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Multinacionais
do petróleo e táticas anticoncorrência (1)
Em tempos de
tramitação no Congresso Nacional do projeto de lei sobre o pré-sal, nunca é
demais lembrar certos aspectos pouco convencionais do “modus operandi” das
multinacionais do setor petrolífero.
Subornos,
golpes, traições – e mesmo assassinatos, como alertava Monteiro Lobato em “O
escândalo do petróleo e do ferro” – são parte integrante do arsenal que
mobilizam sem pejo para garantir interesses e obter privilégios.
O relato que
apresentamos nesta edição do HP (e na próxima) é do suplente de senador (1952) e
deputado federal (1954 e 1958), pelo PSD da Paraíba, Drault Ernanny de Mello e
Silva. Consta do seu livro de memórias publicado pela Editora Record, em 1988,
sob o título “Meninos, eu vi...”.
Banqueiro,
venturoso proprietário do Recreio dos Bandeirantes e criador da Refinaria de
Manguinhos, Drault Ernanny, que faleceu em 2002, não nutria simpatias visíveis
pela esquerda e apoiou a deposição do governo constitucional de João Goulart.
Porém, seu testemunho tem a força de quem atravessou o caminho da fera e provou
generosas doses da manha e da fúria que dispensam aos concorrentes.
O texto nos
ajuda a ver com maior nitidez as motivações não declaradas que jazem sob as
virações de casaca produzidas, inclusive no passado mais recente, na luta pelo
direito dos brasileiros explorarem e utilizarem em benefício próprio o seu
petróleo. E, sobretudo, nos aconselha a manter os olhos bem abertos.
S.R.
DRAULT ERNANNY
Estamos no ano carismático de 1945. O presidente Vargas foi apeado
do poder no dia 29 de outubro. Vinte e quatro horas depois, o Diário Oficial
publicava o decreto e o edital de concorrência pública para a instalação de duas
refinarias de petróleo de dez mil barris cada, uma em São Paulo e outra no Rio.
Confesso que fiquei surpreso quando
li esse edital. Dias depois, fui convidado a ir à casa de Augusto Batista
Pereira, onde encontrei meu amigo Ibá Meirelles. Eles me explicaram a novidade.
O governo estava admitindo a presença de empresas privadas no refino do óleo e
já me informaram de que, no Rio Grande do sul, a Ipiranga se preparava para
entrar na concorrência visando construir a refinaria de São Paulo. Nesse
encontro, Augusto e Ibá até me pediram que subscrevesse 2 mil contos de ações da
Companhia Ipiranga (muito dinheiro, na época). A conversa estendeu-se por
algumas horas, e meu entusiasmo foi crescendo. De repente, no meio do grupo,
nasceu a ideia de organizar uma companhia própria e entrar também naquela
concorrência. Imaginei, na hora, a criação de uma refinaria de petróleo que
tivesse o nome de Distrito Federal. (Depois ela veio a ser a Refinaria de
Manguinhos, meu grande sonho concretizado).
Logo no dia seguinte, comecei a
tratar de estabelecer um plano de trabalho. Reuni um grupo de lutadores, 59
homens e uma mulher. Seriam os primeiros acionistas da empresa...
O capital não passava de 60 mil
contos. Meu grupo tinha metade, ou pouco mais. O desenvolvimento do projeto teve
seus altos e baixos. Clemente de Faria, presidente do Banco da Lavoura,
subscreveu 2 mil contos e foi eleito diretor-financeiro da refinaria...
No processo de formação da empresa
era natural que eu procurasse meus amigos, principalmente os mais abastados.
Como diretor de banco, eu tinha amizade com outros banqueiros. Convidei muitos
deles a que subscrevessem ações. Diretores de dezoito bancos entraram na minha
cruzada. Desses, como se verá mais tarde, dezessete desapareceram, foram
implacavelmente perseguidos, sofreram estranhas pressões, tiveram que fechar.
Forças poderosas agiam nos bastidores contra os que se arriscavam a desafiar o
monopólio das “sete irmãs” neste país.
Somente um dos meus amigos
banqueiros se salvou nesta batalha terrível: Clemente de Faria,
diretor-presidente do Banco da Lavoura de Minas. Eu próprio sucumbi, fui
obrigado a pedir a liquidação extrajudicial do meu banco. A história toda teria
assim um sabor de Z, de Costa-Cavras, se fosse levada ao cinema. Vejam como se
passou.
