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Sobre tucanos,
nazis - e algo de bom em Hannah Arendt (2)
Continuação da edição anterior
O desastre do
governo Fernando Henrique consistiu, precisamente, em abdicar dos interesses
nacionais em prol da ajuda (é verdade que não de governo para governo) que o
capital externo iria fornecer ao nosso desenvolvimento. Pareceria uma questão de
justiça para com Arendt observar que, ao contrário dos tucanos, pelo menos ela
acha - ainda que em versão edulcorada – que o imperialismo existe
CARLOS LOPES
Hannah Arendt tinha toda razão quando recusava - ainda que pelo
motivo errado - o título de “filósofa”, mas nenhuma para achar que sua
especialidade era a “teoria política” (“Politische Theorie”).
O motivo errado chamava-se Martin
Heidegger, para ela - ao lado, ou, provavelmente, acima de Karl Jaspers - o
inalcançável suprassumo em filosofia. Até o final da vida, Arendt jamais
conseguiu perceber o vínculo da “filosofia” de Heidegger com sua adesão ao
nazismo, em maio de 1933, três meses após a chegada de Hitler ao poder. E não
conseguiu perceber - apesar de Heidegger permanecer nazista até o fim do nazismo
e jamais ter pronunciado qualquer palavra de arrependimento até a morte, em 1976
- porque não queria perceber.
Em seu artigo “O que é o
existencialismo?” (1945) ela contorna o problema - bem ao seu modo, evita esse
foco, que na época era mais crítico ainda do que é hoje, e concentra-se em
críticas secundárias. Mais de 20 anos depois, ela falaria publicamente em
homenagem aos 80 anos de Heidegger, desculpando-o por sua adesão a Hitler - que
foi muito além do uso da suástica quando reitor e da notória profissão de fé em
seu discurso de posse na Universidade de Freiburg (“O Führer, e só ele, é a
lei e a realidade alemã, hoje e no futuro”), caindo pela ladeira da delação
de colegas da universidade.
No entanto, em 1969, em seu
discurso, Arendt declarou que “tanto Platão quanto Heidegger, quando
entraram nos assuntos humanos, procuraram refugiar-se junto a tiranos e
‘Führem’ [aqui, o plural de Führer]”. Não sabemos como os filósofos
fazem para não entrar nos “assuntos humanos”, mas trata-se de uma grande
injustiça com Platão. Colocar Dionísio I ou Dionísio II de Siracusa -
anfitriões do filósofo grego - como pares de Hitler é uma monstruosidade
histórica. E há algo ainda pior nessa comparação com Heidegger: Platão jamais
delatou alguém. Pelo contrário, é o autor da “Apologia de Sócrates”.
Mas, segundo disse Arendt em
1969, o que aconteceu com Heidegger não passou de uma “deformação
profissional” (“déformation professionnelle”) dos filósofos porque “a
tendência à tirania, teoricamente, pode ser mostrada em quase todos os grandes
pensadores (Kant é a grande exceção)” [uma frase dessas demanda a citação do
original: “Denn die Neigung zum Tyrannischen läßt sich theoretisch bei fast
allen großen Denkern nachweisen (Kant ist die große Ausnahme)”].
Não é necessário especular se
Arendt não sabia o que é um grande pensador, ou, apesar de ser uma alemã de
origem judaica que viveu na época do nazismo, não sabia o que é tirania. As duas
coisas, a julgar pelos seus escritos, são verdade. Mas, vamos em frente, leitor.
A rigor, e com apenas uma exceção
notável, que mencionaremos mais adiante, os escritos de Arendt após a II Guerra
pertencem ao campo da propaganda. Alguns leitores talvez estranhem esta
afirmação. Porém, não é outra coisa a sua obra mais citada, “As Origens do
Totalitarismo” (1951), em especial a última parte, em que, num mundo que
acabara de derrotar o nazismo, onde todos sabiam perfeitamente sobre quem
recaíra o peso principal, o esforço maior para se chegar à vitória sobre Hitler,
ela, sem muitos pruridos, usa um falso conceito muito propagado por Mussolini -
o “totalitarismo” do título da obra - para igualar o socialismo,
especificamente o socialismo que existia na URSS, com o nazismo. Seu
“conceito”, segundo Arendt, não é aplicável a qualquer outro regime existente na
época - nem ao fascismo que subsistia, agora sustentado pelos EUA, na Espanha.
