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Sobre tucanos,
nazis - e algo de bom em Hannah Arendt (1)
Pregam uma
suposta “transparência” nos negócios estatais, quando tudo o que fazem é
torná-los mais opacos, para se apropriar do que não lhes pertence
CARLOS
LOPES
Há algum
tempo, na campanha eleitoral de 2006, tive que
abordar a conhecida miséria tucana sobre o Estado, segundo a qual aquilo que
é “público” e aquilo que é “estatal” são duas coisas muito diferentes,
aliás, completamente distintas. Naturalmente, se o que é estatal não é
público, a consequência é a privatização do Estado, sua posse por alguns
grupos que nem mesmo formam uma classe: alguns banqueiros, alguns
negocistas, e, certamente, os atraves- sadores, com suas comissões, propinas
e subornos, auferidos ao mercadejar com os bens públicos. À população
caberia o papel de sustentar, com seus recursos, com seu dinheiro, esse
Estado privatizado, isto é, os oligo-parasitas e os oligo-comensais do
patrimônio público. É apenas mais uma infâmia que venham pregar uma
suposta “transparência” nos negócios estatais, quando tudo o que fazem é
torná-los mais opacos, para se apropriar do que não lhes pertence.
Na época, a
questão apareceu numa declaração do então candidato tucano - que poderia ser
repetida até com mais ênfase pelo atual candidato tucano - de que o serviço
público (isto é, o atendimento à população pelo Estado) não necessita de
funcionários públicos. Daí as “oscips” de apaniguados para se apossar de
hospitais construídos e sustentados por dinheiro público; as terceirizações,
com a avacalhação da democracia (bem ou mal a população exerce algum
controle sobre o Estado; mas quem controla esses receptáculos de recursos
públicos, exceto os seus beneficiários?); o arrocho salarial, o trabalho
“temporário” (isto é, sem vínculo empregatício decente), os planos de
rebaixamento do mérito e da vida dos professores - e outras formas de
privatização e corrupção.
Se os serviços
que é obrigação do Estado disponibilizar para a população - que paga por
eles - devem ser realizados exclusivamente por particulares, por
privilegiados que embolsam o dinheiro do Estado, isso se dá apenas porque
tucanos e outros espécimens acham que o Estado deve ser privado, e não
público - isto é, deles e de alguns ratos de rabo mais grosso. Não é para
melhorar os serviços públicos que essa rataria quer privatizá-los, mas para
roubar o Estado. Tanto é assim que o resultado dessa política sempre foi a
destruição dos serviços públicos – mesmo se esquecêssemos o período em que
Fernando Henrique ocupou o Planalto, temos a situação atual em São Paulo
para demonstrá-lo, a catástrofe na Saúde, Educação, Transporte, Obras e em
tudo mais que é, e não pode deixar de ser, público, pois diz respeito,
precisamente, à atuação do Poder Público.
Hoje, aberrações
à parte, é fácil perceber que aquilo que é estatal, inevitavelmente, é
público. Mas não é tão imediata a percepção de que tudo o que é plenamente
público, necessariamente, terá que ser estatal ou não será plenamente
público. Não se pode subestimar o estrago perpetrado pelo neoliberalismo até
mesmo na mente de algumas pessoas bem intencionadas, estrago ideológico, sem
aderência à realidade, pois até hoje nada do que os neoliberais pregavam, ou
pregam, mostrou-se verdadeiro ou real. Pelo contrário, toda a sua ideologia
é uma mera aparência, uma mera encenação, nada transparente, para esconder a
ação de se apossar do que é público.
O fato é que
algumas coisas que antes eram óbvias, deixaram de sê-lo, não porque
deixassem de ser verdadeiras, mas porque foram vítimas da clepto-verborréia
neoliberal. Por exemplo, como se chama, até hoje, o regime de exploração dos
transportes urbanos ou do espectro eletromagnético (isto é, rádio e TV)?
Como sabe o leitor, chama-se, a esse regime, “concessão pública”. Por quê?
