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O ódio da
mídia e a primeira vitória de Lula
*GILSON
CARONI FILHO
Se a deontologia do jornalismo não contempla a
divulgação de matérias partidarizadas como se fossem notícias apuradas em
nome do leitor/telespectador, o telejornalismo brasileiro, principalmente o
da Rede Globo, anda precisando redefinir qual é a natureza do seu verdadeiro
ofício. Que fato objetivo deflagra tanta empulhação em horário nobre? Que
registro simbólico almeja sua busca de sentidos?
Qual a necessidade de construção permanente de
imagens desfavoráveis ao governo e, em especial, ao presidente da República?
Enganam-se os que pensam que as respostas a essas questões residem apenas
nas próximas eleições. Lula, por seu significado histórico, representa uma
fratura bem mais profunda do que pode parecer à primeira vista.
Ao obter mais de 30 milhões de votos em 1989, o
ex-líder sindical apareceu como condensação das forças sociais que se
voltavam para a demolição tardia do antigo regime. Contrariando prognósticos
de conceituados analistas, sua candidatura teve gás suficiente para
enfrentar as máquinas partidárias de velhos caciques. Mesmo derrotado por
Collor, que representava a reprodução do passado no presente, o desempenho
de Lula prenunciou, de forma categórica, o fim de uma “democracia” que só
era possível mediante pacto de compromisso entre as velhas elites políticas,
civis e militares. Essa foi sua primeira vitória. E a Globo disso se deu
conta.
O embrião de um novo espaço histórico, capaz de
conferir peso e voz aos de baixo na sociedade civil, na cultura e no
arcabouço estatal, estava lançado. Com uma indiscutível capacidade de
antecipação histórica, a família Marinho, que construiu seu colosso
midiático como um Estado dentro do Estado - e muitas vezes acima dele -
pressentiu o ocaso dos dias gloriosos. Como principal aparelho de
legitimação da ditadura militar, as Organizações sempre vislumbraram a
democracia como processo fatal à sua supremacia. E essa era uma avaliação
correta. Deter o movimento profundo que vinha das urnas seria impossível.
A centralidade de Lula e do Partido dos
Trabalhadores no cenário político era o avanço do cidadão negado, desde
sempre, em sua cidadania. A construção da nova história objetivaria também o
significado das eleições seguintes. Até a vitória em 2002, o acúmulo de
forças trouxe à cena as esperanças políticas das classes excluídas. O rosto
sofrido, que se contrapunha tanto à estética das modernizações conservadoras
quanto à ética do neoliberalismo rentista, já não temia as bravatas e
espertezas do adversário.
O rancor da mídia corporativa tem que ser
contemplado como pano de fundo de uma grande derrota. Suas ameaças só não
são trágicas porque, ao arreganhar os dentes, a grande imprensa introduz
notas burlescas no discurso que se pretendia ameaçador. O diagnóstico que
denuncia o fim da festa sai, ainda que codificado, dos débeis sustentáculos
da credibilidade que lhe sobrou junto a setores protofascistas da classe
média.
Ao criminalizar movimentos sociais, criticar a
política externa tentando estabelecer paralelos entre Caracas e Tegucigalpa,
e censurar premiações internacionais recebidas pelo presidente, o jornalismo
produzido vai desenovelando a história da imprensa brasileira com impecável
técnica televisiva.
Resta-lhe o apoio de uma direita sem projeto,
voraz, cínica e debochada. Esse é o único troféu que ostenta em 2010, após
ter sofrido o baque inaugural há 21 anos. Na década de 1980, ainda valia
editar debates e fazer uso político de seqüestro de empresários. Afinal, não
seria por apoio governamental que conferências debateriam monopólio e
manipulação midiática.
Em outubro, a Globo não estará apostando apenas
na candidatura de José Serra. Buscará, mediante retrocessos de toda ordem,
garantir a sobrevida de uma ordem informativa excludente, incompatível com
as regras mais elementares do Estado Democrático de Direito.
*Gilson
Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio
Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do
Jornal do Brasil |