Somente dois regimes, diz Arendt, merecem o rótulo de “totalitários”. Um deles,
não mais existia - o nazismo na Alemanha. O outro é o socialismo da URSS -
precisamente o que derrotara, no fundamental, o nazismo.
Outros já apontaram como as duas
primeiras partes do livro (“Antissemitismo” e “Imperialismo”) não são coerentes
com a última. A rigor, essas duas primeiras partes nada têm a ver com a última.
E, realmente, esta é uma espécie de improviso feito sob medida para se adaptar
ao status quo norte-americano pós-II Guerra Mundial.
Em 1942, quando já preparava o
livro, essa terceira parte não estava em seus planos e Arendt tinha uma opinião
inteiramente diferente sobre a URSS, que, segundo escreveu, havia “simplesmente
liquidado o antissemitismo” e dado uma “solução justa e muito moderna
para a questão nacional”. Três anos depois, em 1945, ela escreveria: “A
propósito da Rússia, todos os movimentos políticos e as nações deveriam
prestar atenção no seu modo completamente novo, e bem sucedido, de enfrentar os
conflitos, integrar as nacionalidades e organizar populações diferentes sobre a
base da igualdade nacional. Isso tem sido subestimado tanto por seus amigos
quanto por seus inimigos” (cf. Hannah Arendt, “Essays und Kommentare 2.
Die Krise des Zionismus”, coletânea editada por Eike Geisel e Klaus
Bittermann, Tiamat, Berlin, 1998).
Porém, pouco tempo depois, em 1951,
Arendt estaria, nos EUA, totalmente surfando na onda dominante – a rigor, se
agarrando com as unhas na prancha reacionária.
Além da incoerência já apontada, o
“totalitarismo” de Arendt está suspenso no vácuo - não tem base social, nem
econômica, nem política: o fato da Alemanha, entre 1933 e 1945, ser um país
selvagemente capitalista e barbaramente imperialista, com uma economia engessada
por alguns (muito poucos) monopólios privados, e a URSS das décadas de 30, 40 e
50 ser um país onde, essencialmente, a propriedade dos meios de produção era
coletiva, não a inibe de colocar socialismo e nazismo no mesmo saco. Não lhe
importa que seu neo-conceito (ou, como ela mesma disse sobre outros, seu
“não-conceito”, isto é, seu preconceito) não corresponda a alguma realidade
socioeconômica ou política determinada - a propaganda dessa espécie dispensa
tais minúcias.
Os esbirros da muito mal chamada
“guerra fria” não queriam outra coisa. E usaram amplamente a invenção de Arendt.
Aliás, sem que ela protestasse, estenderam o “conceito” a qualquer governo com
um mínimo de independência, desde o Irã do primeiro-ministro Mossadegh à
Guatemala do presidente Arbenz, desde a Indonésia do presidente Sukarno a Cuba
do comandante Fidel, ao Chile do presidente Allende e, depois da morte de Arendt,
ao Iraque do presidente Sadam Hussein. Em suma, a melhor definição de um regime
“totalitário” passou a ser aquele que a CIA quer derrubar.
IDÍLIO
A primeira parte de “As Origens
do Totalitarismo”, sobre o antissemitismo, é até agradável de ler, mas
completamente inútil para o conhecimento das causas do problema. Evidentemente,
o antissemitismo da Idade Média não tem, nem podia ter, a mesma base social do
antissemitismo na França durante o caso Dreyfus (1894-1899); nem este tem a
mesma base social do antissemitismo na Áustria-Hungria durante o período final
dos Habsburgos (1848-1918); que, por sua vez, não tem a mesma base social do
antissemitismo das Centúrias Negras (1900-1917) na Rússia czarista; que também
não é a mesma coisa que o antissemitismo na Alemanha, sob Hitler.
No entanto, essas distinções são
ignoradas ou tangenciadas por Arendt. Somos informados que os grupos
antissemitas não pertenciam à “massa”, mas à “ralé”. Seria excelente se somente
o lumpenproletariat (a “banda podre do proletariado”, na definição de
Marx) fosse racista, mas, além de não corresponder à realidade, a “ralé” de
Arendt não é um sinônimo de “lumpen”. Essa “ralé” se define, essencialmente, por
seu antissemitismo, assim como este é praticado, por definição, pela “ralé” - e
não saímos do mesmo lugar.