Porque são serviços públicos que o Estado, por não poder realizá-los
imediatamente ou por alguma outra razão, “concede” que particulares os
façam, os explorem, no seu lugar. Uma “concessão pública”, literalmente, é
uma concessão do que é público ao que é privado, do que é estatal ao que não
é estatal. Está implícita a ideia - levada ao paroxismo por aqueles donos de
Tvs que se acham também donos da parcela do espectro eletromagnético que
lhes foi concedida - de que há uma restrição, maior ou menor, ao caráter
público do serviço, na medida em que se faz uma “concessão” ao que não é
estatal. Mas, se a ideia básica é a de que, quando o Estado não realiza
diretamente esses serviços, eles são públicos em sentido restrito,
conclui-se que esses mesmos serviços somente são plenamente públicos quando
é o Estado que os realiza. Realmente, se compararmos a antiga Rádio Nacional
com a TV Globo, restarão poucas dúvidas a esse respeito.
Numa sociedade
do tipo da nossa, a existência do que é público e estatal não implica, como
jamais implicou, na abolição dos negócios privados. Pelo contrário. Em que,
por exemplo, o monopólio estatal, público, na área petrolífera implicou em
impedir o desenvolvimento das empresas privadas? Pelo contrário, a garantia
de que certas áreas são públicas, isto é, estatais, faz com que, em torno
delas, se desenvolvam os negócios privados. Significativamente, foi depois
do fim do monopólio estatal do petróleo - e com o ignominioso Repetro - que
5 mil empresas privadas brasileiras dessa área foram destruídas.
Certamente, há
uma restrição estabelecida pelo que é público, pelo que é estatal - mas essa
restrição diz respeito aos monopólios privados. Como nem os neoliberais
defendem publicamente o monopólio privado (pelo contrário, sua ação pelos
monopólios privados, sobretudo os estrangeiros, é sempre encoberta com
palavras como “mercado” - aliás, “livre” mercado - “concorrência”,
“competição” ou “competitividade”), conclui-se que essa restrição é a favor
dos negócios privados. Ou seja, até os neoliberais sabem perfeitamente que o
monopólio privado é antissocial, antieconômico - e anti-privado, na medida
em que destrói a maioria, aliás, quase todos os negócios privados. Já
tivemos várias tentativas de criar indústrias de automóveis no Brasil.
Tecnologicamente, não há grandes dificuldades - e nem somos inferiores em
capacidade à China ou à Coreia do Sul. Mas, depois que Roberto Campos, no
primeiro governo da ditadura, privatizou a Fábrica Nacional de Motores, o
monopólio das montadoras multinacionais passou a esmagar qualquer tentativa
nesse sentido.
A ideia de que o
Estado administra sempre mal, depois da atual crise norte-americana somente
pode caber na cabeça de anormais. No entanto, essa é, exatamente, a
ideologia tucana, e, como mostrou em São Paulo, a de Serra. Como disse o
engenheiro Virgílio Freire, que conhece bem as multinacionais (foi diretor
da Motorola-Nortel, da BellSouth e presidente da Lucent Technologies): “Quiséramos
nós que as telecomunicações em São Paulo tivessem o mesmo nível que a
extração, o refino e a distribuição de combustíveis. Logo, não é verdade que
‘o Estado não sabe administrar’. (...) a Petrobrás é eficiente, respeitada
aqui e lá fora, e não sofre de apagões de combustível. Apenas para reforçar
o argumento, e o Banco do Brasil? É estatal e luta no mercado bancário em
condições de igualdade, dá lucros enormes e ninguém acusa a diretoria do BB
de ser inepta devido ao fato de a empresa ser estatal. Então, esta ideia de
que empresa estatal é por definição lenta, obsoleta, com gente preguiçosa e
ineficiente, é uma inverdade”.
Se isso é
verdade para as empresas, também o é para a administração direta - aliás, é
mais ainda para a administração direta. Uma empresa privada pode – em
regime, evidentemente, privado - ser bem administrada. Já um serviço
público, somente consegue ser bem administrado se for administrado
publicamente, pelo poder público, com a participação democrática da
população. Que controle tem a população sobre as “oscips” tucanas que
açambarcam hospitais públicos em São Paulo? Quem as fiscaliza? Onde estão as
suas prestações de contas? Quem determina que serviços e em que quantidade
elas prestarão? Não é por acaso que esses serviços, logo que são entregues
aos bandos de apaniguados que embolsam verbas públicas, se deterioram
rapidamente - aliás, aceleradamente.
