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Tiradentes
e a atualidade da Questão Nacional
ALDO
REBELO*
A atualidade de Joaquim José da Silva Xavier
deve ser celebrada no 218º aniversário de sua imolação como símbolo de um
movimento de autonomia nacional que ainda hoje está por se completar na
formação social brasileira. A Conjuração Mineira foi um daqueles sonhos a
que os homens se entregam por intuírem o caminho da História antes de a
História lhes oferecer as condições determinantes para a materialização do
sonho. Assim ocorreu com a Comuna de Paris, em 1791, definida por Karl Marx
como uma tentativa de tomar o céu de assalto. Como já tive oportunidade de
observar, também aos revolucionários de Vila Rica a História não recusou a
razão, mas lhes negou a oportunidade.
O projeto político de conquistar a Independência
e proclamar a República do Brasil foi muito além da troça que certos centros
de pensamento querem lhe atribuir, apontando os conjurados como mais
interessados em não pagar impostos à Coroa portuguesa do que em fundar uma
nação. Joaquim José da Silva Xavier foi líder visionário, não um fantoche
manipulado pela elite de Vila Rica, que, afinal, se era elite interessada na
Independência do Brasil, constituía o povo da época. Como na memorável luta
contra os holandeses no Nordeste, no século anterior, em Minas também se
reuniam pela causa nacional os reinóis, os mazombos, os mestiços. Todos
foram punidos, uns com a morte na cadeia, outros com o degredo e Tiradentes
com a forca. Os banidos para a África e que lá morreram só voltariam à
pátria por ordem do presidente Getúlio Vargas, que em 1942 mandou buscar um
a um os heróis falecidos no desterro.
Inspirados por versos de Virgílio [Libertas quae
sera tamen], reivindicavam liberdade ainda que tarde, e tinham como fonte os
filósofos do Século das Luzes que refletiam a crise do Absolutismo e do
Colonialismo no século XVIII e forjavam novas idéias e poliam os homens que
iriam lutar e morrer por elas. Os conjurados de Minas Gerais miravam as
nuvens que a Ilustração espalhara no céu da democracia, do que foram
exemplos mais eloqüentes a Independência dos Estados Unidos da América, que
nasciam como república, e a gloriosa Revolução Francesa. Nações em formação
no Novo Mundo, como a americana e a brasileira, e as Colômbias de Simon
Bolívar, já eram grandes demais para caber no apertado gibão da Europa
feudal em transição para o capitalismo.
O sonho dos conjurados era implantar fábricas de
tecidos e siderurgias na colônia que queriam tornar país. Tiradentes
desenvolveu sua consciência política patrulhando o Caminho Novo, que ligava
Minas ao Rio, por onde via passar as riquezas das jazidas auríferas do
Brasil desviadas para Portugal, na quota de 100 arrobas de ouro por ano,
aumentada em 1762 para oito mil quilos a título de dívida fiscal atrasada. O
esbulho levava o nome de derrama.
Preterido nas promoções da Cavalaria, nunca
tendo passado do posto de alferes, estabeleceu-se no Rio, levando a vida
como qualquer do povo, trabalhando de mascate, tropeiro, boticário e
dentista. Não era um homem sem luzes: órfão, sem nunca ter feito estudos
regulares, projetou a canalização dos rios Andaraí e Maracanã para melhorar
o abastecimento de água da sede do vice-reino. Há notícias de que admirava o
progresso industrial da Inglaterra, guardava um exemplar da Constituição dos
Estados Unidos e citava a figura do presidente da República em oposição a um
rei distante.
Depois de enforcado, em 21 de abril de 1792, no
Largo de Lampadosa, atual Praça de Tiradentes, no Rio de Janeiro, teve os
restos mortais espalhados na estrada que patrulhara e onde tecera seu sonho
de Independência política, econômica e cultural do Brasil. Seus algozes o
queriam maldito e esquecido, mas cada parte de seu corpo esquartejado parece
ter servido de semente para a árvore da liberdade que germinou no Brasil e
ornamentou os versos de Cecília Meireles. O povo do Rio de Janeiro logo
mandou celebrar missas na intenção da alma do herói, e, pelo repúdio
público, fez com que o traidor Joaquim Silvério dos Reis mudasse o nome para
Montenegro e o domicílio para o Maranhão.
A atualidade de Tiradentes é a mesma da Questão
Nacional que ele antecipou antes da expressão. Seu vulto histórico nos repõe
a importância e urgência de um projeto de autonomia nacional com vistas à
consolidação de um País forte, soberano, próspero, que produza e distribua
riquezas suficientes para assegurar o bem-estar material e espiritual desta
civilização única que erguemos nos tópicos.
Desde a infância da Nação esta tem sido uma
empreitada difícil. A mesma rainha louca Maria I que mandou esquartejar
Tiradentes, promulgou um alvará proibindo fábricas no Brasil e mandou
destruir até os teares em que as mulheres fiavam a roupa dos filhos. Quase
um século depois, os próceres da República, empenhados em industrializar o
Brasil, eram dissuadidos pela casa bancária inglesa dos Rotschild, que nos
recomendava exportar café e deles comprar linha, agulhas e botões. Foi na
construção da identidade nacional que a República resgatou o heroísmo de
Tiradentes.
As lutas do passado continuam, por outros meios
e caminhos, no presente. Os embates que o Brasil trava contra o
protecionismo das grandes potências, as pressões para a liberalização
comercial que nos engoliria como país produtor de riquezas, e tantas outras
ofensivas, fortalecem a convicção de que a Questão Nacional está viva, e
aponta para a necessidade de mantermos a soberania nacional como atributo
essencial do Estado.
Nos dias de hoje, sofremos um tipo novo de
intervenção que nos limita a autonomia de dispormos de nosso território e
recursos naturais em benefício do desenvolvimento e do bem-estar do povo. A
abertura de estradas, construção de hidrelétricas, vivificação das zonas de
fronteira, modernização de leis para ampliação da agricultura e
democratização da propriedade da terra são boicotadas por governos
estrangeiros e suas cabeças de ponte chamadas ONGs do meio ambiente. O
exemplo histórico de Tiradentes é um alento para continuarmos a luta pela
autonomia de um projeto nacional e soberania do Brasil.
*Jornalista, escritor e deputado federal (PCdoB-SP). Recebeu em 10 de
novembro de 2003 a Medalha Tiradentes, da Assembléia Legislativa do Estado
do Rio de Janeiro. |