Energia nuclear e dependência tecnológica 

É preciso entender que reuniões como a Cúpula Internacional para a Segurança Nuclear, como a que aconteceu no início de abril nos EUA, estão dirigidas, entre outros objetivos, a manter o imenso abismo existente entre o seleto grupo de países nucleares e os demais 

BETO ALMEIDA * 

A realização, há algumas semanas, da Cúpula Internacional para a Segurança Nuclear, supostamente para afastar o perigo de uma confrontação nuclear mundial, reveste-se de farsa discursiva e prática. A participação de Lula neste evento convocado pelos EUA foi interessante. Como de hábito, Lula usou uma imagem simples e fortemente comunicativa para explicar o que anda ocorrendo nesta área nuclear, mesmo quando grandes potências assinam acordos e mais acordos de desarmamento, há mais de 40 anos, teoricamente de redução de ogivas. De vez em quando, disse Lula, eu jogo fora remédios velhos e vencidos...

Não há, rigorosamente, qualquer esforço sincero e comprovado de que as grandes potências atômicas estariam a zelar pela paz mundial, que não existe, e para afastar o perigo de uma confrontação nuclear de consequências imprevisíveis, até o momento. Assim, é preciso extrair o que de fato está em jogo nestes grandes encontros internacionais. Tal como aquela Conferência do Clima de Copenhaguen, no final do ano passado, foi um grande fiasco, não resultando em qualquer acordo prático que levasse as potências poluidoras a deixar de emporcalhar o mundo, esta Cúpula da Segurança Nuclear também não trouxe qualquer tranquilidade ou segurança ao mundo. Pudera, o próprio anfitrião, o presidente Barak Obama, acaba de autorizar o Congresso dos EUA a ampliar o orçamento da indústria bélica. E vale lembrar sempre: o orçamento militar dos EUA, sozinho, supera o orçamento de todos os demais países do mundo, somados. Isto mesmo, somados. Foi o que destacou Vladimir Putin ao ser indagado por dileto repórter da BBC se os acordos militares entre Rússia e Venezuela não causariam preocupação em Washington... 

TNP TEM DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS 

Assim sendo, além de revelar o quão hipócrita é o pronunciamento de Barak Obama indicando “preocupação” pela Venezuela estar montando, pela primeira vez em sua história, uma legítima capacidade de defesa que lhe permita não ser assaltada em suas imensas riquezas energéticas, como ocorre hoje com o Iraque e o Afeganistão - não há paranoia venezuelana nisto - é preciso entender que reuniões de cúpula como esta estão dirigidas, entre outros objetivos, a manter o imenso abismo existente entre o seleto grupo de países nucleares e os demais. Mas, com medidas práticas concretas, aí sim, dirigidas a desestimular, intimidar ou a punir, seja com sanções econômicas ou militares, aqueles países que ousem pretender uma independência tecnológica para alcançar o domínio da energia nuclear. E esses países, como é o caso do Irã, são transformados em ameaça à humanidade. Israel possui ogivas nucleares, mas, para demonstrar o grau de hipocrisia que preside tais reuniões de cúpulas, sequer é interpelado, advertido, admoestado. Todas as hipóteses de sanções são dirigidas exclusivamente ao Irã.

É correta a posição do Brasil ao reivindicar que a comunidade internacional, sobretudo os possuidores do porrete nuclear nas mãos, aprenda a dialogar, a negociar. Ou será admissível adotar-se uma vez mais a opção iraquiana? Inventa-se qualquer mentira e despacha-se para o Irã a terrível máquina de morte dos EUA, já que estão em dificuldades para recuperar algum dinamismo da sua economia.

Mas, ao defender que o Irã tenha direito de desenvolver seu programa nuclear para fins pacíficos, o Brasil toca numa complexa e intrincada caixa de marimbondos. E nisto conta com a compreensão da China que, obviamente, percebe que as ameaças contra o Irã são destinadas a afetar um dos parceiros mais importantes do gigante asiático em seu estupendo crescimento econômico, enquanto os EUA patinam na recessão. 

TURBINAS NUCLEARES SEQUESTRADAS 

Vale lembrar que o Brasil já foi objeto de pressões e sabotagens muito similares às que sofre o Irã hoje. Durante a Era Vargas, que os neoliberais quiseram e ainda querem demolir, o Brasil comprou turbinas atômicas da Alemanha. Foi em 1952. Era parte da estratégia do Almirante Álvaro Alberto, idealizador do Programa Nuclear Brasileiro, para que o país tivesse condições de alcançar desenvolvimento tecnológico soberano nesta área estratégica. As pressões chegaram ao ponto extremo. As turbinas, prontas para serem embarcadas no Porto de Hamburgo para o Brasil, foram sequestradas por um comando militar da OTAN, sob ordens dos EUA. Também sabemos como foram intensas as pressões norte-americanas contra o governo Geisel para que não firmasse o Acordo Nuclear com a Alemanha na década de 70. Agora, o governo iraniano denuncia que um de seus mais insignes cientistas nucleares foi sequestrado a mando dos EUA. Definitivamente, este mundo não é para meigos...

