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Negociar
patrimônio público na bacia das almas, nunca mais!
Pronunciamento
do presidente do PPL, Sérgio Rubens de A.Torres, no Encontro Nacional em
comemoração ao primeiro aniversário do partido
Companheiros e companheiras,
Estamos no dia 21 de
abril de 2010.
Esta data marca os
218 anos do martírio de Tiradentes, levado à forca no Largo do Lampadário (Rio
de Janeiro), para, conforme assinalava a sentença, “nela morrer de morte natural
para sempre”.
Mas o que ficou para
sempre, a incendiar os corações e as mentes dos brasileiros, foram os quatro
ideais dos Inconfidentes, que ele, mais do que todos, soube erguer e sustentar
com bravura: Independência, República, Abolição e Indústria. É importante
lembrar que já naquela época se sabia que sem indústria não poderia haver
independência completa.
No dia 21 de abril,
não há 218 anos, mas há 25, outro brasileiro ilustre passava da vida à história,
depois de um esforço inaudito que consumiu suas forças empenhadas além do limite
na faina para virar a página de uma quadra conturbada da vida nacional.
Como Tiradentes,
também era filho da região de São João del-Rei. Falamos do nosso querido
presidente Tancredo Neves, que capitaneou a transição da ditadura à democracia
com a autoridade de quem, em 1954, recebeu das mãos do próprio presidente
Getúlio Vargas a sua imortal Carta-Testamento e a caneta com a qual ele a havia
acabado de lavrar.
Portanto, devo dizer
que companhia melhor é impossível, e que para nós é uma honra podermos comemorar
um ano da fundação do Partido Pátria Livre nesta data carregada de significados
literais e simbólicos, que não escaparam ao presidente JK quando este, em 1960,
a adotou para a inauguração de Brasília.
Nós escolhemos o 21
de abril como data da fundação do PPL para que ficasse marcada em nossa carne a
lembrança dos ensinamentos e dos sacrifícios de nossos precursores para conduzir
o Brasil a seu destino de grande Nação, próspera, democrática e plenamente
independente, mas também generosa e solidária, sem qualquer laivo de prepotência
imperialista.
É esta a obra que
lutamos para completar. Esta que se encontra em adiantado estágio de construção
e que recebeu um grande impulso do presidente Lula, ao retomá-la após os tristes
anos da maldição neoliberal. Esta que deve avançar com a vitória da ampla
coalizão de forças nacionais aglutinadas em torno da candidatura da ex-ministra
Dilma Roussef à presidência da República.
E aproveito a
ocasião para me congratular com a companheira Dilma, pela feliz iniciativa de
começar seu roteiro de viagens de campanha pelo berço da Independência, e sob as
bênçãos de Tancredo.
O PSDB nada tem a
ver com o presidente Tancredo Neves, a não ser por um laço de parentesco com um
de seus próceres – coisa que, como se sabe, não é fruto de uma escolha.
Politicamente, esse partido colocou-se em campo oposto, desde que fixou como
princípio riscar do mapa as conquistas da era Vargas. E nele permanece - por
teimosia, ausência de espírito patriótico e a mais completa insensibilidade
social.
Companheiros e
companheiras,
Como hoje é um dia
de festa, eu não gostaria de cansá-los com um informe longo, mas há duas
questões, uma internacional e outra nacional – ambas relacionadas com a crise –
que é necessário pelo menos pontuar, para não perdermos de vista o terreno em
que estamos pisando.
A despeito da grande
esperança que a campanha eleitoral de Obama despertou nos EUA e no mundo, o
resultado desses primeiros 16 meses de governo foi nulo em matéria de mudanças.
Lembremo-nos de que o mote dessa campanha era “Change”, isto é “Mudança”.
