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Tiradentes:
“Se quisermos,
faremos juntos deste país uma grande Nação”
O programa da
revolução de Tiradentes expressava tanto a necessidade de resolver a contradição
principal daquele momento – a existente entre o Brasil e o bloqueio constituído
por um domínio colonial caduco – como também a necessidade de resolver a
contradição fundamental - do Brasil em relação à qualquer dependência -
construindo um país livre, soberano, independente, desenvolvido e próspero
econômica, social, política e culturalmente - enfim, uma grande Nação
CARLOS LOPES
Portugal saíra da
anexação à Espanha, em meados do século XVII, numa situação de profundo
esgotamento, agravada pela queda nos preços do açúcar, que até a invasão
holandesa somente o Brasil produzia, mas que agora tinha a concorrência da
produção açucareira das colônias inglesas e francesas das Antilhas, para onde os
holandeses levaram a tecnologia que tinham aprendido durante os anos de ocupação
do Nordeste brasileiro.
A “solução” encontrada pela Coroa - apoiada
na única classe que no território metropolitano produzia, então, uma mercadoria
exportável, e portanto lucrativa, a dos produtores de vinho - foi tornar-se cada
vez mais dependente da Inglaterra. A corte garantia a independência política em
relação à Espanha transformando o país em vassalo da Inglaterra. Tal era a
sabedoria que imperava em Lisboa, exceto no período em que o marquês de Pombal
esteve à frente do governo - em suas memórias, o grande estadista português
reconhece a dependência econômica de Portugal à Inglaterra como o principal
obstáculo que enfrentou e que seu país teria que enfrentar.
O Tratado de Methuen, de 1703, um tratado de
nome inédito, pois Methuen não é a localidade onde ele foi assinado, mas o nome
do agente inglês que o extraiu, à custa de suborno, expôs essa vassalagem. Por
ele, o mercado português – metropolitano e colonial – tornava-se cativo dos
produtos manufaturados ingleses. Em troca, os vinhos portugueses deveriam ter o
monopólio do mercado inglês. Mas quando a Inglaterra, em 1786, rompeu
unilateralmente o tratado em favor dos vinhos franceses, nem por isso a Coroa
portuguesa deixou de continuar submetendo-se ao domínio comercial inglês. Poucas
vezes se viram consequências tão desastrosas: as importações de mercadorias
inglesas impediram as tentativas de industrialização do país, levando à atrofia
econômica, à perpetuação do atraso e à espoliação comercial e financeira.
Em relação ao Brasil, Portugal tornou-se um
intermediário das mercadorias inglesas, ao mesmo tempo arrancando da colônia os
seus recursos – isto é, sobretudo o ouro - para repassá-los a Londres. Assim, o
Brasil tinha de sustentar três senhores: a corte lusitana, com seu perdulário e
parasitário luxo; a economia da metrópole, onde os comerciantes portugueses
intermediavam as exportações inglesas para o Brasil; e o desenvolvimento
manufatureiro inglês.
Durante mais de 50 anos, nós suportamos essa
sobrecarga e ainda conseguimos desenvolver-nos internamente, ainda que dentro
dos limites de uma colônia. Estima-se que entre 1700 e 1800 foram produzidos no
Brasil cerca de mil toneladas de ouro e 3 milhões de quilates de diamantes.
A partir de meados do século XVIII, quando a
produção de ouro decai, a Coroa aumenta suas exigências sobre o Brasil. Em 1750,
o imposto total sobre o ouro tinha sido estabelecido em 100 arrobas do metal,
mas após 1764 o governo português não consegue mais arrecadar essa magnitude. No
entanto, a corte não quer renunciar ao seu suntuoso parasitismo e necessita
pagar o fluxo das importações de mercadorias inglesas. Daí as ameaças constantes
de efetuar a “derrama”, ou seja, a cobrança desses impostos sobre o ouro,
independente da produção, até atingir as 100 arrobas. Até à morte de D. José I e
a consequente queda de Pombal (1777), essa ameaça foi afastada: a política que
prevalece é a de incentivar as manufaturas, a incipiente industrialização, como
forma de sair da estagnação e do atraso.
