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Aepet: 10
estragos do governo FH na Petrobrás
Em reação
às crescentes manifestações contra a chamada CPI da Petrobrás, criada pela
oposição ao governo Lula, o senador Sérgio Guerra (PSDB-PE) disse que as
críticas dos manifestantes vão “bater no vento”. “Não estamos atacando a
Petrobrás, estamos defendendo a empresa. Vamos atrás de gente que não merece
estar nessa empresa. É desnecessária a forma como se deu o discurso ofensivo
contra o PSDB, isso já compromete essa manifestação na sua origem”, avaliou
Guerra, em matéria no Jornal do Brasil, dia 22. Para refrescar a memória do
senador e demais entusiastas da CPI, Fernando Siqueira, presidente da Associação
dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet), selecionou “Dez estragos produzidos pelo
governo FHC no Sistema Petrobrás”, que publicamos a seguir.
“Estragos produzidos na Petrobrás, pelo governo
FHC, visando desnacionalizá-la:
1993 - Como ministro da
Fazenda, Fernando Henrique Cardoso fez um corte de 52% no orçamento da
Petrobrás, previsto para o ano de 1994, sem nenhuma fundamentação ou
justificativa técnica.
Ele teria inviabilizado a empresa se não tivesse
estourado o escândalo do Orçamento, fazendo com que se esquecessem da Petrobrás.
Todavia, isso causou um atraso de cerca de 6 meses na programação da empresa,
que teve de mobilizar as suas melhores equipes para rever e repriorizar os
projetos integrantes daquele orçamento.
1994 - Ainda como ministro da
Fazenda, com a ajuda do diretor do Departamento Nacional dos Combustíveis,
Fernando Henrique manipulou a estrutura de preços dos derivados do petróleo, de
forma que, nos 6 últimos meses que antecederam o Plano Real, a Petrobrás teve
aumentos mensais, na sua parcela dos combustíveis, em valores 8% abaixo da
inflação. Por outro lado, o cartel internacional das distribuidoras de derivados
teve, nas suas parcelas, aumentos de 32% acima da inflação.
Isto significou uma transferência anual,
permanente, de cerca de US$ 3 bilhões do faturamento da Petrobrás para o cartel
dessas distribuidoras.
A forma de fazer isso foi através dos dois
aumentos mensais, que eram concedidos aos derivados, pelo fato da Petrobrás
comprar o petróleo em dólares, no exterior, e vender no mercado, em moeda
nacional. Havia uma inflação alta e uma desvalorização diária da nossa moeda. Os
dois aumentos repunham parte das perdas que a Petrobrás sofria devido a essa
desvalorização.
Mais incrível: a Petrobrás vendia os derivados
para o cartel e este, além de pagá-la só 30 a 50 dias depois, ainda aplicava
esses valores, e o valor dos tributos retidos para posterior repasse ao Tesouro,
no mercado financeiro, obtendo daí vultosos ganhos financeiros, em face da
inflação galopante então presente. Quando o Plano Real começou a ser implantado,
com o objetivo de acabar com a inflação, o cartel reivindicou uma parcela maior
nos aumentos, porque iria perder aquele duplo e absurdo lucro.
1995 - Em fevereiro, já como presidente, FHC
proibiu a ida de funcionários de estatais ao Congresso para prestar informações
aos parlamentares e ajudá-los a exercer seus mandatos com respaldo em
informações corretas.
Assim, os parlamentares ficaram reféns das
manipulações da imprensa comprometida. As informações dadas aos parlamentares no
governo de Itamar Franco, como dito acima, haviam impedido a revisão da
Constituição Federal com um claro viés neoliberal.
Fernando Henrique emitiu um decreto, nº 1403/95,
que instituía um órgão de inteligência, o SIAL, Serviço de Informação e Apoio
Legislativo, com o objetivo de espionar os funcionários de estatais que fossem a
Brasília falar com parlamentares. Se descobertos, seriam demitidos.