Mas, somos também informados, na
sociedade capitalista que emergiu na Europa Ocidental no século XIX, “os
judeus não formavam uma classe nem pertenciam a qualquer das classes nos países
em que viviam” (Hannah Arendt, “As Origens do Totalitarismo”, trad.
Roberto Raposo, Companhia das Letras, 3ª reimp., 1998, pág. 33).
Ficamos sem saber como o principal
país da Europa Ocidental no século XIX - a Inglaterra - conquistou o seu império
colonial sob um primeiro-ministro judeu (Benjamin Disraeli) ou como o
proletariado de origem judaica se alistou em massa nos partidos socialistas da
época. Tais fatos parecem caídos do céu, sem nenhuma explicação (apesar da
autora sempre ter exibido como galardão a sua condição, aliás, verdadeira, de
ex-aluna favorita de Karl Jaspers, para quem os fenômenos demandam uma
“compreensão” - isto é, uma exposição de sua lógica interna - e uma “explicação”
- isto é, uma remissão às suas causas, evidentemente, externas ao fenômeno).
Mas, depois da descoberta de que os
judeus na Europa do século XIX eram, literalmente, desclassificados, restam
poucas dúvidas de que Arendt não sabe o que é uma classe social. E ignora,
também, o que é o Estado - parece acreditar que o Estado é algo radicalmente
separado da sociedade, tal como os alemães da época de Kant ou Hegel. Por
exemplo: “a estranha capacidade portuguesa de continuar uma luta [pelas
colônias], da qual todas as outras potências coloniais europeias já haviam
desistido, pode ter resultado do seu atraso nacional mais do que da ditadura
salazarista” (op. cit., pág. 147). A ditadura salazarista, portanto, deve
ser um fenômeno separado do atraso nacional de Portugal sob o salazarismo.
Talvez seja um problema racial...
Assim, como no caso dos judeus,
Arendt acaba por promover um preconceito ao altar da filosofia política, aliás,
“teoria política”.
Ela também não entende o que é o
“imperialismo moderno”, apesar de escrever um bocado sobre ele - ou sobre alguma
coisa que não é ele. O império feroz dos monopólios, a exportação de capital, a
busca de mercados e matérias-primas, a extração de superlucros e a redivisão do
mundo, nada disso é assunto para a “teoria política” de Arendt, exceto
marginalmente e sempre numa versão quase idílica. Assim, o seu imperialismo é um
fruto quase automático - isto é, sem que, na maior parte, haja intenção
imperialista nos países imperialistas - do “processo de criar nações em áreas
atrasadas, onde a ausência de todos os pré-requisitos para a independência
nacional é tão marcante” (idem, pág. 148). Logo, a causa do “imperialismo
moderno” deve ser a teimosia desses povos que querem ser independentes sem que
tenham condição para tal - isto é, nós, povos das antigas colônias.
Porém, não se pense que o
imperialismo em 1951 é o mesmo de antes. Diz Arendt que “os investimentos
privados em terras distantes, que originalmente constituíam a motivação básica
do imperialismo, estão hoje superados pela ajuda externa, econômica e militar,
fornecida diretamente aos governos pelos governos” (pág. 149).
Em suma, a ajuda governamental, já
em 1951, “superou” as multinacionais e a dependência financeira. Como naquele
fado, só nós é que sabemos...
É possível notar aqui o parentesco
com certas teses (cáspite) tucanas. O desastre do governo Fernando Henrique
consistiu, precisamente, em abdicar dos interesses nacionais em prol da ajuda (é
verdade que não de governo para governo) que o capital externo iria fornecer ao
nosso desenvolvimento. Pareceria uma questão de justiça para com Arendt observar
que, ao contrário dos tucanos, pelo menos ela acha - ainda que em versão
edulcorada – que o imperialismo existe.
No entanto, é melhor examinar o
santo mais de perto. O motivo que faz Arendt, no início da década de 50,
designar como imperialismo a “ajuda externa, econômica e militar, fornecida
diretamente aos governos pelos governos” nada tem a ver com a denúncia do
Plano Marshall, ou da OTAN, ou da suposta “ajuda” norte-americana a países da
América Latina. Seu objetivo é outro: incluir como “imperialismo” a assistência
econômica que a URSS, na época, prestava aos países da Europa Oriental, à China
e à Coreia.
