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Saldo comercial cai 49% em
novembro: US$ 312 milhões
Em relação a outubro, queda foi
de 83,2%
O saldo comercial do Brasil com o
exterior foi negativo na última semana de novembro em US$ -399 milhões. Com
isso, o saldo do mês foi de apenas US$ 312 milhões, apesar das exportações de
US$ 17,688 bilhões constituírem a maior média por dia útil (US$ 884,4 milhões)
da história comercial do país. O problema é que as importações (US$ 17,376
bilhões) também significaram o maior valor da história por dia útil – US$ 868,8
milhões.
O funcionário do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) designado para apresentar
os resultados de novembro, atribuiu a escalada de importações dos últimos meses,
especialmente em novembro, às festas de fim de ano. Já seria algo para se
preocupar, se o problema se resumisse a brindes, bonecas, brinquedos eletrônicos
e demais regalos.
No entanto, os números que ele
apresentou mostram uma situação mais grave: os bens de consumo foram apenas
17,81% do valor importado. Os insumos e componentes (bens intermediários),
sobretudo para a indústria de montagem multinacional, continuaram sendo o item
mais pesado das importações: 45,45% do valor importado. Os bens de capital
(máquinas e equipamentos) importados atingiram 22,19% do valor total. As
importações que mais cresceram foram as de combustíveis e lubrificantes, porém
isso não tem maior significado do ponto de vista de sua participação no total
importado: apenas 14,55%.
O resultado, em si, é crítico (já
veremos o período janeiro-novembro), e há algo nele que tende a aumentar o
risco: os produtos primários, que são hoje os principais na pauta de exportação
do Brasil, estão claramente com os preços inflados, devido à especulação
internacional com as chamadas “commodities”. Numa comparação de preços entre
novembro de 2010 e novembro de 2009, o preço do minério de ferro subiu +144,9%;
o milho, +37,1%; a carne bovina, +35,8%; o café em grão, +34,3%; a celulose,
+31,4%; o suco de laranja, +30,1%; a carne suína, +26,7%; o alumínio, +25,4%; o
açúcar refinado, +23,6%; o óleo de soja em bruto, +22,6%; o algodão, +17,5%; o
açúcar em bruto , +16,5%.
Como se sabe (e, aliás, é óbvio),
preços especulativos inflados têm de cair em algum momento para que
especuladores, à custa de outros, ganhem com a especulação. O risco está em que
esses preços especulativos, voláteis pela própria natureza, foram a bóia que
impediu a balança comercial de novembro de afogar-se no déficit. E, mesmo com
tais preços, o saldo do mês de novembro caiu 83,2% em relação a outubro e 48,9%
em relação a novembro de 2009.
É interessante a seguinte série
mensal do saldo comercial:
novembro/2007: US$ 2,020
bilhões;
novembro/2008: US$ 1,634
bilhão;
novembro/2009: US$ 611
milhões;
novembro/2010: US$ 312
milhões.
Nitidamente, o crescimento maior
das importações em relação às exportações foi turbinado pela guerra cambial dos
EUA, a partir do último trimestre de 2008. Em artigo que hoje começamos a
publicar (ver página 8), o economista norte-americano Michael Hudson,
referindo-se às superemissões de moeda e superdesvalorização do dólar pelo banco
central norte-americano (Fed), diz que “o Fed gostaria de ver a economia dos
EUA renascer pela pilhagem das demais economias. (…) busca invadir os bancos
centrais, comprar suas economias, matéria-prima e ativos com ‘crédito de papel’”.
Os números abaixo são os
saldos/déficits da balança comercial com os EUA:
2007: US$ 6,341 bilhões;
2008: US$ 1,795 bilhão;
2009: US$ -4,430 bilhões;
2010: US$ -6,813 bilhões
(até outubro).
