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1951: Getúlio enfrenta a
espoliação do Brasil pelas remessas de lucros
A 31 de dezembro de 1951, o
presidente Getúlio Vargas, havia onze meses governando o Brasil pela segunda
vez, pronunciou o seu discurso de saudação ao povo brasileiro pelo novo ano que
se iniciava no dia seguinte. Abaixo, publicamos os principais trechos deste
pronunciamento.
Getúlio, homem avesso a floreios de oratória, foi direto ao assunto: o que seu
governo fizera e o que pretendia fazer. Nessa prestação de contas, revelou ao
povo, pela primeira vez, a sangria que as remessas de lucros das empresas
externas estavam submetendo o país. Denunciou que, em três anos, o capital
externo acumulara ilegalmente US$ 830 milhões.
Para que se tenha uma ideia do que isso significa: em dólares de hoje, usando
para correção o Consumer Price Index – CPI –, que é o índice de preços ao
consumidor dos EUA, isso equivaleria a US$ 7 bilhões e 44 milhões; porém, dois
pesquisadores norte-americanos, Lawrence Officer e Samuel Williamson, autores de
“Measures of Worth”, aconselham que, no caso de valores orçamentários e
assemelhados, seja usado, como índice de atualização, a parcela do PIB
norte-americano que a quantia representava na época. Neste caso, os US$ 830
milhões de 1951 equivaleriam hoje a US$ 35 bilhões e 735 milhões – o que parece
mais coerente com a afirmação seguinte de Getúlio: “os técnicos já calcularam as
necessidades financeiras do Brasil, para levar a cabo um importante programa de
desenvolvimento econômico, em cerca de 500 milhões de dólares (…) o total do
dinheiro criminosamente arrancado ao povo brasileiro e ilegalmente incorporado
ao capital estrangeiro foi, no triênio 1948-1950, muito superior à quantia de
que necessitamos para a nossa própria recuperação econômica”.
Depois disso, Getúlio esboça esse programa de desenvolvimento econômico. É isto
que lhe permite concluir: “A crise brasileira é uma crise de crescimento e há de
ser superada. Governo e povo caminharão juntos para construírem a prosperidade e
a grandeza do Brasil”.
C.L.
GETÚLIO VARGAS
Enganam-se redondamente os que
julgam que o povo brasileiro me foi buscar e me reconduziu ao governo para
pescar sardinhas. Vamos fisgar tubarões. Não descansarei enquanto não conseguir
proporcionar aos homens, às mulheres e às crianças do meu país a existência
digna, segura, tranquila, próspera e confortável a que têm direito. E isto eu
reafirmo agora, como um juramento solene, nesta passagem de ano, sempre tão
cheia de inquietações e de esperanças.
Na primeira prestação de contas do meu governo, cumpre-me fazer uma revelação.
Por detrás dos bastidores da administração pública, logrou o governo descobrir
aos poucos, e não sem dificuldades, uma trama criminosa, que há cinco anos se
vinha tecendo contra a economia, a riqueza e a independência da pátria. Fora tão
bem feita, tão bem planejada e tão bem executada, que passou despercebida aos
olhos da opinião pública. Levou tempo, até que lhe descobríssemos a pista, de
tal modo estava ela envolta numa rotina burocrática aparentemente inocente.
Ainda que pareça incrível, não foi apenas obra de particulares ou de
capitalistas interessados em sugar o nosso patrimônio. Foi orientada à sombra da
autoridade do próprio governo, através de um regulamento e de vários aditivos e
esse regulamento, baixados pela direção da Carteira de Câmbio do Banco do
Brasil.
Com a melhor das intenções patrióticas, o chefe do Poder Executivo, que me
antecedeu, promulgou, a 27 de fevereiro de 1946, um decreto-lei, que tomou o nº
9.025 e que assegurou aos capitais estrangeiros aplicados no Brasil o direito de
retorno ao seu país de origem, mas na proporção máxima de 20% ao ano.
Assegurou-lhe também o direito de remeter para o estrangeiro os juros, lucros e
dividendos produzidos no Brasil, porém, no máximo, até 8% ao ano. Essa lei está
em vigor; e, para cumpri-la, fez-se mister o registro prévio dos capitais
estrangeiros na Carteira de Câmbio.
