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O
assassinato de John Kennedy (2)
Um dos fatos menos conhecidos do
governo Kennedy aconteceu em 4 de junho de 1963, portanto, cinco meses antes de
seu assassinato. Desde 1913, com o Federal Reserve Act, o dólar era – como é
hoje – emitido por um comitê de bancos privados, que age como banco central dos
EUA. O governo e o presidente não têm autoridade sobre a emissão de moeda.
Apesar desta ser pública, sua fabricação e lançamento em circulação é um assunto
privado do cartel bancário.
“John Kennedy”, relata Stephen Lendman em “O templo e os seus segredos sujos”
(HP, 05/12/2008), “planejara acabar com o Federal Reserve System para eliminar a
dívida nacional que um banco central cria ao imprimir dinheiro para passá-lo ao
governo como empréstimo. (…) Ela [essa dívida] fez os banqueiros ricos (sendo
precisamente essa a ideia) e o público mais pobre, porque nós é que pagamos a
conta. Não é exagero chamar a isto a maior falcatrua financeira da história do
mundo, que fica maior a cada dia. (…) Kennedy entendeu o perigo para o país e o
fardo que o público carregava. Assim, no dia 4 de Junho de 1963, ele emitiu a
ordem presidencial EO 11110, dando ao presidente a autoridade de emitir a moeda.
Em seguida, ordenou ao Tesouro dos EUA que imprimisse mais de US$ 4 bilhões em
‘Notas dos Estados Unidos’ para substituir as ‘Notas do Federal Reserve’. Ele
queria substituir as notas todas para que, assim que houvesse em circulação uma
quantidade suficiente da nova moeda, acabar com o Federal Reserve System e o
controle dos banqueiros internacionais sobre o governo dos EUA e o seu povo.
Apenas alguns meses depois que o plano de Kennedy começou a ser efetuado, ele
foi assassinado em Dallas no que foi seguramente um golpe de estado disfarçado”.
É exatamente esse golpe de estado o tema de Nelson Werneck Sodré no texto que
hoje continuamos a publicar.
C.L.
NELSON WERNECK SODRÉ
Continuação da edição anterior
A repercussão em todo o mundo foi
tremenda: desde o momento em que as agências telegráficas informaram do
assassínio de Kennedy, e por sentimento intuitivo, por toda parte os homens
sentiram a grandeza da tragédia e sua profunda significação política e humana. A
direita brasileira, naturalmente – por coincidência, em fase ofensiva e de
aliciamento conspiratório de militares para a derrubada do governo -, colocou o
problema nos termos que o complexo monopolista-militar, de que é instrumento
aqui, considerava adequados, e que a imprensa de Hearst destacara, quando
informava em manchete: “AGENTE COMUNO-CASTRISTA ASSASSINA NOSSO PRESIDENTE”.
Assim, o conhecido provocador ibadiano Armando Falcão, no dia 26 de novembro,
afirmava: “Quem sabe se, com a morte de Kennedy, Deus não escreveu direito por
linhas tortas?” E explicava: “O crime talvez venha sacudir os povos do mundo,
despertando-os para o combate ao comunismo”.
No mesmo e sinistro diapasão afirmou o governador da Guanabara [N.HP: Carlos
Lacerda], outro anticomunista profissional, em sua entrevista à revista
Manchete, de 7 de dezembro: “Era lícito pensar, à primeira vista, que o
assassino de Kennedy fosse um racista exaltado, um fanático exasperado com a
posição que o presidente americano tomou em defesa dos direitos do negro. Neste
sentido, pronunciou-se, incontinenti, a imensa maioria das publicações
‘burguesas’ do Brasil. Era, repito, razoável pensar assim, à primeira vista. No
entanto, logo às primeiras horas, foi preso como suspeito um comunista adepto de
uma liga castrista, que esteve na Rússia, que até quis adotar a cidadania russa
etc. Isto, é claro, não significa que ele deixe de ser um fanático ou um
paranoico. Mas quer dizer que ele não é um fanático racista e sim um fanático
comunista. Um desses intoxicados pela propaganda do ódio, vítima de suas
próprias ilusões, movido por mil frustrações obscuras, violentamente explodem na
vontade de destruir, disfarce habitual da vontade de poder”. Deixando de lado a
coincidência do sentido autobiográfico do último período dessas declarações, é
interessante acrescentar a marca do anticomunismo e do sentido de aproveitar
para ampla provocação belicista e retrógrada o atentado contra Kennedy. A linha
texana, em seu estado de pureza.