Mas a política do reinado seguinte, o de Dª
Maria I, seria a da desistência de superar o feudalismo e transformar Portugal
em um país capitalista; a da rendição total ao monopólio comercial e
manufatureiro inglês; a da espoliação exacerbada sobre as colônias, das quais a
maior e mais rica era o Brasil, para sustentar a corte e as importações de
mercadorias inglesas.
Nas duas últimas décadas do século XVIII,
quando a produção de ouro diminui mais ainda, as exigências da Coroa tornam-se
desesperadas, na medida em que sua arrecadação brasileira - que constituía a
maior parte de sua renda – chega, no máximo, a 40 arrobas de ouro.
A “derrama”, então, passa a ser uma ameaça
cada vez maior e, em 1788, é enviado de Portugal ao Brasil um novo preposto para
governar Minas Gerais, o visconde de Barbacena, com ordens de cobrar os
atrasados: acumulara-se um déficit de 538 arrobas de ouro nos anos anteriores.
“AINDA QUE
TARDIA”
Porém, a produção de ouro e diamantes,
concentrada principalmente em Minas Gerais, mas estendendo-se aos territórios
onde atualmente estão os Estados de Mato Grosso, Bahia e Goiás, havia
revolucionado economicamente o Brasil. Antes de tudo, havia, pela primeira vez,
integrado numa única economia o conjunto do país, antes uma coleção de economias
isoladas.
A economia do ouro havia formado um mercado
interno, com o fornecimento, por parte do Sul do país, de muares e bovinos para
transporte, tração e alimentação, além de couro e charque; através da pecuária
nordestina, ligou-se às regiões açucareiras - Pernambuco, Alagoas e Rio Grande
do Norte; integrou, inclusive, as então remotas regiões em que nascia a produção
de algodão e arroz - o Ceará, Piauí e Maranhão - e àquelas ainda de economia
extrativa, como o Grão-Pará (atuais Estados do Pará, Amazonas, Rondônia, Amapá e
Roraima). Em consequência, todo um sistema de transportes, ainda que precário,
se espraiou pelo país.
Teria que ser, portanto, na região aurífera
que o sentimento de nacionalidade emergiria de forma mais aguda, agora
desvencilhado, ao contrário da época da luta contra o domínio holandês, da
dependência ideológica e política à metrópole. Pelo contrário, agora o
sentimento de nacionalidade afirmava-se contra a dependência
política, econômica e cultural a Portugal, em defesa de interesses
especificamente brasileiros.
O HOMEM
Tiradentes foi o herói que condensou esse
sentimento de nacionalidade. A síntese de seu legado: “se quisermos, faremos
juntos deste país uma grande Nação”.
Era - à custa, sem dúvida, de seu próprio
esforço - um homem excepcionalmente culto para a época e, mais ainda, para as
condições de seu país. Sua primeira viagem ao Rio de Janeiro teve por objetivo
apresentar ao vice-rei um projeto para acabar com a falta d’água na cidade,
através da canalização dos rios Maracanã e Andaraí. No inventário de seus bens,
feito antes do ignominioso leilão que se seguiu ao seu martírio, achou-se um
exemplar em francês da então recente Declaração de Independência dos Estados
Unidos.
Entre os líderes da Inconfidência Mineira,
ele era o mais genuinamente popular e o de maior consciência nacional. Em seu
pensamento e, principalmente, em seus sentimentos, nada mais havia que o
amarrasse ao colonizador, inteiramente brasileiro nos atos, na ideologia, enfim,
na postura diante do opressor – foi o primeiro, entre os homens notáveis do
país, a identificar-se total e plenamente com o Brasil, a tornar-se e portar-se,
por inteiro, política, ideológica e psicologicamente como brasileiro.
