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Shell
avança sobre etanol com 70% do patrimônio da Cosan
São 23 usinas, com
capacidade para moer 60 milhões de toneladas de cana ao ano, produzindo 2
bilhões de litros de etanol
De tudo o que foi publicado sobre a “associação” da Cosan com a Shell, a única
declaração que parece de algum interesse foi de um analista de uma corretora:
“apesar da Cosan e da Shell falarem em joint venture, o negócio é uma
fusão”.
Podemos imaginar o que é a “fusão” de um grupo que fatura anualmente cerca de
US$ 2 bilhões com outro que fatura US$ 450 bilhões. Não é difícil imaginar quem
vai ser fundido numa transação em que uma das partes tem, aproximadamente, 225
vezes o faturamento da outra. Mas, certamente, haverá quem diga que se trata de
uma fusão apenas dentro do Brasil, como se a “Shell Brasil” fosse alguma coisa
diferente de um departamento da Royal Dutch Shell. Se fosse assim, a Cosan
estaria se fundindo com uma empresa que tem cinco vezes o seu faturamento, e não
225 vezes. Cá entre nós, leitor, para todos os efeitos práticos, não faz muita
diferença.
Do ponto de vista formal, a Shell formou duas outras empresas (“joint ventures”)
com a Cosan: uma para a produção, outra para a distribuição. A Cosan já estava
na área de distribuição, desde que comprou os postos da Esso, que prefere hoje
explorar outros tipos de negócio na área petrolífera e energética. A Shell não
estava na área de produção do etanol – e passa agora a contar com 70% do
patrimônio da Cosan, pela módica quantia de US$ 1,625 bilhão, desembolsada nos
próximos dois anos.
Logo, a declaração do principal acionista e presidente do conselho de
administração da Cosan, Rubens Ometto, segundo o qual “estamos dando o passo que
estava faltando para o etanol se transformar numa commodity global”, parece
coisa de maluco. Ometto está dando o passo que estava faltando para perder a sua
empresa – mas ainda não notou.
Já a declaração de Mark Williams, diretor mundial da Royal Dutch Shell, parece
ser a mais pura verdade, apesar de banal: “O anúncio de hoje reafirma a
importância do Brasil para a Shell”. Com efeito.
A Cosan é a principal empresa brasileira do ramo sucro-alcooleiro. Mais de 10%
da safra de cana do país é moída por ela. Produz o açúçar União e o açúcar Da
Barra – o que é 50% do mercado brasileiro. Tem 23 usinas, com capacidade para
moer 60 milhões de toneladas de cana ao ano, produzindo 2 bilhões de litros de
etanol, 1.700 postos de distribuição de combustível, e é uma das controladoras
da principal empresa do mundo em biotecnologia do etanol, a Iogen.
DESNACIONALIZAÇÃO
A desnacionalização na agricultura, e particularmente na área do etanol - e
açúcar - tem avançado aceleradamente. Um recente relatório do Banco Central –
que não é propriamente um templo do nacionalismo – fala em “estrangeirização” do
agronegócio nos últimos sete anos. Nota o BC que, de 2002 a 2008, nada menos do
que 29,6% (US$ 46,9 bilhões) do investimento direto estrangeiro (IDE) líquido
que entrou no país foi para o campo, comprar empresas – ou comprar terras.
Depois da Cosan, a maior empresa do setor é a multinacional francesa Louis
Dreyfus, com 13 usinas (que eram dos grupos Tavares de Melo e Santelisa) e
capacidade de moer 40 milhões de toneladas de cana. A terceira era a Moema, que
foi adquirida pela Bunge, hoje uma multinacional norte-americana.
Apesar da “estrangeirização”, trata-se de um setor financiado em mais de 60%
pelo BNDES – aliás, uma das empresas que mais receberam recursos desse banco foi
a Brenco, uma propriedade de alguns especuladores externos tendo por fachada o
notório Henri-Philippe “Petrobrax” Reichstul, que a levou a estado
pré-falimentar (quem manda escolher o Reichstul para testa-de-ferro?) e está
sendo absorvida pela ETH, do grupo Odebrecht.
Mas a Shell, a Louis Dreyfus, a Bunge e outras multinacionais não são o
Reichstul – nem são tolas de contratá-lo.
Nenhuma delas, por sinal, construiu ou pretende construir novas unidades de
produção. O máximo ventilado neste sentido, é que talvez em 2012 elas tenham que
construir algumas – mas um executivo esclareceu que o “investimento direto” que
entraria supostamente para isso irá para “trocas de equipamentos de usinas e
melhorias no desempenho operacional dos ativos”. O mais provável é que para isso
elas usem parte dos lucros com o patrimônio que adquiriram – ou seja, usem
dinheiro ganho no Brasil.
Quanto a terras, em 1.396 municípios do país houve compras por estrangeiros,
segundo o Incra, e 124 municípios têm metade das áreas de médias e grandes
propriedades em nome de estrangeiros. Ao todo, há 3,6 milhões de hectares de
propriedade estrangeira no Sul, Centro-Oeste, São Paulo, Minas, Bahia, Pará,
Tocantins e Amazonas.
Quais as consequências de tudo isso? Eis um bom resumo:
“... o processo de concentração da produção e das exportações do agronegócio
tem contribuído para elevar as diferenças regionais na geração de riqueza. (….)
a indústria de insumos tem pressionado para baixo os preços ao produtor. Quanto
maior o IDE na agroindústria, menor o valor da produção agropecuária. A cada
aumento de 1% no IDE no segmento, [há] redução de 0,22% na produção. Isso porque
(….) a concentração agroindustrial, via fusões ou aquisições, eleva o poder das
empresas e reduz os ganhos dos produtores. (….) os IDEs direcionam aportes para
um grupo reduzido de produtos, como algodão, carnes, soja, óleo, etanol, açúcar
e sucos de frutas, cuja participação no comércio internacional é relevante. (….)
o setor ainda é bastante dependente da importação de insumos, como
matérias-primas para adubos. Fatores como abundância de terras, competitividade
e produtividade do agronegócio nacional têm atraído cada vez mais investimentos
estrangeiros ao país” (Mario Zanatta, “Estrangeiros aceleram aportes no campo”,
Valor Econômico, 29/12/2009).
Quase não é preciso dizer mais nada.
CARLOS LOPES
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