Assim, tendo tempo de trabalho para me
aposentar, solicitei a aposentadoria e fui para Brasília por conta da
Associação. Tendo recursos bem menores que a Petrobrás (que, no governo Itamar
Franco, enviava 15 empregados semanalmente ao Congresso), eu só podia levar mais
um aposentado para ajudar no contato com os parlamentares. Um dos nossos
dirigentes, Argemiro Pertence, mudou-se para Brasília, às suas expensas, para
ajudar nesse trabalho.
Também em 1995, FHC deflagrou o contrato e a
construção do Gasoduto Bolívia-Brasil, que foi o pior contrato que a Petrobrás
assinou em sua história. FHC, como ministro da Fazenda do governo Itamar Franco,
funcionou como lobista em favor do gasoduto. Como presidente, suspendeu 15
projetos de hidrelétricas em diversas fases, para tornar o gasoduto
irreversível. Este fato, mais tarde, acarretaria o “apagão” no setor elétrico
brasileiro.
As empresas estrangeiras, comandadas pela Enron
e Repsol, donas das reservas de gás na Bolívia, só tinham como mercado o Brasil.
Mas a construção do gasoduto era economicamente inviável. A taxa de retorno era
de 10% ao ano, enquanto o custo financeiro era de 12% ao ano. Por isso,
pressionaram o governo a determinar que a Petrobrás assumisse a construção. A
empresa foi obrigada a destinar recursos da Bacia de Campos, onde a taxa de
retorno era de 80%, para investir nesse empreendimento.
O contrato foi ruim para o Brasil pelas
seguintes razões: mudança da matriz energética para pior, mais suja; ficar
dependente de insumo externo dominado por corporações internacionais, com o
preço atrelado ao do petróleo e valorada em moeda forte.
Foi ruim para a Bolívia, que só recebia 18% pela
entrega de uma de suas últimas riquezas, a mais significativa. Evo Morales
elevou essa participação para 80% (a média mundial de participação dos países
exportadores é de 84%) e todas as empresas aceitaram de bom grado.
E foi péssimo para a Petrobrás que, além de
tudo, foi obrigada a assinar uma cláusula de “Take or Pay”, ou seja, comprando
ou não a quantidade contratada, ela pagaria por ela. Assim, por mais de 10 anos,
pagou por cerca de 10 milhões de metros cúbicos, sem conseguir vender o gás no
mercado nacional.
Ainda em 1995, o governo, faltando com o
compromisso assinado com a categoria, levou os petroleiros à greve, com o firme
propósito de fragilizar o sindicalismo brasileiro e a sua resistência às
privatizações que pretendia fazer. Havia sido assinado um acordo de aumento de
salário de 13%, que foi cancelado sob a alegação de que o presidente da
Petrobrás não o havia assinado. Mas o acordo foi assinado pelo então Ministro
das Minas e Energia, Delcídio Amaral, pelo representante do presidente da
Petrobrás e pelo Ministro da Fazenda, Ciro Gomes.
Além disso, o acordo foi assinado a partir de
uma proposta apresentada pelo presidente da Petrobrás. Enfim, foi deflagrada a
greve, após muita provocação, inclusive do Ministro do TST, Almir Pazzianoto,
que disse que os petroleiros estavam sendo feitos de palhaços. FHC reprimiu a
greve fortemente, com tropas do exército nas refinarias, para acirrar os ânimos.
Mas deixou as distribuidoras multinacionais de gás e combustíveis sonegarem os
produtos, pondo a culpa da escassez nos petroleiros. No fim, elas levaram 28% de
aumento, enquanto os petroleiros perderam até o aumento de 13%, já pactuado e
assinado.
Durante a greve, uma viatura da Rede Globo de
Televisão foi apreendida nas proximidades de uma refinaria, com explosivos,
provavelmente pretendendo uma ação de sabotagem que objetivava incriminar os
petroleiros. No balanço final da greve, que durou mais de 30 dias, o TST
estabeleceu uma multa pesada que inviabilizou a luta dos sindicatos. Por ser o
segundo maior e mais forte sindicato de trabalhadores brasileiros, esse desfecho
arrasador inibiu todos os demais sindicatos do país a lutar por seus direitos. E
muito menos por qualquer causa em defesa da Soberania Nacional. Era a estratégia
de Fernando Henrique para obter caminho livre e sangrar gravemente o patrimônio
brasileiro.