Todos estavam convencidos de que
Getúlio Vargas, um nacionalista indiscutível, permitira investimentos privados
nas refinarias para que as coisas começassem a andar. Se tivesse querido dar a
partida somente com capitais do Estado os entraves sobreviriam, sem dúvida. O
país tinha seu abastecimento de combustível fornecido pelas companhias
estrangeiras, as chamadas “sete irmãs”, que monopolizavam inteiramente o
comércio de petróleo e derivados aqui e no resto do mundo. Logo, trabalhariam
desesperadamente para não perder esse filé mignon no maior país do Cone Sul.
Procurariam convencer político por político, interessado por interessado, de que
a intervenção do Estado no negócio do combustível era nociva. Chegaram a
distribuir balanços de refinarias do mundo todo, mostrando como eram
deficitárias, com o objetivo de desencorajar possíveis investidores nacionais.
Assim, Getúlio deu aquela largada
meio liberalizante, mas dentro de um princípio nacionalista, respeitando o
monopólio estatal... Eu achava, no entanto, que as refinarias deveriam ser
construídas exclusivamente pelo Governo, mas o presidente Vargas resolveu abrir
concorrência e admitir a participação de acionistas privados. Os editais
mostravam condições rigorosas, mas não se atinham ao monopólio estatal.
Quando decidi entrar no jogo com
meu grupo, convidei para presidente da futura refinaria o major Roberto Carneiro
Mendonça, que saíra da presidência do Banco do Brasil e era um homem de
prestígio, muito conceituado em nosso meio. Infelizmente ele faleceu.
Resolvi, então, conversar com o
general Góes Monteiro e consultei-o sobre a possibilidade de convidar Juarez
Távora para assumir a presidência da refinaria. Góes ponderou que Juarez, como
subchefe do Estado-Maior do Exército, não poderia ausentar-se de suas funções.
Lembrei então do nome de Joaquim Pedro Salgado Filho, recém-saído do Ministério
da Aeronáutica. Góes considerou ótima ideia, pois Salgado contava com a
aprovação total das Forças Armadas. Assim, fiz o convite, e tive Salgado como
presidente da Refinaria de Manguinhos até que ele assumisse sua cadeira no
Senado. É preciso explicar que, na época, as refinarias de petróleo do país não
podiam escolher presidentes sem a chancela do ministro da Guerra e do chefe do
Estado-Maior do Exército.
Mas as exigências eram quase
intransponíveis. A refinaria tinha de começar com uma capacidade de dez mil
barris diários, o concessionário era obrigado a apresentar todas as
especificações gerais do projeto, definir quantidade e qualidade dos produtos,
iniciar instalações dentro de trinta dias a contar do ato do Conselho Nacional
do Petróleo, contratar a construção e montagem com empresa especializada de
reconhecido conceito, utilizar aparelhagens de alto rendimento, estipular os
aperfeiçoamentos e novos processos e – aqui estava a parte mais difícil – provar
que possuía assegurado o fornecimento de matéria-prima por um período de cinco
anos, prova esta que deveria ser renovada quando faltassem dois anos para o
término do primeiro período, e assim sucessivamente.
O Conselho Nacional do Petróleo
exigia ainda do concessionário dezenas de outras condições, inclusive a de
contribuir obrigatoriamente para a pesquisa de jazidas de petróleo com cinquenta
por cento do lucro líquido. Também tornava obrigatório depositar, em garantia ao
cumprimento dessas condições, no Tesouro Nacional, em dinheiro e títulos da
dívida pública federal, a quantia de 4 milhões de cruzeiros, na época uma
verdadeira fortuna.
Não era fácil, para qualquer
concessionário, provar que dispunha de fornecimento de matéria-prima (óleo cru)
por período de cinco anos. Tal suprimento só podia vir do exterior e estava
perfeitamente controlado pelas “sete irmãs”. O boicote por parte dessas
companhias estrangeiras não demoraria a acontecer. Além disso, outras pressões,
partidas dos setores mais variados da própria administração do nosso Governo,
começavam a nos constranger. Campanhas contra o meu Banco do Distrito Federal se
sucederam na imprensa e nos círculos financeiros do país.
