Mantega ignora guerra cambial e advoga
freio no crescimento
PNAD 2009 mostra que cerca de 30 milhões de pessoas não ganham nem o salário
mínimo
Na segunda-feira, o ministro Mantega declarou o seguinte:
a) “agora que a economia está recuperada, nós vamos reduzir gastos de
custeio para deixar o setor privado entrar”.
Uma “economia recuperada” que não tem defesas contra uma crise que continua
a grassar no exterior, é uma economia em risco. Entretanto, Mantega não
propôs defesa alguma. Pelo contrário, propôs eliminar aquelas que o
presidente Lula implementou – para começar, diminuir o crédito dos bancos
públicos (e, aliás, o crédito em geral), cortar gastos governamentais e
congelar a valorização do salário, não somente a do mínimo, mas a dos
servidores. Em suma, retirar tudo o que permitiu ao Brasil resistir à crise,
apesar dos juros do sr. Meirelles.
A rigor, Mantega propõe trazer a crise para dentro do país, com um cabresto
sobre o consumo, isto é, o estreitamento do mercado interno, que, segundo
ele mesmo, tem sustentado o crescimento. Porque a “economia está
recuperada”, podemos fugir às dificuldades reais – portanto, imergi-lo em
dificuldades que não existiam.
Provavelmente, o ministro não se deu conta de que essa política é, em
essência, a que Serra gostaria de aplicar no país. Mas... em que os gastos
de custeio do governo impedem o setor privado de “entrar”, seja lá onde for?
Se o governo constrói uma escola ou uma estrada, vai ter, em seguida, de
“custeá-las”, ou seja, sustentar as despesas correntes. Exceto se o governo
privatizar aquilo que constrói – mas há 56 milhões de eleitores que, há
alguns dias, votaram contra essa inovação tucana.
b) “A redução do gasto público impulsionará o consumo e o investimento
privado. As medidas vão encarecer um pouco o crédito, mas, no momento, isso
é oportuno”.
Desculpe-nos o ministro, mas isso parece a tarantela do italiano doido.
Exceto se houver alguém jogando dinheiro no mar, a redução do gasto público,
evidentemente, faz o consumo encolher – como, aliás, qualquer redução de
gastos com o consumo ou que estimulem o consumo. Como dizia o grande
economista Pedro Bó, para consumir é necessário comprar o que se vai
consumir... E desde quando o gasto público inibe o investimento privado?
Talvez o gasto com a dívida, mas não é esse que Mantega quer cortar.
O interessante é que o ministro quer “impulsionar o consumo e o investimento
privado” não somente cortando o gasto público, congelando o salário mínimo
real e o do funcionalismo, lentificando as obras do PAC, mas, “encarecendo
o crédito”. Mais fácil foi a façanha do barão de Münchhausen, que uma
vez saiu de um atoleiro puxando a si próprio pelos cabelos.
c) Mantega diz que é preciso combater a inflação. Que inflação? Será que
Mantega não foi avisado de que estamos envoltos numa bolha especulativa de
“commodities”, sobre a qual a política monetária do Brasil tem menos
influência do que qualquer especulador da Bolsa de Chicago?
Mas, diz Mantega, “a redução de gastos abre espaço razoável para a
redução dos juros; o Brasil está muito defasado em juros no cenário
internacional”.
Exatamente devido a essa “defasagem”, que é um escândalo (a taxa de juros
básica do Brasil, em termos reais, é mais do que o dobro da segunda mais
alta do mundo, quando a de quase todos os países está em torno de zero), o
espaço que existe já é imenso – no entanto, Mantega quer abrir um espaço que
já está aberto, fechando-o, ou seja, jogando a queda de juros para um futuro
indefinido.
CONTAS
Quando não se diz claramente – ou seja, quando se foge ou se esconde – qual
é o problema verdadeiro, inevitavelmente afunda-se num charco de disparates.
Em dezembro de 2009, quando nós e vários outros alertavam para as contas
externas e a guerra cambial dos EUA, com a inundação da economia por dólares
- e sua consequente desvalorização – o ministro Mantega disse que o problema
não existia, pois “teremos um déficit em transações correntes, que será
coberto por poupança externa. Quando o mercado internacional voltar a
crescer, voltaremos a produzir um superávit comercial maior” (entrevista ao
Valor Econômico, 15/12/2009)
O “mercado internacional” acabou de dar mais uma freada no terceiro
trimestre. O déficit externo (“transações correntes”) já alcança 2,43% do
PIB, e está sendo coberto por volátil capital especulativo. Um ano depois,
Mantega reconheceu que a guerra cambial existe.
Mas isso não o fez encarar seriamente o problema. Caso contrário, teria
proposto ao menos aquelas medidas emergenciais que já foram tomadas por
outros países, a imediata queda dos juros, talvez o saneamento do câmbio -
ao invés de deixá-lo ao sabor e sanha dos especuladores de outros países.
Nós temos, realmente, um problema estrutural: com a desnacionalização da
economia, o crescimento acaba desencadeando o aumento das importações feitas
pelas filiais de multinacionais. Esse problema foi agudizado pela guerra
cambial dos EUA. Era de se esperar que, em relação a essa última, Mantega
propusesse algo para se contrapor a ela.
No entanto, sua solução é jogar água gelada no crescimento, e, assim, não
resolver problema algum. Com o breque no consumo e na produção, crédito mais
caro (isto é, juros ainda maiores para consumidores e empresários), salários
congelados, espera que o país importe menos para acalmar as contas externas.
Em suma, colocar o país num leito de Procusto, como tranquilizante para as
contas. Infelizmente, isso não costuma dar certo.
SOCIAL
Um dos lados mais infelizes de tudo isso é que até parece que os brasileiros
estão consumindo muito.
A recente divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2009
(PNAD 2009) revelou que em nosso país cerca de 30 milhões de pessoas não
ganham nem o salário mínimo. Destas, 13 milhões e 100 mil chegam, no máximo,
a meio salário mínimo. E cerca de 11 milhões ganham apenas o salário mínimo.
Os esforços do presidente Lula, mostra a PNAD 2009, foram bem sucedidos em
diminuir a miséria, porém, mesmo depois de oito anos de Bolsa Família e do
aumento real do mínimo, a insegurança alimentar (fome ou ameaça de fome)
ainda atinge 30,2% dos lares do Brasil, ou seja, “65,6 milhões de pessoas
residentes em 17,7 milhões de domicílios”. No Nordeste, essa situação
ainda existe em nada menos do que 46,1% dos domicílios.
Num país onde apenas 9 milhões e 700 mil pessoas ganham R$ 2.550 ou mais, o
que existe é consumo de menos, e não em excesso. O que quer dizer, também,
que ainda podemos expandir muito o nosso mercado interno – numa crise em que
a tendência do mercado externo é encolher, isso nos dá uma base para o
crescimento que poucos países do mundo possuem.
A presidente Dilma, portanto, tem todas as razões ao dizer, no mesmo dia em
que foi eleita: “meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e
a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras. (…) Não
podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver
famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à
própria sorte”.
Portanto, seria bom o ministro Mantega contribuir para resolver os problemas
que têm de ser resolvidos, ao invés de, para não resolvê-los, propor uma
freada do país.
CARLOS LOPES