Obama recuou da
retirada no Iraque; suspendeu a desativação da infame prisão de Guatánamo;
dobrou os efetivos militares no Afeganistão; renovou o mal denominado “Ato
Patriótico”; elevou o orçamento militar; cobriu os rombos produzidos pela
especulação monopolista com recursos públicos, ampliando o já monumental
déficit; abriu mão de qualquer regulação pelo Estado, por mínima que seja,
desses monopólios; deflagrou uma guerra cambial para desvalorizar o dólar com o
objetivo de elevar as exportações dos EUA e facilitar a aquisição de ativos no
exterior – ou seja, esboçou um plano para sair da crise às custas dos demais; e
retomou a velha ladainha da chantagem nuclear para obrigar nações soberanas a
atenderem suas exigências, por mais descabidas que sejam.
O nosso velho
camarada Obama mais parece um ator seguindo à risca – ainda que a contragosto -
um script elaborado pelo consórcio dos grandes bancos, indústria armamentista e
mega-conglomerados norte-americanos: os mesmos que com sua ganância irrefreada
provocaram a atual crise mundial.
Com um script
desses, vai ser muito difícil, para não dizer impossível, que EUA, Europa e
Japão superem a crise. As previsões do FMI, que estão sendo formalmente
divulgadas hoje, são sombrias para a Europa: 0,8% de crescimento do PIB em 2010
e 1,5% em 2011. Para os EUA, são menos desanimadoras: 3% em 2010 e 2,7% em 2011.
Ocorre que a China e
a Índia, cujas economias apresentam defesas mais consistentes em relação aos
monopólios imperialistas, não tomaram conhecimento da crise e seguiram crescendo
em 2009 a taxas de 8,7% a primeira e 6,1% a segunda.
Olhando um pouco
para trás, veremos que entre 1990 e 2006, um intervalo de 16 anos, o PIB dos EUA
aumentou 61%, o do Japão 21%, da Alemanha 28%, França 32%, Inglaterra 49%,
Espanha 51%, Brasil 51%. Enquanto isso, a Índia cresceu 155% e a China 329%.
(1)
Medido pelo critério
convencional, o PIB da China em 2009 chegou a US$ 4,75 trilhões, que corresponde
a 31% do PIB dos EUA. Portanto, à frente da Alemanha (US$ 3,23 trilhões) e
encostado no Japão (US$ 5,04 trilhões). O PIB do Brasil, para não perdermos a
referência, em 2009, foi de US$ 1,49 trilhão. (2)
Calculado pelo PPC
(Paridade do Poder de Compra), critério que o Banco Mundial considera mais
preciso, o PIB da China de 2009 se eleva a US$ 8,79 trilhões (61% do PIB dos
EUA). Japão e Alemanha somem, pois somados não passam de US$ 6,95 trilhões. O
PIB do Brasil, pelo mesmo critério, vai a US$ 1,99 trilhão.
(3)
Se considerarmos que
crescendo 9% ao ano se dobra o PIB a cada oito anos e que crescendo a 2% o
resultado em igual período será um avanço de apenas 17%, é impossível deixar de
relacionar as medidas de Obama com a dificuldade do establishment americano de
aceitar um mundo livre da sua hegemonia e das reiteradas ameaças de uso do poder
militar para mantê-la a qualquer preço.
Por isso, faz muito
bem o Brasil em não se curvar às provocações contra o Irã, contra a Coréia
Democrática, contra Cuba, contra a Venezuela, porque elas não são mais do que a
ponta do iceberg.
Os EUA são o último
país do mundo que pode invocar como pretexto para seus atos de agressão o
compromisso com desarmamento nuclear e direitos humanos. Um país descaradamente
armado até os dentes, que ainda não conseguiu decidir se afogamento é ou não
tortura, e que mantém uma lei que dá ao Executivo o poder de suspender a
qualquer momento os direitos constitucionais de um cidadão, tem muito mais a
aprender do que a ensinar nessa matéria.
E, para concluir o
ponto, cito o trecho inicial do Soneto 49 de Luís de Camões:
“Mudam-se os
tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser,
muda-se a confiança;
Todo o mundo é
composto de mudança,
Tomando sempre
novas qualidades”.
