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O canto das
sereias fracassadas 2: o IDE afunda o comércio exterior
Continuação da edição anterior
Não é somente
pela remessa de lucros que a entrada em massa de “investimento direto
estrangeiro” (IDE) espolia o país e estrangula suas contas externas. É também
pelo aumento das importações em relação às exportações
CARLOS LOPES
No final de janeiro,
um levantamento da LCA Consultores revelou que “o volume de importações entre
junho e dezembro de 2009 cresceu 10,5%”, portanto, acima do aumento da produção
industrial interna no mesmo período. Um economista da LCA declarou: “A indústria
nacional vai perder um pouco mais de espaço para os produtos importados
no mercado interno em 2010”. Parecia ecoar o sr. Mendonça de Barros, que saiu da
tumba para comemorar uma pesquisa americana, segundo a qual, entre os BRICs, o
Brasil era o país com maior estoque de “investimento direto estrangeiro” (IDE)
em relação ao PIB. “Não dá para querer ter tudo”, disse Mendonça, “nós vamos
perder um pedaço da indústria. É preciso adensar as cadeias onde a gente tem
vantagem comparativamente aos outros competidores”. Como se sabe, entre as
vantagens comparativas do nosso país está a imensa produção de capim.
O levantamento da
LCA - não fosse ela a Luciano Coutinho e Associados – era coisa mais séria.
Mostrava que em alguns setores a situação é crítica, pois está aumentando, no
mercado interno, a parcela importada, que já era grande, em material eletrônico,
aparelhos e equipamentos óticos, de comunicações, de informática, de
instrumentação médico-hospitalar e máquinas para escritório. Uma consulta aos
dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) esclarece quem são, em todos
esses casos e mais alguns, os principais, às vezes únicos, importadores desses
produtos, classificados como de “alta ou média-alta tecnologia”: as próprias
filiais de multinacionais instaladas no país.
Somente os setores
que listamos na tabela 3, todos com predomínio das multinacionais,
provocaram, de 2003 a 2008, um déficit comercial de US$ 124,3 bilhões –
exportaram US$ 204,2 bilhões, mas importaram US$ 328,5 bilhões. Lembremos que
todo o saldo comercial brasileiro no mesmo período foi US$ 214,5 bilhões – e à
custa de grandes esforços, tanto do povo como do governo. Em resumo, para obter
esse saldo tivemos que cobrir o déficit das multinacionais – com exceção da
indústria automobilística, não houve contribuição desses setores ao saldo
comercial, pelo contrário. Mesmo a indústria automobilística, importou 55,8% do
que exportou.
Não é somente pela
remessa de lucros, portanto, que a entrada em massa de “investimento direto
estrangeiro” (IDE) espolia o país e estrangula suas contas externas. É também
pelo aumento das importações em relação às exportações.
A ESCALADA
O problema tornou-se
crítico desde que o governo Fernando Henrique, através de um verdadeiro dumping
cambial para favorecer as mercadorias externas, aumentou, em um único ano
(1995), as importações em 50,5% (cf. Secex/MDIC, “Evolução
do Comércio Exterior Brasileiro - 1950 a 2008”, mar./2009; e BCB, “Balanço
de Pagamentos 1947-2009”,
jan./2010).
No entanto, em 2009
as importações caíram US$ 45,5 bilhões - e mesmo assim ocuparam mais
espaço dentro do país do que no ano anterior - com a previsão, bastante
realística, de que continuem a aumentar esse espaço em 2010, no momento em que
nossas contas externas já acumulam um déficit de US$ 52,5 bilhões nas transações
correntes dos últimos dois anos.
Às vezes, lendo as
notícias sobre o assunto, tem-se a impressão de que essas importações caem do
céu como a chuva. Como se elas não tivessem direta relação com a entrada de IDE
– e, portanto, com o aumento do seu estoque, de US$ 47,9 bilhões em 1995 para
US$ 122,2 bilhões em 2000, e, depois, para US$ 220,6 bilhões em 2006, US$ 309,7
bilhões em 2007, com uma queda, graças à crise, para US$ 287,7 bilhões em 2008
(ainda não há dados para 2009).
