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Equador
enfrenta os monopólios da mídia e lança as bases para democratizar o setor
Nosso repórter
especial Leonardo Severo, em viagem ao Equador, entrevista lideranças da
sociedade e membros da comissão nomeada pelo presidente Correa para auditar a
situação dos meios de comunicação, que têm propriedade extremamente concentrada,
em especial nas mãos dos bancos. A comissão foi estabelecida após a nova
Constituição, onde se “considera o espectro radioelétrico como um dos setores
estratégicos” para o desenvolvimento do país
LEONARDO WEXELL
SEVERO
No próximo dia 19, a Comissão de Auditoria das
Concessões de Frequências de Rádio e Televisão do Equador apresentará o seu
”informe definitivo” e as “recomendações” ao Ministério de Coordenação dos
Setores Estratégicos e ao Conselho Nacional de R&TV sobre os dispositivos para
democratizar o setor. A iniciativa é medular, contra os reiterados abusos de uma
mídia que, lá como aqui, insiste em confundir liberdade de imprensa com cheque
em branco para o monopólio, tentando conter as mudanças no nosso Continente.
No Brasil, atendendo
ao clamor dos movimentos sociais e de uma necessidade histórica, o presidente
Lula convocou a Conferência Nacional de Comunicação para os dias 1, 2 e 3 de
dezembro, processo que estabelece pontos de contato com a linha do Equador, mas
também apresenta seus nós, principalmente frente à disparidade dos instrumentos
manipulados pela mídia hegemônica para pautar o debate.
A complexidade do
desafio aponta para a necessidade das entidades, partidos e governos populares
estreitarem cada vez mais seus laços e compreensões sobre o tema, qualificando
sua intervenção e driblando obstáculos e cascas de banana lançados pelos que
querem manter intocado o seu latifúndio, improdutivo do ponto de vista social,
mas extremamente lucrativo, comercialmente falando. Romper o manto de silêncio
que cobre este debate é, portanto, um passo essencial neste momento.
Para conhecer de
perto a experiência equatoriana, visitamos o país em meados de abril,
compartilhando vivências e impressões com trabalhadores, técnicos e
especialistas da área, o que fortaleceu nossa convicção da sua importância para
os desdobramentos da luta política no país, bem como para o aprofundamento da
integração e da própria democracia na América Latina.
Na avaliação do
brasileiro João Brant, que compõe a Comissão de Auditoria instituída pelo
presidente Rafael Correa, a decisão equatoriana “aponta no sentido de acertar
contas com graves ilegalidades ocorridas em passado recente, marcado pela
extrema concentração de concessões públicas nas mãos do sistema financeiro”.
Conforme Brant, que no Brasil integra o Coletivo Intervozes, a definição de
colocar em xeque as perversões dessa lógica mercantil “só foi possível pela nova
Constituição, que estabelece claramente a separação dos poderes midiático e
econômico-financeiro”. “O que podemos pegar de lição é que os equatorianos
defendem o direito à comunicação como algo central para a democratização do
Estado”, informou.
Conforme esclareceu
o pesquisador e psicólogo Oswaldo León, da Agência Latino-Americana de
Informação (ALAI), a auditoria equatoriana põe a nu a orgia de concessões
realizadas entre 1995 e 2008, “o ápice do neoliberalismo, quando a entrega de
freqüências, que são um bem limitado, se multiplicaram, de forma comprovadamente
corrupta, com as privatizações sendo aprovadas por parlamentares que saíam do
Legislativo com a sua concessão debaixo do braço”.
Como premissa, foi
acertado que a auditoria determinará “a constitucionalidade, legitimidade e
transparência das concessões, considerando os enfoques legal, financeiro, social
e comunicacional”. A Comissão responsável por averiguar as irregularidades foi
estabelecida por decreto no final de 2008, após a aprovação da nova
Constituição, onde se “considera o espectro radioelétrico como um dos setores
estratégicos que, por sua transcendência e magnitude, influi nos aspectos
econômico, social, político e ambiental”, e se reserva ao Estado o direito de
administrá-lo, regulá-lo e controlá-lo, “em conformidade com os princípios de
sustentabilidade ambiental, precaução, prevenção e eficiência”.
