonio Neto denuncia ilegalidades da Telefônica em Conselho Europeu

O patriarca Kim Il Sung e a reunificação da Coréia

Página 7

Russos lotam a Praça Vermelha na celebração do Dia da Vitória

Saakashvilli recua e diz não haver indício de participação russa em motim na Geórgia

Lukashenko ressalta Vitória sobre nazismo: “feito imortal que garantiu a independência da Pátria”

Néstor Kirchner encabeça a chapa dos candidatos a deputado federal

Venezuela nacionaliza empresas que achacavam nos preços dos serviços de extração de petróleo

Evo pede a governo do Peru que não dê asilo a assassinos que comandaram massacre em El Alto

 

 

Página 8

 Ao 13 de Maio: a poesia satírica de Luiz Gama demole o racismo 

Leia

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“Para quem no começo falava menas laranja é chique demais”

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‘V. Exa. não está falando com os seus capangas do Mato Grosso’

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Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres

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Múltis drenam do país US$ 3,266 bilhões só em dez dias de março

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Aumento do IDE agrava sangria de recursos do Brasil para fora

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BC assalta 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street

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