Investimento Direto
Estrangeiro é compra de empresas brasileiras, desnacionalização da economia. Ao
mesmo tempo que o IDE caía sobre o país como uma tromba d’água, as importações
passavam de US$ 49,8 bilhões em 1995 para US$ 62,8 bilhões em 2004 e US$ 173,2
bilhões em 2008. Aumento do peso do IDE (isto é, das multinacionais) na economia
quer dizer não apenas maiores remessas para o exterior, como, também, maiores
importações.
QUI PRODEST?
A principal
explicação fornecida para esse frenesi de importações é o câmbio, o real
hipervalorizado em relação ao dólar. Até onde temos conhecimento
(evidentemente), apenas o professor Fernando Sarti, da Unicamp, referiu-se ao
problema das multinacionais. No entanto, elas são, realmente, um problema.
O câmbio será o tema
do terceiro (e, esperamos, o último) artigo desta série. Por agora, cabe
perguntar a quem aproveita o crime. Que o real hipervalorizado barateia as
importações e encarece as exportações, até o sr. Meirelles concorda – e acha
isso ótimo, pois essa hipervalorização, como veremos na próxima edição, faz
tanto parte de sua política de “metas da inflação” quanto os juros altos.
A questão, portanto,
é a quem beneficia, a que interesses serve, a hipervalorização do real - além
dos réus mais evidentes: bancos, sobretudo estrangeiros, e alguns pistoleiros da
especulação.
A hipervalorização
do real beneficia a quem quer importar (ou exportar para cá, o que, na maioria
dos casos, mas nem sempre, são os mesmos). Isto é, beneficia, sobretudo,
principalmente, e antes de qualquer coisa, às multinacionais. Esta é a razão
pela qual substituir as importações pela suposta produção interna das filiais de
multinacionais é algo que beira o bestialógico, pois uma das razões – cada vez
mais importantes, devido à crise – das multinacionais para instalarem filiais em
outros países, é, exatamente, a de fazê-las importar mercadorias da matriz e até
de outras filiais.
A própria Receita
Federal revela, por exemplo: “examinando-se o comércio intrafirma de quatro dos
sete maiores setores importadores, verificou-se que a filial brasileira de
empresa multinacional que foi a maior importadora do setor [de] fabricação de
produtos químicos - efetuou 63,53% de suas compras externas da matriz (….). A
maior importadora do setor [de] fabricação e montagem de veículos realizou
98,12% das importações da sua matriz”. A Receita constatou, em 2001, que
dos US$ 564,2 milhões em importações da maior montadora automobilística, nada
menos do que US$ 553,5 milhões foram importações da matriz e US$ 5 milhões foram
importações de outra filial.
Trata-se de algo
absolutamente conhecido. Até um anão de jardim do IDE e do importacionismo, o
sr. Gustavo Franco, diz, maravilhado, que entre 1995 e 2000 as importações
intrafirma cresceram 114%, passando de “44% para 57,8% das importações
das empresas [registradas pelo Censo de Capitais Estrangeiros]” (ver o “paper”
de Franco para a revista Política Internacional, “Investimento direto
estrangeiro (IDE) no Brasil 1995-2004: ‘passivo externo’ ou ‘ativo estratégico’?”,
abr./2005).
Sucintamente: não
existe substituição de importações baseada nas filiais de empresas estrangeiras.
Não é solução alguma elas passarem a fabricar aqui o que antes exportavam para
cá, pois as importações sempre aumentarão, mesmo que elas montem o produto (é o
máximo que fazem) aqui dentro. As filiais de multinacionais são sempre
dependentes de importação – às vezes dependentes da importação do próprio
produto final, que, aqui, no máximo recebe um verniz.
ESTUDOS
Vejamos a tabela
1 desta página. Os dados foram extraídos (ou concluídos a partir) de “Desempenho
Comercial das Empresas Estrangeiras no Brasil na Década de 90”,
de Fernanda De Negri, um estudo de 53.860 empresas (isto é, praticamente todas
as empresas industriais - 51.622 nacionais e 2.238 estrangeiras - existentes
entre 1996 e 2000), levando-se em conta as mudanças de propriedade, assim como o
desaparecimento ou permanência dos empreendimentos a cada ano.
Pelos números, vemos
que as empresas estrangeiras, de 1997 a 2000, exportaram US$ 92 bilhões,
portanto, quase US$ 18 bilhões a mais do que as empresas nacionais, que
exportaram US$ 74,3 bilhões.