Como na maioria dos
países da América Latina, no Equador, os meios se encontram concentrados em
poucas mãos, “vindo a substituir os partidos da direita neoliberal, fracionados,
debilitados e derrotados eleitoralmente”, diz o jornalista Eduardo Tamayo,
integrante do Fórum Equatoriano da Comunicação. “No que diz respeito à televisão
aberta, 19 famílias controlam 298 frequências das 348 existentes (86%). No campo
do rádio a propriedade está menos concentrada, no entanto, as mesmas famílias
concessionárias das frequências de TV dominam grande parte das estações de rádio
FM. Quarenta e cinco famílias detêm 60% das concessões de rádio AM e FM, que
somam 1.196”. Porém, o mais escandaloso, advertiu Tamayo, “tem sido a relação
incestuosa entre os bancos e a mídia, especialmente na televisão. Fidel Egas, um
dos principais acionistas do maior banco do país (Banco del Pichincha) é
proprietário da cadeia Tele Amazonas, que tem 43 concessões em nível nacional.
Além disso, possui as revistas Gestión e Diners”. “Outro grupo econômico
poderoso (El Juri - Banco del Austro) é proprietário da rede de televisão
TELERAMA, beneficiária de 14 frequências. Outros canais nacionais (Gamavision,
Telecentro, Cablevision e várias rádios), que formavam parte de um grupo de 193
empresas de propriedade dos banqueiros foragidos William e Roberto Isaías, foram
intimados no ano passado por terem endividado o Estado em 661 milhões de
dólares”. Para Tamayo, “a concentração de meios em mãos dos bancos é um aspecto
negativo para a democracia, pois se anula a diversidade informativa, os meios
deixam de cumprir sua função social e passam a defender os interesses dos grupos
econômicos de que fazem parte”.
De acordo com o
parágrafo primeiro do artigo 17 da Constituição equatoriana, “o Estado deve
garantir a liberação dessas concessões públicas através de métodos transparentes
e em igualdade de condições, para a administração das emissoras de rádio e
televisão públicas, privadas e comunitárias, assim como o acesso a canais livres
para a exploração de redes sem fios, fazendo com que prevaleça o interesse
coletivo”. O parágrafo terceiro determina que “será proibido o oligopólio e o
monopólio direto e indireto da propriedade dos meios de comunicação e do uso das
frequências, e a participação no controle do capital, investimento ou patrimônio
dos meios de comunicação social, de entidades ou grupos financeiros, seus
representantes legais, membros da direção e acionistas”. Dando o tiro de
misericórdia nos bancos, que são os donos diletos da mídia naquele país, os
constituintes estabeleceram que os antigos beneficiários de concessões públicas
que estejam em choque com tais determinações terão o prazo de dois anos para se
desfazer delas a partir da entrada em vigência da nova lei – aprovada no final
de 2008.
Na avaliação de
Oswaldo León, um dos grandes avanços do processo equatoriano, “de vanguarda na
democratização dos meios”, é que assume explicitamente a comunicação como um
serviço social. “A política do neoliberalismo não se sustentava somente com o
garrote imposto pela política econômica, mas pela base ideológica, buscando
eliminar do imaginário social o sentimento de coletividade, de nacionalidade,
afirmando o individualismo, o salve-se quem puder. Daí não haver nos grandes
meios de comunicação espaço para o direito à réplica, condições para uma central
sindical se contrapor a determinada medida antipopular. Na verdade, a mídia
tentou eliminar toda e qualquer reflexão, acabar com a massa crítica”,
acrescentou.
Para Oswaldo León,
as ações que vêm sendo levadas a cabo pelo governo equatoriano, com o apoio dos
movimentos que atuam pela democratização da comunicação, busca pôr fim ao
”descalabro institucional generalizado”. “O governo não se deixou imobilizar,
pois esta era a fórmula do sistema financeiro para inviabilizá-lo. Com apoio da
ampla maioria da população, Correa acusa a mídia de mentirosa, citando exemplos
de abusos e distorções que são fáceis de reconhecer. O desafio maior, agora, é
que este seja um bem público apropriado pelo conjunto da sociedade”, declarou.
