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As
transações negativas e os 5% de crescimento em 2010
O problema do
déficit nas “transações correntes” é o problema das remessas para o exterior,
catapultadas pela entrada desenfreada de IDE, pela desnacionalização por atacado
de empresas. Sempre as remessas crescerão mais que o IDE
CARLOS LOPES
Pode ser que o país
cresça os 5% vaticinados pelo ministro Mantega para este ano. E pode ser que não
cresça. No entanto, o que isso significa? Certamente, nem o próprio ministro
acha que os nossos problemas econômicos estão resolvidos porque,
presumivelmente, iremos crescer 5% este ano. Além disso ser uma previsão a ser
realizada, a questão, como disse o presidente Lula algumas vezes, não é apenas
crescer em tal ou qual ano, mas manter o crescimento de forma a mudar o país, em
especial sanar as graves injustiças sociais que ele ainda apresenta. Crescimento
tipo “voo de galinha”, até Fernando Henrique conseguiu algum.
Em agosto de 2008, Mantega declarou, com
bastante razão, que o grande problema era que o país “está no limite da
valorização cambial” e que as contas externas “vão para o vinagre” (sic), se a
hiper-valorização do real continuasse. Literalmente: “se for mais adiante,
estamos perdidos” (ver a sua intervenção no seminário Carta Capital/FGV).
Até então, de janeiro de 2003 a agosto de
2008, devido à atração de dólares pelos juros altos estabelecidos pelo BC, o
real já havia acumulado uma “valorização” de 124,2% em relação à moeda
norte-americana. O que significava uma trava violenta às exportações (e um
incentivo igualmente violento às importações), reduzindo o saldo comercial - que
caiu US$ 6,4 bilhões de 2006 para 2007 e continuava caindo em 2008, mesmo antes
da crise externa. O ministro, portanto, estava inteiramente certo ao temer que
as contas externas fossem “para o vinagre”.
De lá para cá, houve uma implosão econômica
nos EUA, que iniciaram uma guerra cambial contra os outros países do mundo,
emitindo trilhões de dólares sem lastro, provocando, exatamente, uma
hiper-valorização, totalmente artificial, das outras moedas (exceto,
evidentemente, daquelas que foram defendidas pelo governo de seus países - o
yuan à frente). Com os juros internos norte-americanos próximos de zero ou
mesmo negativos, esses dólares invadiram os países em que os juros estão mais
altos, saqueando ativos - é assim que os EUA tentam superar a sua crise: às
custas do mundo.
No entanto, em dezembro passado, Mantega
declarou que as contas externas do país não são um problema. Disse ele: “teremos
um déficit em transações correntes”, mas “será coberto por poupança
externa”. E acrescentou: “não há risco”. Alguns dias depois, o
déficit em “transações correntes” atingiu US$ 52,526 bilhões (em 2008, US$
28,192 bilhões + US$ 24,334 bilhões em 2009).
Apesar de sua própria estimativa de déficit
nas “transações correntes” para 2010 estar em torno de US$ 40 bilhões (o BC,
através do “Boletim Focus”, diz que a “média das expectativas do mercado” é US$
47 bilhões), Mantega não acha isso um problema, pois também prevê, não é muito
claro com que fundamento, uma entrada de US$ 45 bilhões em “investimento direto
estrangeiro” (IDE).
O economista Márcio Holland, da FGV, disse
algo interessante a esse respeito: “O déficit é financiável, esse que é o
problema. Qual investidor, independentemente de sua natureza, não quer um
mercado como o nosso? Teremos mais investimentos estrangeiros diretos com
certeza. Mas esse tipo de investimento tem impacto negativo na conta corrente,
uma vez que ele implica insumos importados e aumento nas remessas de lucros e
dividendos no futuro” (Valor Econômico, 19/01/2010 – grifo nosso).
Mas, continuemos - o que são as “transações
correntes”?
São de três tipos:
a)
o comércio com outros países (balança comercial: exportações menos importações);
b)
as remessas de “rendas” e “serviços” para fora do país, remessas sobretudo de
lucros, declaradas ou disfarçadas, e algumas outras, ou vice-versa (apesar dos
esforços daqueles que querem criar “multinacionais brasileiras” às custas do
BNDES, não houve ano em que as remessas para fora não superassem amplamente as
remessas de fora para dentro);
c)
as “transferências
unilaterais correntes” (em geral, dinheiro enviado por brasileiros residentes no
exterior para dentro do país e vice-versa) - este item, devido à sua pequena
dimensão, não tem influência sobre o resultado das “transações correntes”, muito
menos sobre o resultado do balanço de pagamentos. Por isso, aqui, não o
levaremos em conta.
