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O testemunho do
mais eminente ministro da Agricultura soviético
Benediktov: A
URSS na época de Stalin e depois dele - (9)
Hoje
encerramos a série de edições com as entrevistas condensadas – e com tradução
adaptada ao português brasileiro – de Ivan Alexandrovitch Benediktov,
ex-ministro da Agricultura da URSS, concedidas em 1980/1981 ao jornalista
soviético V. Litov. A íntegra das entrevistas, como já informamos, pode ser lida
no site “Para a História do Socialismo” (http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt).
São impressionantes as informações e a vivência transmitidas por Benediktov
nestas entrevistas, tanto a respeito da época em que Stalin foi secretário geral
do PCUS – e, a partir de 1941, também presidente do Conselho de Ministros da
URSS – quanto sobre a época em que Kruschev acumulou os dois cargos. Benediktov
foi ministro da Agricultura nas duas épocas, até que sua permanência se tornou
incompatível com a política anti-socialista de Kruschev.
Sobre esta última parte, teríamos duas observações a fazer.
A primeira é que não temos provas que nos permitam colocar Andrei Vyshinsky -
sucessivamente procurador-geral, vice-presidente do Conselho de Ministros,
ministro das Relações Exteriores e embaixador da URSS na ONU - na mesma
categoria de Kruschev e Béria. Certamente, tal mistura parte do entrevistador, e
não de Benediktov – mas o fato é que este não a contesta explicitamente. A
menção de que Vyshinsky, antes da Revolução, foi menchevique (integrante da ala
direita do Partido Operário Social-Democrata da Rússia, do qual Lenin, Stalin e
demais bolcheviques foram a ala esquerda) não é uma prova, pois milhares de
ex-mencheviques entraram para o PCUS após 1917, reconhecendo erros anteriores.
Portanto, até que existam provas em contrário, se é que elas existem, não o
colocaríamos junto a Kruschev e Béria – que, por sinal, odiavam Vyshinsky, o que
fala, e não pouco, a favor do último. Vyshinsky, jurista e diplomata
extremamente culto, autor de “A Teoria das Provas Judiciais na Justiça
Soviética”, faleceu em Nova Iorque no ano de 1954, quando representava seu país
na ONU - portanto, dois anos antes do ataque de Kruschev a Stalin – e continua a
ser até hoje um dos principais alvos da propaganda anti-comunista, por sua
participação decisiva, como promotor, nos julgamentos da quinta-coluna, antes da
II Guerra Mundial.
A segunda observação é que não nos parece precisa – e, sobretudo, não nos parece
justa - a afirmação de que Stalin errou ao não aposentar compulsoriamente
Kruschev e Zhukov, e que, se tivesse feito isso, o desenrolar dos acontecimentos
após sua morte teria sido outro. Realmente, se Stalin houvesse previsto todas as
possibilidades, inclusive as que não haviam ainda aparecido claramente, e
resolvido cada uma delas, a situação seria diferente... Porém, isto é impossível
a qualquer ser humano, mesmo aos maiores dentre os maiores. Além disso, o que
sobraria para a geração seguinte fazer, se todas as questões importantes já
tivessem sido resolvidas?
Assim, a responsabilidade por resolver os problemas que apareceram agudamente
após o falecimento de Stalin cabia aos que estavam vivos. Que isso não tenha
sido possível a eles, apenas demonstra as suas limitações de consciência – como
relata honestamente o próprio Benediktov, ele próprio apoiou Kruschev no início,
inclusive as primeiras medidas “anti-stalinistas”. Os homens lutam e resolvem os
problemas com a consciência que têm em determinado momento, e não com a que
adquiriram décadas após os acontecimentos. E, se não resolvem esses problemas,
não se pode culpar os que vieram e partiram antes por não tê-los
resolvido...
No entanto, nada disso tira o brilho e o prazer que sentimos ao ler este rico
depoimento. A Litov, que não compartilhava - e continuou não compartilhando - os
pontos de vista de Benediktov, mas soube, apesar disso, reproduzi-los fiel e
honestamente, a História deve um documento precioso.
C.L.
LITOV - Você afirmou que Stalin era um bom conhecedor de pessoas, que sabia qual
era o verdadeiro valor delas… Como pôde, então, se enganar quanto a Kruschev,
Béria, Vychinsky e outras pessoas?