1995 – O mesmo Fernando Henrique comandou
o processo de mudança constitucional para efetivar cinco alterações profundas na
Constituição Federal de 1988, na sua Ordem Econômica, incluindo a quebra do
Monopólio Estatal do Petróleo, através de pressões, liberação de emendas,
barganhas e chantagens com os parlamentares.
Manteve o presidente da Petrobrás, Joel Rennó,
que, no governo Itamar Franco, chegou a fazer carta ao Congresso Nacional
defendendo a manutenção do monopólio estatal do petróleo, mas que, no governo
FHC, passou a defensor empedernido da sua quebra.
AS CINCO MUDANÇAS CONSTITUCIONAIS PROMOVIDAS POR
FHC:
1) Mudou o conceito de empresa nacional.
A Constituição de 1988 havia estabelecido uma distinção entre empresa brasileira
de capital nacional e empresa brasileira de capital estrangeiro. As empresas de
capital estrangeiro só poderiam explorar o subsolo brasileiro (minérios) com até
49% das ações das companhias mineradoras. A mudança enquadrou todas as empresas
como brasileiras. A partir dessa mudança, as estrangeiras passaram a poder
possuir 100% das ações. Ou seja, foi escancarado o subsolo brasileiro para as
multinacionais, muito mais poderosas financeiramente do que as empresas
nacionais.
A Companhia Brasileira de Recursos Minerais
havia estimado o patrimônio de minérios estratégicos brasileiros em US$ 13
trilhões. Apenas a companhia Vale do Rio Doce detinha direitos minerários de US$
3 trilhões. FHC vendeu essa companhia por um valor inferior a um milésimo do
valor real estimado.
2) Quebrou o monopólio da navegação de
cabotagem, permitindo que navios estrangeiros navegassem pelos rios
brasileiros, transportando os minérios sem qualquer controle.
3) Quebrou o monopólio das telecomunicações,
para privatizar a Telebrás por um preço abaixo da metade do que havia gasto na
sua melhoria nos últimos 3 anos, ao prepará-la para ser desnacionalizada.
Recebeu pagamento em títulos podres e privatizou um sistema estratégico de
transmissão de informações. Desmontou o Centro de Pesquisas da empresa e abortou
vários projetos estratégicos em andamento, como capacitor ótico, fibra ótica e
TV digital.
4) Quebrou o monopólio do gás canalizado
e entregou a distribuição a empresas estrangeiras. Um exemplo é a estratégica
Companhia de Gás de São Paulo, a COMGÁS, que foi vendida a preço vil para a
British Gas e para a Shell. Não deixou a Petrobrás participar do leilão através
da sua empresa distribuidora. Mais tarde, abriu parte do gasoduto Bolívia-Brasil
para essa empresa e para a Enron, com ambas pagando menos da metade da tarifa
paga pela Petrobrás, uma tarifa baseada na construção do Gasoduto, enquanto que
as outras pagam uma tarifa baseada na taxa de ampliação.
5) Quebrou o Monopólio Estatal do Petróleo,
através de uma emenda à Constituição de 1988, retirando o parágrafo primeiro,
elaborado pelo diretor da AEPET, Guaracy Correa Porto, que estudava Direito e
contou com a ajuda de seus professores na elaboração. O parágrafo extinto era um
salvaguarda que impedia que o governo cedesse o petróleo como garantia da dívida
externa do Brasil. FHC substituiu esse parágrafo por outro, permitindo que as
atividades de exploração, produção, transporte, refino e importação fossem
feitas por empresas estatais ou privadas. Ou seja, o monopólio poderia ser
executado por várias empresas, mormente pelo cartel internacional.
1996 - Fernando Henrique enviou o
Projeto de Lei que, sob as mesmas manobras citadas, se transformou na Lei
9.478/97.