Portanto, um déficit nas “transações
correntes” significa que o saldo comercial - isto é, riqueza real, produto real
do trabalho do país - não está cobrindo as remessas para o exterior.
Então, por que, antes, quando as “transações
correntes” não estavam deficitárias (em 2007 houve um saldo positivo de US$
1,551 bilhão), estaríamos “perdidos” se elas piorassem, e, agora, que
elas já apresentaram um déficit de US$ 28,192 bilhões em 2008 e US$ 24,334
bilhões em 2009, com o próprio Ministério da Fazenda prevendo que ele aumentará
substancialmente em 2010, as coisas estão tranquilas?
Antes de qualquer coisa: é evidente que não
vão ser os tucanos que irão resolver o problema das contas externas, como, de
resto, nenhum problema do país. Pelo contrário. Basta ver o que Fernando
Henrique fez, quanto às contas externas, desde o primeiro passo que deu para
dentro do Palácio do Planalto. Somente a ingenuidade do sr. Bresser pode
produzir a pérola de que Serra adotaria a sua política para resolver o problema
– provavelmente da mesma forma que resolveu os problemas de São Paulo, para não
falar daqueles da Saúde...
Portanto, são as forças nacionais, aquelas
que querem mudar o país, que terão de resolver a questão. No entanto, em certos
momentos, é uma tentação passar por cima das questões reais e concentrar-se,
como aquele personagem da literatura para quem vivíamos sempre no melhor dos
mundos possíveis, num horizonte que não ultrapasse a ponta dos nossos narizes.
Isso acontece.
Sucintamente: o problema do déficit nas
“transações correntes” é o problema das remessas de lucro para o exterior. A
redução do saldo comercial - que, apesar de cair, foi positivo e alto tanto em
2008 quanto em 2009 - somente seria um problema se nos dispuséssemos a empregar
eternamente uma parte da riqueza nacional, advinda do comércio exterior,
para cobrir o rombo deixado pelas remessas de lucros. Ou seja, apenas se nos
dispuséssemos a ser duplamente saqueados por todos os tempos.
A questão é: quanto mais “poupança externa”
entrar no país, isto é, quanto mais entrar capital estrangeiro, mais remessas de
lucros haverá. Portanto, não é razoável ficar tranquilo com a expectativa de
cobrir o déficit nas “transações correntes” com capital estrangeiro, porque o
capital estrangeiro não irá pagar a si mesmo com seu próprio dinheiro.
Evidentemente, o ministro Mantega sabe disso.
Tanto assim que declarou: “vai haver uma retomada do comércio internacional
lá para 2012, com a recuperação da economia mundial. Aí, teremos condições de
fazer um saldo comercial melhor”.
Ou seja, voltaríamos, daqui a dois anos,
depois de vender mais um lote de empresas – um lote de US$ 45 bilhões (!),
segundo suas previsões - a cobrir as remessas de lucro com o saldo comercial.
Resta saber quando essa drenagem da riqueza nacional (isto é, do trabalho do
país) terminaria.
Se depender, por exemplo, dos tucanos, nunca.
Mas, vejamos a seguinte tabela:
SALDO DAS
TRANSAÇÕES CORRENTES (em US$ bilhões. Fonte: BC)
Gov. FH
-186,164
2003
4,177
2004
11,679
2005
13,985
2006
13,643
2007
1,551
2008
-28,192
2009
-24,334
Esses números mostram que Fernando Henrique
afundou o país em um déficit nas “transações correntes” de US$ 186 bilhões e 164
milhões. O que quer dizer que, diante da debacle a que levou o comércio
exterior, estava tapando esse imenso buraco com capital estrangeiro. O que
somente servia para aumentar ainda mais o déficit, com a queima de empresas,
públicas e privadas, que foram tomadas pelo capital externo - pela simples razão
de que estas empresas também se tornaram remetedoras de lucros para o exterior.
A tabela mostra, também, que o governo Lula,
desde seu primeiro ano, procurou reparar essa extrema vulnerabilidade externa.
No entanto, em 2008 e 2009, o país voltou a apresentar déficit - exatamente
devido à entrada desenfreada de “investimento direto estrangeiro” (IDE).
