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As informações
do terceiro Censo de Capitais Estrangeiros no Brasil
O resultado do
3º Censo, publicado recentemente pelo Banco Central, correspondente ao ano de
2005, revela o aumento da parcela da economia do país controlada pelo capital
externo, violentamente ampliada no governo Fernando Henrique, com a compra, a
preço subestimado, de empresas públicas e privadas nacionais. O problema desse
aumento da desnacionalização é, evidentemente, que quanto maior o controle
estrangeiro, mais a economia é afetada por decisões tomadas fora do país, de
acordo com interesses que não são os nossos, mas os das matrizes das empresas
externas - que estão submetidas à dinâmica monopolista das economias dos países
em que se localizam, e não à nossa dinâmica, para não falar em nossas prementes
necessidades
CARLOS LOPES
Finalmente o Banco Central publicou os resultados do
3º Censo de Capitais Estrangeiros no País. A demora, mais de três anos em
relação à data-base do Censo (31 de dezembro de 2005), e mais de dois anos em
relação ao encerramento da coleta de dados (15 de dezembro de 2006), foi tanta
que já estamos às vésperas do 4º Censo (que deverá ter 31 de dezembro de 2010
como data-base).
Compreende-se que o
sr. Meirelles não esteja tão ansioso quanto o presidente do BC na época do 1º
Censo, Gustavo Franco, para expor os miraculosos benefícios que o país usufruirá
se tiver a sua economia tomada pelo capital estrangeiro. Ao contrário do
deslumbrado Franco quando divulgou o Censo de 1995, ele dispensou uma
apresentação laudatória à venda de nossas empresas, públicas e privadas, ao
capital externo. Não é à toa que ele foi presidente do BankBoston.
A obrigação de
realizar o Censo de Capitais Estrangeiros foi estabelecida pelo artigo 55 da Lei
4.131, promulgada em 3 de setembro de 1962, ou seja, no governo João
Goulart. No entanto, passaram-se 34 anos antes que fosse realizado o primeiro
Censo. Apesar da lei, nesse artigo específico, jamais ter sido revogada, durante
os 21 anos de ditadura não houve interesse em revelar qual o estado de
desnacionalização em que a economia se encontrava. Pelo contrário, isso era algo
a esconder, ou, pelo menos, a não ressaltar - pois era, precisamente, desde o
primeiro momento, um dos principais temas de denúncia da oposição à ditadura.
Esta achava, com razão, que fazer esse censo era fornecer munição aos
adversários - além de abalar sua credibilidade junto aos militares,
tradicionalmente nacionalistas.
Somente no governo
Fernando Henrique a desnacionalização da economia transformou-se em virtude. Ao
contrário da ditadura e dos governos que a sucederam, os tucanos somente são
capazes de enxergar a realidade de cabeça para baixo. Assim, resolveram expor as
suas impressionantes conquistas para o país - e para as suas mecas no exterior.
Como disse o então
presidente do Banco Central, na apresentação do primeiro Censo:
“A ênfase do
Censo está nos investimentos diretos, ou seja, aqueles que, nos dias de hoje,
são comumente referidos como capitais estrangeiros ‘de boa qualidade’ (em
contraste com os especulativos, cujo compromisso com o País é geralmente
efêmero, para dizer o mínimo), que produzem investimentos e empregos. (....)
Verificamos, com efeito, que a expressão cambial acumulada do investimento
estrangeiro direto no Brasil, vale dizer, o valor aplicado no capital dessas
empresas era da ordem de R$ 41,4 bilhões (ou US$ 42,5 bilhões) em dezembro de
1995, sendo que as mesmas tinham, entretanto, um patrimônio líquido de
aproximadamente R$ 106 bilhões e ativos da ordem de R$ 273,6 bilhões. Isso para
não falar em um faturamento conjunto de R$ 223,1 bilhões, exportações de US$
21,7 bilhões (quase a metade das nossas exportações totais) e cerca de 1,45
milhão de empregos diretos” (cf., Gustavo Franco, “Censo de Capitais
Estrangeiros - Data-base: 1995 - Apresentação”).
[NOTAS: 1) Ao
converter reais em dólares, Franco usa a taxa cambial artificial que instituiu,
e que devastou o país entre 1995 e 1999;
2)
Franco, naturalmente, esqueceu-se de acrescentar que o “1,45 milhão de empregos
diretos” correspondia a apenas 3,8% dos empregos formais do país em 1995
- e a menos de 2% do emprego total, se considerarmos também os trabalhadores sem
carteira assinada;
3)
não deixa de ser interessante, do ponto de vista da psicologia do entreguista,
como ele considera que é uma qualidade do capital estrangeiro - e não um sintoma
de que o país está sendo espoliado - o fato de um investimento direto
estrangeiro acumulado de R$ 41,4 bilhões (mais precisamente, R$ 40 bilhões, 548
milhões e 994 mil) redundar em um patrimônio líquido duas vezes e meia maior e
em ativos quase sete vezes maiores - e proporcionar um faturamento mais de cinco
vezes maior;
4)
ao se referir ao investimento direto como “capital estrangeiro de boa
qualidade”, a pior mentira não é esta, mas a sua suposta condenação ao capital
puramente especulativo, exatamente o capital em que Franco jogou suas fichas
para cobrir o rombo que provocou nas contas do país - com os desastrosos
resultados que são conhecidos].
