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Ajuda americana vem
acompanhada de amarras
SARA FLOUNDERS*
Quanto vale realmente a ajuda de 100 milhões de dólares dos EUA para o
Haiti? Cem milhões de dólares é menos do que os EUA gastam em cinco horas
nas guerras e na ocupação no Afeganistão e no Iraque.
Os 100 milhões de dólares que o presidente Barack Obama prometeu em ajuda de
emergência ao Haiti pelo terremoto parece um monte de dinheiro. Mas é uma
quantidade minúscula se comparada com o que os governantes da França e dos
Estados Unidos roubaram ao Haiti e a seu povo durante séculos.
Os Estados Unidos impuseram 60 anos de sanções e bloqueio ao Haiti depois da
primeira revolução vitoriosa de escravos na história. Este bloqueio
empobreceu o Haiti. A França exigiu em 1825, com navios de guerra ameaçando
no porto, que o Haiti pagasse aos franceses proprietários de escravos 21
bilhões de dólares pelo valor dos africanos escravizados que foram
libertados. O Haiti foi forçado a pagar juros sobre essa dívida por mais de
100 anos.
O ditador Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier, apoiado pelos EUA, desviou 500
milhões de dólares em empréstimos dos EUA para suas contas bancárias
pessoais só nos últimos seis anos antes de fugir do país. Mas o povo
haitiano ainda tem que pagar todos os empréstimos de Duvalier.
Já endividado por bilhões de dólares, o Haiti foi obrigado a aceitar um
programa de “ajuste estrutural” do Fundo Monetário Internacional, que
prometia “perdoar a dívida”. Este programa do FMI destroçou a agricultura do
país, levou à falência seus cultivos de arroz e açúcar, elevou o preço da
eletricidade, congelou os salários dos trabalhadores e fornecedores do
transporte público, acabou com a infra-estrutura vital e com os serviços
sociais do Estado, tais como médicos, enfermeiras e professores.
A dívida do Haiti ao Banco de Desenvolvimento Interamericano não foi
“perdoada”. Soma mais de 500 milhões de dólares, cinco vezes a quantidade da
ajuda que os EUA prometeram pelo terremoto.
Sempre é importante lembrar que o que o imperialismo estadunidense dá com
uma mão, tira com a outra. O FMI anunciou em 14 de janeiro, o mesmo dia em
que o Obama prometeu os 100 milhões de dólares em ajuda, que iria
acrescentar um empréstimo de mais 100 milhões a seu programa atual no Haiti.
Isso só aumenta a dívida do país.
Cem milhões de dólares é só 7% dos 1,4 bilhões de dólares que os
trabalhadores e trabalhadoras haitianos na diáspora enviam a suas famílias
cada ano. A metade da população do Haiti vive com menos de 1 dólar ao dia.
Porém, essa ajuda dos EUA e os empréstimos dos EUA obrigarão os haitianos a
emigrar ainda mais em busca de trabalho para a sobrevivência de suas
famílias.
Ao povo do Haiti é devida uma reparação pelos bancos estadunidenses e
franceses que extraíram bilhões de dólares em lucros durante centenas de
anos. 100 milhões é muito menos que 1% dos 18 bilhões que os executivos do
Goldman Sachs receberam em bônus este ano, depois de um resgate dos bancos
de 700 bilhões de dólares pelo governo dos EUA.
E os 100 milhões em ajuda dos EUA para o Haiti vêm com um preço muito alto:
a ocupação militar dos EUA.
* Co-diretora do
International Action Center |