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O testemunho do
mais eminente ministro da Agricultura soviético
Benediktov: A
URSS na época de Stalin e depois dele - (7)
As razões de
Kruschev para empreender a campanha de difamação contra Stalin, em 1956, suas
consequências e, sobretudo, que setores dentro da URSS estavam interessados no
retrocesso do socialismo, são os temas que Ivan Benediktov, ex-Comissário do
Povo para a Agricultura, aborda na parte que hoje publicamos de suas entrevistas
a V. Litov, concedidas em 1980 e 1981. Não deixa de ser impressionante como
Benediktov, que faleceu em 1983, teve plenamente confirmadas pelo futuro as suas
observações sobre o processo de desagregação que começara com Kruschev. Diga-se
de passagem, como ele relata, após a morte de Stalin, ele mesmo havia sido, no
início, um “kruschevista”. Mas depressa percebeu o que significava aquele
caminho
LITOV -
E em relação ao desmascaramento do culto da personalidade?
Para muitos, Kruschev revelou nesse momento coragem política e humanismo, pelo
menos em relação às vítimas inocentes.
BENEDIKTOV -
Não vejo especial coragem, muito menos política, no
fato de alguém combater os mortos, fazendo deles bodes expiatórios dos erros do
passado e, claro está, das insuficiências do presente. Tal “coragem” é
normalmente revelada pelos que bebem as palavras do “chefe” quando ele está vivo
e têm perante ele um comportamento “certinho”. Depois, desforram-se da sua
[própria] covardia e temor, amaldiçoando “corajosamente” o “tirano” e o
“déspota”.
Entre os altos dirigentes, Kruschev era o que
mais bajulava Stalin, demonstrando um medo doentio, que por vezes atingia o
anedótico, o que, naturalmente, não elevava a sua autoridade aos olhos do
Primeiro [Secretário do CC], o qual, mesmo sem isso, antipatizava com “Nikita”,
como lhe chamava, irritado. Julgo que Kruschev sabia disso, mas nada podia
fazer: há coisas que ultrapassam o alcance da nossa vontade. Nas reuniões do
Politburo e nas conferências de responsáveis de que participei, Nikita
Sergueievitch, ao contrário, por exemplo, de Molotov ou de Zhdanov, que, por
vezes, se opunham a Stalin de forma bastante ríspida, nunca tinha nada a dizer
contra, não se atrevia a abrir a boca.
A versão sobre a “humanidade” das suas
intenções servia à perfeição a Nikita Sergueievitch e ele fez tudo o que podia
para que o maior número possível de crédulos engolisse esse anzol ou, mais
exatamente, fingissem que acreditavam.
Eu ainda não me esqueci que, nos anos 30 e
40, Kruschev mantinha uma sólida amizade com L.M. Kaganovitch, o “comissário de
ferro”, que tinha no Politburo as posições mais severas e intransigentes
em relação aos inimigos do povo. Em estreito contato com Kaganovitch, Kruschev,
primeiro em Moscou nos anos anteriores à guerra e mais tarde no pós-guerra, na
Ucrânia, depurou com firmeza, até mesmo demasiada, as organizações do Partido
dos “degenerados” e “elementos sabotadores”. No decorrer das depurações,
sofreram muitas pessoas honestas, o que provocou o descontentamento de Stalin e
levou à perda da sua confiança em Kaganovitch. Kruschev conseguiu reabilitar-se
graças aos êxitos indiscutíveis na reconstrução da agricultura e indústria
destruídas pela guerra.
Recordo-me de nesse tempo ter telefonado a
Nikita Sergueievitch, que era então primeiro secretário do Partido Comunista da
República [da Ucrânia], em Kiev, pedindo-lhe que investigasse o caso de um grupo
de quadros responsáveis pela agricultura, alguns dos quais eu conhecia bem, que
tinham sido expulsos do partido sem fundamento, conforme era minha convicção.
Após ter-me escutado atentamente, Kruschev prometeu falar com Kaganovitch, que
tinha sido enviado pelo Politburo à Ucrânia para ajudá-lo a organizar o
trabalho. Deu-me a entender que a questão seria resolvida a contento, pedindo-me
para “não fazer barulho no Centro, que isso poderia complicar a situação”. Não
sei se falou ou não com Kaganovitch, o certo é que não ajudou as pessoas.
LITOV - Gostaria de
saber como você explica o fato indiscutível de que o desmascaramento do culto da
personalidade e das repressões maciças dos anos 30 e 40 tenha tido tão ampla
repercussão positiva?
