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BC
“prevê” elevação da taxa de juros para 10,58%
Relatório Trimestral
de Inflação sinaliza aumento “preventivo” dos juros frente à “inflação
futura”
A condução da política monetária pelo Banco Central, Meirelles à
frente, é bastante conhecida: seja qual for o cenário da inflação ou da
atividade econômica, real ou imaginário, principalmente o segundo,
aumenta-se os juros. O Relatório de Inflação, divulgado em dezembro de 2009,
reafirma essa “verdade” do BC, ao sinalizar a elevação “preventiva” dos
juros - em linha com a pressão dos especuladores e de alguns analistas da
mídia – para conter uma suposta alta de preços. Como é sabido, agir
“preventivamente” para o BC significa aumentar a taxa Selic.
Na avaliação de Meirelles e demais diretores do BC, constante no
último Relatório trimestral, o recuo da inflação no mundo está chegando ao
fim. Assim sendo, as possibilidades de uma escalada inflacionária no futuro
são grandes. O BC se apoia na tese de um excedente de dinheiro no mundo e de
uma alta do preço das commodities. “A evolução recente dos preços e as
perspectivas de manutenção do processo de recuperação gradual da atividade
econômica mundial sugerem a proximidade do efetivo esgotamento do período de
redução nas taxas de inflação”, afirma o relatório de inflação do BC. “O
novo cenário poderá se configurar em um período de aceleração dos preços,
impulsionado, mesmo em ambiente de ociosidade dos fatores de produção, pelos
efeitos defasados da liquidez”, diz o relatório.
Há alguns problemas no caminho traçado pelo BC, considerando que
seja real a sua análise. Se há excesso de liquidez no mundo, então, em vez
de aumentar, o caminho seria reduzir a taxa Selic - atualmente em 8,75% ao
ano, o que deixa o país na desconfortável posição de vice-líder mundial da
taxa real de juros, com 4,2% -, uma vez que as altas taxas de juros têm sido
fatores de atração dos capitais vadios e sem lastros emitidos pelo FED,
banco central norte-americano, causando a sobrevalorização do real e,
consequentemente, deteriorando a balança comercial. Some-se a isso falta de
controle da movimentação de capitais, que entram e saem a seu bel prazer.
DEFLAÇÃO
O BC parece desconhecer algumas realidades, constantes inclusive no
Relatório de Inflação, que não avalizam os pretextos para aumentar os juros.
Ao mesmo tempo em que se refere a um processo de retomada da atividade
econômica mundial, o BC passa ao largo do elevado índice de desemprego nos
EUA e em países europeus e “esquece” o fato de que as maiores economias
mundiais vivem em processo de deflação.
Nos
EUA, entre junho e novembro de 2009, foram demitidos 1,182 milhão de
trabalhadores, atingindo uma taxa de desemprego mensal de 10,2% e outubro e
de 10% em novembro. De acordo com o relatório, “no âmbito da Área do Euro, a
França, excluído o setor agrícola, registrou redução de 5,5 mil postos de
trabalho no trimestre encerrado em setembro, ante eliminação de 85,4 mil
postos de trabalho no trimestre finalizado em junho. Considerados os mesmos
períodos, ocorreram reduções respectivas de 30 mil e de 60 mil empregos na
Alemanha, e de 268 mil e de 288 mil postos de trabalho na Espanha”.
Em relação à inflação, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) nos EUA
registrou retração de 0,2% no período de 12 meses encerrado em outubro,
“representando a oitava deflação, em seqüência, nesta base de comparação”.
Na área do Euro, “a variação do índice de preços ao consumidor acumulada em
doze meses atingiu -0,1% em outubro” e “no Japão, a variação do IPC
acumulada em doze meses atingiu -2,5% em outubro, ante -2,2% em julho”.
Internamente, frisa o BC, um “risco” inflacionário “a ser monitorado é de
que a margem remanescente de ociosidade de recursos seja ocupada mais
rapidamente do que o contemplado no cenário principal, o qual está baseado
em uma recuperação gradual da economia. Em outras palavras, o risco é de que
as condições de oferta não consigam responder plenamente no caso de um
crescimento mais acentuado da demanda”. Convém destacar que o Nível de
Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria de transformação em
novembro era de 82,9%, o que demonstra que há condições de ampliar a oferta
ampliando o Nuci, sem falar em expansão da base industrial.
O relatório do BC aponta uma evolução da taxa Selic “para o último trimestre
de 2010, de 9,08% para 10,58% a.a. Para o quarto trimestre de 2011, os
analistas projetam taxa Selic média de 10,81% a.a.”. Como diria o
ex-ministro Delfim Neto, esses números só podem ser conseguidos com
tecnologia altamente avançada. Em vez de 10,81%, por que não 10,82%, ou
10,83% ou mesmo 10,80%? Ou seja, para aumentar os juros, chutam-se os
índices, que vão sendo ajustados de tempo em tempo.
VALDO ALBUQUERQUE
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