BENEDIKTOV - Não penso que tenha sido um engano. Stalin, tal como Lenin, sabia
utilizar pessoas cujo perfil político considerava duvidoso, não bolchevique. Não
são somente os marxistas-leninistas, digamos, 100%, que têm o monopólio do
saber-fazer, das elevadas qualidades de trabalho… Tanto Vychinsky quanto Mekhlis
ou Béria tinham um passado menchevique, uma “nódoa negra” nas suas biografias.
Mas as suas vantagens profissionais prevaleciam claramente, e, além disso, não
podiam interferir na definição da estratégia política. O próprio Lenin permitiu
que Trotsky, Zinoviev, Kamenev e Bukharin ocupassem altos cargos, apesar de não
os considerar como verdadeiros bolcheviques e autênticos teóricos marxistas.
Veja, por exemplo, o caso de Béria. Apresentam-no como um amontoado de vícios,
imagináveis e inimagináveis. Mas, apesar de todos os seus indiscutíveis
defeitos, Béria possuía uma vontade forte, qualidades de organizador, a
capacidade de entender rapidamente a essência de um problema e de reagir
instantaneamente a uma situação complicada, identificando os seus aspectos
principais e secundários. O fato é que foi sob a sua direção que se construiu,
em prazos curtíssimos, a bomba atômica, e que, nos anos da guerra, tão
rapidamente se ergueram as indústrias de defesa.
Fosse como fosse, Béria, depois de ter sido demitido por Stalin do cargo de
ministro da Segurança do Estado em 1952, foi de novo puxado para cima após a
morte deste. Tornou-se vice-presidente do Conselho de Ministros da URSS e
encabeçou o Ministério da Segurança Interna, o qual passou a integrar também o
Ministério dos Assuntos Internos. Em outras palavras, conseguiu um poder com o
qual nem sequer se atreveria a sonhar no tempo de Stalin. [NOTA DO HP: A citação
de 1952 como ano da demissão de Béria do Ministério da Segurança do Estado
parece ser um compreensível lapso de memória por parte de Benediktov. Essa
demissão ocorreu seis anos antes, no início de 1946. Em 1952, depois de alertado
por velhos companheiros georgianos, Stalin determinou a abertura de
investigações sobre os delitos cometidos pelos protegidos de Béria na Geórgia,
que foram destituídos de suas funções no governo daquela república soviética e
na direção do PC local.]
Quanto a Kruschev, é fora de dúvida que Stalin, melhor do que ninguém, via o seu
“não-bolchevismo”, os limites dos seus horizontes intelectuais e culturais, as
suas ambições carreiristas. Porém, deu preferência à utilização das suas
excelentes qualidades de executivo em altos postos partidários. E fez bem:
enquanto trabalhou sob uma direção rigorosa, Kruschev fez muita coisa útil.
Outra questão é o fato de não se enquadrar em nenhum dos parâmetros para ocupar
o posto decisivo do nosso país, apesar do seu grande desejo de ser o Primeiro.
Nisso reside toda a tragédia...
LITOV - Pode-se concordar que Kruschev era inferior a Stalin em muitos aspectos.
Mas pelo menos não enviou pessoas honestas para a prisão, nem fez correr sangue.
O povo nunca perdoará...
BENEDIKTOV - Mas, você está convencido de que tem legitimidade para se arvorar
em arauto do povo? O povo no nosso país é diferenciado. Para os professores
universitários e literatos, obviamente, Stalin representa um “déspota” e um
“ditador”, para os trabalhadores de vanguarda, para muitas pessoas simples que
viveram aquele tempo, é um grande homem, um sábio, que lutou pela felicidade do
povo e obrigou os responsáveis públicos a fazer o mesmo, esses que agora estão
de barriga cheia, se deixaram burocratizar e divorciar das amplas massas. Serei
ingênuo? Talvez... Mas quando contraponho esses dois extremos, recordo as
profundas palavras de Karl Marx, de que um intelectual tem mais a aprender com
um operário do que um operário com um intelectual...
LITOV - Desculpe-me, mas qual a relação disso com a pergunta que lhe fiz?
