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Cuba, a indenização devida
GILSON CARONI FILHO*
É um ótimo sinal o anúncio recente feito pelo
presidente Barack Obama, dando conta do levantamento de algumas medidas do
bloqueio comercial dos Estados Unidos a Cuba. Mas se, tal como afirmou o
porta-voz da Casa Branca, o objetivo é “melhorar a vida do povo cubano”, não há
outra saída que não passe pelo levantamento total do injustificável embargo
imposto ao país há quase meio século. Algo que Fidel definiu com precisão,
quando falou em “política genocida que custa vidas e que demonstrou ser um total
fracasso”.
Uma reorientação efetiva da política estadunidense teria um
significado que ultrapassaria os limites da Ilha. Demonstraria uma sintonia fina
com o que vem ocorrendo nos últimos anos na América Latina. E que não parece dar
mostras de retrocesso.
Um redesenho de dinâmica política que só pode ser entendido
a partir das raízes históricas da opressão e das lutas dos povos
latino-americanos. Um continente que, sem receio de incorrer em argumentação
simplificadora, se desenvolve seguindo dois traçados antagônicos: ou
incorporando o elemento popular como protagonista ou elaborando processos de
exclusão que remontam à época colonial.
Há 50 anos, o caminho escolhido por Fidel Castro, Juan
Almeida, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, entre outros, foi o primeiro, o da
incorporação. Aquele que vence porque os povos têm um instinto que os guia em
seus grandes movimentos. Como destacou o historiador Hélio Silva, “os líderes só
se afirmam quando conseguem captar, interpretar os sentimentos do povo. Não
importa que ele apareça somente no fundo do quadro, deixando o proscênio livre
para os heróis se destacarem. Há uma orquestração inaudível, uma coreografia
silenciosa, que são imprescindíveis porque as primeiras figuras cairiam no vácuo
se as suas atitudes não correspondessem ao movimento de massa”.
É a isso, e não às alegadas disposições ditatoriais do
regime instalado em 1959, que Fidel deve sua longevidade política. E, na quadra
atual, é dentro desse marco que deve ser compreendida a popularidade das
lideranças de esquerda da região. Não entender o processo é jogar com as pedras
do imperialismo e da direita golpista.
Cuba, no ano da revolução, tinha 6,5 milhões de habitantes, dos quais 1 milhão e
200 mil estavam radicados em Havana, a pequena “Miami” dos cabarés e bordéis da
máfia americana. Brilhavam os neons dos famosos magazines, iluminando o caminho
para o desfile de carros do ano que, reluzentes, cortavam a cidade transportando
uma burguesia alheia ao resto do país, colaboradora da dilapidação da sociedade
cubana, cúmplice do alto índice de prostituição, do tráfico de drogas e do
desemprego.
No entorno, como macabro contraponto ao luxo da capital, a
massa de trabalhadores rurais, além de não dispor de qualquer tipo de amparo
social, sequer tinha certeza do trabalho, pois terminada a safra da cana, nada
havia a fazer. Eram quatro meses de trabalho por ano, depois não havia comida.
Restava viver em “bohios”- choupanas feitas de folha de palmeira - sem água, luz
elétrica, ou instalações sanitárias. Segundo o censo de 1953, uma entre 4
pessoas em Cuba não sabia ler nem escrever.
A taxa de mortalidade infantil era de quase 40 para cada
mil nascidos vivos. Vinte anos depois (em 1979), como conseqüência das
prioridades do governo revolucionário, a taxa recuou para 19,3, uma das menores
do mundo. As promessas do tempo de guerrilha se transformaram em realidade
através de um rigoroso plano de saúde, que ampara desde o momento da gravidez
até a fase adulta.
Na educação, as mudanças não foram menos expressivas. Até a
chegada de Fidel ao poder, 50% da população infantil não estudava. Após a
revolução, a educação escolar foi nacionalizada. Como trabalho básico, foi
organizada uma gigantesca campanha de alfabetização que erradicaria essa
carência em 1961.
O Sistema Nacional de Educação, criado em seguida,
assegurou ensino gratuito em todos os níveis. Não foram poucos os estrangeiros
de países capitalistas que foram estudar na Ilha devido a excelência obtida em
diversas especialidades. Era o homem novo que o embargo impediu que surgisse em
outros países da América Latina.
Desde a fundação da Escola Nacional de Arte de Cubanacán, o ensino gratuito de
múltiplas de manifestações artísticas, se estendeu a quase 50 escolas, com um
número aproximado de 5 mil alunos. Eis a poética revolucionária que o
imperialismo tolheu no restante da região.
O que era o esporte antes do triunfo da revolução? Uma
coisa restrita ao boxe e ao beisebol profissionais, controlados pelas grandes
máfias que transformavam Cuba em um grande celeiro para os empresários
esportivos estadunidenses. O que veio depois? Coordenação e promoção maciça do
esporte. Organizou-se uma Escola Superior de Educação Física e, atualmente,
existem escolas provinciais de educação física com milhares de matrículas a cada
ano. Vários cubanos são recordistas olímpicos e mundiais e Cuba ocupa posição de
destaque no boxe, vôlei, atletismo e beisebol.
O presidente Obama diz que sua nova política pode alcançar
o que o embargo nunca conseguiu, uma verdadeira mudança política na Ilha. Se o
objetivo é esse, o malogro não tardará a cobrar seu preço. Apesar das
dificuldades decorrentes do bloqueio imperialista, a sociedade cubana ainda
registra avanços notáveis. O que se espera dos EUA não são favores sujeitos a
condicionalidades, mas indenização por uma prática criminosa. Não se barganha a
soberania.
*Professor de Sociologia das Faculdades
Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e
colaborador do HP e do Observatório da Imprensa.
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