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Aprofundamento da
crise da dívida nos EUA e a recondução de Bernanke (2)
Continuação da
edição anterior
Enquanto a
equipe Bush-Obama espera reinflar a economia, os 13 trilhões de dólares do
resgate, gastos no intento de alimentar a destrutiva bolha, cobram o preço da
teoria econômica do derrame
MICHAEL HUDSON*
O problema é uma combinação da perigosa interpretação
que Bernanke faz da história econômica com a perspectiva de banqueiro que
determina seu ponto de vista: e esse amálgama acaba de ser promovido para o
cargo de planificador central no comitê do Federal Reserve. O apoio de Obama à
nomeação sugere que a retórica que temos visto recentemente na Casa Branca é
falsamente popular. O presidente promete que desta vez será diferente. Os
funcionários anteriormente nomeados por Bush – Geithner, Bernanke e os
executivos emprestados pelo Goldman Sachs ao tesouro – desejavam se manter
firmes com o Goldman Sachs e os outros banqueiros. Desta vez os meninos da era
Clinton-Rubinomics não farão à economia dos Estados Unidos o que fizeram à
economia da União Soviética.
Com uma atitude
assim, não é estranho que os democratas de Obama estejam relegando a carta
populista anti-Wall Street aos republicanos.
O ALBATROZ DE
BERNANKE
Bernanke passa ao
largo do problema de que as dívidas têm que ser honradas, ou ao menos mantidas
em dia. Esse serviço da dívida deprime a economia “real” não financeira. Porém,
a análise do Fed se detém precisamente à beira do crash. É uma teoria segundo a
qual só importa processar “boas notícias” e se limita aos bons tempos da bolha
em expansão, com os compradores de imóveis fazendo mais e mais empréstimos aos
bancos para permanecerem com eles (ou, mais precisamente, com a posse dos
mesmos), que não paravam de aumentar de preço. Essa foi, em suma, a bolha
Greenspan-Bernanke.
Não necessitamos
retroceder à Grande Depressão dos anos trinta. O Japão posterior a 1990 é um bom
exemplo. Depois do estouro de sua bolha, os preços dos terrenos baixaram
ininterruptamente, trimestre a trimestre, durante 15 anos. O Banco do Japão fez
então o que está fazendo agora o Federal Reserve. Rebaixou os juros dos
empréstimos a menos de 1%. Os bancos “conseguiram sair da dívida” emprestando a
especuladores internacionais que se serviam dos empréstimos em ienes para,
depois de convertê-los em moeda estrangeira, comprar em qualquer lugar
ativos que rendessem juros maiores – os bônus islandeses pagavam 15% - e
embolsavam a diferença pela arbitragem.
Essa constante
conversão, por parte do dinheiro especulativo, de ienes para moeda estrangeira,
manteve baixa a taxa de câmbio japonesa, o que ajudou suas exportações.
Analogamente, em nossos dias, a política de juros baixos praticada pelo
Fed leva os bancos norte-americanos a tomar empréstimos aqui para emprestar a
especuladores que compram bônus de alto rendimento e outros títulos
denominados em euros, libras esterlinas e outras moedas.
O problema do câmbio
de divisas estrangeiras se apresenta quando esses empréstimos devem ser
devolvidos. No caso japonês, quando os mercados financeiros globais caíram e
juros japoneses começaram a subir em 2008, os especuladores decidiram reverter
sua atividade. Para devolver os ienes, pegaram empréstimos dos bancos japoneses,
venderam os bônus denominados em euros ou em dólares e compraram moeda japonesa.
Isso obrigou os japoneses a elevar a taxa de câmbio do ien, o que trouxe consigo
a erosão de sua competitividade exportadora e o desmonte de sua economia. O
Partido Liberal-Democrático, permanentemente no poder, perdeu as eleições quando
o desemprego disparou.
