O testemunho do mais eminente ministro da Agricultura soviético 

Benediktov: A URSS na época de Stalin e depois dele - (6) 

Para qualquer um que estude com rigor e sem preconceitos a História da URSS é impressionante como as acusações de Kruschev a Stalin parecem uma projeção: Kruschev, após chegar a primeiro-secretário do PCUS, acusa Stalin exatamente daquilo que fez e promoveu. Não é o Stalin real que ele apresenta ou menciona, mas uma figura que se assemelha muito mais a ele, Kruschev. Tal análise, infelizmente, não foi feita na época do ataque de Kruschev a Stalin, nem muito depois na URSS. No entanto, havia todos os subsídios – os fatos que eram conhecidos pelos que trabalharam junto a Stalin – para fazê-la. Nesta parte da entrevista de Ivan Aleksandrovitch Benediktov a V. Litov isto é particularmente evidente. Como ele diz, trata-se de alguém que conheceu de perto tanto um quanto outro

 LITOV - Permita-me, Ivan Aleksandrovitch, passar para outro assunto. Você foi Comissário do Povo e ministro da Agricultura durante Stalin e Kruschev. É possível comparar a forma como cada um deles via os setores mais importantes da economia?

BENEDIKTOV - No Politburo, Kruschev tinha fama de ser um especialista em agricultura. E em grande parte isto correspondia à realidade. Nikita Sergueievitch [Kruschev] conhecia bastante bem os problemas do setor agrícola, aproximando-se em conhecimentos e competência do nível de um bom agrônomo. Stalin, neste aspecto era mais fraco, o que, aliás não escondia, procurando aconselhar-se nos momentos em que os problemas do setor eram discutidos.

No entanto, por muito que isso seja paradoxal, enquanto dirigiu o país, Kruschev cometeu incomparavelmente mais erros e desacertos na área da agricultura. Entusiasmado com uma ideia, normalmente com base sensata, Nikita Sergueievitch ardia, literalmente, em desejos de vê-la aplicada o mais rapidamente possível, precipitava-se, ia por atalhos, perdendo a noção da realidade. O resultado foi que muitas das suas iniciativas tiveram consequências funestas, catastróficas, coisa que nunca aconteceria com Stalin... Penso que a raiz de tudo isso estava na sua relação com os especialistas, com os cientistas, agrônomos e outras pessoas com competência na área da agricultura.

Stalin, que colocava acima de tudo os interesses do trabalho, por regra, tomava decisões ouvindo a opinião dos especialistas com maior autoridade, incluindo pontos de vista contraditórios, dos quais tirava as suas próprias conclusões. Se os “dissidentes” tivessem argumentos fortes e convincentes, Stalin, normalmente, alterava a sua posição ou introduzia correções substanciais. Kruschev, cujo comportamento, no correr do tempo, era cada vez mais determinado pelas suas ambições pessoais, tinha outro tipo de relacionamento com os especialistas, sobretudo com os que pensavam de forma diferente. Por isso começaram a ganhar relevo aqueles que obedientemente sabiam fazer coro, adivinhar e “fundamentar cientificamente” a opinião já formada do Primeiro [Secretário do Comitê Central], que ele nunca alterava, mesmo perante a evidência dos fatos. Pela mão ligeira de Nikita Sergueievitch, não só na agricultura como nos outros setores da economia, começaram a multiplicar-se com uma rapidez inaudita os quadros dirigentes e científicos do tipo “vaselinador”, ofuscando os que estavam habituados a pensar pela própria cabeça e a defender os seus pontos de vista até o fim.

 

LITOV - Sua opinião contradiz a ideia generalizada de que Kruschev, apesar de todas as extravagâncias, era mais democrático, humano e tolerante com as opiniões dos outros do que Stalin…

BENEDIKTOV - É uma ideia profundamente errada. A aparência é muitas vezes tomada pela essência, nisso reside todo o xis da questão. O caso de Kruschev é ainda mais complexo, uma vez que durante o tempo em que permaneceu no posto n.º 1 ocorreram surpreendentes metamorfoses.

Conheci bem Nikita Sergueievitch, antes e depois da guerra. Era um dirigente forte, dinâmico e com uma capacidade de trabalho verdadeiramente extraordinária. Tinha grande inteligência, que combinava com a argúcia e a sagacidade dos camponeses, poder de iniciativa, engenho, uma simplicidade e espírito democrático inatos, e uma habilidade em ganhar para o seu lado as mais diferentes pessoas. Todas essas qualidades permitiram-lhe merecidamente ocupar altos postos no partido e entrar para o Politburo. Nesses anos, Kruschev era efetivamente um democrata, ouvia opiniões de terceiros, tratava as pessoas com autêntico respeito. Aliás, era esse o ambiente geral criado por Stalin e os que o rodeavam, e Nikita Sergueievitch, inteligentemente, esforçou-se por lhes “seguir as pegadas”.