Não foi essa, para mágoa da direita subdesenvolvida, entretanto, a reação
mundial. L’Osservatore Romano identificou os verdadeiros responsáveis pelo
crime, sem nenhuma dificuldade, ao afirmar, em seu editorial de 23 de setembro:
“Qualquer que seja o pretexto com que se marcaram os impulsos de um fanático do
ódio, expressam a condenação não de situações iníquas, mas sim da obra da paz,
da liberdade, do progresso, de igualdade e de dignidade para todos os homens,
desejados pelo presidente norte-americano, que combatia apenas os demônios do
mal social e da hecatombe internacional”. O primeiro ministro soviético enviou
mensagem ao novo chefe do governo dos Estados Unidos, afirmando: “Seu assassínio
constitui grave golpe para a causa da paz e para os que lutam por manter boas
relações entre os nossos países”, enquanto Valerian Zorin
[N.HP: embaixador da URSS na ONU] assim se manifestava: “Os pormenores dessa
inominável ação maléfica não são ainda conhecidos, mas é lícito afirmar que ela
foi dirigida pelas forças obscuras que pensavam horrorizadas na perspectiva de
uma melhora de relações entre a URSS e os Estados Unidos, de uma redução da
tensão internacional”. O dirigente sindical e presidente da Associação dos
Camareiros em Carros Dormitórios, um dos organizadores da marcha sobre
Washington, declarou: “A segunda emancipação do homem negro da escravidão da
segregação racial foi abatida por uma bala assassina”. Quando o governo
americano, com a presença dos auxiliares de Kennedy na Casa Branca e pela ação
de Robert Kennedy, desfez, em documento oficial, de pronto, a exploração
direitista, esclarecendo que não havia prova alguma de que, no crime, houvesse
qualquer sinal de interferência de potência estrangeira, a máquina americana de
propaganda sofreu duro revés. A orientação passou, daí por diante, a ser outra:
liquidar o assunto, afirmando que o caso estava encerrado; Oswald, o assassino,
estava punido; tratava-se, agora, de tocar para frente, prestigiando o novo
presidente.
A população de Dallas foi convidada pelos jornais a retornar às suas tarefas. Os
aparelhos de rádio e os transistores levavam a todos, entre músicas de baile e
anúncios dentifrícios, a palavra de ordem de “recuperar a confiança em si
mesmos, em sua cidade, em sua polícia”. “A hora de lágrimas passou” – aduziam –
“, que todos os bons cidadãos se reúnam para a defesa de nossa cidade”. “Podemos
estar tristes, mas não temos o direito de estar envergonhados”, afirmou George
McLendon, diretor e proprietário de uma das emissoras locais.
[NOTA DO AUTOR: Eis um quadro de Dallas, traçado por alguém que conhece bem a
cidade, o Estado, os Estados Unidos: “O isolacionismo político, o macartismo, a
indiferença em relação ao crime, o desinteresse pelos problemas sociais,
negligência com os serviços públicos – em Austin, o lixo é recolhido uma vez por
semana, e as ruas residenciais não possuem iluminação pública -, a crença
fanática nos direitos do Estado, o controle total das cidades e do Estado pelos
homens de negócios, através dos conselhos dos cidadãos, tudo isso dá a Dallas,
como ao Texas, uma situação específica que deve ser considerada. (...) Os heróis
de Dallas não são os cowboys, como em Fort Worth, mas os milionários, os
milionários do petróleo. Um deles, talvez o maior, H.L. Hunt, escreveu Alpaca
(Dallas, 1960), uma utopia em que vê uma terra perfeita, na qual os votos seriam
proporcionais ao quantum de imposto de renda pago pelo cidadão. A fim de evitar
que as massas instáveis, sempre suscetíveis aos demagogos, se inflamassem,
seriam proibidas as discussões políticas na televisão, no rádio, e os comícios
não poderiam ser assistidos por mais de duzentas pessoas. Só assim, conclui Mr.
Hunt, se conseguiria que os homens trabalhassem quietamente para o bem do povo.