No entanto, as
multinacionais importaram US$ 88,4 bilhões no mesmo período, enquanto as
nacionais importaram US$ 67 bilhões, portanto as empresas estrangeiras
importaram US$ 21,4 bilhões a mais do que as nacionais.
O resultado é que
o saldo comercial proporcionado pelas empresas nacionais foi US$ 3,7 bilhões a
mais do que as estrangeiras: o saldo das nacionais foi US$ 7,2 bilhões e o
das estrangeiras apenas US$ 3,5 bilhões, ou seja, menos da metade. No período, a
diferença das importações das multinacionais vis-à-vis as empresas nacionais foi
mais alta do que a diferença entre elas nas exportações.
As conclusões do
estudo, rigorosamente econométrico, são claras:
“... a origem
do capital é um fator significativo para explicar as diferenças entre as firmas,
pelo lado tanto das importações quanto das exportações, mas essa diferença é
sensivelmente maior nas importações. Enquanto as empresas estrangeiras
exportam, em média, 70% a mais do que as empresas nacionais, elas importam cerca
de 290% a mais” (Fernanda De Negri, “Desempenho Comercial das
Empresas Estrangeiras no Brasil na Década de 90”, pág. 60, grifo nosso).
Como lembra a
autora, essa conclusão não é uma novidade. Aliás, era corriqueira nas décadas de
50 e 60. Mais recentemente, o canadense Larry Willmore, ao analisar os
coeficientes de exportação e de importação de 20 mil empresas instaladas no
Brasil, chegou a resultados no mesmo sentido (Willmore, “Transnationals and
foreign trade”, apresentado em Salvador, no XV Encontro Nacional de
Economia, dezembro de 1987).
Na coletânea “A
economia brasileira nos anos 90”, publicada pelo
BNDES em 1999, encontra-se o texto “Estrangeiros em uma economia aberta:
impactos recentes sobre produtividade, concentração e comércio exterior”, do
economista Maurício Mesquita Moreira, um estudo de 26 mil empresas, em que o
autor conclui: “para um dado setor e para um dado tamanho de firma, as
exportações das empresas estrangeiras são, em média, 179% superiores às
nacionais, enquanto no caso das importações essa superioridade chega a 316%”.
A diferença entre os
números de um e outro autor é devida à amostra que analisaram, à fonte dos dados
e ao ano da análise. Mas ambos demonstram o cunho importador das filiais de
multinacionais.
Em 2002, o
economista argentino Daniel Chudnovsky, tomando por base as 500 maiores empresas
instaladas no Brasil, constatou basicamente a mesma coisa (Chudnovsky, Laplane,
Masi y Bittencourt, “Integración regional e inversión extranjera directa: el
caso del Mercosur”, Buenos Aires: BID/Intal, 2002).
A conclusão para o
período que vai até 2000, época de sobrevalorização forçada do câmbio e
importações por atacado, pode ser sintetizada:
“… o impacto
imediato da desnacionalização (....) é o aumento das importações das firmas
recém-desnacionalizadas. Essa, portanto, é a única modificação relevante
no comportamento comercial das firmas (….) as empresas estrangeiras possuem uma
inserção no comércio exterior brasileiro maior do que as empresas nacionais (….)
essa inserção é mais pronunciada nas importações – totais e de produtos
intermediários – do que nas exportações. (....) no conjunto da indústria de
transformação, na maior parte dos setores o diferencial é maior para as
importações”. (Fernanda De Negri, op. cit.).
AS GRANDES
Porém, essas
conclusões são válidas para os anos posteriores? Vejamos a tabela 2,
calculada a partir de “Grandes Empresas Industriais Nacionais e Estrangeiras
no Comércio Exterior Brasileiro 2000/2003”, do Instituto de Estudos para o
Desenvolvimento Industrial (IEDI), novembro de 2004.

Trata-se de um
período em que, ao contrário do anterior, não havia mais, desde janeiro
de 1999, a sobrevalorização cambial forçada. O estudo do IEDI foi realizado
especificamente para avaliar o desempenho das grandes empresas. Neste sentido,
sua amostra de 218 empresas (94 nacionais e 124 estrangeiras) é altamente
significativa: essas empresas eram responsáveis por “40% das vendas totais das
empresas industriais em 2002” e “44% das exportações e 32% das importações
totais brasileiras em 2003”.