BENEDIKTOV -
A principal motivação de Kruschev era a luta pelo
poder, por uma posição de monopólio nos aparelhos do Partido e do Estado, o que
acabou conseguindo, acumulando os dois postos mais importantes: o de Primeiro
Secretário do CC do PCUS e o de Presidente do Conselho de Ministros da URSS.
No início, porém, a situação de Nikita
Sergueievitch era complicada. Apesar de estar bem colocado no partido, a maioria
dos membros do Politburo não o apoiavam, antes pelo contrário. Molotov,
Malenkov, Kaganovitch, Vorochilov e outros destacados dirigentes do partido e do
Estado não tinham uma opinião favorável sobre Kruschev e encaravam-no como uma
figura de compromisso, um califa por uma hora, posição que este, como é
evidente, conhecia bem. Nos aparelhos locais do Partido e do Estado havia também
muitas pessoas que tinham passado pela escola de Stalin e faziam uma avaliação
muito cética do projeto “inovador” de Kruschev. Ele precisava quebrar essa
“oposição”, apresentar os seus adversários sob uma perspectiva negativa, operar
uma transformação maciça na consciência social, num espírito anti-stalinista.
Refiro-me à preparação do terreno propício aos projetos pequeno-burgueses e
aventureiristas que contrariavam o rigoroso realismo da atitude
marxista-leninista. A campanha de difamação de Stalin e a reabilitação das
vítimas das “repressões” servia à perfeição a esses objetivos, tanto mais que
parte dos reabilitados receberam cargos no aparelho do Estado e do partido,
tornando-se, naturalmente, o sustentáculo de Kruschev.
A “ampla repercussão social” também se
explica pelos interesses inteiramente prosaicos de determinadas camadas e grupos
sociais, como agora é moda dizer. Os sonoros aplausos do exterior são
compreensíveis: a campanha de descrédito de Stalin, que no Ocidente foi
habilidosamente transformada numa campanha contra o Poder Soviético, enfraqueceu
e dividiu o movimento comunista e operário internacional, reforçou as tendências
revisionistas oportunistas, lançou a confusão na mente e nos sentimentos das
camadas progressistas, em resumo, beneficiou os inimigos do socialismo, os quais
aplaudiram essa campanha no fundamental.
Mesmo no nosso país, as invectivas contra o
culto foram saudadas por todo o tipo de ociosos, espertalhões, vigaristas que
parasitavam à custa de outros, aqueles que não gostavam do trabalho honesto, da
disciplina de ferro e da ordem. Ai de quem lhes toque, que começam logo a gritar
contra o “despotismo”, “a restrição das liberdades”, “os resquícios das
repressões stalinistas”! As críticas a Stalin impressionaram particularmente uma
parte dos funcionários do aparelho partidário-estatal, divorciados das massas e
com especial tendência para a burocratização, cansados do ritmo tenso e da
rigorosa disciplina de trabalho, que viram no “novo estilo” de Kruschev uma
esperança de vida calma e descontraída. E, como é óbvio, o “degelo” de Kruschev
agradou a largos círculos dos meios artísticos, gente que, dada a sua
especificidade social, sente inclinação para o individualismo, para o
desregramento anárquico e sente-se incomodada pelo papel dirigente do partido,
disfarçando a sua verdadeira posição com uma fraseologia “progressista” sobre a
“liberdade”, “humanismo” e “democracia”.
Muitos intelectuais não conseguem perdoar ao
socialismo o fato de que no capitalismo poderiam ter uma vida mais confortável.
É como se não percebessem que um país atrasado nos planos econômico e cultural,
que foi submetido a provações inauditas na história, tinha de dar prioridade às
necessidades básicas do povo e simplesmente não estava em condições de
desenvolver sofisticados bens de consumo e serviços modernos. Não acreditam na
grandeza e envergadura dos nossos objetivos. Uma casa de campo e um automóvel é
muito mais importante para essa gente do que os altos ideais do socialismo, em
nome dos quais se bateram várias gerações de combatentes pela felicidade do
povo. Incapazes de trabalhar de mangas arregaçadas, de lutar pelas suas ideias,
ficam desnorteados e baixam os braços ao menor sinal de injustiça e indecência,
começando a elogiar a liberdade “absoluta”, acima das classes, e a proclamar a
necessidade de um sistema mais “humano” e “democrático”, no qual facilmente se
adivinham os contornos do capitalismo “liberalizador”. Nada preocupados com o
que tal capitalismo implica para as pessoas simples, para a massa fundamental
dos trabalhadores, estão prontos a submeter-se ao jugo do capital desde que lhes
paguem mais. São exatamente essas pessoas que, de forma tão empenhada, se
mostram intimidadas e intimidam os outros com os horrores do chamado
“stalinismo”, o qual, claro está, subentende os fundamentos angulares do sistema
socialista e sobretudo o papel dirigente do Partido Comunista…
A burguesia culta foi sempre o sustentáculo
dos políticos sem princípios. Tanto no passado como no presente, tanto no
Ocidente como, por muito triste que seja, na sociedade socialista.