No caso dos EUA de
hoje, o regime de juros baixos imposto ao Fed por seu presidente, Bernanke,
levantou uma onda de comércio especulativo com divisas (carry trade) estimadas
em 1,5 trilhões de dólares. Os especuladores tomam emprestado dólares a
juros baixos e compram bônus a juros elevados denominados em moeda estrangeira.
Isso debilita a taxa de câmbio do dólar em relação às moedas estrangeiras (cujos
bancos centrais oferecem juros superiores). O enfraquecimento do dólar leva os
gestores estadunidenses do dinheiro a sacar mais fundos de investimento de nossa
economia buscando lucros em mercados de valores nas divisas estrangeiras.
A perspectiva de um
afundamento desse tipo de crédito ameaça precipitar os EUA em uma armadilha de
juros baixos. O problema é que, enquanto o Fed começava a elevar os juros
(por exemplo, para desacelerar a nova bolha que Bernanke está tratando de
inchar), os especuladores globais devolveriam suas dívidas em dólares. Quando se
colocar um fim ao comércio especulativo estadunidense com divisas, o preço do
dólar disparará. Isso converte em um sonho irrealizável a promessa de Obama de
dobrar as exportações norte-americanas em cinco anos.
Os consumidores
norte-americanos enfrentam a perspectiva de um golpe triplo. A medida que o
dólar cai e as exportações ficam mais caras, têm que pagar preços mais altos
pelos bens que compram. E o governo pretende gastar menos no fluxo circular da
economia, por causa do congelamento por três anos no gasto público a que
procedeu o governo Obama para desacelerar os déficits orçamentários.
Entretanto, os estados federados e as cidades estão elevando os impostos para
equilibrar seus orçamentos, minguados pela queda dos ingressos fiscais. Os
consumidores, e em verdade toda a economia, têm se endividado mais profundamente
simplesmente para manterem-se à beira da rentabilidade (ou ver como despencam os
níveis de vida).
Para Bernanke, a
recuperação econômica exige a ressurreição da bonança do Goldman Sachs,
devidamente protegido pelo Fed. Os bancos servirão mais para manter o
crescimento da pirâmide da dívida, o que possibilitará aos consumidores, às
empresas e aos governos locais escapar ao encolhimento.
Tudo isso
enriquecerá os bancos, sempre e quando as dívidas possam ser devolvidas. E se
não, voltará o governo a resgatá-las? Ou desta vez “será diferente”?
Nossa economia se
manterá precariamente na superfície quando com a confirmação de Bernanke, os
ricos ficarem mais ricos e as famílias norte-americanas se vejam submetidas a
uma crescente pressão financeira, com ingressos decrescentes e dívidas
crescentes? Ou serão mais ricos os norte-americanos graças a uma nova bolha
provocada pela reinflação de ativos por obra do Fed.?
O CAMINHO PARA
A SERVIDÃO POR DÍVIDAS
Há algumas semanas,
o senador John Kerry, de Massachusetts, reconheceu a indignação de muitos
norte-americanos com os resgates dos grandes bancos: “Se compreende que haja um
debate, que se questione, inclusive que haja um sentimento de indignação” com a
confirmação de Bernanke. “Contudo”, afirmou, “além disso, que chegou perto da
calamidade, creio que o presidente Bernanke ofereceu uma solução que era
urgente, ágil, robusta e vital para evitarmos um desastre bem maior”.
Desgraçadamente, o
que o senador Kerry parece entender por “desastre” são perdas para Wall Street.
Compartilha com Bernanke a ideia de que os lucros procedentes do aumento dos
preços dos ativos são bons para a economia (porque permitem, por exemplo, pagar
aposentadorias com os fundos de pensão e construir “riqueza” para os poupadores
norte-americanos).
