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Serra entregou
reservatórios do Alto Tietê a consórcio em 2008
Estado paga R$ 1
bilhão para um consórcio controlar vazão do Sistema Produtor Alto Tietê. Empresa
vencedora foi criada no dia da habilitação
A
administração tucana privatizou os serviços de tratamento de água do Sistema
Produtor Alto Tietê (SPAT), que é formado pelos reservatórios Ponte Nova,
Paraitinga, Biritiba Mirim, Jundiaí e Taiaçupeba, interligados através de
sistemas de túneis e canais, que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo.
O valor da transação foi de R$ 997.377.948,00.
No Diário Oficial de 25 de junho de 2008, a Companhia de Saneamento Básico do
Estado de São Paulo (Sabesp) publicou a alienação para o consórcio privado CAB –
Sistema Produtor Alto Tietê S/A, formado pela Galvão Engenharia e Companhia de
Águas do Brasil, dos serviços correspondentes à atividade de tratamento de água
desenvolvidos pela estatal paulista no SPAT. Ou seja, o consórcio privado é quem
regula, administra e fornece as águas que estão represadas nessas barragens.
20 milhões de consumidores
Para as empresas do consórcio, quanto mais cheias estiverem as represas, mais
alto será o faturamento com a água vendida ao consumidor, através da Sabesp.
Quando falamos em consumidor, no referimos à Grande São Paulo, com cerca 20
milhões de habitantes. Como estavam excessivamente cheias para o verão, época de
intensas chuvas no Estado, as represas tiveram suas comportas abertas e algumas
transbordaram, no período da cheia dos rios, contribuindo sobremaneira para o
alagamento – junto com a intensa chuva, obviamente - em várias localidades da
várzea do Tietê, que engloba os municípios de Salesópolis, Biritiba-Mirim, Mogi
das Cruzes, Suzano, Poá, Itaquaquecetuba, Guarulhos, São Paulo, Osasco, Barueri,
Carapicuíba e Santana de Parnaíba.
“Toda a água represada em todas as barragens do Sistema do Alto Tietê são
gerenciadas por esse consórcio. Quanto mais cheias as represas, mais
interessantes para o consórcio. Interesse comercial, nada mais do que isso”,
disse o economista e ambientalista José Arraes, membro do Comitê da Bacia do
Alto Tietê, do Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê e do conselho
gestor da APA (Área de Proteção Ambiental) da várzea do Tietê, em entrevista ao
site Viomundo, de Luiz Carlos Azenha.
Além da privatização do SPAT, Arraes acredita em mais dois fatores para que a
Sabesp e o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) mantivessem as
barragens lotadas. Primeiro, a decisão governamental de manter a cota máxima e
segundo, os dois órgãos do governo estadual “já estarem aumentando o volume das
represas, visando aumentar a produção da Estação de Tratamento de Água
Taiaçupeba de 10 metros cúbicos por segundo para 15 metros cúbicos por segundo”.
Aliás, as “intervenções para a ampliação da capacidade de produção da Estação de
Tratamento de Água de Taiaçupeba”, nos volumes acima referidos, estão entre os
propósitos da conformação da CAB – Sistema Produtor Alto Tietê S/A.
De acordo com o economista, “o normal seria o vazamento controlado ter começado
por volta de agosto, setembro, para que, agora, no verão, as barragens
estivessem mais vazias para receber as águas das chuvas e não transbordar. O
fato é que as nossas barragens não poderiam chegar à época de chuvas com 90% da
sua capacidade preenchida”. Por isso, “a Sabesp e o Daee deveriam ter se
prevenido há muito mais tempo. Eu acho que não tem perdão para o que está
acontecendo. É falta de gerenciamento mesmo”.
Como diz Arraes, “as barragens são como caixas d’água para a cidade de São
Paulo”. Segundo ele, as águas estão sendo liberadas de todas as barragens e
vazões de Paraitinga, Taiaçupeba, Jundiaí e Biritiba-Mirim somam 12 metros
cúbicos por segundo. “É uma enormidade de água. Para você ter uma dimensão do
volume, você abastece toda a cidade de Mogi, que tem 400 mil habitantes, com 3
metros cúbicos por segundo”.
“E o mais complicado é que as barragens de Paraitinga, Biriba-Mirim, Jundiaí e
Taiaçupeba vazam para rios afluentes diretos do rio Tietê. É por isso que o
Pantanal está cheio. As águas vazadas já chegaram até aí. Se você libera pouca
água no rio, não causa transtorno nenhum. Agora, o transtorno é liberar 5, 6, 12
metros cúbicos por segundo no rio. É água demais! Acrescida das quantidades das
chuvas deste verão, piora a situação”, acrescentou.
“Habilitado”
Um detalhe significativo foi o processo de licitação, conforme revelou o blog
NaMaria News. A abertura dos “Documentos de Habilitação” da proposta financeira
ocorreu no dia 7 de março de 2008. No dia 11 de abril daquele ano foi
“habilitado” o Consórcio Águas de São Paulo, formado pelas empresas CAB e Galvão
Engenharia. Porém, o consórcio só foi criado no mesmo dia em que foi habilitado.
Cabe a pergunta: se não existia antes, como conseguiu participar do processo
licitatório anterior à habilitação?
VALDO ALBUQUERQUE |