Quando se tornou Primeiro [Secretário do Comitê Central], Kruschev começou a mudar a olhos vistos. O seu democratismo natural começou a ceder lugar a tiques autoritários, o respeito pela opinião dos outros transformou-se na perseguição aos que pensavam diferente, entre os quais foram imediatamente incluídos os que não manifestavam o entusiasmo devido em relação às “inovadoras” ideias do “eminente marxista-leninista”.

Sinceramente, não percebi logo essas alterações e mantive o hábito, herdado dos tempos stalinistas, de dizer no Politburo e nas mais importantes reuniões aquilo que pensava e considerava ser o correto, fosse ou não do agrado do “chefe”. Kruschev, no início, reagia calmamente. No entanto, aos poucos, na sua relação comigo, começou a sentir-se uma certa frieza e depois uma hostilidade aberta. Essa hostilidade senti-a mais intensamente quando me pronunciei contra uma proposta, no mínimo pouco inteligente, de Nikita Sergueievitch, que pretendia transferir de Moscou para uma localidade rural a Academia de Agronomia. A campanha “Mais próximo da produção”, lançada nessa época, tinha gerado incongruências graves que perturbavam a administração normal de muitos setores da economia nacional.

“Escuta Ivan, não banques o valente”, disse-me um amigo íntimo, que trabalhava no aparelho de Kruschev. “Ele não é o democrata que parece ser à primeira vista. De qualquer maneira não conseguirás convencê-lo, mas arriscas-te seriamente a perder a pasta”. Não levei em conta o conselho e em breve fui efetivamente afastado de cargos de direção na economia e nomeado embaixador na Índia…

De resto, mesmo na atividade diplomática não perdi o hábito de “bancar o valente”, isto é, por outras palavras, de dar os passos que me pareciam necessários, mesmo que pudessem desagradar à direção. Foi dessa maneira, atuando por minha conta e risco, que organizei, provavelmente pela primeira vez na nossa histórica soviética, a compra de um grande terreno no estrangeiro, em Deli, vizinho ao território da embaixada da URSS. Hoje, o valor dos terrenos na capital indiana é dez vezes superior, o que representa para nós importantes recursos em divisas. Contudo, nesse tempo esse tipo de operação era mal visto, sob a mira ideológica de que a aquisição de propriedade fundiária era “alheia aos métodos socialistas” e mais própria da “renda burguesa” do que da comunista. A muito custo, recorrendo a ligações antigas no Plano Estatal e no Ministério das Finanças, consegui os recursos necessários. Nessa altura senti diretamente o quanto tinha aumentado o burocratismo nos mais altos escalões, o alinhamento com as posições do Primeiro, a tendência para fugir à responsabilidade pessoal, garantindo cobertura através de um número máximo de assinaturas e vistos. O “novo” estilo de administração estava instalado: o que é mau espalha-se muito mais depressa do que aquilo que é bom. A tendência para a cautela excessiva e para desviar responsabilidades para cima de outros sempre existiu no aparelho.

Voltando à sua pergunta, quero deixar claro que foi exatamente Kruschev quem começou a pôr de lado pessoas capazes de defender firmemente os seus pontos de vista até o fim. Muitos comissários stalinistas, habituados a dizer frontalmente a mais amarga das verdades, gradualmente foram saindo dos seus cargos. Aqueles que ficaram, salvo raras exceções, transformaram-se em cortesãos que tinham perfeita consciência dos “empreendimentos” ruinosos de Kruschev, mas respeitavam a relação de forças existente e quem, em última análise, a determinava... Kruschev teve razão quando, em outubro de 1964, em resposta às acusações de “aventureirismo” e de “irrealismo”, culpou os que com ele colaboravam de, com o seu assentimento e silêncio, terem contribuído para o resultado final. É verdade que se esqueceu de dizer que ele próprio incentivou esse estilo de comportamento, que acabou por se tornar predominante. Não podemos esquecer que foi exatamente Nikita Kruschev que afastou para sempre da “grande política” figuras, com principal destaque para Molotov, que ousaram manifestar as suas opiniões sobre a atividade do Primeiro Secretário do CC, criticando duramente as suas insuficiências e erros.