Enquanto a equipe
Bush-Obama espera reinflar a economia, os 13 trilhões de dólares do resgate,
gastos no intento de alimentar a destrutiva bolha, cobram o preço da teoria
econômica do derrame. Não se manejou a dívida pública ao modo keynesiano, com
gasto público, salvo em um pequeno pacote de “estímulos” para aumentar o emprego
e os salários. E não se tem proporcionado melhores serviços públicos.
Pretendeu-se, simplesmente, inchar os preços dos ativos, ou, para dizer mais
precisamente, prevenir sua queda.
Isso é o que
significa a reconfirmação de Bernanke no cargo: uma política concebida para
aumentar o preço das moradias a crédito, com o consequente incremento na
proporção de recursos do consumidor destinada a pagar aos banqueiros como
serviço da dívida hipotecária.
Um aumento do preço
das ações significa menores dividendos. O mesmo vale para os bônus. Assim,
inundar os mercados de capitais com crédito para empurrar a alta dos preços dos
ativos mantêm baixo o rendimento dos ativos dos fundos de pensão, elevando o
déficit. Isso permite aos executivos empresariais ameaçar, ao estilo da General
Motors, com a bancarrota de seus planos de pensão ou ainda de toda a empresa, se
os sindicatos não renegociam seus contratos de pensões. E isso “libera” ainda
mais dinheiro para que os executivos financeiros paguem aos credores situados na
cúpula da pirâmide econômica.
Como pode superar-se
essa polarização financeira? A solução aparentemente óbvia passa por selecionar
administradores do Fed e do Tesouro que não procedam das fileiras de ideólogos
apoiados – na verdade aplaudidos – por Wall Street. A criação de uma Agência
para Produtos de Consumo Financeiro, por exemplo, carece por completo de
sentido, se for dirigi-la um desregulador como Bernanke. Mas isso é precisamente
o que ele exige, quando declara que seu Federal Reserve deveria ser a única
instância regulatória, menosprezando os esforços de outros, no caso, outra
agência de um estado, alguma agência federal ou algum comitê do Congresso que
queira movimentar-se para proteger o consumidor contra o empréstimo fraudulento,
as penalizações e os encargos e taxas de juros extorsivas.
A tenaz oposição de
Bernanke às propostas de agências regulatórias para proteger dos empréstimos
predatórios os consumidores é, assim, uma segunda razão para não confirmá-lo.
Como pode Obama fazer campanha a seu favor e aprovar ao mesmo tempo a agência de
proteção do consumidor? Sem demitir Bernanke e Geithner, não parece importar
muito o que diz a lei. Os democratas aprenderam das administrações Bush e Reagan
que tudo o que têm que fazer é nomear desreguladores para posições chaves, e o
que diz a lei resulta irrelevante.
INDEPENDÊNCIA
DO FED: EUFEMISMO PARA A OLIGARQUIA FINANCEIRA
Isso nos leva à
terceira premissa levantada pelos defensores de Bernanke: a muito alardeada
independência do Federal Reserve. Supõe-se que ela é uma salvaguarda da
democracia. Porém, o Fed deveria estar submetido a uma democracia
representativa, não ser independente dela! O correto é que fosse parte do
Tesouro, representando o interesse nacional, e não o de Wall Street.
Isso acabou por
converter-se em um problema maior do sistema político bipartidário dos Estados
Unidos. Como a equipe republicana, a administração Obama também põe na frente o
interesse financeiro. Fundamentando-se na premissa de que a riqueza flui das
atividades de crédito, o marco temporal financeiro tende a ser de curto prazo e
economicamente corrosivo. Apóia o crescimento dos gastos da dívida à expensas da
economia “real”, adotando assim uma posição politicamente hostil ao mundo do
trabalhador, do consumidor e do devedor.
E por que cargas d’água
deveria ser independente do processo eleitoral o que constitui o setor mais
importante das economias modernas, o financeiro?
