|
“Linha de
Montagem” retoma temporada de cinema brasileiro no Cineclube da UMES
O
Cineclube UMES iniciou um novo ciclo de apresentações, no dia de 31 de
outubro de 2009, desta vez com ênfase nos documentários. São 24 sessões
organizadas em três blocos de oito apresentações, seguidas de debates, aos
sábados no Teatro Denoy de Oliveira, às 10h.
Paralelamente são realizadas oficinas de audiovisual (Linguagem, Realização,
Montagem e Edição de Vídeo), cada uma com a duração de 40 horas. Mais
informações, telefone 3289-7475.
*CAIO
PLESSMANN DE CASTRO
Durante muito tempo o cinema buscou, em sua
equação dramatúrgica, a expressão máxima da realidade.
Seja ficção, seja documentário, é a sensação de
realidade, de agudo realismo, que atrai a atenção humana, quando ocorre de
nosso consciente articular-se com o inconsciente e comparar a cena vista com
a nossa própria vida, nossas próprias referências e imaginário.
Por isso que em cinema, tudo que é improvável,
inverossímil, não tem tanto interesse.
Isso não significa necessariamente que apenas o
razoável seja interessante. Com efeito, é o inusitado, o original, o
acontecimento singular que expressa, por excelência, o evento
cinematográfico.
Mas mesmo o extraordinário deve estar submetido
a um tratamento tal que não perca sua dimensão narrativa, de estória, para
assim carregar um fator cognitivo e comunicar-se do ponto de vista da
linguagem humana.
O êxito que o cineasta Renato Tapajós obteve em
Linha de Montagem, documentário exibido no Cineclube da UMES, no
último sábado, se deve em grande parte à unidade que conseguiu entre o
acontecimento narrado, de característica especial, e a forma narrativa,
cuidadosamente articulada em sua função expressiva.
O filme mostra a fase final das greves do ABC,
realizadas pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, entre os anos de
1979 e 1980, que culminaram na fundação do PT. Trás para a cena a figura
carismática do Lula metalúrgico, à frente da maior mobilização popular
daquele difícil período.
Do ponto de vista formal, o filme atualiza a
aspiração máxima do cinema moderno, se desenvolve na fronteira entre o
documentário e a ficção na medida que faz o espectador acompanhar a
narrativa, passo a passo, a partir dos acontecimentos da época, de grandes
implicações até hoje.
Algumas cenas foram rigorosamente reconstituídas
no filme de Fábio Barreto, Lula, o filho do Brasil, como a assembleia
que marca a retomada do Sindicato dos Metalúrgicos. Isso demonstra que
Linha de Montagem poderia ser um filme de ficção, com algumas cenas
documentais, mas não é. Trata-se de rigoroso registro histórico de
acontecimentos singulares. Daí sua incrível força plástica.
Não à toa, outro importante cineasta brasileiro,
Leon Hirshmann, também estava lá, no mesmo momento, fazendo o seu ABC da
Greve. Alguns dos planos de Linha de Montagem, inclusive
registram a câmara da equipe de Leon, que depois se valeria da experiência
para situar-se esteticamente na adaptação para o cinema da peça Eles Não
Usam Black Tie, também realizada com grande êxito.
Tudo isso é muito significativo: Black Tie
marca, nos anos 50, o ápice do Teatro de Arena, e seu projeto pioneiro de
encenar o homem brasileiro, diante do problema brasileiro.
Como esse aspecto fica implícito, pela
objetividade da câmara, no procedimento de Tapajós para o Linha, o
seu foco enquanto diretor que atua através da montagem do filme, se volta
para outro âmbito de investigação: o trabalho de organização e ação do
comando de greve, e como este esforço cumula nas greves de 78, 79 e 80.
Unicamente nesse ponto poderíamos questionar o
quanto falta, para a formação da apreciação geral, o aprofundamento da
narrativa sobre o surgimento e a evolução das lutas sindicais desde a
primeira CONCLAT, de 1981, apenas citada por Lula em entrevista no filme, ou
mesmo ir além e aferir como Lula, com sua extraordinária inteligência
política se situava frente à pauta das lutas anti-imperialistas travadas no
período anterior - a rigor o que constitui o caldo de cultura que forjou e
fez surgir Black Tie -, pois este amplo e significativo fator
imaginário não era tão distante das estratégias do movimento sindical do
novo período.
De todo modo, foi bastante significativo
apreender do cineasta Renato Tapajós, que foi à sede da UMES de São Paulo
debater com os estudantes, após a projeção do filme, o quanto fora o próprio
Lula, na época da eclosão do movimento, o responsável pela existência do
filme - e ao final perceber como fora ele mesmo o responsável pelo êxito de
todo aquele projeto sindical.
O Cineclube da UMES reabriu assim com chave de
ouro seu ciclo de debates. Constitui-se cada vez mais como espaço
privilegiado para a reflexão sobre a cultura brasileira contemporânea
através também do cinema brasileiro, e obtém, desse modo, a realização do
objetivo final tanto de nossa cinematografia – dado pelo encontro dela com o
público -, quanto da expressão cultural que ela carrega: refletir o próprio
comportamento do homem brasileiro.
No próximo sábado, 27, às 10:00 da manhã, o
Cineclube vai projetar o documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro,
do jovem cineasta e montador Paulo Sacramento, que virá debater o seu
trabalho com os estudantes. Depois virá Maurice Capovilla, dia 06 de março,
O Jogo da Vida baseado em Malagueta, Perus e Bacanaço, do
escritor João Antonio.
*Documentaristas, vice-presidente da ABD-SP (Associação Brasileira de
Documentaristas - SP) e Coordenador do Cineclube da UMES
Programação do 2º Bloco:
20/02/2010
Linha de
Montagem
Documentário:
1982, 90 min
Diretor: Renato
Tapajós
Debatedor:
Renato Tapajós
27/02/2010
O Prisioneiro da
Grade de Ferro
Documentário:
2003, 183 min
Diretor: Paulo
Sacramento
Debatedor: Paulo
Sacramento
06/03/2010
O Jogo da Vida
Ficção: 1977, 90
min
Diretor: Maurice
Capovilla
Debatedor:
Maurice Capovilla
13/03/2010
Na Parede, na
Toalha, no Lençol
Documentário:
1997, 18 min
Diretores: L.
Gama, L. Nunes, U. Dart, V. Jorge
Cine Mambembe
Documentário:
1999, 56 min
Diretores: Lais
Bodansky e Luiz Bolognesi
Debatedor:
Adhemar de Oliveira
20/03/2010
Pixinguinha e a
Velha Guarda do Samba
Documentário:
2007, 10 min
Diretores:
Ricardo Dias e Thomaz Farkas
De Raízes &
Rezas
Documentário:
1972, 37 min
Beste
Documentário:
1969, 20 min
Roda & Outras
Histórias
Documentário:
1965, 10 min
A Cuica, 10 min
Documentário:
1978, 10 min
Diretor: Sérgio
Muniz
Debatedor:
Sérgio Muniz
27/03/2010
Agulha no
Palheiro
Ficção: 1952, 95
min
Diretor: Alex
Viany
Debatedor: José
Renato
10/04/2010
Vianinha
Documentário:
1984, 23 min
Diretor: Gilmar
Candeias e Jorge Achôa
O Desafio
Ficção: 1965, 90
min
Diretor: Paulo
César Saraceni
Debatedor:
Gilmar Candeias
17/04/2010
Esperando Telê
Documentário:
2007, 90 min
Diretor: Rubens
Rewald e Tales Ab´Sáber
Debatedor:
Rubens Rewald |