Essa lei, infelizmente, nunca foi cumprida. No mesmo ano de 1946, fez-se um
regulamento, baixado pela Carteira de Câmbio do Banco do Brasil, mais tarde
completado por vários aditivos, onde se permitiu que os juros, dividendos,
lucros etc. do capital estrangeiro, que ultrapassassem os 8% previstos na lei,
também fossem considerados como “capital estrangeiro” e somados a este último,
para fins de registro e cálculos de juros posteriores.
Assim, um mero regulamento, baixado por autoridade de menor hierarquia, sabotou
totalmente não só o espírito, mas o próprio texto do decreto-lei, e conseguiu
inaugurar, em surdina e sem que ninguém se desse conta, um sistema de vazamento
subterrâneo da moeda brasileira para o exterior. Vazamento tão grande, tão
extorsivo do fruto do trabalho de milhões de brasileiros, que, em menos de cinco
anos, se logrou subtrair à economia nacional uma soma fabulosa, quase
equivalente ao total do papel-moeda circulante no país e que foi
escandalosamente incorporada ao capital estrangeiro.
Em 1948, estavam registrados no Banco do Brasil, a título de capitais
estrangeiros, 12 bilhões e 960 milhões de cruzeiros. Mas, nesse total, apenas 6
bilhões e 730 milhões representavam moeda estrangeira realmente entrada no
Brasil; os outros 6 bilhões e 230 milhões constituíam moeda nacional, acumulada
no Brasil por conta de lucros que excediam a percentagem legalmente transferível
e que foram indevidamente incorporados ao capital, por força do regulamento.
Nos anos seguintes, a situação agravou-se consideravelmente. O total dos
registros de capital estrangeiro montou a 15 bilhões e 490 milhões de cruzeiros
em 1949, e a 25 bilhões e 130 milhões em 1950. Mas, neste último total, o
dinheiro estrangeiro realmente trazido para o Brasil representava pouco mais de
9 bilhões e 417 milhões, enquanto se considerava como capital estrangeiro mais
de 15 bilhões e 718 milhões de cruzeiros em moeda nacional, provenientes de
lucros legalmente intransferíveis e indevidamente incorporados ao capital.
Tomando-se por base esse malabarismo de cifras, essa criminosa “multiplicação”
do capital estrangeiro em detrimento do trabalho de milhões de brasileiros,
foram metidos para fora, em três anos, a título de rendimentos e de remessas de
retorno de juros e dividendos, as seguintes quantias, em números redondos: 791
milhões de cruzeiros em 1948; 883 milhões em 1949; 1 bilhão e 28 milhões em 1950
– ou seja, nos três anos mencionados, um total de mais de 2 bilhões e 700
milhões de cruzeiros. Se se tivesse cumprido a lei e respeitado os 8%
permitidos, as remessas para o exterior teriam sido apenas, em números redondos,
de 540 milhões em 1948, 450 milhões de cruzeiros em 1949 e 750 milhões em 1950,
ou seja, ao todo, cerca de 1 bilhão e 750 milhões de cruzeiros. Portanto, foram
indevidamente remetidos para fora 950 milhões de cruzeiros a mais do que
permitia a lei.
A rigor, esses 950 milhões excedentes deviam ter sido considerados como retorno
de capital e descontados do total deste último, que, em 1950, ficaria, assim,
reduzido a pouco mais de 8 bilhões e 460 milhões. Entretanto, o que vimos, nesse
mesmo ano de 1950, foi o capital estrangeiro registrado num total de 25 bilhões
e 130 milhões ostentando, pois, um excedente de 16 bilhões e 670 milhões de
cruzeiros sobre o seu legítimo e real valor. Isto representa um aumento
escandaloso e ilegal de cerca de 200% no capital estrangeiro aplicado no Brasil.
O excedente de mais de 16 e meio bilhões de cruzeiros significa nada mais nada
menos que uma dívida contraída pelo Brasil no estrangeiro e que terá que ser
paga, ou melhor, “restituída” dentro de certo prazo. E vamos restituir o quê,
para o quê? Pagar o que não devemos; restituir o que não recebemos, o que é
nosso, o que foi majorado por simples magia de cifras, a fim de supervalorizar o
capital estrangeiro, em detrimento dos valores do trabalho brasileiro e da
produção brasileira.