DESNACIONALIZAÇÃO
Apesar de suas
limitações, e de que este terceiro Censo não cobre os anos de 2007 e 2008, em
que houve uma verdadeira enxurrada de Investimento Direto Estrangeiro (o
dinheiro que entra no país sobretudo para comprar empresas brasileiras), os
resultados são altamente significativos.
Mas, antes, devemos
destacar um mérito do Censo: nele está registrado somente o Investimento Direto
Estrangeiro (IDE) que entrou no país para “participação no capital” - ou seja,
diretamente para comprar participações acionárias em empresas. O outro
componente do IDE - os “empréstimos intercompanhia”, isto é, os empréstimos das
matrizes às filiais das multinacionais - foi excluído, o que permite uma maior
clareza da situação.
Responderam, ao
terceiro Censo, 17.605 empresas com participação acionária estrangeira. Destas,
9.673 empresas têm participação majoritária estrangeira, ou seja, são
oficialmente empresas de propriedade estrangeira, e 7.932 empresas têm
participação acionária estrangeira minoritária - ou seja, oficialmente
são empresas brasileiras com participação estrangeira.
Nos concentraremos,
obviamente, nas primeiras, mas é necessário observar que uma empresa
oficialmente brasileira com participação minoritária estrangeira não é
necessariamente uma empresa nacional - pois os testas-de-ferro, laranjas, e
tipos assemelhados, existem. Mas não estamos dizendo que qualquer empresa com
alguma participação estrangeira é uma empresa estrangeira. Apenas, observamos
que as empresas externas que estão registradas em nome de testas de ferro
nascidos no Brasil não fazem parte das empresas estrangeiras que vamos examinar.
Todas as empresas
com participação estrangeira são obrigadas a responder ao Censo. No entanto, a
multa para quem não responder (ou para as empresas que fizerem declarações
falsas) é algo ridícula para uma filial de multinacional - apenas R$ 250 mil.
Portanto, não é possível garantir que todas as empresas com participação
estrangeira estão cobertas pelo Censo - embora, acreditamos que, se não a
totalidade, o conjunto delas respondeu ao Censo.
Quanto ao número de
empresas, o primeiro Censo de Capitais Estrangeiros (1995) registrava 4.902
empresas de propriedade externa.
O segundo Censo
(2000) registrou 9.712 empresas, número que é mais ou menos o mesmo (até com um
ligeiro decréscimo) daquelas do Censo agora divulgado - 9.673 empresas.
No entanto, a
desnacionalização da economia aumentou, não diminuiu.
Usando como critério
a “receita bruta” dessas empresas (receita operacional bruta + receita
financeira antes do pagamento das despesas financeiras), em termos do Produto
Interno Bruto (PIB) do país, temos, em cada ano-base dos Censos:
a)
em 1995, a “receita bruta” (R$ 167,4 bilhões) equivalia a 23,7% do
Produto Interno Bruto do país nesse ano;
b)
em 2000, depois da desnacionalização em massa do governo Fernando Henrique, a
“receita bruta” das empresas estrangeiras (R$ 421,2 bilhões) correspondia a
35,7% do PIB;
c)
no ano-base de 2005, as empresas estrangeiras auferiram uma “receita bruta” (R$
987,2 bilhões) que é 45,9% do PIB;
EMPREGO
O problema desse
aumento da desnacionalização é, evidentemente, a perda crescente de controle do
país sobre sua própria economia, uma vez que, quanto maior o domínio
estrangeiro, mais a economia é afetada por decisões tomadas fora dele, de acordo
com interesses que não são os nossos, mas os das matrizes dessas empresas - que,
evidentemente, estão submetidas à dinâmica da economia dos países onde se
localizam, e não à dinâmica da nossa economia, para não falar das nossas
necessidades.
Mas, além disso - ou
como consequência disso - há uma séria distorção da nossa base produtiva.
Por exemplo, as
consequências quanto ao emprego, em um país onde o desemprego, apesar de todos
os esforços do presidente Lula, ainda é um problema muito grave.