Os postos de gasolina, naquele
tempo, eram todos das companhias estrangeiras. Por incrível determinação dos
seus gerentes, os funcionários foram instruídos a não aceitar, como pagamento do
combustível fornecido, qualquer cheque do meu banco. Diziam ao freguês, que
completava o tanque no posto:
- Pode pagar em cheque, contanto
que não seja do Banco do Distrito Federal.
Era a campanha de descrédito contra
o meu banco, habilmente articulada por aqueles a quem não interessava o
surgimento de refinarias brasileiras no Brasil, pois o truste dominava tudo, com
altos lucros. Assim, o Banco do Distrito Federal, que devia ser o sexto do país
naquele tempo, começou a sofrer corridas constantes. Muitos depositantes
acreditavam, mesmo, que eu estivesse à beira da falência, e fecharam suas contas
em massa, tornando crítica minha posição financeira.
A campanha dos nossos adversários
tinha uma razão lógica. Como eu conseguira a participação acionária de dezoito
diretores de bancos, era de se supor que todos eles viessem a ser os
financiadores da refinaria em construção. Meus amigos e eu sofremos muito das
chamadas “autoridades monetárias” da época. Naquele tempo não existia o Banco
Central e o velho Banco do Brasil dominava, praticamente, todo o horizonte
financeiro do país. Era seu presidente, nessa ocasião, o industrial Manoel
Guilherme da Silveira, dono da fábrica de tecidos Bangu, personagem que todos
reverenciavam por causa de suas estreitas ligações com o Governo. Ele resolveu
perseguir-me e colocar entraves no meu projeto...
UM JOGO MUITO SUJO
No ano de 1946, aqui no Brasil,
votava-se uma nova Constituição para substituir a autoritária “polaca” de
Vargas, promulgada em 1937, em plena ditadura. Entre os inúmeros grupos de
pressão interessados em incluir dispositivos favoráveis a esta ou aquela
tendência do nosso sistema econômico, tinha de aparecer um das “sete irmãs”, e
isso não tardou a acontecer. Aliás eu já fora alertado para essa possibilidade
pelo meu amigo e sócio, o major Roberto Carneiro de Mendonça. Disse-me ele,
certa feita, numa confidência:
- Caro Drault, está vindo por aí um
hábil mensageiro das empresas petrolíferas internacionais encarregado de
conseguir modificações importantes na Constituição que vem sendo redigida pelo
Congresso. O objetivo é facilitar a ação dos estrangeiros na exploração do nosso
petróleo.
De fato, pouco tempo depois,
aportou às nossas plagas um personagem que até poderia figurar numa dessas
novelas de espionagem de Frederick Forsyth ou John Lê Carré. Era o “cabecel” das
“sete irmãs”, Paul H. Schoppel, um americano insinuante, extremamente
bem-educado, um daqueles profissionais da simpatia, treinado para fazer amigos e
influenciar pessoas...
Schoppel chegava onde queria, era
apresentado a qualquer pessoa que interessasse aos seus propósitos. Em pouco
tempo, insinuou-se na minha intimidade, graças a um alto nome do mundo político
carioca, seu introdutor e comparsa. (Prefiro omitir-lhe o nome por respeito aos
descendentes, que nada têm a ver com o caso). Ao fim de algum tempo de
convivência, admito que o classifiquei no rol das pessoas agradáveis e
instigantes. Schoppel me conquistou com sua simpatia, e tal confiança adquiriu
que, um dia, tentou me subornar. Ofereceu-me 400 mil contos (verdadeira fortuna,
na época) para que eu largasse a campanha do monopólio estatal.
Preciso explicar que não reagi
violentamente a essa tentativa de suborno porque já estava prevenido pelos
amigos generais Juarez Távora, Góes Monteiro, Juracy Magalhães e Canrobert
Pereira da Costa. Eles me haviam aconselhado a tratar Mr. Schoppel com panos
quentes, a ir ouvindo suas conversas e insinuações, fingir inocência, até poder
desvendar seu plano de “cabecel” das “sete irmãs”...
Schoppel tinha uma boa cobertura
aqui no Brasil. Era, aparentemente, um industrial, representava no Rio uma
fábrica de tintas, a Aquela, que, passada nas paredes, evitava o mofo. Ninguém
poderia acusá-lo diretamente de agente do truste... Chegou a ficar íntimo do
ministro João Neves da Fontoura e até, numa ocasião em que tivemos dificuldades
no abastecimento de trigo, arranjou dois navios no Canadá e nos tirou do aperto.