BENEDIKTOV - A mais direta. Fale com os trabalhadores simples e honestos do
nosso povo. Vão lhe dizer que “é hora de pôr ordem nas coisas, endurecer ao
máximo a desleixada disciplina do partido e do Estado, não hesitando perante as
medidas mais drásticas”. Costuma-se dizer que a voz do povo é a voz de Deus. Da
minha experiência pessoal, posso afirmar com segurança que, sem a permanente
depuração do aparelho do partido e do Estado de todos os elementos indignos que
nele se instalam, sem a repressão decidida, na sua raiz, das tendências e
manifestações anti-socialistas nos altos escalões, não será possível assegurar
um desenvolvimento rápido e seguro do país. Até porque esse “trabalho de
saneamento” normaliza a situação no país, garante o influxo no partido e na
esfera da administração de jovens honestos, sensatos e talentosos, permite
aproveitar o enorme potencial democrático do povo. É exatamente assim. Esse
potencial manifesta-se apenas num ambiente de ordem e disciplina férrea, de
combate firme a todos os fenômenos anti-socialistas. De outra forma, toda a
participação se esvai no leito caudaloso da perniciosa loquacidade da demagogia,
da dissolução anárquica e das lutas cúpidas por interesses pessoais e de grupo.
Quanto trabalhei na Iugoslávia observei tudo isso até à exaustão... E essa
disciplina e alta exigência para com todos, do mais importante ao menos
importante, deve começar exatamente pelos dirigentes do mais alto escalão, caso
contrário haverá consequências extremamente perigosas para o socialismo...
Stalin, como já referi, decifrou com mais rapidez e profundidade do que ninguém
a essência pequeno-burguesa dos slogans e projetos de Kruschev. Apesar disso,
não conseguiu tomar as medidas necessárias que resguardassem o país e o
socialismo mundial da chegada ao poder de líderes “não bolcheviques” do tipo de
Kruschev e semelhantes... Em consequência, tivemos de pagar um alto preço pelo
seu esquerdismo e megalomania pequeno-burguesas.
Dou-lhe mais um exemplo. Refiro-me a Georgui Konstantinovitch Zhukov, um
talentosíssimo chefe militar, indiscutivelmente o melhor comandante da Segunda
Guerra Mundial. Ao lado de todas as suas qualidades pessoais invulgares, tinha
igualmente defeitos evidentes, os quais são descritos abertamente e com
franqueza por Konstantin Konstantinovitch Rokossovski, no seu livro “O Dever do
Soldado”. [NOTA DO HP: O marechal Rokossovski foi um dos principais comandantes
soviéticos da II Guerra, inclusive na sua batalha decisiva, Stalingrado.]
Se a arrogância, grosseria, impertinência e outros modos de caserna [de Zhukov]
podiam ser tolerados, já sua presunção, ambições e pretensões “napoleônicas”
constituíam uma ameaça política. Quando Stalin, que foi sempre benevolente com
Zhukov, se apercebeu disso, imediatamente tomou as medidas necessárias. Um
tribunal militar de honra, constituído por célebres marechais e almirantes,
julgou com severidade o comportamento de Zhukov, que teve de ouvir muitas
palavras duras, embora justas. Apesar disso, levando em conta os grandes
serviços prestados e a honestidade pessoal de Zhukov, o tribunal pronunciou-se
pela não adoção das medidas rigorosas que Malenkov e Béria, tal como Stalin, que
os apoiava, claramente esperavam. No final, Stalin não só cedeu à vontade dos
militares, limitando-se a rebaixar Zhukov de posto, como, pouco antes de sua
morte, voltou a promovê-lo para cargos decisivos. Foi um erro crasso. Logo
Zhukov viria a confirmar que os receios de Stalin tinham fundamento, ao
imiscuir-se, de forma inadmissível mesmo para um chefe militar da sua dimensão,
nos assuntos políticos do partido. Como é sabido, em junho de 1957, ameaçou
quase que abertamente a maioria dos membros do Politburo com o uso da força
militar. Ao dar o seu apoio a Kruschev, o qual Zhukov pensava que mais tarde
poderia facilmente controlar, o marechal esperava fortalecer a sua situação. No
entanto, como tantas vezes sucede, caiu no fosso que ele próprio tinha camuflado
para outros caírem. Kruschev fazia muito menos cerimônia com os concorrentes
perigosos do que Malenkov ou Molotov.
Os resultados do domínio monopolista de Kruschev, ajudado por um Zhukov de visão
curta e desmedidas ambições pessoais, são evidentes. O país saiu dos trilhos
leninistas de desenvolvimento, atrasou-se, prejudicando os interesses de dezenas
ou mesmo centenas de milhões de pessoas, se tivermos em conta as implicações
internacionais.