Logo após a
maiúscula vitória de Rafael Correa e do Movimento Aliança País nas eleições do
dia 10 de abril, pudemos constatar que os principais jornais e emissoras de
rádio e televisão expuseram com toda a força seus interesses de classe, mantendo
uma orientação esquizofrênica, como se nada tivesse acontecido. Pior,
mobilizaram um batalhão de repórteres para pinçar todo e qualquer êxito parcial
da oposição, tratando de transformá-lo em triunfo magistral. Ao mesmo tempo,
“orientavam” o presidente, via editoriais e articulistas, a ter mais “calma” e
“moderação” com o seu projeto, já que o país saiu das urnas “dividido”. Na
avaliação da mídia (anti)equatoriana, Correa fez “somente 52% dos votos”, embora
tenha aberto margem de 24 pontos sobre o segundo colocado, que fez 28%. Vale
registrar que, no país, a vitória não encontra paralelo em mais de duas décadas.
Diante desse padrão
de comportamento da mídia, plugado à virtualidade dos desejos e aspirações das
transnacionais, do sistema financeiro e dos vende-pátria, um primeiro dado
importante a assinalar é a negação da realidade e de qualquer objetividade.
“Os meios de comunicação no Equador perderam
muito de sua credibilidade nos últimos anos, em grande parte pela defesa que
fizeram do modelo neoliberal e dos governos que o implementaram”, enfatizou a
jornalista e escritora Sally Burch, diretora executiva da ALAI, lembrando que “o
presidente Rafael Correa ganhou com folga as últimas eleições, mesmo tendo toda
a mídia contra ele, em oposição frontal”. Reagindo à campanha midiática,
explicou Sally, o presidente tem apresentado argumentos e fatos inquestionáveis,
que acabam desacreditando constantemente o discurso monocórdico de jornais,
rádios e tevês contra o governo.
A forma com que a
mídia nega a realidade e se esmera em moldar no imaginário coletivo valores que
atentam contra os interesses nacionais e populares foi uma das causas pelas
quais na nova Constituição se esquadrinha o tema comunicacional. Conforme
esclareceu Eduardo Tamayo, “os direitos à comunicação, à informação e à cultura,
se incorporam à Constituição no mesmo nível que outros direitos igualmente
vitais para o ser humano como são a saúde, a educação, o bem-viver, e outros”.
Direito plenamente reconhecido para as pessoas, tanto em forma individual como
coletiva, a “uma comunicação livre, intercultural, inclusiva, diversificada e
participativa, em todos os âmbitos da interação social, por qualquer meio e
forma, em sua própria língua e em seus próprios símbolos”.
Na avaliação dos
movimentos pela democratização, se supera a visão limitada e instrumental da
comunicação que a identificava como “meios”, resgatando a dimensão interativa e
participativa da mesma, ou seja, “que as pessoas não somente têm direito a
receber programas e serviços informativos, mas que também têm direito ao uso e
acesso aos recursos da comunicação”. Para as diversas comunidades que compõem o
país, se reconhece o direito a “criar seus próprios meios de comunicação social
em seus idiomas e o acesso aos demais sem nenhuma discriminação”, garantindo que
o direito à “dignidade e diversidade de suas culturas, tradições, histórias e
aspirações” se reflitam na educação e na mídia.
Assim, de aplicar-se
o espírito que prevalece na Constituição, este processo deve levar a que o
Estado reverta as frequências entregues irregularmente a meia dúzia de famílias
e as destinem fundamentalmente aos setores públicos e comunitários, “a fim de
romper o desequilíbrio atualmente existente”, esclareceu Tamayo. Segundo ele, “o
desafio para universidades, organizações sociais e coletivos que aspiram contar
com frequências para criar seus próprios meios é enorme, pois não somente
deverão dispor da infraestrutura e dos equipamentos necessários - recursos que
sempre são escassos -, mas também deverão desenvolver políticas, estratégias e
capacidades profissionais e técnicas para operá-las”.
A invisibilidade a que é relegado o processo
equatoriano e o seu inequívoco compromisso com a diversidade e a pluralidade –
palavras malditas para o dicionário entreguista e desintegracionista da mídia
hegemônica -, contrasta com a colcha de retalhos e mentiras que tecem seus donos
para desqualificar a construção da democracia real no Continente. Afinal, crêem
– e praticam diuturnamente seu fundamentalismo, que, contra Lula, Rafael, Chávez,
Evo, Lugo e Cristina, vale tudo. |