LITOV - Falando com
franqueza, a sua exposição parece-me demasiado esquemática, apesar de ter alguma
coerência e lógica. Nas várias camadas da população, deparei-me várias vezes com
pessoas honestas, leais ao socialismo, que consideram Stalin um criminoso… E
agora, se bem o compreendo, diz-me que Kruschev era apoiado pela parte mais
burocratizante do aparelho partidário-estatal. Mas não foi Stalin que colocou o
aparelho acima das massas e deu aos burocratas um poder inaudito?
BENEDIKTOV -
Em todo o caso, tento explicar e não me desvio do
assunto, refugiando-me em enleados sentimentais-banais sobre a “coragem” e a
“bondade” de Kruschev...
É mais fácil induzir em erro um professor ou
um literato do que um simples operário, que avalia a política pelo critério mais
fiel: pelo que ela proporciona ao cotidiano concreto da vida do cidadão comum.
Apesar das condenações oficiais e “desmascaramentos”, Stalin continua a ter
numerosos partidários em diferentes meios, especialmente entre os operários
simples, [camponeses] kholkozianos, militares, gente das gerações mais
antigas, que conheceram a
situação daquele tempo por
experiência pessoal e não através de artigos de jornal. Nem Kruschev nem os
atuais dirigentes deixarão uma memória tão profunda e grata no povo, e nem
podiam deixar, apesar de, por todo o lado, ostentarem o seu sentimento
“popular”.
Em
relação aos burocratas e aos privilégios que Stalin lhes terá dado, devo
dizer-lhe que está completamente errado. Na prática, Stalin só conhecia o
trabalho. Trabalhava com total dedicação 14, 15, 16 horas por dia, sem qualquer
trégua ou condescendência para consigo próprio. Submetendo-se ao seu ritmo, os
membros do Politburo, os comissários do povo, os quadros responsáveis dos
órgãos centrais e mesmo locais trabalhavam com semelhante intensidade.
Trabalhar 14 a 16 horas por dia não era para nós uma exceção, pelo contrário,
era a regra. Quanto muito, íamos de férias uma vez a cada quatro ou cinco anos,
mas nem todos podiam se orgulhar disso. Folgas praticamente não existiam.
Uma
disciplina de ferro, um controle permanente, trabalhar até ao limite das forças
e, o principal, a exigência de resultados concretos, a melhoria real das coisas,
a sua ausência equivalia à destituição do cargo, sem olhar aos serviços
prestados no passado – tudo isto conduziu a uma tal produtividade e eficiência
no trabalho de direção sobre a qual hoje apenas se poderá sonhar. Não me
recordo, por exemplo, de nenhuma resolução ou diretiva do CC, do Politburo
ou do Conselho de Ministros que não tivesse sido cumprida. Hoje, segundo se
diz, é exatamente o contrário. Entre as crescentes torrentes delas, não se
encontra uma que tenha sido concretizada, pelo menos em parte... Aliás, nos
nossos dias, não se tomava a sério os que evocavam dificuldades e
“circunstâncias objetivas”. “Foram colocados nos vossos cargos exatamente para
as superar”, dizia habitualmente Stalin nessas situações.
Encontrei e li o livro de Lion Feuchtwanger sobre a sua visita, em 1937, à União
Soviética, do qual você me falou. Ele escreve que as pessoas que ocupavam cargos
com alguma responsabilidade, “quase que não têm tempo para comer, quase que não
dormem e acham normal chamar por telefone alguém que está no teatro em meio de
uma representação ou telefonar-lhe às três ou quatro da manhã para lhe perguntar
algo de urgente. Nunca encontrei trabalhadores incansáveis em tal quantidade
como em Moscou... Se em Nova Iorque ou em Chicago não encontrei os propalados
ritmos americanos de trabalho, vim encontrá-los aqui em Moscou”. Uma descrição
fidedigna, era mesmo assim!
