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O antigo
silêncio dos influenciáveis
No momento em
que tucanos e demos voltam à ofensiva, através de uma CPI que vai bem além da
dimensão eleitoreira, adentrando o terreno do entreguismo puro e simples, convém
recordar como eram tratadas questões estratégicas nos dois governos de FHC.
Ainda mais quando sabemos que o verdadeiro alvo é o marco regulatório do
pré-sal, em um eventual retorno do consórcio neoliberal ao poder. Talvez isso
nos ajude a entender o arrazoado de certos colunistas em defesa da CPI da
Petrobrás e compreendamos com mais facilidade os princípios que norteiam
articulistas zelosos na defesa de uma política externa que privilegia os
objetivos de grandes conglomerados
GILSON CARONI
FILHO*
Nada como folhear revistas e jornais antigos para
constatarmos a eterna briga do jornalismo de mercado com fatos que incomodam
seus interesses e os dos eternos aliados no campo político. No momento em que
tucanos e demos voltam à ofensiva, através de uma CPI que vai bem além da
dimensão eleitoreira, adentrando o terreno do entreguismo puro e simples, convém
recordar como eram tratadas questões estratégicas nos dois governos de Fernando
Henrique Cardoso. Ainda mais quando sabemos que o verdadeiro alvo é o marco
regulatório do pré-sal, em um eventual retorno do consórcio neoliberal ao poder.
Voltemos no tempo,
mais precisamente a março de 2004. Como reagiria a opinião pública de uma nação
soberana se tomasse conhecimento, por meio de conceituada publicação
jornalística, que sua Polícia Federal foi comprada por serviços de inteligência
de um país estrangeiro? Que as instituições republicanas são inteiramente
controladas por redes de espionagem, e setores expressivos da imprensa local
cooptados para produzir uma imagem favorável aos interesses da potência
controladora?
Seria impossível
conter o terremoto político advindo de tais revelações, salvo se um isolamento
acústico fosse imediatamente construído por aqueles que elaboram a agenda da
opinião pública. E é nesse ponto, no silêncio consensual do complexo midiático,
que reside a atualidade deste pequeno artigo.
Reportagem de capa
da edição de Carta Capital, com data de 19/3/2004, trouxe à tona um
personagem que poderia ter saído das páginas de qualquer romance de John Le
Carré. Versão tão patética quanto real do “espião que sabia demais”, o português
naturalizado americano Carlos Costa chefiou o FBI no Brasil de 1999 a outubro de
2003. Na época, em entrevista ao jornalista Bob Fernandes, ele foi categórico:
“Os Estados Unidos
compraram a Polícia Federal. Há um antigo ditado, e ele é real: quem paga dá as
ordens, mesmo que indiretamente”.
Não descartando a
possibilidade de alguma agência americana ter grampeado o Palácio da Alvorada e
o Itamaraty, Costa disse que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), ao
pedir equipamentos e recursos ao mundo todo, “se prostitui”.
Não menos
contundente foi sua afirmação segundo a qual uma das mais importantes funções da
embaixada americana no país era manipular a imprensa brasileira. Usando,
eufemisticamente o verbo influenciar, o ex-agente não poderia ter sido mais
claro:
“Detectamos
jornalistas que sejam pró-América e os convidamos a ir aos Estados Unidos com
todas as despesas pagas. Essa não era minha área, mas começa assim. Influenciar
é mudar o pensamento contrário aos nossos interesses”.
E qual seria o modus
operandi? Mais uma vez, Carlos Costa foi direto: “Seja
lá o que for necessário. Se é comprar, é comprar, há várias maneiras. Mas deixa
isso pra lá”.
Eis o cenário da
realidade brasileira no reinado de Fernando Henrique Cardoso. Agindo com total
desenvoltura, uma profusão de siglas tais como a US Customs, DEA, NAS, CIA e FBI
faziam de nossa legislação letra morta e tornavam o conceito de soberania
nacional, numa perspectiva otimista, uma hipótese a ser permanentemente
verificada. Tínhamos, enfim, polícias compradas e submetidas a comandos
externos, uma Abin supostamente controlada e formadores de opinião
“influenciados”. O quadro se tornava mais dramático quando o monitoramento de
setores estratégicos do governo era apresentado como rotina.