Pois, apesar de sua
receita bruta corresponder a 45,9% do PIB, a média anual de empregados das
empresas estrangeiras em 2005 era de apenas 1 milhão, 623 mil e 482
trabalhadores, ou seja, elas empregavam meramente 1,8% dos trabalhadores
ocupados do país - que, segundo o IBGE, em 2005, eram 90 milhões, 905 mil e
673 trabalhadores, incluindo ocupações formais e informais.
A situação não é
muito melhor se considerarmos apenas o emprego formal, ou seja, os empregados
com carteira assinada - que, segundo divulgou no início de 2006 o então ministro
do Trabalho, Luís Marinho, baseado na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS),
eram 33 milhões, 238 mil e 617 trabalhadores em 31 de dezembro de 2005.
O que quer dizer que
as empresas estrangeiras contribuíam com apenas 4,8% dos empregos formais do
país - e isso se admitirmos como hipótese que elas assinam a carteira de
todos os seus empregados.
REMESSAS
O Censo de Capitais
Estrangeiros é pouco adequado para se avaliar com exatidão a magnitude das
remessas de lucros para o exterior, pois registra apenas a remessa oficial (isto
é, declarada como tal) de lucros e dividendos pagos a “não residentes” no país,
além do pagamento de royalties. Ficam de fora, portanto, uma série de categorias
que nos balanços de pagamento do Banco Central aparecem como remessas de
“rendas” e de “serviços”.
Mesmo assim, é
possível ter uma ideia da evolução dessas remessas com os dados dos Censos.
Vejamos:
I)
No Censo de Capitais Estrangeiros de 1995, o pagamento de lucros/dividendos e
royalties a “não residentes” - ou seja, as remessas declaradas de
lucros/dividendos e royalties para o exterior - foram de R$ 3,4 bilhões [Nota:
os Censos utilizam o real como moeda, exceto no que se refere às exportações e
importações];
II)
No Censo de 2000, esse pagamento pulou para R$ 7,5 bilhões;
III)
Agora, no recém-publicado Censo de 2005, esse valor foi a R$ 48,3 bilhões;
E, ressaltamos nós,
isso refere-se apenas a remessas declaradas (sem contar, portanto, as
disfarçadas) de lucros e royalties para o exterior.
[NOTA: Alguns
leitores podem estranhar esses números sobre remessas, ao compará-los com
aqueles que publicamos em nossa edição de 11 de março e seguintes. Porém, aqui
se trata de reais, enquanto os números divulgados por nós anteriormente,
que têm como fonte também o Banco Central, referiam-se a dólares.]
IDE
Como apontamos nas
edições mencionadas, a desnacionalização - e os problemas dela decorrentes para
o nosso país - estão em função da entrada violenta, brutal, do chamado
Investimento Direto Estrangeiro (IDE), a partir do governo Fernando Henrique,
para comprar, a preço subestimado, empresas públicas e privadas nacionais.
Nos Censos, o método
do BC de aferir o estoque de IDE considera o dinheiro externo que entrou para
integralizar o capital de empresas, mas não considera outros movimentos do
capital externo dentro do país com o mesmo objetivo - os chamados IDE “de
segundo e terceiro graus”.
As quantias que
mencionaremos abaixo referem-se ao IDE total - o que entrou para
controlar empresas, somado ao que entrou para participações minoritárias
estrangeiras em empresas brasileiras.
Neste terceiro Censo
de Capitais Estrangeiros, aponta-se que o IDE acumulado no país (o estoque de
IDE) correspondia, em dezembro de 2005, a R$ 381 bilhões. No Censo de 2000, esse
estoque era de R$ 201,4 bilhões, e, em 1995, primeiro ano do governo Fernando
Henrique, era de R$ 40,5 bilhões.
Para minimizar as
distorções causadas pela conversão em reais do Investimento Direto Estrangeiro,
consideraremos o estoque de IDE em dólar, de acordo com o mesmo critério do BC
(a conversão em reais foi feita pela cotação do último dia útil do ano-base de
cada Censo). Por outro lado, consideraremos o patrimônio líquido controlado por
empresas estrangeiras dentro do Brasil em reais - o que nos interessa é
comparar a variação entre um e outro, não os seus valores “de mercado”.
Assim, temos um
estoque de IDE de US$ 41,7 bilhões em 1995; de US$ 103 bilhões em 2000; e de US$
162,8 bilhões em 2005.
Portanto, em cinco
anos de governo Fernando Henrique (1995-2000), o estoque de Investimento Direto
Estrangeiro (IDE) dentro do país aumentou 147%.
Como já dissemos em
outra oportunidade: em cinco anos, para comprar empresas nacionais, entrou mais
que o dobro do dinheiro externo que, com a mesma finalidade, entrou nos 495 anos
que vão desde a Descoberta do Brasil até a posse de Fernando Henrique.
