Evento do Ipea defende mais investimentos
e mais renda
Os participantes pediram juros mais baixos e o salário mínimo valorizado
Com
o objetivo de disseminar o debate sobre o desenvolvimento econômico
brasileiro, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) realizou a 1ª
Conferência do Desenvolvimento da quarta-feira a sexta-feira (24 a 26), em
Brasília. Ao todo, foram nove painéis temáticos e 88 oficinas com a
participação de ministros, parlamentares, economistas, trabalhadores e
empresários. Redução dos juros, deter a sobrevalorização do real e proteção
à economia brasileira unificaram as posições dos participantes do evento.
Na abertura, na quarta-feira (24), o presidente do Ipea, Marcio Pochmann,
ressaltou que a ruptura com a política neoliberal, de corte de investimentos
e gastos sociais, permitiu o país retomar o caminho do desenvolvimento.
“Antes não se poderia elevar o valor do salário mínimo, porque gerava
informalidade e desemprego, não se deveria aumentar o gasto social, porque
desorganizava as finanças públicas, não se deveria apoiar investimento nas
empresas públicas, porque haveria mais ineficiência, assim como se deveria
manter banco público aprisionado, para não fazer subir ainda mais a taxa de
juros”, disse.
O ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Samuel Pinheiro
Guimarães, destacou que “é preciso investir na produção, não só de bens
físicos, mas de bens imateriais, como educação, que depende de investimento
em escolas, professores; segundo é distribuir a renda, com reformas de base,
desde a reforma agrária, urbana até a do capital, que é o que vai modificar
estrutura da distribuição de renda”.
No quarto painel, “Fortalecimento do Estado, das instituições e da
democracia”, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República,
Luiz Dulci, defendeu a política de valorização do salário mínimo adotada no
governo Lula. “O salário mínimo é um poderoso fator de desenvolvimento. O
gasto social brasileiro já seria justificado pela sobrevivência das pessoas;
mas, além disso, tem também uma função macroeconômica importante, pois ativa
o mercado interno”, argumentou.
A economista Maria da Conceição Tavares afirmou em sua palestra no sexto
painel, “Macroeconomia para o desenvolvimento”, que os juros altos atraem
capital externo especulativo, provocando a sobrevalorização do real. Ela
defendeu a redução da taxa de juros e a adoção de mecanismos de controle de
capital para conter a entrada de recursos estrangeiros e proteger a economia
brasileira. “Eu diria que a primeira preocupação agora é, sem dúvida
nenhuma, com o setor externo. Se ele continuar assim vai haver degradação da
indústria, déficit crescente da balança de pagamentos e uma fragilidade
externa que na crise de 2008 nós não tivemos”, disse.
Conceição Tavares criticou a proposta de corte de gastos para promoção de
ajuste fiscal para só a partir daí se promover a redução dos juros,
defendida por alguns setores. “O eixo deste governo é a política econômica
com eixo social. Esse é o nosso custeio. Cortar para investir, para agradar
a imprensa? Eu acho que não há sentido nenhum. No desenvolvimento econômico,
o eixo social está correto. Mas se não cuidarmos da parte cambial, não
conseguiremos fazer política industrial e tecnológica e, no longo prazo, não
há desenvolvimento econômico regredindo nessas coisas”, frisou.
“A inflação é de custos, não de demanda. Então, não é o caso elevar taxa de
juros, para não agravar o déficit fiscal, aumentando o serviço da dívida.
Isso tira a possibilidade de desenvolvimento. Como se faz desenvolvimento
com uma taxa de juros dessas?”, questionou.
Na avaliação de Conceição Tavares, a consequência da sobrevalorização do
real tem sido desastrosa para a economia brasileira. “Temos aumentado
desvairadamente as importações. Está um festival de importação. Nós estamos
diminuindo o conteúdo de valor agregado de nossa indústria, até com
coeficiente em importação em aço, no qual temos competitividade
internacional, temos 15% da importação em aço. Há sobra de aço na Europa,
que está fazendo dumping para cima da gente e nós deixamos. Eu diria que a
primeira preocupação agora é, sem dúvida nenhuma, com o setor externo”,
frisou.
Ela reafirmou a defesa da adoção de controle de capitais para proteger o
país: “Já disse publicamente e repito, penso que numa situação como essa tem
de ter controle de capitais. Todos os controles quantitativos. Aumenta o
compulsório. Controla a taxa de crédito. Mas não com essa taxa de juros.
Mesmo que o FMI tenha dito que controle de capitais pode ser recomendado, na
atual conjuntura, o ‘mercado’ e ‘os do mercado’ aqui no Brasil não suportam
ouvir isso. Mas temos no Banco Central gente discreta, não vedetes. Eu acho
que a mudança do presidente do BC se prende a isso”.