Esta visão não é uma utopia, ela existe, ela causa inveja a muitos homens de
negócios e a alguns militares ditatoriais, seus aliados; ela é Dallas,
praticamente governada por um Conselho de Cidadãos composto de 234 homens de
negócios escolhidos, segundo seus estatutos, entre os milionários, os
presidentes e diretores gerais das grandes companhias. (...) Junte-se a isso a
fortaleza do preconceito racial contra negros e latino-americanos, especialmente
mexicanos, que ocupam a posição social mais baixa. É tão grande o desprezo pelo
mexicano, que, os que podem, evitam falar espanhol, apesar dos esforços da
universidade para vencer esses preconceitos. No hotel em que eu morava, as duas
ascensoristas mexicanas, ou de origem mexicana, só falavam espanhol comigo e
minha mulher quando subíamos ou descíamos sozinhos, e depois de saberem que
éramos brasileiros”. (José Honório Rodrigues: “Um assassinato visto do Texas”,
in América, Mito e Violência, Rio, 1968, pp. 69-70, coletânea de vários
autores).]
Essa orientação foi estendida a todo o mundo, naturalmente. Refletiu-se no
Brasil. O Globo, do Rio de Janeiro, em sua edição de 25 de novembro, esclarecia,
dentro de sua linha tradicional: “Logo que se espalhou por um mundo atônito a
dolorosa notícia do assassinato do presidente Kennedy, a reação do Pravda, de
Moscou, órgão oficial do governo soviético, foi a ignóbil versão de que se
tratava de uma vingança dos reacionários racistas contra os esforços de Kennedy
pela reintegração racial. Tal exploração sórdida foi logo endossada pelos
comunistas de todo o mundo e aqui mesmo estamos assistindo a parlamentares e
jornalistas da esquerda repetirem tais conclusões”. O jornal O Estado de São
Paulo, a 27 de novembro, em longo editorial, traçava as seguintes considerações:
“O luto em que mergulha uma nação inteira não permite que se perturbe o seu
recolhimento profundo nem que se profanem seus sentimentos com preocupações que,
por mais importantes ou justificadas que sejam, não se coadunam com a atmosfera
lúgubre criada pela tremenda perda familiar”. Concluindo: “Só a imaginação
mórbida dos desclassificados e marginais pode conceber uma conspiração como
essa, com a qual procuram compensar seus evidentes complexos de inferioridade.
São desclassificados e marginais mesmo dentro do movimento comunista
internacional, pois Moscou e, por mais surpreendente que possa parecer, Havana
não se mostram tão apressados em procurar isentar-se de culpa que em momento
algum lhes foi atribuída”.
Mas a imprensa de todo o mundo continuava a insistir no assunto e a desmoralizar
a tentativa de incriminar, em Oswald, um agente comuno-castrista, quando todas
as vantagens da eliminação de Kennedy afluíam para a reação mais extremada.
Discutia-se a incrível, a inacreditável façanha de um atirador que, sozinho,
visando alvos em movimento, ferira mortalmente uma pessoa e ferira gravemente
outras, e até o depoimento de técnicos e de campeões olímpicos de tiro foi
levantado. No coro, entretanto, continuavam algumas vozes desesperadas, entre as
quais, ao lado de matadores de mendigos e de agentes da provocação brasileiros,
estavam, agora, com destaque, figuras com as características de Mme. Nhu, que
assim se dirigia à viúva do presidente morto: “Indubitavelmente, tal assassínio,
em que mesmo as feridas infligidas ao presidente Kennedy foram idênticas às do
presidente Ngo Dihn Diem e de meu esposo, o que acontece apenas vinte dias após
a tragédia vietnamita, só demonstra ao mundo que nem a extrema consideração com
o comunismo são proteção contra seus golpes traiçoeiros”. Aqui, como se vê,
figura a acusação de que o presidente Kennedy era um protetor de comunistas.
Quando a Câmara Municipal de Dallas, dias após o crime, negou andamento ao
projeto, propondo dar o nome de Kennedy a um estádio da cidade, com apenas um
voto a favor do projeto, dimensionou-se suficientemente o ódio que ali
permanecia, mesmo após a inaudita vitória da eliminação de um perigoso
adversário. E as informações que a imprensa divulgou amplamente, de que se
realizaram festas e que se ouviram aplausos, até em escolas no Texas, quando se
noticiou o crime, pode dar ideia aproximada de como estava preparado o ambiente
para que o ato fosse perpetrado. A linguagem dos amáveis editorialistas de O
Estado de São Paulo, pois, nada tem de original e até em seu teor é simples
carbono da fonte.
Continua na próxima edição. |