DESAPARECIMENTO
Em 1958, sete anos depois de “As
Origens do Totalitarismo”, Arendt iria chegar à conclusão de que o Estado
encontrava-se em franco processo de desaparecimento: “... em nossos dias,
[o Estado] começa a desaparecer completamente sob a forma da esfera
ainda mais restrita e impessoal da administração” (Hannah Arendt, “A
Condição Humana”, trad. Roberto Raposo, Forense, 10ª edição, 2007, pág. 70 -
o posfácio dessa tradução é do ministro das Relações Exteriores de Fernando
Henrique, Celso Lafer, ex-aluno de Arendt e rara vocação de Cinderela em
aeroportos norte-americanos).
Arendt está se referindo ao Estado dos países centrais,
especialmente, presume-se, ao Estado do país onde vivia, os EUA - pois não tinha
a mesma opinião sobre os Estados dos países socialistas.
O Estado norte-americano, em 1958,
mantinha 3 milhões de pessoas nas forças armadas (hoje, o efetivo total da
ativa, incluindo os funcionários civis, é de 2.025.049), espalhados pelo mundo
todo. Não sabemos quantos funcionários tinham, no final da década de 50, as
quase três dezenas de agências de terrorismo e espionagem dos EUA, mas não devia
estar muito longe dos 200 mil funcionários divulgados na época do governo
Carter.
Então, onde foi que Arendt viu esse
Estado a caminho do completo desaparecimento? A pista é dada pela última
parte da frase (“sob a forma da esfera ainda mais restrita e impessoal da
administração”) - como isso não pode ser uma referência ao número de
funcionários, é claro que ela confunde a monopolização crescente do Estado
imperialista por um grupo cada vez menor de mandantes, monopolização que deu um
salto durante o governo Eisenhower (1953-1961), com o início do “desaparecimento
completo do Estado”. Nesse sentido, Arendt estava à direita do próprio
Eisenhower, que, ao passar o cargo para Kennedy, mencionou o “complexo
industrial-militar”, fomentado durante o seu governo, como um perigo para o
Estado, o país e a democracia.
Esse livro de Arendt tem um
interesse especial, pois é nele que faz as suas considerações sobre o “espaço
público”, de onde tucanos e assemelhados extraíram a tese do “público mas não
estatal”, ou seja, do “estatal mas não público”.
Arendt coloca tais questões de
forma supostamente abstrata - mas é evidente a que realidade concreta elas se
referem. Em cada página do livro há, como diria um amigo nosso, um velho truque
pseudo-filosófico: quando as coisas tornam-se difíceis de provar, recorre-se à
Grécia e aos gregos. Não propriamente ao que sabemos dos filósofos gregos
históricos, nem a uma Grécia antiga que tenha algo de histórico, mas a uma
idealização arbitrária da Grécia e dos gregos antigos. Por exemplo: “Os
gregos, cuja cidade-estado foi o corpo político mais individualista e menos
conformista que conhecemos...” (op. cit., pág. 52). Qual a prova disso, além
das lendas que povoam o imaginário do individualista burguês, Arendt dispensa-se
de apresentar - exatamente porque esse tipo de afirmação é feita para dispensar
provas. Da mesma forma, somos informados que na antiga Grécia “… a
sobrevivência da espécie não era assunto político, mas doméstico por
definição” (op. cit, pág. 38). Difícil é saber porque os gregos fundaram um
Estado (aliás, vários) se a “sobrevivência da espécie” não necessitava dele.
Porém, quando um grego atrapalha
demais a idealização que a autora faz da Grécia, e, portanto, a sua tentativa de
legislar sobre o nosso mundo, rapidamente é corrigido. Assim, o relato de
Xenofonte, segundo o qual numa praça pública de Esparta havia 4.000 escravos
para 60 homens livres é, sem maiores delongas, considerado “certamente
exagerado” (op. cit., pág. 42, nota). Provavelmente, Arendt estava na praça no
mesmo dia em que Xenofonte passou por lá...
Infelizmente, leitores, outra vez
nosso espaço acabou – mas tenhamos paciência: já chegaremos à parte boa da
senhora Arendt.
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