 

LITOV - Admito que Khruchev fosse mais autoritário do que hoje se pensa, mas é um pouco difícil de acreditar que Stalin valorizava mais do que ele as opiniões dos outros e a independência das pessoas...

BENEDIKTOV - E, no entanto, é essa a realidade. Leia as memórias de pessoas competentes, daqueles que conheciam bem Stalin, que trabalharam com ele lado a lado, G.K. Jukov, A.M. Vassilievski, K.K. Rokossovski, N.G. Kuznetsov, I.S. Issakov, S.M. Shtemenko e outros militares. Todos numa só voz reconhecem que Stalin valorizava as pessoas que pensavam de forma autônoma e que eram capazes de defender as suas opiniões. G.K. Jukov, que conhecia Stalin melhor do que ninguém, escreve claramente que com ele podia-se discutir e que a afirmação do contrário é simplesmente falsa. Ou passe os olhos pelo magnífico livro “O Objetivo da Vida”, o melhor, na minha opinião, sobre o nosso tempo, do construtor de aviões A. Iakovlev. Nele você encontra a avaliação isenta de um intelectual russo honesto, independente dos campos ideológicos, sobre o estilo e métodos de trabalho de Stalin, sobre as suas qualidades humanas.

 A realidade é mesmo assim: normalmente as pessoas escolhem e aproximam-se das suas almas gêmeas, na sua relação com o trabalho e com a vida. Sendo um homem com uma mente profundamente analítica, audaz, resoluto e determinado, Stalin estimulava essas mesmas qualidades nos seus subordinados, sentindo uma inquestionável simpatia por pessoas firmes e de pensamento independente, capazes de defenderem os seus pontos de vista perante seja quem for e, ao contrário, detestava os covardes, os aduladores que gostam de se “colar” à opinião previamente conhecida do chefe. E se em relação aos jovens funcionários era revelada alguma condescendência, uma espécie de “desconto” pela sua timidez e falta de experiência, aos quadros experientes e mesmo aos que gozavam de grande prestígio não se desculpavam tais “fraquezas humanas”. “É um especialista hábil”, disse certo dia Stalin a propósito de um deles. “Mas não se pode dar a ele um trabalho de direção. É demasiado adulador. Tamanha dedicação aos seus superiores pode causar mais danos do que o mais feroz dos inimigos. E não responderá por nada, já que, ele dirá, foi tudo acertado com a direção”.

Aconteceu-me, embora bastante raramente, contestar posições de Stalin. Discutir com ele não era nada fácil e não era apenas devido à pressão da sua colossal autoridade. Stalin habitualmente estudava os assuntos profundamente e sob diversos ângulos; por outro lado, possuía uma intuição fina dos pontos fracos e das posições do oponente. Nós, dirigentes econômicos, tínhamos a certeza de que não seríamos penalizados pelo fato de contestarmos o líder, quanto muito este manifestava algum desagrado, que depressa esquecia. Mas se se viesse a demonstrar que tínhamos razão, então era certo que a nossa autoridade aumentaria aos olhos dele. Pelo contrário, se alguém escondesse a verdade, preferindo o silêncio por comodidade pessoal, isso acabaria por se saber, e aí, o mais provável era perder irremediavelmente a confiança de Stalin. Por tudo isso, habituamo-nos a dizer a verdade, fosse a quem fosse, sem cuidar do orgulho próprio dos superiores.

  Leia a intervenção de Stalin no último Plenário do CC do partido da sua vida, onde, invocando a idade e problemas de saúde, pediu oficialmente que fosse substituído, pelo menos em alguns altos postos. Na mesma ocasião, Stalin lançou duras críticas a dois de seus mais próximos companheiros, V.M. Molotov e A.I. Mikoyan, considerados por muitos como possíveis sucessores do líder. Apontou-lhes exatamente uma alegada falta de firmeza e de independência. Esta acusação, sobretudo no que respeita a V.M. Molotov, parece-me hoje injusta. Mas a atitude de Stalin é extremamente significativa. E não havia aqui qualquer espécie de “jogo escondido”, de “esperteza bizantina”, de que tanto gostam de especular os “kremlinólogos” e “sovietólogos” ocidentais, cujas obras tive oportunidade de conhecer suficientemente enquanto vivi no exterior. O fato é que, pouco tempo depois, Stalin escolheu um sucessor do seu ponto de vista mais digno para ocupar um dos mais altos postos. Refiro-me a Panteleimon Kondratievitch Ponomarenko, antigo primeiro secretário do CC do partido Comunista da Ucrânia, que durante a guerra dirigiu o estado-maior do movimento de guerrilha no Quartel-General do Comando Supremo. Possuindo um caráter firme e independente, Panteleimon Kondratievitch era ao mesmo tempo, até à medula dos ossos, um democrata que gostava de trabalhar em coletivo, tinha empatia e sabia organizar o trabalho de um largo conjunto de pessoas num ambiente fraterno. Provavelmente, Stalin valorizou ainda a circunstância de Ponomarenko não integrar o seu círculo mais próximo, possuir posições próprias e nunca ter fugido às responsabilidades.