Agora, vejamos o primeiro componente das
“transações correntes”, a balança comercial, isto é, o valor das exportações
menos o valor das importações:
SALDO DA BALANÇA
COMERCIAL (em US$ bilhões. Fonte: BC)
Gov. FH
-8,517
2003
24,794
2004
33,641
2005
44,703
2006
46,457
2007
40,032
2008
24,836
2009
25,347
Em suma, o comércio
exterior do país foi quebrado durante o governo Fernando Henrique - aliás, até
mais do que esta tabela demonstra, pois o resultado do último ano, 2002, atípico
no conjunto do governo, mascarou, em parte, o desastre. Nos primeiros sete anos
de governo (1995-2001), o saldo negativo estava em US$ 21,6 bilhões. Antes de
1995, o último déficit comercial do país havia sido em 1980, 15 anos antes, no
acidentado governo Figueiredo. Porém, Figueiredo terminou seus seis anos de
governo com um superávit comercial de quase US$ 16 bilhões (para ser exato, US$
15,888 bilhões).
A tabela também
mostra que o governo Lula recuperou o comércio exterior, tirando-o de US$ 8,5
bilhões negativos e elevando-o a um patamar positivo acima de US$
40 bilhões; a queda em 2007 não é muito significativa, mas é sinal de que os
juros altos e seu corolário, a hiper-valorização do real, já começavam a mostrar
efeito, assim como a diminuição de valor devido à “primarização” das
exportações, ou seja, ao perfil cada vez mais concentrado em produtos primários
(soja, minério de ferro, etc.) do que vendemos a outros países.
Em 2008 e 2009, além
dessas travas, somaram-se a crise externa (com a seca no crédito para as
exportações) e a consequente guerra cambial dos EUA contra os outros países, com
mais pressão sobre o real, auxiliada pelo diferencial de juros, mantido muito
alto pelo BC em relação a esse e a outros países.
Vejamos agora o
segundo componente das “transações correntes”, as remessas para o exterior, isto
é, a soma dos itens “rendas” e “serviços” da balança de pagamentos. Aqui, como o
total dos oito anos do governo Fernando Henrique não é esclarecedor - só é capaz
de mostrar que saiu muito dinheiro, quase US$ 200 bilhões (US$ 194,235 bilhões)
- recorreremos, para comparação, à média anual do governo FH e acrescentaremos a
média anual dos quase 50 anos que vão de 1947 a 1994:
REMESSAS PARA O
EXTERIOR (em US$ bilhões. Fonte: BC)
1947-1994 (média
anual) -5,357
Gov. FH (média
anual) -24,279
2003 -23,483
2004 -25,198
2005 -34,276
2006 -37,120
2007 -42,510
2008 -57,252
2009 -52,945
Até o governo Fernando Henrique, o período em
que mais se remeteram recursos para o exterior foi o governo Figueiredo, com um
total de US$ 74 bilhões e 582 milhões em seis anos - o que significa uma média
anual de US$ 12,430 bilhões, isto é, metade da média anual do governo
Fernando Henrique.
Pois, durante o governo Fernando Henrique,
além da média anual das remessas dobrarem em relação ao governo Figueiredo,
ela mais do que quadruplicou, quase quintuplicou, em relação aos 47 anos
anteriores.
As consequências nas contas externas da
política de Fernando Henrique já apareceram antes que terminasse o segundo
mandato - e se tornaram mais evidentes ainda nos problemas que deixou para o
governo Lula enfrentar.
O aumento das remessas para o exterior é uma
consequência daquela estúpida entrada de “investimento direto estrangeiro”
(IDE), tão incensada pelo notório Gustavo Franco e pelo próprio Fernando
Henrique - isto é, entrada de dinheiro para comprar empresas nacionais, tanto
pela privatização e entrega de empresas estatais ao capital estrangeiro, quanto
pela compra em massa de empresas privadas brasileiras. Veja-se a seguinte
tabela:
INVESTIMENTO
DIRETO ESTRANGEIRO
(IDE - em US$
bilhões. Fonte: BC)
1947-1994
40,034
Gov. FH
163,451
2003 10,144
2004 18,146
2005 15,066
2006 18,822
2007 34,585
2008 45,058
2009 25,949
Sucintamente: durante o governo Fernando
Henrique entraram no país, como Investimento Direto Estrangeiro (IDE), quatro
vezes o que entrou nas quase cinco décadas que vão de 1947 a 1994. É
significativo que enquanto o IDE era multiplicado por 4 em relação aos 47
anos anteriores, as remessas eram multiplicadas por 4,5.