O Estado pode e
deve possuir empresas, mas ele, em si, não é uma empresa. Por isso, a ideia
de jegue de que o Estado deve ser administrado como uma empresa ou que, para
que ele seja bem administrado, é preciso obrigatoriamente ter um empresário
– que não seja “um político” - na cabeça do Estado, jamais teve qualquer
sucesso em lugar algum do mundo.
Um empresário
pode ser um bom governante, assim como um operário pode ser - desde que não
substitua os interesses gerais da população, que são os do Estado, pelos
interesses das suas empresas. Ou desde que perceba que os interesses de suas
empresas estarão melhor contemplados se o estiverem os interesses gerais do
país.
Nesse sentido,
nosso vice-presidente, o empresário José Alencar, é, provavelmente, um
modelo para a História do Brasil, alguém que colocou os interesses públicos
acima dos seus interesses particulares - ou que percebeu que estes, os
interesses de um empresário nacional, não são antagônicos, pelo contrário,
aos interesses gerais da nação.
Certamente,
Alencar jamais disse que o Estado teria que ser administrado como uma
empresa ou que somente empresários podem bem governar.
Essa era a
propaganda que cercava o atual senador tucano Tasso Jereissati, desde a
primeira eleição em que concorreu - em 1986, para o governo do Ceará. Até
hoje, que se saiba, Jereissati sempre usou esse tipo de grife, atribuindo a
ela a sua eleição - e esquecendo rapidamente o apoio decisivo do então
governador Gonzaga Mota, um dos próceres que preferiram unir-se a Tancredo
ao invés de sustentar a ditadura.
Mas vejamos o
resultado desse suposto “Estado-empresa”, que não foi nada aprazível para a
terra do quase homônimo de nosso vice-presidente - o primeiro grande
romancista brasileiro, José de Alencar.
Um cearense
ilustre, mestre Hélder Câmara, glória do xadrez nacional, fez-nos chegar há
alguns meses um pequeno balanço, publicado em outubro na imprensa de
Fortaleza pelo jornalista Messias Pontes. Permita-nos o leitor a citação
mais ou menos longa, porém muito iluminadora sobre o caráter de certos
adeptos do “público mas não estatal”, ou, melhor, “estatal mas não público”.
Lembra o
jornalista que, em nome de uma suposta eficiência empresarial do Estado,
Jereissati, “desmontou o Estado cearense contra a vontade da maioria dos
cearenses: sem consultar quem quer que seja, acabou com o planejamento
agrícola ao extinguir a Cepa – Comissão Estadual de Planejamento Agrícola; a
Codagro – Companhia de Desenvolvimento Agropecuário - igualmente foi extinta
sem dar satisfação a ninguém; a pesquisa também foi mandada pras cucuias com
a extinção da Epace – Empresa de Pesquisa Agrícola do Ceará; a assistência
técnica e a extensão rural também foram vítimas do descaso do então
governador, já que a Ematerce foi totalmente sucateada (...) o Bandece –
Banco de Desenvolvimento do Ceará – foi extinto logo no início do seu
primeiro governo; a imprensa oficial, que tinha um dos mais modernos parques
gráficos públicos do País foi outra vítima fatal, dado que a Ioce – Imprensa
Oficial do Ceará –foi extinta para que todo o serviço gráfico dos Poderes
Executivo, Legislativo e Judiciário ficasse com a iniciativa privada.
Jerfeissati
também privatizou “a Coelce – Companhia de Eletricidade do Ceará – por um
bilhão de reais quando valia muito mais, já que era uma empresa
superavitária e que prestava bons serviços. Tasso prometeu aplicar R$ 600
milhões num fundo previdenciário do Estado, mas esse dinheiro tomou outro
rumo. Com a privatização da Coelce, aproximadamente 1.450 funcionários foram
demitidos, muitos enfartaram e houve até suicídio por conta das pressões dos
novos donos. Isso sem falar da piora substancial na qualidade dos serviços
prestados e do abusivo aumento da tarifa. O número de mortes por acidente de
trabalho pulou de um para oito por ano, sendo a maioria de funcionários
terceirizados, sem a qualificação exigida para atuar no setor. Os desmandos
dos novos donos da Coelce foram tamanhos que mesmo a Aneel foi obrigada a
aplicar uma multa de R$ 6,9 milhões à empresa.