O tema não é segurança mundial, mas segurança dos países nucleares de que não perderão a condição de domínio exclusivo destas tecnologias e, com ela, o poder de impor dependência tecnológica ao mundo. Que não surjam outros concorrentes. Foi o que disse certa vez o sinistro Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA, referindo-se ao Brasil: “não permitiremos que surja um novo Japão abaixo da linha do Equador”. A discussão não é nada nova, apenas vem revestida com ingredientes atuais, como a difusa ameaça terrorista, agitada como justificativa para que a “comunidade internacional” puna os países rebeldes. 

ROMPER A VASSALAGEM TECNOLÓGICA 

Foi também na Era Vargas, quando da criação da Petrobrás, que o Brasil sofreu uma enorme pressão para que pretendesse ter independência na área da energia do petróleo. Até anúncios foram publicados nos jornais brasileiros pelas transnacionais para decretar: “está provado que no Brasil não há petróleo”, e, portanto, seria uma loucura criar a Petrobrás. Um dos jornais que publicou estas orientações imperiais, o Estado de São Paulo, hoje está aí a editar posições contra a revitalização da Telebrás, contra a nacionalização dos fertilizantes, ou simplesmente pedindo que a TV Brasil seja extinta, apesar de sua existência estar prevista na Constituição.

Além do caso do petróleo, vale citar também o exemplo da indústria aeronáutica. O desenvolvimento de uma indústria aeronáutica de porte pelo Brasil parecia ser o resultado lógico e natural da histórica conquista tecnológica iniciada por Alberto Santos Dumont. No entanto, após a criação da Embraer, a mentalidade presidida pela vassalagem tecnológica e que acreditava que o Brasil não podia mais ou que não tinha o direito a uma posição soberana no cenário aeronáutico internacional, optou pela privatização da estatal. Recentemente, a Venezuela apresentou proposta de compra de 150 aviões Tucanos da Embraer. Quando a transação estava por ser concluída, a dependência tecnológica se impôs: os EUA vetaram a venda, alegando que os Tucanos contam com tecnologia norte-americana e que não poderiam ser vendidos à Venezuela de Hugo Chávez. Aliás, era um simples computador de bordo, que poderia perfeitamente ser desenvolvido aqui mesmo, se o CPQD não tivesse sido demolido no vendaval da privataria. Resultado: a Venezuela comprou aviões similares da China, e a Embraer, sem encomendas, demitiu 4.800 trabalhadores. 

UMA NOVA ORDEM INTERNACIONAL 

A dependência tecnológica que querem impor ao Irã desdobra-se como pressão também contra o Brasil, possuidor de uma das mais eficientes e cobiçadas tecnologias de centrífugas nucleares. A pressão alinhavada na Cúpula da Segurança Nuclear destina-se a pressionar também os países emergentes a firmar o aditivo ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, pelo qual a Agência Internacional de Energia Atômica poderia fazer “inspeções”, sem aviso, a quaisquer instalações onde haja desenvolvimento de experiências de natureza nuclear. Faz bem a Secretaria de Assuntos Estratégicos do Brasil em alertar para os riscos que estão embutidos por trás destas grandiloquentes proclamações sobre segurança nuclear.

Acerta o presidente Lula quando afirma que Brasil e China estão na obrigação de lutar por uma nova ordem internacional. Acertam os países do IBAS quando firmam acordo para fabricação de satélite próprio, superando grave vulnerabilidade tecnológica que marca o setor. Acertam os países do BRIC quando marcam presença em outras áreas do planeta, por exemplo, por meio dos acordos para o desenvolvimento nuclear, que a Rússia está propondo implementar com Venezuela e Argentina. Erra o jornal Correio Brasiliense, incapaz de compreender a transcendência histórica da reunião realizada em Brasília, desinformando sobre o conteúdo e a magnitude dos acordos estatais firmados, preferindo dar destaque inconcebível aos problemas que o encontro causou ao trânsito e trazendo como manchete um improvável desfecho para a paroquial crise da corrupção no Distrito Federal, que traumatizou o próprio diário capitalino, tão beneficiado pela panetônica publicidade do Palácio do Buriti. Erra também o Greenpeace em seu protesto estudantil - certamente apoiado por instituições alimentadas pela indústria petroleira e da Realeza Financeira Britânica - sem perceber que no Itamaraty estavam reunidos pelo menos dois dos países que mais se esforçam e contribuem para um novo padrão energético internacional mais limpo. O Brasil, com a biomassa e a hidroeletricidade, e a China, país líder nos investimentos e na produção de equipamentos para a energia solar.

Ou seja, não é difícil usar o perigo real de uma conflagração nuclear para esconder uma série de iniciativas e de arranjos visando manter o mundo marcado pela dependência tecnológica que prejudica a imensa maioria dos povos. Sobretudo, quando certa mídia não quer revelá-los.