 A nomeação de P.K. Ponomarenko para o cargo de Presidente do Conselho de Ministros da URSS chegou a ser assinada por vários membros do Politburo e só a morte de Stalin impediu que a sua vontade fosse cumprida. Quando ascendeu a Primeiro Secretário do CC, Kruschev, que estava naturalmente por dentro do assunto, tomou as medidas necessárias para afastar o mais possível Ponomarenko. Inicialmente foi enviado para o Cazaquistão, depois, em 1955, entrou no trabalho diplomático como embaixador na Polônia e mais tarde na Holanda. Mas até aí a sua carreira foi curta: em breve o perigoso “concorrente” passaria à aposentadoria, aliás em condições bastante humildes, já que não lhe foram concedidas as retribuições inerentes aos serviços prestados ao Estado. Este homem simples, modesto e despretensioso na vida pessoal, preocupado em cuidar dos familiares e entes próximos, viveu praticamente na miséria até que, finalmente, após a destituição de Kruschev, amigos seus intercederam junto ao CC, garantindo-lhe recursos suficientes para uma velhice digna.

 Contei-lhe esse episódio propositadamente, para antecipar as suas eventuais perguntas sobre a “humanidade” e o “amor ao próximo” de Kruschev em contraste com a “crueldade” e “despotismo” de Stalin. É verdade que Stalin podia ser brusco, por vezes injustificadamente. Mas com ele as pessoas responsáveis por determinadas falhas e que, por essa razão, eram rebaixadas de funções, podiam novamente voltar a subir, como aconteceu com G.K. Jukov, S.K. Timoshenko, L.Z. Mekhlis e alguns comissários do povo. Com Kruschev, todos os que perdiam a confiança do Primeiro afundavam-se e nunca mais lhes era dada a mão. O mesmo se tem passado com os seus sucessores… Por quê? A diferença é que Stalin nunca quis quebrar as pessoas e dava-lhes sempre uma oportunidade para corrigir erros, compreendendo que não era fácil encontrar dirigentes capazes. Kruschev, por seu lado, que pensava apenas em reforçar o seu poder, receava que as pessoas que ele ultrajara, se voltassem a altos cargos, pudessem representar um potencial perigo para esse poder…

Continua na próxima edição.


Primeira Página

 

Página 2

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Walter Pinheiro propõe agilizar entrega de TV por cabo a teles estrangeiras

Petrobrás vai ampliar os investimentos neste ano

EXPEDIENTE

Página 3

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Sarney declara que vai moralizar as horas extras

Para delegados da PF, “Veja” viola investigação sob segredo de Justiça

Bancada do PSDB inclui Jarbas em reunião com FH

Governo recorre contra desbloqueio de contas de Daniel Dantas nos EUA

Deputada Iris assume presidência do PMDB e repele detratores do partido

Aécio reclama contra governo da Av. Paulista

Página 4

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Prefeitura de Cubatão (SP) defende mais qualificação profissional para a mulher

Cartas

Página 5

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Greve pára frigorífico Marfrig por aumento real nos salários

Golaço de Ronaldo dá vitória ao Timão

Página 6

Comissão da ONU denuncia sequestros e torturas da CIA

Congresso norte-americano aprova redução nas restrições contra Cuba

Márcia conclama as mulheres à exigir que Estados garantam os empregos diante da crise econômica

Deputado Galloway chefia delegação humanitária inglesa à Faixa de Gaza

Corte fantoche condena Aziz a 15 anos de prisão

Conselho condiciona presença dos EUA ao fim do bloqueio a Cuba 

Página 7

Seguradora AIG teve prejuízo de US$ 61,7 bilhões no 4º trimestre

Iraquianos explodem reunião de colaboracionistas em Abu Graib

Para Dalai Lama, o Tibet sem servos e escravos é um verdadeiro “inferno”

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Diplomacia brasileira e reunificação coreana

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Página 8

Benediktov: A URSS na época de Stalin e depois dele - (6) 

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