Esta Lei contém artigos conflitantes entre si e
com a Constituição Brasileira. Os artigos 3º, 4º e 21º, seguindo a Constituição,
estabelecem que as jazidas de petróleo e o produto da sua lavra, em todo o
território nacional (parte terrestre e marítima, incluído o mar territorial de
200 milhas e a zona economicamente exclusiva) pertencem à União Federal. Ocorre
que, pelo seu artigo 26º - fruto da atuação do lobby, sobre uma brecha deixada
pelo Projeto de Lei de FHC - efetivou a quebra do Monopólio, ferindo os artigos
acima citados, além do artigo 177 da Constituição Federal que, embora alterada,
manteve o monopólio da União sobre o petróleo. Esse artigo 26º confere a
propriedade do petróleo a quem o produzir.
“O PETRÓLEO AGORA É VOSSO”
1997 – Fernando Henrique criou a Agência
Nacional do Petróleo e nomeou o genro, David Zylberstajn, que havia se
notabilizado como Secretário de Minas e Energia do Estado de São Paulo,
desnacionalizando várias empresas de energia por preços irrisórios, inclusive a
Eletropaulo, vendida para a empresa americana AES que, para essa compra, lançou
mão de um empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES) e não pagou.
Cabe salientar que, dos recursos do BNDES, 50%
são originários do FAT - Fundo de Amparo ao Trabalhador - e foram emprestados a
empresas estrangeiras para comprar empresas nacionais, que demitiram, em média,
30% dos trabalhadores. Ou seja, o FAT foi usado para desempregar os
trabalhadores.
Zylberstajn, no ato de sua posse, com o
auditório cheio de empresas estrangeiras ou de seus representantes, bradou:
“O petróleo agora é vosso”. Empossado, iniciou os leilões de áreas, já com
alguma pesquisa feita pela Petrobrás, com tal avidez entreguista que os blocos
licitados tinham áreas 220 vezes maiores do que a dos blocos licitados no Golfo
do México.
Zylberstajn, inicialmente, mandou que a
Petrobrás escolhesse 10% das áreas sedimentares, de possível ocorrência de
hidrocarbonetos, nas 29 províncias onde ela já havia pesquisado, para continuar
explorando por mais 3 anos, quando, se não achasse petróleo, teria que
devolvê-las à ANP. Depois de 6 meses de exaustivos estudos, a Petrobrás escolheu
as áreas que queria. Surpreendentemente, Zylberstajn, aproveitando que a atenção
do país estava voltada para a Copa do Mundo de futebol, em realização na França,
retomou 30% dessas áreas que a Petrobrás havia escolhido, sob rigorosos
critérios técnicos, pelos seus especialistas. Assim, a Petrobrás passou a ter
direito de explorar apenas 7% do total das rochas sedimentares brasileiras. Esse
prazo de 3 anos se mostrou inviável e foi estendido para 5 anos. Nós publicamos
informativos mostrando que as multinacionais tinham 8 anos de prazo contra os 3
da Petrobrás.
1998 - A Petrobrás é impedida pelo governo
FHC de obter empréstimos no exterior para tocar seus projetos - a juros de 6%
a/a -, e de emitir debêntures que visavam à obtenção de recursos para os seus
investimentos.
FHC cria o REPETRO, através do decreto 3161/98,
que libera as empresas estrangeiras do pagamento de impostos pelos seus produtos
importados, mas sem, contudo, dar a contrapartida às empresas nacionais. Isto,
somado à abertura do mercado nacional iniciada por Fernando Collor, liquidou as
5.000 empresas fornecedoras de equipamentos para a Petrobrás, gerando brutais
desemprego e perda de tecnologias para o País. Essas empresas haviam sido
criadas através do repasse de tecnologia que a Petrobrás gerava ou absorvia. A
presença do fornecedor nacional facilitava em muito a operação da empresa.
Ainda em 1998, seis empresas multinacionais
(duas delas comandaram a privatização da YPF Argentina – Merryl Linch e Gaffney
Cline) passaram a ocupar o 12º andar do prédio da Petrobrás (Edise) para
examinar minuciosamente todos os dados da Companhia, sob o argumento de que se
tratava de uma avaliação dos dados técnicos e econômicos necessários à venda de
ações da Empresa, em poder do governo.