O que chamou a
atenção, há cinco anos, foi a ausência de repercussão da matéria de Carta
Capital no Congresso e, acima de tudo, em outros veículos jornalísticos. Por
conta de episódios de gravidade bem menor, o conservadorismo põe-se a falar em
crise de governo, perda de capacidade administrativa e riscos à coesão social.
Clama-se pela instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito e o alarido
udenista se reflete nos editoriais das empresas que abrigam aqueles a quem Costa
chama de “os influenciáveis”.
A título de exemplo,
por que a denúncia da revista dirigida por Mino Carta não provocou, à época, a
mesma comoção que o destempero do então ministro José Dirceu em entrevista ao
jornalista Merval Pereira, de O Globo?
Desde sua publicação, o espaço concedido à
reportagem de Bob Fernandes foi praticamente inexistente. Uma ou outra nota, até
o abafamento total. Qual terá sido o motivo do silêncio reinante nas redações
dos principais jornais e revistas do eixo Rio-São Paulo quando o assunto é a
ingerência imperialista na política brasileira?
Há nove anos, Carta
Capital sistematicamente denuncia o aparelhamento do Estado por agências
americanas. Para ser mais preciso, vem historiando um processo que se inicia em
12/4/1995, quando é assinado o Acordo para Combate ao Narcotráfico, e se estende
aos dias de hoje, com a DEA efetuando pagamentos a policiais brasileiros.
Na edição de 3/3/1999, a revista já
apresentava a CIA controlando o antigo Centro de Dados Operacionais (CDO). À
época, Fernando Henrique Cardoso teve grampeada uma conversa com o então chefe
do Cerimonial da Presidência da República, embaixador Júlio César Gomes dos
Santos.
A que devemos o
silêncio dos “influenciáveis?” Traria a matéria denúncias graves sem a
verificação adequada? Ausência de fundamentação empírica que indicasse
sensacionalismo ingênuo ou petição conspiracionista? Não, Carta Capital tem
feito um belo trabalho investigativo. Na edição de 2004, à riqueza de detalhes
somam-se fotos que documentam a desenvoltura de Carlos Costa nos salões do
poder.
Seria conseqüência
da lógica concorrencial das empresas jornalísticas, ignorar os fatos noticiados
por veículos rivais? Ante a magnitude do assunto, era pouco plausível uma
argumentação de cunho puramente mercantil. O mais sensato seria aprofundar a
matéria, focalizando atores políticos relevantes, diretamente envolvidos na
questão, tais como militares e estrategistas.
Estaríamos, então,
nos deparando com um fenômeno hierárquico presente no interior do campo
jornalístico? A existência de um veículo, e apenas um, que pautaria os demais? A
história recente da imprensa brasileira impossibilita tal conjectura. Diferentes
publicações puxaram o fio da meada de assuntos relevantes e foram seguidas pelas
demais. Basta lembrar que o impeachment de Collor começou nas páginas da revista
Veja e os principais escândalos do governo FHC foram inicialmente
noticiados pela Folha de S.Paulo.
Talvez o
desdobramento mais importante da matéria de capa da revista dirigida por Mino
Carta tenha sido a ausência de desdobramentos. O silêncio gritante do resto da
mídia realçou ainda mais as palavras do agente Carlos Costa, quando define a
ação dos serviços secretos sobre os seus diletos profissionais de redação:
“Influenciar é mudar o pensamento contrário aos nossos interesses”.
Talvez isso nos
ajude a entender o arrazoado de certos colunistas em defesa da CPI da Petrobrás,
talvez compreendamos com mais facilidade os princípios que norteiam articulistas
zelosos na defesa da política externa que privilegiava os objetivos de grandes
conglomerados. Quem sabe, nesse prosaico episódio, redescoberto no folhear de um
exemplar antigo da melhor publicação brasileira, esteja desnudada a política
editorial de várias publicações.
Alguém pode retrucar
que a argumentação desenvolvida no parágrafo acima é simplificadora. Certamente.
Mas, enquanto os “influenciáveis” não romperem seu pacto de silêncio, qualquer
teoria conspiratória terá relevância analítica. Ou repetindo a sabedoria do
senso comum: “Quem cala, consente”. Just do it.
É bom relembrar
quando uma nova batalha se avizinha.
* Professor de Sociologia das Faculdades
Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e
Colaborador do HP e do Observatório da Imprensa. |