“Outro grande
prejuízo causado por Tasso Jereissati aos cearenses foi a quebra do BEC –
Banco do Estado do Ceará. Quando iniciou o seu terceiro mandato, Tasso
recebeu o BEC não só completamente saneado, mas principalmente supera-
vitário. Em quatro anos o BEC teve de ser federalizado pela importância de
R$ 900 milhões para os cearenses pagarem em 30 anos.
Isso tudo em
meio a uma sanha verdadeiramente fascista: “no seu período, decisões
judiciais eram simplesmente ignoradas, fato inédito na história do Ceará. A
truculência contra grevistas e a todos os movimentos sociais organizados que
reivindicavam direitos foram uma constante em seu governo. A repressão aos
trabalhadores rurais sem terra foi violentíssima” (cf., Messias Pontes,
“A verdadeira força do atraso”, O Estado, 14/10/2009).
Ao que se
poderia acrescentar um assalto federal: “Só o rombo no BNB, deixado por
Byron Queiroz, afilhado de Tasso, foi superior a R$ 7 bilhões”.
Diante da
eloquência dos fatos, dispensamo-nos de maiores comentários, exceto o de que
esse massacre do espaço público, da ação, do patrimônio e do dinheiro do
Estado, de nada serviu aos negócios privados no Ceará. Pelo contrário, foi
também um massacre sobre esses negócios privados, na medida em que o
desmantelamento do Estado impediu que este atuasse incentivando-os. Em que
beneficia aos empresários serem extorquidos por uma empresa parasitária
estrangeira - a ítalo-espanhola Endesa - ao invés de pagarem tarifas de
energia razoáveis à estatal Coelce?
EM BREVE
Porém, voltemos
ao início e à questão: é possível, na sociedade atual, algo que seja
plenamente público e não seja estatal?
Na época em que
o medíocre adversário de Lula nas eleições de 2006 fez a sua profissão de fé
“pública mas não estatal” - repetindo, aliás, inteiramente, as bobagens de
seu líder, Fernando Henrique Cardoso - diante de algum debate sobre o
assunto, chegamos a planejar um artigo sobre as origens ideológicas (se o
leitor quiser, “filosóficas”) dessa indigência.
Havia duas
fontes “teóricas”. Uma, bastante obscura, o alemão Jürgen Habermas, autor de
“A Transformação Estrutural da Esfera Pública” - tão citado em certos
trabalhos quanto pouco lido e menos ainda entendido, não por culpa dos
leitores, mas pelo lastimável estilo de Habermas. Há quem identifique
obscuridade com profundidade. Rosa Luxemburg podia não estar certa em tudo,
e realmente não estava, mas nunca acertou tanto do que quando disse: “quem
se expressa de modo obscuro demonstra que não entende do que está falando,
portanto tem todas as razões para não falar claramente”.
Mas existe uma
fonte “clara” (isto é, que escreve em vernáculo decente) dessa suposta
teoria: Hannah Arendt, uma autora que tem como melhor predicado o estilo e
não o conteúdo de suas teorias (é possível ler um ensaio de Arendt como se
fosse uma espécie de romance – lembro que foi assim que li várias vezes
“Anti-semitismo, instrumento de poder”). Arendt, atualmente, é bastante
incensada por tucanos metidos a besta, como aquele ministro das Relações
Exteriores que se submeteu orgulhosamente a ser revistado pela polícia dos
EUA...
Não chegamos
ainda nos nazistas e mal começamos o inventário das virtudes da senhorita
Arendt. Porém, leitores, acabou o nosso espaço. Vamos ter que deixar para a
próxima a continuação deste emocionante drama...
Continua na próxima edição. |