Durante dois anos, essas empresas receberam
todas as informações que quiseram dos gerentes da Petrobrás, inclusive as mais
confidenciais e estratégicas, de todas as áreas. Reviraram as entranhas da
Companhia, de uma forma jamais realizada em qualquer empresa que aliene suas
ações.
1999 – Muda-se o estatuto da Petrobrás com
três finalidades:
1)permitir que
estrangeiros possam ser presidentes da empresa (Philippe Reichstul)
2) permitir a venda de ações para estrangeiros;
3) retirar os diretores da empresa do Conselho
de Administração, colocando em seu lugar representantes do Sistema Financeiro
Internacional, como Jorge Gerdau Johannpeter (comandante do lobby para a quebra
do Monopólio), Roberto Heiss, Paulo Haddad e outros;
Reichstul inicia o mandato cancelando
atabalhoadamente (propositalmente?) o contrato da empresa Marítima -
fornecimento de 6 plataformas para perfuração exploratória - um mês antes dela
incorrer numa grave inadimplência. O cancelamento salvou a Marítima de pesadas
multas e ainda deu a ela argumentos para processar a Petrobrás, pedindo R$ 2
bilhões de indenização pelo incrível cancelamento. Ganhou em primeira instância.
Reichstul viaja aos EUA com o ex-jogador Pelé e,
juntos, fazem propaganda do lançamento e venda de ações da Petrobrás em Wall
Street; o governo vende, então, 20% do capital total da Petrobrás, que estavam
em seu poder. Posteriormente, mais 16% foram vendidos pelo irrisório valor total
de US$ 5 bilhões. Como a “Ação Direta de Inconstitucionalidade” da AEPET contra
o artigo 26, já mencionado, assinada pelo governador Roberto Requião (Paraná),
foi derrubada, e a Petrobrás é dona das reservas, em detrimento da União, esses
acionistas incorporaram ao seu patrimônio um acervo de 10 bilhões de barris -
36% de 30 bilhões de barris nas mãos da Petrobrás (incluindo 16 bilhões do
pré-sal, já cubados) – os quais, pela Constituição pertencem à União.
Como, agora, estamos no limiar do pico de
produção mundial, o barril de petróleo, em queda temporária, vai ultrapassar os
US$ 100, esse patrimônio transferido, gratuitamente, valerá mais de US$ 1
trilhão. Considerando que já existiam no mercado cerca de 20% das ações em mãos
de testas de ferro, o governo, hoje, detém 54% das ações com direito a voto, mas
apenas 40% do capital total da Petrobrás (antes das mudanças, o governo detinha
87% do capital total da Companhia).
O poder dos novos e felizardos acionistas de
Wall Street os levam a exigir da Petrobrás a quitação dos débitos que a
Companhia tem com o Fundo de Pensão (Petros), de preferência pelo menor preço
possível. Reichstul usa R$ 8 bilhões em títulos de longuíssimo prazo do governo
(NTN tipo B, recebidos na privatização das subsidiárias da Companhia – prazos de
23 e 32 anos) e quita a dívida, financeiramente, mas não atuarialmente, pelo
valor de face dos títulos. A Petrobrás contabiliza a saída dos títulos por R$
1,8 bilhão e o Fundo de Pensão os recebe por R$ 8 bilhões.
Reichstul dobra o salário dos gerentes da
Petrobrás, amplia o número deles, e lhes dá poderes ilimitados para contratar
empresas e pessoas. Ganha com isso o apoio para fazer todos as falcatruas que
planejava. Desmonta a competente equipe de planejamento da Petrobrás e contrata,
sem concorrência, a Arthur De Little, empresa americana, presidida pelo seu
amigo Paulo Absten, para comandar o planejamento estratégico da Companhia.
Isto resulta numa série de desastres
consecutivos. Entre eles, a compra de ativos obsoletos na Argentina, na Bolívia
e em outros países. Os gerentes – cooptados - se fartam de contratar empresas e
pessoas, sem controle. A terceirização atinge o estrondoso absurdo de 120.000
contratados, com nepotismo e corrupção, enquanto os empregados efetivos caem de
60.000 para cerca de 30.000, seguindo a estratégia aplicada na Argentina, de
enxugar para desnacionalizar. Abre-se acesso às entranhas da empresa para
pessoas alocadas por empreiteiras e concorrentes estrangeiras.