Era muito clara, para ele, a missão que se
colocava ao nosso povo naquele momento: a de superar a contradição entre o nosso
desenvolvimento interno, cujas potencialidades em termos de recursos naturais e
humanos eram infinitamente superiores aos da metrópole, e o domínio da servil,
mesquinha e minúscula nobreza metropolitana, domínio que só era possível
continuar sob a condição de mutilar o Brasil para que se amoldasse à estreita
fôrma da espoliação colonial - regredindo ao passado, com a destruição das
forças produtivas já desenvolvidas.
Em função dessa consciência, esteve o seu
comportamento na preparação da revolução, como sua principal alma - deslanchando
uma atividade febril que lhe valeu de Cláudio Manuel da Costa, com admiração, o
apelido de “alferes corta-vento” - e depois, na prisão e no martírio, a
serenidade, coragem e dignidade, descritas por alguém que não comungava de suas
ideias, Frei Raimundo de Penaforte, que o acompanhou ao patíbulo, na condição de
sacerdote: “era desses seres cuja força espanta a própria Natureza”.
Com Tiradentes, na preparação da revolução,
estava o engenheiro José Álvares Maciel, que se especializara em metalurgia na
Europa e que tinha planos de construir pequenas - comparadas com as de hoje -
siderúrgicas, para o aproveitamento das abundantes reservas de minério de ferro
de Minas Gerais; estava o maior poeta de nossa língua nessa época, Tomás Antônio
Gonzaga; estava o jurista Cláudio Manuel da Costa, que além de excelente poeta
era também conhecedor e comentarista de Adam Smith - um dos poucos no continente
americano, com o secretário do Tesouro de George Washington, Alexander Hamilton
e do Visconde de Cairu; estavam militares - condição do próprio Tiradentes -
como o coronel Francisco de Paula Freire; estavam eclesiásticos como Carlos
Correia de Toledo, José da Silva de Oliveira Rolim e Luís Vieira da Silva;
estavam proprietários rurais e intelectuais como Alvarenga Peixoto e Bárbara
Eliodora.
A REVOLUÇÃO
O programa da revolução dos Inconfidentes
refletia essa gama de interesses dos seus participantes: militares,
intelectuais, funcionários, proprietários rurais, empreendedores da mineração,
comerciantes.
A Independência e a República eram suas
principais medidas políticas; o fim da escravatura e a industrialização do país
eram as principais tarefas econômicas; a instrução pública e universal, sua
principal medida social.
A consciência expressa nesse programa não era
apenas a do entrave que a situação de colônia constituía para nosso país e a
consequente necessidade da separação política de Portugal. Na verdade, a crise
da relação colonial entre o Brasil e Portugal era naquele momento o ponto mais
agudo da crise do antigo colonialismo, o colonialismo mercantilista, surgido
ainda dentro dos marcos do feudalismo europeu, com predominância do capital
comercial e tendo como potências dominantes os dois países ibéricos. A transição
do feudalismo para o capitalismo, com a passagem para a hegemonia do capital
manufatureiro-industrial, tendo como potências a Inglaterra e depois a França,
implicava, naquele momento, no rompimento dos obstáculos ao livre-comércio, para
que a indústria pudesse, em sua fase de ascensão, expandir seu mercado e
suprir-se de matérias-primas.
O programa dos inconfidentes expressava,
então, fundamentalmente, a falência do sistema colonial de então, baseado na
escravidão, na exportação de matérias-primas e produtos agrícolas, e na
importação de mercadorias manufaturadas sob o monopólio dos atravessadores das
antigas e decadentes potências coloniais.
Era, portanto, o programa para a construção
de um país livre, soberano e desenvolvido, num mundo em que o estado anterior de
coisas já entrara em bancarrota.
O BRASIL
A economia baseada na mineração, ao mesmo
tempo em que integrava o país - e na medida em que o fazia - tinha mudado a
estrutura e a face social do país, sobretudo em seu núcleo, Minas Gerais.
Ao contrário da economia
açucareira-exportadora, cujas características exigiam a posse de grandes
recursos, grandes parcelas de terra e grande quantidade de escravos, a mineração
era acessível a pessoas de pequenas posses, que possuíam, às vezes, um único
escravo, ou mesmo trabalhavam diretamente na pesquisa e lavra de ouro e
diamantes.