Isso correspondeu,
entre 1995 e 2000, a um aumento no patrimônio líquido controlado pelo capital
estrangeiro de 148% (de R$ 67,3 bilhões para R$ 167 bilhões), sem contar as
participações minoritárias.
Aparentemente, o
aumento de patrimônio líquido controlado pelas multinacionais acompanhava o
aumento do IDE.
Porém, entre 2000 e
2005, apesar desse capital estrangeiro ter se retraído nos primeiros anos do
governo Lula (somente em 2007 e 2008 ele voltaria a assumir proporções
gigantescas), o estoque de IDE aumentou 58% (de US$ 103 bilhões para US$ 162,8
bilhões), enquanto o patrimônio líquido controlado pelo capital estrangeiro
dentro do Brasil aumentava 75,4% (de R$ 167 bilhões para R$ 293 bilhões).
E, em relação ao
primeiro Censo, de 1995, enquanto o estoque de IDE aumentava 290% em 10 anos (de
US$ 41,7 bilhões para US$ 162,8 bilhões em 2005), o patrimônio líquido
controlado pelo capital estrangeiro no país aumentava 335,3% (de R$ 67,3 bilhões
para R$ 293 bilhões).
Isto se deu às
custas da diminuição do patrimônio controlado por brasileiros, seja através do
Estado, seja por empresários nacionais. Pouquíssimo desse capital estrangeiro
veio instalar novas empresas ou novas unidades produtivas. A maior parte apenas
se apropriou de empresas já construídas, que estavam em dificuldades devido à
política do governo Fernando Henrique, de privilégio ao capital externo.
Se fizermos a mesma
comparação usando os ativos controlados dentro do país pelo capital estrangeiro,
veremos um quadro numericamente mais terrível ainda - mas preferimos trabalhar
com o patrimônio líquido, ou seja, com um valor do qual já foram descontados os
passivos - as dívidas de curto e longo prazo das empresas.
Essa conta, forçoso
é ressaltar, ainda subestima bastante o ritmo da desnacionalização havida entre
1995 e 2005, pois, se por um lado estamos considerando o IDE total - inclusive o
que foi para a aquisição de participações minoritárias em empresas brasileiras
-, por outro lado estamos considerando apenas o patrimônio líquido das empresas
com maioria de capital estrangeiro. Mas isso somente torna mais elucidativo o
quadro de desnacionalização.
IMPORTAÇÕES
Vejamos agora a
participação dessas empresas na balança comercial do país, isto é, sua
contribuição para as exportações, tão incensada por todas as mentes colonizadas
- vis-à-vis a sua muito menos falada (por razões óbvias) vocação sofregamente
importadora.
Em 2005, as empresas
estrangeiras exportaram US$ 50,2 bilhões, isto é, 42,3% das exportações do
Brasil nesse ano. Porém, elas importaram US$ 37,5 bilhões - nada menos do que
50,9% das importações feitas no mesmo ano.
E isso não é tudo -
dos US$ 50,2 bilhões que exportaram, nada menos do que US$ 31,8 bilhões, ou
63,3%, foram exportações “intra-companhia”, ou seja, foram feitas para empresas
do mesmo grupo no exterior.
Naturalmente, há
quem tenha a opinião de que isso não tem importância, até porque é uma tendência
“natural” das multinacionais, isto é, dos monopólios financeiro-industriais.
Realmente, isso é
uma expressão da monopolização da economia mundial – isto é, do domínio dos
monopólios dos EUA - que surgiu após à II Guerra Mundial. Por isso mesmo,
reflete apenas o engessamento das economias por alguns cartéis.
Porém, se há gente
que defenda – por ilusão, por má-fé ou por esmagamento ideológico - que a
expansão das exportações “intra-companhias” no cômputo geral das exportações é
um avanço (ou, simplesmente, que é algo “inevitável”), há menos gente que tenha
falta de vergonha suficiente para defender o mesmo fenômeno quando se refere às
importações. Pois aí está mais explícito o caráter predatório deste “fenômeno”.
Dos US$ 37,5
bilhões que as multinacionais importaram em 2005, nada menos do que US$ 21,9
bilhões, ou 58,4%, foram de empresas do mesmo grupo no exterior para a
filial aqui instalada.
Note-se que as
importações das empresas estrangeiras, como já mencionamos, foram 50,9% das
importações que entraram no país em 2005.
Resta saber o que o
país ganha com isso, ao permitir que seja base para que outros aumentem o seu
saldo comercial (ou diminuam seu déficit comercial) às nossas custas -
importando produtos que poderíamos estar fabricando aqui dentro, e a um preço
bem mais barato, mas que as empresas estrangeiras preferem importar, mais da
metade dessas importações, de si próprias. |