Reichstul tenta mudar o nome da empresa para
Petrobrax, para facilitar a pronúncia dos futuros compradores estrangeiros.
Causa uma reação de indignação nacional e recua. Mas segue a sua meta
desnacionalizante e divide a empresa em 40 unidades de negócio, seguindo a
proposta do Credit Suisse First Boston, apresentada ao Governo Collor, para a
desnacionalização da Companhia. Pulveriza as equipes técnicas, desmantelando a
tecnologia da empresa e preparando para, através do artigo 64 da Lei 9478/97,
transformar cada unidade de negócio em subsidiária e privatizá-las, como iniciou
fazendo com a Refinaria do Rio Grande do Sul, a Refap.
Essa privatização foi feita através de uma troca
de ativos com a Repsol Argentina (pertencente ao Banco Santander, braço do Royal
Scotland Bank Co), onde a Petrobrás deu ativos no valor de US$ 500 milhões - que
avaliamos em US$ 2 bilhões - e recebeu ativos no valor de US$ 500 milhões, os
quais, dois dias depois, com a crise da Argentina, passaram a valer US$ 170
milhões.
A avaliação dos ativos foi feita pelo banco
Morgan Stanley, do qual Francisco Gros era diretor, acumulando, desde o inicio
da gestão Reichstul, o cargo de membro do Conselho de Administração da
Petrobrás. Gros, segundo sua biografia publicada pela Fundação Getúlio Vargas,
veio para o Brasil, como diretor do Morgan Stanley, para assessorar as
multinacionais no processo de privatização. Através de sindicalistas do Rio
Grande do Sul, entramos com uma ação judicial na qual ganhamos a liminar,
cassada, mas que interrompeu esse processo de desnacionalização.
A gestão Reichstul levou a empresa a um nível de
acidentes sem precedentes na sua história: 62 acidentes graves - em dois anos -
contra a série histórica de 17 acidentes em 23 anos (1975 a 1998), segundo
relatório publicado pelo Conselho Regional de Engenharia do Estado do Paraná.
Nós pedimos investigação de sabotagem aos vários
órgãos de segurança: Polícia Federal, Marinha, Procuradoria Federal. Não
investigaram, mas os acidentes cessaram.
2001 - Reichstul, desgastado, dá lugar a
Francisco Gros, que, ao assumir a presidência da Petrobrás, num discurso em
Houston, EUA, declara que, na sua gestão, “a Petrobrás passará de estatal para
empresa privada, totalmente desnacionalizada”.
Gros compra 51% da Pecom Argentina, por US$ 1,1
bilhão, embora a dita empresa tenha declarado, publicamente, um déficit de US$
1,5 bilhão; cria um sistema para mascarar acidentes, nos quais os acidentados
não os possam reportar; tenta implantar um plano de Benefício Definido no fundo
de pensão – Petros.
Faz, ainda, um contrato de construção de duas
plataformas com a Halliburton, com uma negociação obscura, sem concorrentes, que
resulta, além de um emprego maciço de mão-de-obra estrangeira, em dois atrasos
superiores a um ano e meio. Esses atrasos fizeram com que, pela primeira vez na
história da empresa, houvesse uma queda de produção, fato ocorrido em novembro
de 2004. Apesar desses atrasos, a Halliburton não pagou multa e ainda ganhou
cerca de US$ 500 milhões adicionais da Petrobrás, em tribunal americano.
Com a eleição de Lula para a presidência da
República, antes da sua posse, houve uma renegociação em massa dos contratos de
serviço em andamento, com novos prazos, superiores a 4 anos, de forma a criar
uma blindagem ao novo governo, impedindo as reanálises, renegociações ou
revogações dos contratos feitos sem concorrência, incluindo empresas ligadas aos
amigos de alguns gerentes do governo FHC.”
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