Essa vultosa cifra em cruzeiros equivale a mais de 830 milhões de dólares, em
moeda internacional. E se a nação souber que os técnicos já calcularam as
necessidades financeiras do Brasil, para levar a cabo um importante programa de
desenvolvimento econômico, em cerca de 500 milhões de dólares, compreenderá
desde logo que o total do dinheiro criminosamente arrancado ao povo brasileiro e
ilegalmente incorporado ao capital estrangeiro foi, no triênio 1948-1950, muito
superior à quantia de que necessitamos para a nossa própria recuperação
econômica, excedendo em proporção maior de uma vez e meia o seu valor.
Sem dúvida, precisamos incentivar o capital estrangeiro e assegurar o retorno
dos juros, dividendos e do próprio capital, em percentagem razoável. Nunca,
porém, nessa voragem de dilapidação do patrimônio nacional, que acarretou para o
país duas graves conseqüências.
A primeira foi a de permitirmos a transferência para o exterior de lucros
resultantes da aplicação de verdadeiros capitais nacionais, num injustificável
esbanjamento dos nossos parcos recursos cambiais. Isto significa que tivemos de
reduzir as nossas possibilidades de importar máquinas, matérias-primas
essenciais e bens indispensáveis ao povo brasileiro, para remunerar os
estrangeiros possuidores de capitais nacionais.
A segunda conseqüência dessa inépcia administrativa foi a de sobrecarregar as
gerações presentes e futuras com dívidas e compromissos injusta e indevidamente
assumidos pelo Brasil, o qual terá de pagar quantia muitíssimo superior à que
recebeu – quantia para cobertura da qual todas as nossas atuais reservas em ouro
e divisas não seriam suficientes.
Já determinei que fosse suspenso o critério ilegal, fixado no regulamento de
1946, e um novo regulamento será decretado dentro de poucos dias, a fim de pôr
cobro a essa exploração e salvaguardar o patrimônio nacional, sem todavia,
afugentar os investimentos de capitais estrangeiros, que, dentro de um critério
de justa e razoável retribuição, trazem incontestáveis benefícios à nossa
economia.
Com o fito de corrigir o déficit orçamentário, determinei, desde o começo do
ano, ao ministro da Fazenda, que tomasse providências capazes de estimular, de
norte a sul, a arrecadação dos impostos e refrear as despesas excessivas. O
resultado dessas medidas já se faz sentir. Hoje posso anunciar à nação que, a 30
de novembro último, havia um saldo, na execução orçamentária, de 4 bilhões e 680
milhões de cruzeiros. E as arrecadações, na mesma data, já subiam a 23 bilhões e
480 milhões, ou seja, 3 bilhões e 300 milhões acima da previsão orçamentária.
Devo esclarecer ainda que, embora com sacrifício de suas realizações diretas, a
União procurou ajudar os poderes dos Estados e municípios a se libertarem das
ingentes dificuldades financeiras em que se encontravam. Para isso, foi ampliado
de 1 bilhão de cruzeiros o total dos empréstimos do Banco do Brasil aos governos
estaduais e municipais.
Consolidada a parte financeira, restabelecido o equilíbrio orçamentário,
poderemos consagrar-nos, em 1952, ao desenvolvimento de um programa de base para
a recuperação nacional. Não pretendo prosseguir nessa rotina de realizações
esparsas, sem um eficaz planejamento de conjunto, como se vinha fazendo até
agora. O governo reconhece a necessidade de um programa de larga envergadura,
que já está sendo traçado e que lhe permitirá enfrentar a solução conjunta dos
grandes problemas nacionais.
Nesse primeiro ano, foram assentadas as bases para um financiamento total de 20
bilhões de cruzeiros, destinados a uma série de empreendimentos básicos, que
abrangem a dragagem e o reaparelhamento dos portos e da navegação, o incentivo
das construções navais, o reaparelhamento das estradas de ferro, a construção de
armazéns, silos e frigoríficos, o desenvolvimento de um plano geral de
aproveitamento de energia, bem como o incremento das indústrias básicas. Desse
total, 10 bilhões já foram autorizados pelo Congresso, e outros 10 bilhões
deverão ser providos em moeda estrangeira pelo Banco Internacional, de acordo
com os entendimentos estabelecidos. Para a abertura e conservação das estradas
de rodagem, também foram ampliados consideravelmente os recursos do Fundo
Rodoviário.
Constroem-se neste momento, por iniciativa e patrocínio oficial, vários armazéns
e frigoríficos; e um plano nacional de silos, armazéns, frigoríficos e
matadouros industriais está sendo elaborado.
Propôs o governo uma nova lei de garantia e de preços mínimos aos produtores,
para defendê-los da especulação dos intermediários e dos azares da falta de
transporte, estimulando, assim, a produção.
