|
O diálogo
sobre o direito dos trabalhadores e a terceirização
DENISE
MOTTA DAU*
O resultado de anos de luta e esforço da CUT e
demais centrais no combate à terceirização e à precarização das relações de
trabalho, foi a constituição em 2008, de um Grupo de Trabalho bipartite
formado pelas centrais sindicais e pelo Ministério do Trabalho e Emprego
para a elaboração de uma proposta de regulamentação das relações de trabalho
na terceirização. Este GT foi retomado por reivindicação da VI Marcha da
Classe Trabalhadora e iniciamos o ano com a celebração do acordo e o
encaminhamento da proposta à Casa Civil.
A constituição deste GT não foi a primeira
tentativa de diálogo e negociação sobre o tema, desde 2003, no início da
gestão do Presidente Lula este tema tem sido debatido de forma tripartite
entre trabalhadores, governo e empresários, no âmbito do Fórum Nacional do
Trabalho, onde foram traçadas as premissas para um projeto de lei
alternativo ao 4302/1998, de autoria de FHC, que prevê a ampliação da
terceirização e precarização dos direitos dos trabalhadores, mas a
experiência não logrou êxito e o referido PL continuou a tramitar.
A CUT, ao longo dos anos 1990 e 2000, por meio
de várias ações, reafirmou a sua posição contrária à terceirização e pela
ampliação de direitos, e em 2007, junto com suas Confederações e o Deputado
Vicentinho, elaborou o PL 1621/2007, com o objetivo de garantir a igualdade
de direitos entre trabalhadores contratados diretamente pela empresa e
terceirizados.
Agora, com a conclusão da negociação do GT e a
construção de uma proposta alternativa, fruto da negociação bipartite entre
governo e centrais sindicais, que se encontra na Casa Civil, a CUT dá início
às pressões junto ao Governo e Congresso Nacional, pela sua aprovação, que
representa grande avanço na regulamentação da terceirização no Brasil. O PL
tem como princípio básico a responsabilidade solidária da empresa tomadora
de serviços, a igualdade de direitos entre trabalhadores terceiros,
inclusive os previstos em contrato coletivo, a obrigatoriedade de informação
prévia aos sindicatos, a proibição na atividade-fim e a penalização das
empresas infratoras. A construção do PL de terceirização de modo bipartite,
sem dúvida representa um importante passo no processo de diálogo de questões
de interesse da sociedade.
A experiência do diálogo e da negociação no
Brasil, embora recente e necessitando de aperfeiçoamento, pode se constituir
como um importante mecanismo de democratização das relações de trabalho.
Exemplo disso é o Conselho Nacional de Relações do Trabalho que, se
implementado como órgão tripartite no âmbito do MTE, formado por câmaras
bipartites: trabalhadores e governo e empresários e governo, pode suprimir
uma das fragilidades do MTE - a transparência e controle social na definição
das políticas e projetos que tratam dos direitos da sociedade.
Além do marco legal, é de fundamental
importância a organização dos sindicatos para pautar este tema na negociação
coletiva, buscando representar os trabalhadores terceirizados, os quais
ainda não têm organização sindical, além de garantir instrumentos de combate
a terceirização indiscriminada.
Outra questão determinante para os processos de
negociação é a redução da jornada de trabalho sem redução de salários, uma
das grandes bandeiras de luta da CUT para o ano 2010.
A negociação coletiva constitui-se em
instrumento estratégico para o fortalecimento da ação sindical e para a
ampliação de direitos, a convenção 154 da OIT, ratificada pelo Brasil em
1993, traz a importância do diálogo para a democratização das relações de
trabalho, é uma prática que ainda precisa ser explorada e aprimorada pelas
entidades sindicais do país, mas que já demonstra importantes avanços em
algumas categorias, a partir da organização sindical nos locais de trabalho
que sustentam o processo negocial do nível local ao nacional.
A CUT tem grandes desafios para o ano de 2010. A
redução da jornada de trabalho sem redução de salários; a ratificação das
convenções da OIT - 158 que inibe a demissão imotivada, 151 que garante a
negociação coletiva para os servidores públicos, 156 sobre a igualdade de
oportunidades e de tratamento para homens e mulheres trabalhadores com
responsabilidade familiar o fim do imposto sindical e a implantação da
contribuição negocial são alguns dos temas prioritários. Projetos que
representam avanços para o conjunto da classe trabalhadora e que dependem da
força de mobilização, além da CUT, de todas as entidades que defendem e
constroem em sua prática a liberdade e autonomia sindical, para serem
aprovados.
*Secretária
nacional de Relações de Trabalho da CUT |