Aqui, como diziam os antigos, está o busílis.
Vejamos o seguinte:
Ano
1995-2002 2003-2009 Variação
Entrada de IDE
163,451 167,770 +2,64%
Saída por
remessas 194,235 272,783 +40,43%
Em sete anos de governo Lula, o total de IDE
foi mais ou menos o mesmo que nos oito anos do governo Fernando Henrique: US$
167,770 bilhões, um aumento de 2,64% em relação aos US$ 163,451 bilhões
que entraram no governo Fernando Henrique.
No entanto, as remessas para o exterior
passaram de US$ 194 bilhões e 235 milhões (1995-2002) para US$ 272 bilhões e 783
milhões - um aumento de 40,43%.
Em suma, somaram-se as remessas oriundas do
IDE que entrou no governo Fernando Henrique com aquelas do IDE que entrou no
atual governo e com aquelas do IDE que entrou e ficou - desde que Cabral
aportou na Bahia.
Esta é uma característica intrínseca do IDE,
isto é, da desnacionalização das empresas dentro do país, quando nada limita nem
regula suas remessas para o exterior: é como uma dívida perpétua e crescente –
ou, melhor, é como uma dívida que você não deve, ou um bem que você já não
possui, mas tem de pagar até o dia do juízo final. Nesse sentido, é pior para o
país do que uma dívida de natureza bancária ou do que o capital puramente
especulativo. As consequências da entrada de IDE são bem mais permanentes.
O que a tabela mostra é, simplesmente, que as
remessas sempre vão crescer mais do que a entrada de IDE, pela simples razão de
que este é cumulativo, isto é, as empresas que foram compradas com o antigo IDE
não param de remeter lucros quando as empresas que foram compradas com o novo
IDE passam a também remeter lucros.
No entanto, o saldo comercial é estritamente
finito e dependente da especulação monopolista. E a solução para este problema
não pode ser a de recorrer ao que causou o problema como se fosse a solução.
Não sabemos se o país vai crescer 5%. Mas não
será imitando o malfadado Gustavo Franco que teremos o crescimento que queremos.
Por último, uma observação: o ministro baseia
suas previsões de crescimento sobretudo no consumo (“O mercado consumidor no
país está crescendo a 5% ou 5,5%, o que é muito forte”). Quanto à taxa de
investimento - isto é, a ampliação da capacidade produtiva do país - sua
previsão para 2010 é, meramente, que ela chegue a 18% do PIB.
Registremos que o governo Lula fez um esforço
notável, desde o início, para elevar a taxa de investimento da economia, que
Fernando Henrique havia soçobrado - dos 20,75% do último ano do governo Itamar
(1994) ela havia baixado para 15,7% em 1999, alcançando, depois, apenas 16,4% em
2002 (os dados sobre a taxa de investimento são do IBGE: até 2005, “Sistema
de Contas Nacionais”; para 2006-2009, “Contas Nacionais Trimestrais,
Indicadores de Volume e Valores Correntes”, setembro, 2009).
A taxa de investimento começou a subir, ainda
que freada pelos juros do sr. Meirelles, já no segundo semestre de 2003 - apesar
de, no conjunto desse ano, o estrago econômico anterior tê-la forçado, ao fim e
ao cabo, para 15,3%.
Mas, no terceiro trimestre de 2008, a taxa de
investimento já estava em 20,1% do PIB, e, muito importante, sempre
crescendo mais do que o consumo - portanto, sem a possibilidade de inflação
por excesso de procura e escassez de oferta que o BC usou para aumentar os
juros.
Esse aumento na taxa de investimento foi um
triunfo do governo Lula. Infelizmente, nos meses seguintes, a política do Banco
Central e a do BNDES desperdiçaram esse triunfo, deixando que a crise entrasse
no país.
Os 18% previstos por Mantega para 2010 são
inferiores à taxa de investimento já alcançada no terceiro trimestre de 2008 -
e, apesar dos graves problemas no quarto trimestre desse ano, àquela do conjunto
de 2008 (19%). A previsão do ministro, aliás, é apenas ligeiramente superior aos
17,7% do terceiro trimestre de 2009. É verdade que, para 2014, ele prevê
23%, o que seria bastante razoável, se a previsão não fosse para daqui a quase
cinco anos - embora, ainda seria inferior à taxa de investimento de 1989
(26,86%), último ano do governo Sarney. |