Tudo isso poderia ter sido evitado se Stalin tivesse revelado a firmeza e a
coerência que lhe eram características na identificação de fenômenos
potencialmente perigosos para o socialismo. Por outras palavras, se tivesse
eliminado qualquer possibilidade de Kruschev e Zhukov surgirem como
protagonistas. Não quero com isso dizer que tivessem de ser julgados e presos –
já não era tempo disso. Teria sido suficiente impor a essas figuras,
indiscutivelmente proeminentes, a aposentadoria compulsória... Você dirá que
teria sido injusto, cruel, um ato de repressão. Admito que sim, se analisarmos o
assunto sob a perspectiva das suas “panelinhas pessoais”, do ponto de vista dos
seus amigos, familiares e, claro está, dos nossos literatos de “elevada moral”.
Mas veja você que no interesse de dezenas de milhões, da maioria esmagadora da
população soviética, essas “repressões” teriam sido necessárias e justas. Aliás,
a autêntica política leninista começa exatamente pela defesa desses interesses,
pela capacidade de colocar o geral e o todo acima do que é pessoal e de grupo.
Lembra do que se passou com a “oposição operária” em 1921? Nas suas fileiras
estavam muitas pessoas honestas e dedicadas aos ideais da revolução, mas que, no
entanto, assumiram posições potencialmente perigosas para o socialismo. Vladimir
Ilitch Lenin insistiu com a maior firmeza para que fossem excluídas do partido
e, ao falhar esse objetivo (a sua proposta foi derrotada por alguns votos),
conseguiu afastar os membros da oposição dos postos decisivos, enviá-los para a
província ou para o trabalho diplomático, como foi o caso de Alekssandra
Mikhailovna Kollontai…
Talvez a maior falha de Stalin tenha sido o fato de não ter sabido ou,
provavelmente, não ter tido tempo para preparar um substituto digno de si.
Talvez não tenha tido tempo, já que tomou determinadas medidas neste sentido. No
XIX Congresso do partido foi significativamente ampliada a composição do
Presidium do Comité Central. P.K. Ponomarenko assumiu o cargo de Presidente do
Conselho de Ministros e iniciou-se uma espécie de “experiência” com “jovens”
ministros… Porém, infelizmente, tudo acabou por seguir um rumo diferente.
LITOV - Para finalizar, o que deseja aos jovens que agora entram na vida ativa?
BENEDIKTOV - Tolstoi tem uma frase notável, que vem a propósito: “O caminho
correto é este: assimila o que antes de ti outros fizeram e segue em frente”. A
minha geração assimilou as lições do leninismo e foi capaz de resolver todos os
problemas que se colocaram ao país: construir o socialismo, defendê-lo da
agressão fascista, transformar o país numa grande potência moderna. A atual
geração também conseguirá dar conta das suas complexas tarefas se souber
aproveitar toda a valiosa experiência do passado, se assimilar os métodos
bolcheviques de administração do país testados no passado e seguir em frente
para alcançar a mais alta produtividade e eficiência do trabalho no mundo e a
organização mais racional e humana da cultura, do lazer e da vida no nosso
planeta. O patriotismo, o amor à Pátria não é apenas um fator psicológico, é
também uma poderosa força econômica. Nos EUA e no Japão esses sentimentos são
cultivados logo nas mais tenras idades, incutindo na juventude orgulho pelo seu
país, pelo seu povo, pela sua cultura. No nosso país esse orgulho é por vezes
apelidado, pelos atuais literatos e alguma imprensa, de chauvinismo.
Nós, como pioneiros do socialismo e internacionalismo por convicção, temos mais
razões para nos orgulharmos do nosso país e das tradições heróicas do nosso
povo. Apesar de todos os problemas e dificuldades, o futuro acabará por
pertencer ao socialismo, enquanto que o capitalismo, não obstante os seus claros
êxitos e conquistas, saíra inevitavelmente do palco da História.
Espero que a nossa juventude não se perca perante as múltiplas dificuldades, que
não ceda ao ceticismo vulgar, à descrença, à lamúria, mas que, arregaçando as
mangas, lute pelos ideais do socialismo com a mesma energia, ardor e abnegação
que caracterizaram a geração dos anos 30.
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