Em retribuição, foi agraciado pelo Itamaraty com uma comenda. Só muito mais
tarde o ministro João Neves da Fontoura veio a saber que esse Schoppel era
perigoso...
Um dia, me convidou para jantarmos
no Bife de Ouro, o famoso restaurante do Copacabana Palace que, naquela época,
reunia o que havia de melhor no Rio. Depois de uma lauta refeição, com ótimos
vinhos, sugeriu que nos deslocássemos até um banco na praia, ali mesmo na
avenida Atlântica, defronte do hotel, onde poderíamos conversar a salvo de
ouvidos indiscretos. Senti que o grande momento chegava. Por fim, Schoppel tinha
alguma coisa importante a me revelar, e eu me via disposto a facilitar-lhe a
conversa, instruído que estava pelos meus amigos militares.
- O que deseja de mim, afinal? –
perguntei-lhe, num arroubo de franqueza.
Ele aí contou tudo. Disse que
precisava de minha ajuda para influenciar certos constituintes no sentido de
modificar a redação de um artigo da nossa Carta Magna relativo ao aproveitamento
dos nossos recursos minerais. Schoppel queria a transigência num pequeno
detalhe: acrescentar ao artigo a permissão para que, além das empresas
brasileiras, pudessem também receber concessões para explorar o petróleo “as
sociedades organizadas no país”. Uma coisinha à-toa, quase imperceptível aos
espíritos desarmados, mas suficiente para os propósitos do truste internacional.
Àquela altura, as companhias estrangeiras de petróleo que operavam no Brasil já
se haviam “transformado” em empresas organizadas no país, com testas-de-ferro
nacionais e, portanto, perfeitamente enquadráveis no preceito constitucional
acrescido daquela frase maliciosa no seu parágrafo 1º. Era somente isso
que o Schoppel queria.
Fingi aceitar a ideia. Meus amigos
Góes Monteiro, Juracy, Canrobert, Ibá Meirelles e Juarez me haviam ensinado um
bom método de ganhar a confiança de Schoppel. Mostrar-me ingênuo até certo
ponto, transigir sem exagerar, pois o bicho era esperto. Assim, concordei:
- Está bem. Vamos escrever isto!
Schoppel redigiu a modificação do
artigo 153 da Constituição num papel, com sua letra, que logo guardei. Eu queria
uma prova dessa manobra. Saí do encontro alta madrugada e fui bater na casa de
Juracy Magalhães. De lá organizamos uma reunião com Juarez Távora e Góes
Monteiro. Confabulamos. Mostrei-lhes o papel com a proposta insidiosa de
Schoppel. Eles ficaram contentes com meu trabalho. Por fim, eu arrancara do
americano uma declaração explícita de suas intenções. A Constituinte de 1946
estava caminhando para sua etapa final. Lembro-me de que o general Juarez
Távora, nessa reunião, disse bem alto:
- Vou comunicar tudo isso ao
Manduca. (O Manduca era o irmão dele, Manoel Távora, senador pelo Ceará e
constituinte)...
Afinal, a Constituição de 1946 foi
aprovada e promulgada. Mas, para surpresa nossa, na publicação do Diário
Oficial, o tal artigo 153 saiu com estes dizeres:
Art. 153 – O aproveitamento dos
recursos minerais e de energia hidráulica depende de autorização ou de concessão
federal na forma da lei.
1º - As autorizações ou concessões
serão conferidas exclusivamente a brasileiros ou a sociedades organizadas no
país etc.
Era a versão proposta por Schoppel, irremediavelmente
consolidada em preceito constitucional; enfim, a transigência imperdoável que
feria de morte todo o princípio do monopólio estatal no Brasil. E o que era
pior, essa frase final, “ou a sociedades organizadas no país”, não tinha
sido discutida nem suscitada na Constituinte. Fora criminosamente embutida no
texto original pelo serviço de datilografia, antes de ser remetido ao Diário
Oficial para publicação.
Jamais se praticara no âmbito do Congresso Nacional
indignidade maior. Um golpe de gângsteres. Um acréscimo realizado no setor de
datilografia da Câmara, ao arrepio da lei...
A publicação do artigo 153 alterado por datilógrafos venais
da Câmara foi um verdadeiro escândalo. Houve, então, uma reunião secreta dos
líderes das bancadas quando o assunto veio à baila...
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