Para Lula, Dilma teve muita grandeza e
paciência no JN
Entrevista conduzida por Bonner foi grosseria contra a candidata, na opinião
do presidente
Durante o comício realizado em Belo Horizonte na noite da terça-feira (10),
o presidente Lula elogiou o desempenho de Dilma Rousseff na entrevista no
Jornal Nacional, ocorrida na véspera. Diante de 15 mil pessoas que lotaram a
Praça da Rodoviária, no centro da cidade, ele deu uma rosa à candidata por
ter mantido a calma diante das grosserias do entrevistador, William Bonner:
“Dilma, pela tua paciência, pela tua grandeza, queria te dar esta rosa e
dizer para você: não fique nervosa nunca, não perca as estribeiras nunca,
não aceite provocação nunca, porque a verdade nua e crua é que tem muita
gente com medo que uma mulher possa provar que tem mais capacidade de fazer
muita coisa do que alguns os homens já fizeram”, disse Lula, sob intensos
aplausos dos populares.
Lula ficou muito satisfeito com o desempenho da ex-ministra durante a
entrevista e criticou os apresentadores por considerá-los “muito agressivos”
com a candidata. “Eu sinceramente esperava que, pelo fato de ser mulher e
candidata, que o entrevistador (Bonner) tivesse um pouco mais de gentileza
com a nossa candidata”, afirmou ele, levando a platéia aos gritos de “olé,
olé, olá... Dilma, Dilma”. O comportamento deselegante e agressivo de Bonner
na entrevista com Dilma destoou do tom dócil e, diríamos, quase meigo, com
que ele tratou o tucano José Serra, na entrevista da quarta-feira, no mesmo
Jornal Nacional. Um comentarista chegou a fazer uma comparação entre o
comportamento dele na presença de Dilma e de Serra. Disse que Bonner parecia
um ‘Pitt Bull” com Dilma e um “Poodle Toy” diante do tucano.
Serra se sentiu tão à vontade com a meiguice com que foi tratado que cobrou
para falar mais “um pouquinho” na sua declaração de encerramento. Muito
cordato com o tucano, Bonner pediu com todo o sentimento que encerrasse: “me
perdoe, me perdoe”.
As mesmas atitudes inquisitoriais e provocativas de Bonner contra Lula e o
PT se fizeram presentes na entrevista com Marina Silva, na terça-feira.
A maioria dos analistas políticos concluiu que, apesar dos esforços dos
entrevistadores da Globo em prejudicá-la, Dilma saiu-se muito bem na
entrevista. Até colunistas da “Folha de S. Paulo” (periódico sabidamente
serrista) reconheceram que Dilma se deu bem em suas respostas. O nervosismo
de Bonner, ao tentar impedir a candidata de apresentar as realizações do
governo Lula e de falar sobre suas propostas para o Brasil, levou Fátima
Bernardes, a certa altura, a interromper bruscamente o marido. Ao contrário
de Serra, que, mesmo com todo o apoio de Bonner, deixou escapar, entre
outras coisas, que, se eleito, vai espalhar seus pedágios - com preços
abusivos - por todo o Brasil, Dilma deixou claro para os eleitores a sua
intenção de dar continuidade aos investimentos produtivos para o país
continuar crescendo e criando empregos, além de manter e ampliar os
programas sociais que o governo Lula implantou.
Ela rebateu com facilidade e calma cada bobagem dita pelos apresentadores,
reforçando o discurso social, avançando, inclusive, em propostas de seu
programa de governo e explicando com clareza a lógica das alianças
políticas. Já William Bonner, inconformado com o que ouvia, tentou
interrompê-la a toda hora para que suas respostas ficassem incompletas. Algo
tão desastrado e mal educado que, como dissemos, obrigou Fátima Bernardes a
mandar que ele se calasse, com um sinal, para que parasse de ser
“inconveniente”.
Ou seja, o plano de usar o Jornal Nacional para tentar paralisar o
crescimento avassalador da candidatura de Dilma Rousseff e insuflar a
desorganizada e anêmica campanha de Serra, parece que deu com os burros n’água.
Também pudera, escalar o Bonner para essa tarefa só pode ser mais uma das
idiotices do atual “guru intelectual” da Globo, Ali Kamel. Bonner é uma
daquelas nulidades que só se tornou um destaque na Globo depois de comemorar
com entusiasmo cada bomba “inteligente” lançada pelos americanos sobre o
Iraque. Foi ele também que, depois de ungido como editor-chefe do Jornal
Nacional, classificou, recentemente, os telespectadores brasileiros como
“obtusos e preguiçosos”. Disse que eles parecem o “Homer”, dos Simpson,
conhecido personagem do desenho da televisão norte-americana. No seriado,
Homer é um personagem apresentado como “preguiçoso e com raciocínio lento”.
Para quem não acredita que o apresentador do JN tenha feito essa comparação,
há várias testemunhas que confirmam o fato. Em novembro, um grupo de
professores da USP reuniu-se com o apresentador, a mando de Ali Kamel, para
conhecer um pouco do funcionamento do Jornal Nacional. Para espanto de
todos, William Bonner informou a eles sobre uma pesquisa realizada pela
Globo que identificou um perfil do telespectador médio do Jornal Nacional
semelhante ao do personagem Homer, dos Simpson. Segundo Bonner, ele [o
telespectador brasileiro] “tem muita dificuldade para entender notícias
complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES”. É voz corrente na
Globo que o editor-chefe do Jornal Nacional quando quer derrubar uma matéria
argumenta: ‘Essa o Homer não vai entender’. Pois é, foi essa toupeira que
foi escalado para “derrubar” Dilma. Parece que ele é que não entendeu nada.
Lula deixou claro, ao homenagear Dilma no comício da terça-feira, que fica
feliz ao ver que nos embates onde os adversários estão mais afoitos,
desesperados e agressivos a sua candidata cresce mais ainda e se saí muito
bem. Ela parece que fica mais solta quando é provocada. Foi assim com
Agripino Maia, senador do Dem/RN, numa audiência do Senado, e está sendo
assim, agora, quando Serra tenta agredi-la, ou quando aparecem alguns
pseudo-jornalistas escalados para provocá-la em benefício da candidatura
tucana. Bonner e a Globo sem dúvida saíram chamuscados desse episódio. A TV
perdeu bastante daquilo que quase já não possui, a credibilidade. Já Bonner,
além de perder com o público telespectador, saiu-se mal também dentro de
casa. Fátima Bernardes já deve estar pensando na fria que foi participar
dessas entrevistas.
SÉRGIO CRUZ