Fazemos votos para
que eles não demorem muito a se acostumar com isso.
Companheiras e
companheiros,
Ainda em dezembro de
2008, quando estávamos em discussões preliminares para fundação do PPL,
apresentamos num documento uma fórmula simples para surfarmos sobre a crise,
crescendo a ritmo chinês ou indiano, vou ler:
“Hoje, mais do que
nunca, o que interessa ao povo brasileiro é avançar no caminho indicado pelo
presidente Lula com o PAC: crescimento econômico com expansão do mercado interno
– mais produção, mais emprego e mais salário.
Para isso é
indispensável ampliar, no interior da economia, o peso do setor estatal e do
setor privado nacional não-monopolista em relação aos monopólios, pois no
Brasil, assim como no mundo, são eles a fonte dos maiores problemas e das
maiores desgraças.
Ao enfraquecê-los, a
crise internacional nos oferece uma oportunidade ímpar de acelerar esse
processo. Não devemos desperdiçá-la”.
Em nosso programa, aprovado no Congresso de
Fundação, há um ano, apresentamos essa fórmula de modo mais sintético:
“Prioridade nos financiamentos e encomendas às empresas
nacionais, especialmente às estatais e empresas privadas não-monopolistas”.
Hoje podemos afirmar sem medo de errar, que
tudo de mal que se evitou em relação à propagação da crise no Brasil, veio das
medidas que levaram essa fórmula em consideração, e o que não foi evitado veio
da sua não observância.
Se tivéssemos inventado essa fórmula, poderia
parecer jactância. Mas como apenas enunciamos a premissa básica do projeto
nacional-desenvolvimentista, cujos alicerces foram plantados por Getúlio Vargas,
estamos livres deste pecado.
O PIB do Brasil recuou 0,2% em 2009.
Comparando com Rússia, México, Alemanha, Japão, Itália, Inglaterra, EUA e
França, onde as quedas foram respectivamente de 7,9%, 6,5%, 5%, 5%, 5%, 4,8%,
2,4% e 2,2%, foi um recuo pequeno. Em relação à China e a Índia foi um mau
resultado.
Não por coincidência o BNDES, nesse ano,
destinou apenas 17,5% de seus financiamentos às médias, pequenas e
microempresas, contra os 25% dos anos anteriores.
Os desembolsos do BNDES foram de R$ 137,4
bilhões, um aumento de 49% em relação a 2008 - deixando claro que o nosso setor
público dá conta de financiar a produção nacional, independente dos bancos
privados.
Porém, não foi dada prioridade ao setor
estatal e empresas privadas não monopolistas. O esforço foi dispersado no
atendimento ao “clubinho” composto por GM, Fiat, Tim, Oi, OHL, Votorantim, Alcoa,
Imbev, Shell-BG, Vale etc. – empresas que derrubaram o nosso crescimento,
puxando o desemprego e procurando impor uma redução salarial, logo no início do
ano.
Os juros altos do BC e a concentração dos
financiamentos do BNDES onde eles são menos interessantes para o país –
inclusive para alavancar multinacionais, que deveriam estar se financiando com
recursos de outra origem – bloquearam nossa possibilidade de melhor desempenho.
Há quem creia que
isso agora não importa porque a má fase está vencida e a perspectiva é de
crescermos 5% em 2010. Mas, sem canalizar financiamentos e encomendas do Estado
para o conjunto das empresas que não remetem lucros nem são estruturalmente
importadoras, esse alívio pode ser mais curto do que se possa imaginar.
Com o crescimento
das exportações freado pela fraca demanda internacional e pela sobrevalorização
do real, não haverá saldo comercial para cobrir as remessas de lucros, royalties,
juros e pagamentos de serviços.
No primeiro
trimestre de 2010, o saldo comercial foi 70% menor que o do primeiro trimestre
de 2009. Achar que é possível tapar o buraco com mais entrada de capital externo
equivale a sair do fosso mais raso para cair no mais fundo.