Antes do início da guerra cambial
pelos EUA, a hipervalorização do real, imposta pelo Banco Central, com suas
taxas de juros absurdas e suas intervenções no mercado do dólar, havia
catapultado, no ano de 2007, as importações de mercadorias norte-americanas em
+27,74% em relação ao ano anterior, enquanto as exportações para os EUA
aumentavam apenas 2,2%. Mesmo assim, nosso comércio com aquele país continuou
superavitário.
Em 2008, com a intensificação da hipervalorização do real – sobretudo através da
política alucinada de juros daquele ano, mesmo depois que, em setembro, Wall
Street implodiu - e com o início, no último trimestre, da guerra cambial, as
importações de produtos dos EUA aumentaram 36,88%, enquanto as nossas
exportações para lá em 9,41%.
O ano seguinte foi de paralisia no
comércio exterior, pela falta de crédito geral, provocada pela crise
norte-americana. Assim, as importações de mercadorias norte-americanas caíram
21,84% - mas as nossas exportações para os EUA caíram 43,11%.
Neste ano, até outubro (a Secex
ainda não disponibilizou dados, exceto os mais gerais, sobre o comércio com os
EUA em novembro) as importações aumentaram 34,01% e as nossas exportações em
20,84% - um aumento em cima de uma base deprimida pelo que aconteceu nos anos
anteriores.
De janeiro a novembro, entre os
países, os EUA foram a origem da maior parte do valor importado pelo Brasil -
15,1% do total.
As nossas exportações totais,
nesses 11 meses, cresceram 30,7% em relação ao mesmo período do ano passado,
mas as importações aumentaram 43,9% - e o saldo comercial diminuiu 32,7%,
reduzindo-se a US$ 14,9 bilhões, o menor saldo para o período de janeiro a
novembro, desde 2002, último ano do governo Fernando Henrique (US$ 11,4
bilhões).
Mas, em 2002, o país, ao contrário
de agora, estava quebrado, e nossas exportações de janeiro a novembro (US$ 55,2
bilhões) eram menos de um terço das atuais (US$ 181 bilhões). O problema é que
as importações - que em 2002, quando comparadas ao período anterior da história
do país, já eram monstruosas (US$ 43,8 bilhões) - foram agora quase quatro vezes
(US$ 166,1 bilhões) às daquela época.
No entanto, se considerarmos o
saldo comercial nos últimos doze meses, veremos que ele alcança US$ 17,103
bilhões. Apesar de ser uma queda de 32,7% em relação ao saldo em doze meses de
novembro de 2009 (US$ 25,422 bilhões), não parece, à primeira vista, pouca
coisa, ainda que não esteja no mesmo patamar dos saldos anuais de 2006
(US$ 46,457 bilhões), 2005 (US$ 44,703 bilhões), 2007 (US$ 40,032 bilhões), 2004
(US$ 33,641 bilhões), ou mesmo os de 2009 (US$ 25,347 bilhões), 2008 (US$ 24,836
bilhões) e 2003 (US$ 24,794 bilhões).
Mas, a questão é a tendência. Os
dados da Secex/MDIC mostram que a curva mensal do saldo em doze meses está,
literalmente, despencando após novembro de 2007, com uma aguda aceleração da
queda após os EUA inundarem o mundo com dólares desvalorizados para “pilhar as
demais economias”.
O resto da obra, fizeram as taxas
de juros do sr. Meirelles, atraindo montanhas de dinheiro especulativo, que não
conseguem juros maiores do que zero em seus países de origem, e o câmbio
flutuante que só flutua na banheira da especulação.
No artigo que citamos (página 8
desta edição), Michael Hudson afirma que a política americana será um fracasso
porque “não há jeito dos Estados Unidos defenderem a depreciação do dólar em
termos que obriguem outros países a assumirem perdas em suas posses”.
Realmente, não. No caso do Brasil, foi por isso que nós derrotamos três vezes os
tucanos – para que pudéssemos nos defender desse tipo de agressão, o que é a
mesma coisa que optar por crescer.
CARLOS LOPES
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