Note-se que, além
das empresas nacionais estarem em minoria, é esse segmento delas - as grandes
empresas – que mais importa do exterior. No entanto, apesar dessas desvantagens
da amostra para as empresas nacionais, repete-se exatamente o mesmo que em
relação às 53.860 empresas do período anteriormente analisado.
As 124 empresas
estrangeiras, de 2000 a 2003, exportaram US$ 58 bilhões. As 94 empresas
nacionais quase empataram o jogo: exportaram US$ 52,8 bilhões. Porém, as
empresas estrangeiras importaram US$ 45,7 bilhões, enquanto as nacionais
importaram US$ 17,4 bilhões. Isto é, as empresas estrangeiras importaram US$
28,3 bilhões a mais do que as nacionais.
Não é porque estão
em maior número que as empresas estrangeiras importaram mais. Antes de passar a
essa demonstração, lembremos o dado anterior: apesar das nacionais serem 94 e as
estrangeiras 124, as nacionais exportaram apenas US$ 5,2 bilhões a menos.
Em comércio
exterior, o que interessa, evidentemente, é o saldo, pois ninguém comercia para
desequilibrar contra si próprio a balança comercial e as contas externas: o
saldo comercial das empresas estrangeiras foi de US$ 12,3 bilhões; o saldo
comercial das empresas nacionais foi de US$ 35,4 bilhões - portanto, um saldo
superior em US$ 23,1 bilhões das nacionais em relação às estrangeiras, apesar
de, na amostra, estarem em minoria, e não ser esse porte de empresa o que mais
compra insumos internamente.
Mas, o que decide a
questão são os dados sobre os coeficientes de exportação
(exportação/faturamento) e de importação (importação/faturamento).
Ao final do período
2000-2003, o coeficiente de exportação passara “de 21,2% para 24%, no caso das
grandes empresas nacionais e de 15,4% para 17,4%, no caso das grandes empresas
estrangeiras. (....) Com relação ao coeficiente de importação o estudo apurou
uma redução no período analisado, mas com oscilações: cai de 13,1% em 2000 para
11,2% em 2002, subindo para 11,8% em 2003. Cabe destacar que com os
coeficientes de importação ocorre o oposto do verificado com os coeficientes de
exportação. As empresas estrangeiras apresentam propensões a importar bastante
acima das nacionais: 15,6% contra 6,9% (16,8% contra em 2000)” (IEDI, “Grandes
Empresas Industriais Nacionais e Estrangeiras no Comércio Exterior Brasileiro
2000/2003” - grifo nosso).
DÉFICIT
Para os anos
posteriores, achamos suficiente os dados da tabela 3 - um resumo das
exportações e importações em alguns setores industriais, todos com hegemonia das
filiais de multinacionais.

As conclusões nos
parecem claras – com exceção de um setor (o automobilístico), o “investimento
direto estrangeiro” dentro do país, isto é, as multinacionais, contribuíram para
diminuir o saldo comercial, para estrangular as contas externas através
de seu déficit comercial, como também o fazem através das remessas para suas
matrizes.
No caso do Brasil,
em que a maioria delas está voltada para o mercado interno, e em que, na
prática, não há uma política sobre em que setores e sob que condições elas devem
atuar, as multinacionais são grandes companhias importadoras.
Não é possível ao
país crescer - isto é, crescer de forma “sustentada”, para suprir as carências
de seu povo e de acordo com suas grandes potencialidades - sem uma mudança neste
aspecto. Só é possível um grande salto no desenvolvimento com base no mercado
interno e nas empresas do próprio país. O mercado externo, por mais importante
que seja, é acessório. As filiais de empresas externas são drenadoras – e não
criadoras – de riqueza. Temos recursos suficientes para financiar boa parte das
empresas – é preciso, pois, decidir a quem financiar, isto é, canalizar o
financiamento e as encomendas do Estado para o conjunto das empresas que não
remetem lucros para fora nem são estruturalmente importadoras, isto é, as
empresas nacionais.
Continua na
próxima edição. |