É preciso não
esquecer que o estoque de capital externo no Brasil foi multiplicado por seis
entre 1995 e 2008. As remessas de lucros e as importações tiveram igualmente
extraordinário crescimento. O estoque atingiu US$ 287,9 bilhões, as importações
US$ 173,2 bilhões e as remessas US$ 57,2 bilhões.
Todos os estudos dão
conta de que as multinacionais instaladas no país possuem uma inserção no
comércio exterior brasileiro maior do que as empresas nacionais e que essa
inserção é mais pronunciada nas importações do que nas exportações. Alguns
chegam a computar que “as empresas estrangeiras exportam, em média, 70% a mais
do que as empresas nacionais, e importam cerca de 290% a mais”.
(4)
É impossível pensar
em desenvolvimento sustentado sem encarar esse problema, e superá-lo.
E mais não diremos,
porque a urgência da questão eleitoral nos obriga a recorrer mais uma vez a
Camões, que assim falou nos Lusíadas:
“Cesse tudo o que
a Musa antiga canta,
Que outro valor
mais alto se alevanta”.
Companheiros e
companheiras,
Todas as discussões
e batalhas sobre os rumos da nossa economia e da nossa sociedade continuarão a
se dar num ambiente mais favorável à afirmação do interesse nacional ou mais
penoso, a depender do resultado dessas eleições.
Temos tudo para
ganhá-la.
O governo do presidente Lula tirou milhões da
miséria; melhorou a vida dos trabalhadores; recuperou as estatais e a capacidade
de investimento do Estado; promoveu o desenvolvimento; criou o PAC; abriu as
universidades; retomou o ensino técnico; implantou programa para a construção de
1 milhão de habitações; livrou o país daquele vexatório quadro de negociar o
patrimônio público na bacia das almas para fazer caixa; elevou como nunca o
prestígio do Brasil no cenário internacional, pelas posições altivas e justas -
respeitosas com os maiores e generosas com os menores; deu um futuro ao país,
muito diferente daqueles tristes anos de estagnação e desemprego, que foram a
tônica do governo de FHC e Serra.
A nossa companheira Dilma é a melhor
candidata possível para representar a continuidade e o avanço desse projeto.
Ninguém mais do que ela colaborou com o presidente Lula para implantá-lo e
conduzi-lo. E tem mais duas vantagens sobre o principal oponente: é uma mulher
de passado limpo e uma cara só.
O candidato José
Serra representa apenas a resistência neoliberal ao avanço desse processo.
Temos tudo para
ganhar, mas vamos precisar ralar muito, pois estamos ainda em abril e os
monopólios de mídia já se ultrapassaram na arte do “trabalho sujo” nas quatro
frentes de sempre: desinformar, forjar supostos escândalos, paralisar as ações
do governo e fraudar pesquisas.
Para finalizar, devo dizer que é muito
importante que os dois projetos que no nosso entender pelo seu alcance são os
mais estratégicos do governo Lula sejam aprovados no espaço de tempo mais breve
possível. A saber: a Nova Lei do Petróleo, para garantir que a riqueza do
pré-sal fique nas mãos dos brasileiros – de preferência sem submeter esse
direito a qualquer espécie de leilão -, e a Reativação da Telebrás, para
garantir a universalização da banda larga, base para o avanço do estratégico
setor de telecomunicações.
E que tolices
partidas de setores do governo interessados em flexibilizar os direitos autorais
e intervir nas entidades de autores, livremente constituídas, sejam devidamente
desestimuladas.
Era o que eu tinha a
dizer,
Muito obrigado.
(1)
IMF, World Economic Outlook Database
(2) FMI
(3) CIA World Factbook
(4) Fernanda De
Negri, “Desempenho Comercial das Empresas Estrangeiras no Brasil na Década de
90”, pág. 60. |