Por cima e por baixo
da questão da independência está o problema de que o próprio governo se colocou
sob o controle do setor financeiro. O secretário do Tesouro, o presidente do Fed
e outros administradores financeiros estão, sobretudo, atentos ao conselho e à
anuência de Wall Street. O poder dos lobbies dificulta a defesa do interesse
público, como temos tido ocasião de ver com Paulson e Geithner. Eu não creio que
Obama ou os democratas (para não falar dos republicanos) estejam prontos para
resolver esse problema.
Junto à questão da
“independência” há uma quarta razão para rechaçar Bernanke pessoalmente: a falta
de transparência do Fed, que impediu a supervisão do Congresso, como se viu
emblematicamente em sua negativa a apresentar aos representantes os nomes dos
destinatários das dezenas de bilhões de dólares gastos pelo Fed em
resgates bancários e compra de títulos podres.
IMPORTA?
Agora que todos os
argumentos contra a reconfirmação de Bernanke foram rechaçados, quais são as
conseqüências no futuro?
Na frente política,
sua persistência no cargo tem sido vista como mais uma prova de que os
democratas se preocupam mais com os banqueiros que com as famílias
norte-americanas e os trabalhadores. Por conseguinte, operará em um sentido que
parecia impossível há apenas um ano: permitirá aos candidatos do GOP (Great Old
Party, como se conhece o Partido Republicano; T.) posar de Roosevelt, sabedores
da indignação da classe média trabalhadora. Não oferece dúvidas: outra década de
abjetos erros econômicos do GOP faria os Democratas a favor dos empresários
aparecer uma vez mais como uma alternativa. E assim sucessivamente..., até que
façamos algo.
O problema não está
somente em que Bernanke tenha deixado de fazer aquilo que a Carta do Fed o
obriga, a saber: promover o emprego em um ambiente de preços estáveis. Os
republicanos – e alguns democratas – recitam a cantinela dos abusos de Bernanke.
O Fed poderia ter elevado os juros para desacelerar a bolha. Não o fez. Poderia
ter freado a fraude hipotecária. Não o fez. Poderia ter protegido os
consumidores limitando os juros dos cartões de crédito. Não o fez.
Para Bernanke, o
atual sistema financeiro (ou mais exatamente, o gasto em dívida) há de
salvar-se, a fim de que prossiga a redistribuição da riqueza no setor mais alto
da sociedade.
O Serviço de
Investigação do Congresso calculou que entre 1979 e 2003 os recursos
provenientes dessa riqueza (rendas, dividendos, juros e lucros de
capital) para os 1% mais ricos da população dispararam de 37,8% para 57,5%.
Essas rendas foram expropriadas a assalariados norte-americanos, endividados e
com salários achatados.
Entretanto, o
governo está permitindo que as grandes empresas privadas levantem postos de
pedágio em todo o país, e ainda por cima, tirando as taxas de seus benefícios
para que possam capitalizá-los em forma de riqueza financeira e limitar-se a
pagar 15% de impostos sobre os lucros de capital.
Impostos que se
pagam, não à medida que crescem esses lucros, mas só quando os realizam. E o
imposto nem sequer será pago, se a arrecadação por vendas desses ativos se
reinveste! Assim, a política financeira e a política fiscal reforçam-se
mutuamente de tal modo, que a economia se polariza entre o setor financeiro e a
economia “real”.
* É ex-economista
de Wall Street especializado em balanço de pagamentos e bens imobiliários no
Chase Manhattan Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Artur Anderson e, depois, no
Hudson Institute. Em 1990 colaborou no estabelecimento do primeiro fundo
soberano de dívida do mundo para Scudder Stevens & Clark. Hudson foi assessor
econômico chefe de Dennis Kucinich na campanha primária presidencial democrata e
assessorou os governos dos EUA, Canadá, México e Letônia, assim como o Instituto
das Nações Unidas para Formação e Pesquisa. Destacado professor e pesquisador na
Universidade de Missouri, na cidade de Kansas, é autor de numerosos livros,
entre eles “Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire”. |