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O
Armagedon da grande imprensa
GILSON CARONI
FILHO
Crise econômica ou Armagedon? Após o IBGE ter
divulgado uma queda de 3,6% no crescimento da economia brasileira no último
trimestre de 2008, os editores de primeira página de O Globo e da Folha de
São Paulo não hesitaram em recorrer, na quarta-feira, 11/3, às habituais
formas de terrorismo editorial. A capa do diário carioca ostentava:”
Indústria desaba. Consumo cai e já se teme 2009 com recessão”. O jornal
paulista não ficou atrás:” Queda do PIB no Brasil é uma das piores do
mundo”.
O fato de a desaceleração ter ocorrido no último
trimestre pareceu irrelevante para os editores da conhecida publicação da
Barão de Limeira. Apoiando-se no que julgava ser potencialmente mais
explosivo, omitiu um dado de capital importância para compreensão da
realidade econômica do país: o PIB brasileiro, apesar da crise em escala
planetária, apresentou o segundo maior crescimento mundial. Ou seja, outras
manchetes seriam possíveis. Algo do gênero “Apesar da recessão global, PIB
cresce 5,1%” Por que não? Por determinações da pequena política.
Que tipo de jornalismo está sendo feito no
Brasil? Para quais interesses é direcionada sua estrutura narrativa? É o
caso de reexaminar, como já sugeriu o jornalista Alberto Dines, os
procedimentos e padrões para a formulação de títulos? Ou o claro viés
ideológico clama por uma inflexão de outra natureza? O que está em xeque é a
própria ética do fazer jornalístico.
Como ressalva o editor do Observatório da
Imprensa, “de nada adianta registrar todos os dados, reproduzi-los no corpo
da matéria se a titulação-espelho fiel da busca da verdade” beneficia apenas
um ângulo”. Aquele que melhor atende aos objetivos de uma oposição sem
projetos, fingindo fazer interpretação equivocada da Teoria da Catástrofe.
Sejamos claros nesse ponto: o problema não é desvio conceitual, mas de
caráter mesmo.
Mais uma vez, o que temos aqui são manchetes
que, ignorando a apuração para obter impacto, não revelam incompetência, mas
disposição de submeter o leitor e/ou telespectador à desinformação, ao
fatalismo de profecias que se auto-realizam, à erosão da popularidade de
quem governa.
Será que ainda não se deram conta que uma nova
opinião pública se consolidou, apesar do conteúdo que produzem? Analisando o
processo eleitoral de 2006, a jornalista Ana Rita Marini (*) constatou que
“distante da influência das manchetes, o eleitor não se deixou levar pelo
canto da sereia nos maiores veículos de comunicação”. Não é o caso de se
deter diante das conseqüências deste fenômeno, tão imprevisíveis quanto os
da crise do capitalismo, antes de seguir na linha de jornalismo de campanha?
Já não passou da hora de a imprensa brasileira
botar sua cultura no divã e ver que, se ela tem mudado os seus absolutos,
eles continuam com a mesma face odiosa? Vale a pena manter a linha
autoritária, acrescentando nuanças aparentemente democráticas? Ou o dilema
dos barões da mídia é o mesmo de lideranças oposicionistas que vêem em 2010
não apenas mais uma eleição presidencial, mas a própria sobrevivência
política?
Nesse caso há um subtexto, uma manchete oculta
na primeira página de O Globo. “A agenda conservadora desabou, seu candidato
começa a cair e há sinais de derrota nas eleições de 2010?” Se for isso, o
Armagedon está explicado.
(*) Publicado em MídiaComDemocracia nº 5,
janeiro de 2007, revista do Fórum Nacional pela Democratização da
Comunicação.
PS: Este artigo estava concluído quando o IBGE
anunciou crescimento de vendas no varejo em janeiro. E agora, qual será a
manchete? “Governo falha. Demanda cresce e há sinais de aumento do consumo
em 2009?” Fica como sugestão.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas
Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior,
colaborador da Hora do Povo e do Observatório da Imprensa |