A assistência aos produtores, sob a forma de revenda, a preços de custo e a
prazo, de máquinas e outros materiais, foi muito ampliada em 1951.
Nova legislação está sendo elaborada, para permitir maiores facilidades de
acesso à pequena propriedade, mesmo antes de uma indispensável reforma agrária,
que ora é objeto de estudos num órgão especial, criado pelo governo – a Comissão
Nacional de Política Agrária.
O planejamento dos recursos de energia vai sendo progressivamente realizado.
Está no Congresso o Plano do Carvão Nacional, que deverá duplicar a produção e
reduzir sensivelmente os preços do combustível nacional, elevando os salários e
as condições de trabalho e de vida dos mineiros.
Para solucionar em bases nacionais o problema do petróleo, propôs o governo a
criação da Petróleo Brasileiro S. A., na qual, sob o efetivo controle do Estado
se poderão associar subsidiariamente capitais privados, em limites definidos,
para completar os recursos necessários ao programa nacional de petróleo e dar
caráter industrial à grande organização de produção. Os recursos serão buscados,
de preferência, na tributação de artigos de luxo, processando-se, dessa maneira,
sem atingir as classes menos favorecidas.
A expansão dos serviços de energia elétrica é objeto de preocupações especiais e
constitui uma das mais altas prioridades no Plano Nacional de Reaparelhamento
Econômico.
Criou-se uma comissão de desenvolvimento industrial, com o fim de coordenar e
impulsionar o planejamento e as providências oficiais para uma sólida política
de expansão industrial do país. A Fábrica Nacional de Motores vai entrar em fase
de produção eficiente. A instalação da usina de álcalis está vencendo os últimos
obstáculos. O governo animou, em 1951, a criação e expansão da produção de
metais não ferrosos, de que o Brasil carece. As indústrias de fertilizantes,
cimento, material elétrico e de máquinas em geral são outras produções básicas,
que estão sendo desenvolvidas através de medidas governamentais. A Companhia
Vale do Rio Doce, neste ano, excedeu em preços, produção e volume de exportação
os níveis alcançados desde a sua instalação.
A Companhia Hidrelétrica do São Francisco teve acelerada a marcha de suas obras
e luta apenas contra o atraso na entrega dos equipamentos encomendados no
estrangeiro. Antes de concluída a primeira fase da construção da usina de Paulo
Afonso, que lhe dará 180 mil quilowatts de potência, já está o governo cuidando
de ampliar as instalações para a segunda fase, que lhe dará a potência de 300
mil quilowatts. A proposta de criação do Banco do Nordeste, que ora se encontra
no Senado, dará, se concretizada, extraordinário impulso a todo o
desenvolvimento econômico da região.
A Comissão do Vale do São Francisco também prossegue seus trabalhos em ritmo
intenso, dando prioridade à regularização do fluxo do rio, à eletrificação,
irrigação e colonização de várias zonas marginais, e ao levantamento dos
recursos minerais da região.
O Plano de Valorização da Amazônia vai se desenvolvendo, tendo-se antecipado o
governo à lei do Congresso, cuja aprovação aguarda, porém, para levar a cabo o
empreendimento, que deverá abranger o desenvolvimento dos transportes fluviais e
aéreos, a ampliação das disponibilidades de energia elétrica nos maiores centros
urbanos, a plantação nacional de 30 milhões de seringueiras, a organização de
colônias, a produção agro-industrial e a pesquisa de petróleo.
Tudo isto é apenas um pequeno esboço do grande programa de recuperação nacional,
que o meu governo está procurando firmar em questões-chave, selecionando os
pontos básicos, essenciais à vida da nação. Oportunamente vos darei contas mais
minuciosas de cada uma das partes do programa. Aqui pretendi apenas atender à
vossa inquieta expectativa e lembrar-vos que o presidente está cumprindo as
promessas do candidato.
Unamo-nos todos, e congreguemos os nossos esforços para o aumento da produção
nacional.
E a todos vós, brasileiros, a todos vós, trabalhadores, envio daqui a minha
mensagem de confiança e a minha promessa de lutar sem tréguas e sem
desfalecimento para a defesa dos vossos interesses, do vosso bem-estar e
segurança.
A crise brasileira é uma crise de crescimento e há de ser superada. Governo e
povo caminharão juntos para construírem a prosperidade e a grandeza do Brasil.
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