Aliás,
na época, nós, comissários do povo, nem sequer pensávamos em limusines do
Estado, casas de campo, restaurantes e outros privilégios semelhantes. Não
tínhamos tempo para isso, tanto mais que o mínimo abuso nessa questão era punido
implacavelmente: o Goscontrol e os quadros organizativos do CC
trabalhavam eficazmente e as críticas vindas da “base”, da parte dos
trabalhadores, eram tidas em conta, muito mais do que hoje.
Em
outras palavras, Stalin, cujo estilo de vida se distinguia por um ascetismo e
puritanismo bolcheviques, dirigia o aparelho com mão de ferro, considerando, com
algum fundamento, como o tempo veio a demonstrar, que a multiplicidade das
tentações na vida poderia diminuir a produtividade do trabalho dos dirigentes,
minar a confiança das pessoas comuns neles, ou seja, no partido, aspecto do qual
depende muita coisa em nosso país. No entanto, por vezes, Stalin fechava os
olhos às pequenas fraquezas dos comissários do povo, em especial dos jovens,
desde que, claro, não se refletissem no trabalho...
Como é
óbvio, esses ritmos de trabalho e tal regime draconiano não agradavam a todos.
LITOV - Quer dizer que Kruschev jogou com isso?
BENEDIKTOV -
Sim. Nikita Sergueievitch defendia uma disciplina e um regime de
trabalho mais “macios”, fazia-se passar por uma pessoa “compreensiva” e capaz de
“perceber a situação”. Não foi por acaso que um dos primeiros sinais do “novo
estilo” tenha sido a proibição de ficar no trabalho depois da oito da noite. Com
Stalin, muitos comissários do povo trabalhavam noites inteiras.
Por
outro lado, Molotov e Malenkov, considerados como partidários entusiastas do
estilo “duro” stalinista, condenaram firmemente os desvios da disciplina
partidária, o que, depreende-se, não lhes aumentou a popularidade dentro do
aparelho...
Não
escondo que na época eu estava longe de ser um “stalinista”, Kruschev
impressionava-me mais. Pensava que com ele teria mais liberdade de ação e seria
capaz de levar a cabo o programa que concebera. Mas as minhas expectativas
goraram-se. Com Kruschev, a iniciativa dos ministros estreitou-se, diminuindo
também em todos os níveis a exigência e a responsabilidade. Começou-se a pensar
menos no trabalho e mais nos diferentes bens da vida. Penso que foi nessa altura
que se abriu a fenda que, mais tarde, com os sucessores de Kruschev, viria a
provocar o afastamento do aparelho [partidário] das massas e, como reação
contrária, a manifestação de hostilidade das amplas massas dos trabalhadores e
do povo em relação ao aparelho, coisa que nos anos 30, 40 e mesmo 50, não
existia.
Porém,
o mais importante talvez nem seja isso. Refleti muito (a aposentadoria dá-nos
tempo e possibilidade de estudar um pouco) sobre as razões do fracasso do
“grande salto à frente” de Kruschev, por que estamos a marcar passo no mesmo
lugar desde meados dos anos 70, e cheguei a algumas conclusões. Desde meados dos
anos 50, época em que começou a diminuir a exigência em relação aos quadros, que
a vida impunha que essa exigência fosse, pelo contrário, aumentada, sob pena de
ser impossível resolver as novas tarefas, mais complexas e de maior envergadura.
Infelizmente, os sucessores [de Kruschev] deixaram-se ir na corrente reincidente
das “forças e tradições da velha sociedade”, como disse Lenin. Muitos postos do
partido e do Estado foram entregues a pessoas incompetentes e indignas dos seus
altos cargos, que se revelaram incapazes de garantir uma direção eficaz das
tarefas. A promoção dos quadros deixou de ter correspondência com os serviços
reais prestados. Alguns tornaram-se ministros, secretários do CC e mesmo membros
do Politburo, não por terem resolvido o problema do abastecimento de
produtos alimentares na sua região ou por terem colocado as empresas que
dirigiram ao nível internacional, mas na sequência de uma correlação de
circunstâncias que lhes foi favorável.
É
natural que, não sendo capazes de trabalhar verdadeiramente, estas pessoas
ocupem o tempo com papelada e reorganizações. As diretivas sucedem-se umas atrás
das outras e perde-se a conta aos discursos com apelos para “trabalhar de forma
inovadora”.
Continua na próxima edição. |