A população do Brasil era, sem contar os
indígenas - mas incluídos os escravos - cerca de 300 mil pessoas em 1700. Em
1800, havia saltado para 3 milhões e 250 mil pessoas. A imigração portuguesa, de
30 mil pessoas no primeiro século, e sem significação no século seguinte,
aumentou tanto que a Coroa teve de proibi-la, sob o risco, bastante concreto, de
despovoamento da pequena e atrasada metrópole.
Surgiu, então, na colônia, com a criação e
expansão do mercado interno, uma classe de comerciantes. Esse mercado interno
estimulou o início da indústria têxtil e da produção de ferro, severamente
reprimidas pela Coroa portuguesa em prol do monopólio das mercadorias inglesas -
principalmente tecidos – com o comércio lusitano de intermediário. Mas a própria
sucessão quase infinita de decretos da rainha proibindo a existência de
manufaturas no Brasil, é a prova do fracasso dessa repressão.
Nem mesmo - o que tem importância decisiva
para o programa dos Inconfidentes - a situação dos escravos permaneceu
inalterada. A mineração lhes permitiu uma liberdade muito maior do que na
atividade açucareira e, em muitos casos, lhes possibilitou a alforria.
Aumentaram, portanto, o número de negros livres, que mostraram uma rara
capacidade empreendedora.
O LEGADO
A História do Brasil, nos dois séculos
subseqüentes, confirmaria a visão, a luta e o programa de Tiradentes e seus
companheiros. Com uma precisão impressionante, todas as maiores e mais
fundamentais conquistas do povo brasileiro nos 160 anos que se seguiram, foram a
realização do que eles preconizaram como as principais tarefas da sua revolução.
Apenas 30 anos após o martírio de Tiradentes,
o primeiro ponto do seu programa foi conquistado: a Independência; antes do fim
do mesmo século, a Abolição da escravatura e a República; e, em 1930, Getúlio
daria partida à industrialização e instituiria o ensino público.
Se algum problema havia no programa dos
Inconfidentes, poderia ser o de estar muito à frente de sua própria época, ao
condensar, numa só, todas as estações de uma via que o Brasil levaria mais de um
século e meio para percorrer. Mas estar à frente de sua época implica,
sobretudo, em ter uma visão precisa não somente da realidade, mas do potencial
que ela encerra. E Tiradentes a teve.
A possibilidade de vitória da revolução no
campo político-militar, em fins do século XVIII, não estava afastada, diante da
situação revolucionária aberta pela decadência e servilismo da metrópole, com o
aumento da espoliação sobre o Brasil, tendo como pano de fundo a profunda crise
mundial do colonialismo feudal. Nunca tinha sido tão clara na consciência dos
brasileiros o entrave constituído pela nossa situação de colônia de um país
atrasado, ele mesmo vassalo de outro.
No mais, existiam as condições materiais para
a realização do programa revolucionário de Tiradentes: na mesma época, as 13
colônias inglesas do norte da América - muito menos dotadas de recursos
naturais, território e população - já haviam empreendido a sua revolução
nacional, proclamando sua independência da Inglaterra. É significativo, no
entanto, que no programa dos revolucionários norte-americanos não constasse, ao
contrário daquele dos inconfidentes, a abolição da escravatura.
O programa da revolução de Tiradentes
expressava tanto a necessidade de resolver a contradição principal daquele
momento – a existente entre o Brasil e o bloqueio constituído por um domínio
colonial caduco – como também a necessidade de resolver a contradição
fundamental – do Brasil em relação à qualquer dependência - construindo um país
livre, soberano, independente, desenvolvido e próspero econômica, social,
política e culturalmente - enfim, uma grande Nação. O programa de Tiradentes
estabeleceu, pela primeira vez, os objetivos estratégicos da revolução nacional
brasileira. Não por acaso, os dois séculos posteriores, vistos em retrospecto,
parecem um desdobramento e uma realização do seu programa revolucionário. |