* Presidente da TV Comunitária de Brasília


Primeira Página

 

Página 2

Déficit nas contas externas cresce e BC quer mais juros

Telebrás levará banda larga rápida e barata aos municípios, diz Alvarez

Quem fica com o petróleo dos royalties? (FERNANDO SIQUEIRA E DIOMEDES CESÁRIO)

MP investiga alta de até 500% na luz da Coelba

Expediente

Página 3

Lula: “se necessário, faremos Belo Monte só com estatais”

Dirigentes do PSDB de S. Paulo são “prepotentes”, “arrogantes” e “desleais”, diz presidente do PTB

PT lança Mercadante com apoio de mais 8 partidos

Distração

“Serra é um perigo para o país”, afirmou Ciro

O pré-sal e o futuro do Brasil

Shell cobiça petróleo do país e quer retomada dos leilões

Nos EUA, Marina referenda os ataques americanos contra Irã

Página 4

PT do Rio declara apoio à reeleição de Sérgio Cabral

Dilma recebe propostas de artistas para área cultural

MP investiga novos documentos que envolvem o governo de São Paulo no esquema da Alstom

ProTeste recomenda cautela com a propaganda enganosa da Telefónica

Justiça mantém bloqueio de R$ 100 milhões cobrados indevidamente pela Brasil Telecom

Cartas

Página 5

“Setor petroquímico nacional deve ter Petrobrás no controle”

 

“Monopólio privado no setor é danoso à sociedade e prejudica os trabalhadores”

 

Centrais organizam festa do 1º de Maio em defesa da redução da jornada e do pré-sal

 

CUT: reduzir juro é fundamental para a geração de empregos

 

Centrais respondem à ação do PSBD contra ato no ABC

 

Garis de SP conquistam reajuste e suspendem paralisação

Página 6

Chefe do narcotráfico revela crimes do candidato de Uribe

Briga de quadrilhas pelo controle do parlamento-fantoche no Iraque

Gregos em greve contra arrocho para pagar dívida alavancada pelos bancos

Posição de Serra contra o Mercosul “não predomina no Brasil”, afirma o ministro do Exterior da Argentina

Omar Bashir e a luta pela paz e unidade do Sudão

Governo paraguaio decreta ‘exceção’ em 5 Estados para combater bandoleiros do EPP

Página 7

Senado veta discussão do projeto de Obama para regular os bancos

EUA recusa-se a retirar suas bombas nucleares da Europa

Russos comemoram em todo o país 140 anos de nascimento de Lenin

Celso Amorim defende no Irã direito das nações a desenvolver indústria nuclear com fins pacíficos

As mulheres na Coreia Popular

Página 8

Energia nuclear e dependência tecnológica 

 

Leia

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“Para quem no começo falava menas laranja é chique demais”

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‘V. Exa. não está falando com os seus capangas do Mato Grosso’

Lula reduz o superávit primário e libera mais R$ 38 bi para investir

“País deve se basear na força do mercado interno”, afirma Lula

Empresas nacionais repelem portaria que estimula importação de máquinas usadas

BC usa “previsões” para frear queda da taxa básica de juros

Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres

Centrais querem mais emprego e menos juro para impedir tsunami de invadir nossa praia

Remessas ao exterior mantêm a escalada e vão a US$ 2,6 bilhões

Bancos propõem corte na renda da caderneta de poupança em prol do achaque ao Erário

Múltis drenam do país US$ 3,266 bilhões só em dez dias de março

Vale demite, reduz salários e distribui R$ 5 bi a acionistas

Sob pressão, BC recua juro outro pontinho e meio

Aumento do IDE agrava sangria de recursos do Brasil para fora

Desnacionalização e gestão temerária sufocam a Embraer

Solução para a Embraer é voltar a ser do Estado

Febraban diz que reduz spread se a União pagar conta de inadimplentes

“Decisão do governo é não emprestar a quem desemprega”, diz Lula

Lula: “Eles cultivam o ódio dos de cima contra os de baixo” 

BC assalta 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street

Juros e pilantragem de múltis fazem produção industrial encolher 19%

Repatriamento de capital por múltis ameaça as contas externas do Brasil

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Conselheiros do CDES pedem a antecipação da reunião do Copom

Meirelles recua debaixo de vara e reduz os juros em um pontinho

Centrais fecham com Lula ofensiva contra os juros, demissões e redução dos salários

Fiesp abre guerra contra os salários dos trabalhadores

BB paga R$ 4 bilhões para Votorantim ficar com o controle do BV

Juros e alarmismo midiático freiam a produção industrial

 Israel testa Obama com chacina contra palestinos em Gaza

Para Lula, juros têm que cair no começo de 2009

Para nababos da Vale, povo duro é a melhor receita contra a crise

“Toma o beijo da despedida, seu cachorro!”

Meirelles afronta o Brasil e não reduz taxa de juros para jogar país na crise

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Lula a Meirelles: “juro está além daquilo que o bom senso indica”

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